OS PENSADORES

XI

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MICHEL DE MONTAIGNE

ENSAIO

Tradução de SERGIO MILLIET

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EDITOR: VICTOR CIVITA

Título original: Essais

1.º edição Novembro 1972

e - Copyright desta edição, 1972, Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. Tradução publicada sob licença da Editora Globo S.A., Porto Alegre.

| SUMÁRIO

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l

| Livro Primeiro DO FUROR AO LENEOR QuaM ice UR RR SU DR EAR E A e ER 1H Cap. I Por diversos meios chega-se ao mesmo fim ...ccccccccc. 13 CAP JE Da misteza ils sus Dea DR ARS DAE E o o AU SUA 15 CAR TU DocnossosOdios E aleicoes attas Lou aura ia dd e a SE ds 16 Cap. IV De como a alma que carece de objetivo para as suas paixões

ASsmanie sta ainda quigi dO aC a lar minto fer papa Re 5 o 20 Cap. V Deve o comandante de uma praça sitiada sair para parlamen-

EGO leais AR A porto REA DR es REA DO RN PP PD 2] CAP NI Ahora das neaocI ações E PerigÓsa sa ta aplbngro aco rfp o 23 Caro VI As ações julcam-se pelas INLCNÇÕES: «bras eai Eai o 24 CAR =D po cosidaido e mah q RD A Aa RS 25 CAP. IX DOS MEntiosOS qua Ela ara as ps aa aa RR AR auge 25 Cap. X Dos que improvisam e dos que se preparam para falar ...... 28 Cap. XI Dos prognósticos ....... ERR TR RED pr Ra ER aa 29 ESAmE NI = AD asperse Verano esmas SA Do O A o Trail gate UA a A EO da 31 CAP NI Cermonial das entrevistas reais: «ups ns Ra o sec ae 32 Cap. XIV O bem e o mal o são, as mais das vezes, pela idéia que

EQICS LEMOS esa ras vaga qa ea TR ME STR Ta nc NO o de LU PO ur 33 Cap. XV Merecedor de punição é quem defende-uma praça forte além

dO SraLOaNEL Tres e ne q id PARA ONDA CER a SR ae 2 CAR Vie ACO MaRGAstO ra qua ii ao SS ARDE NO Rr CEA a q aa 43 Cap. XVII Maneira de agir de alguns embaixadores ...ccccccc. 44 CRP CV be Amed O ds ares ele aço pa Rad PE rare RE RO 45 Cap. XIX Scmente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou

infelizes era vida ce a Ss a De PESE ur SÃO no ear 47 CAP. XX De como filosofar é aprender amorrer ........ccccc.. 48 EAD RM = A forçada iimASiNação, Gas A tie ia EA Ne Dl E Cap. XXII De como o que beneficia um prejudica outro .......... 60 CAP. XXIII Dos costumes e da inconveniência de mudar sem maiores

CdAdOS ASCISCMLNALOR E pus ee Sis A to poda RE RR 61 Cap. XXIV Uma mesma linha de conduta pode levar a resultados

EL GC RIOS qe pao Ro SAS RO ul A E PRQ RC O ara Rs RR pe 69

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- XXV Pedantismo ........... RAE RO COD pe eg DER POR A SD v = Da educaçao das crianças pr aa des Hei a A ue AS - XXVII Da loucura de opinar acerca do verdadeiro e do falso uni-

camente-de acordo COM ATAZAO Lai RS a Es ERRO AN RA e

My EE A Am ade us o a Ag Rn da ASS ca A Pd . XXIX Capítulo dos sonetos, não incluídos nesta edição ...... o MR A O ERA AO mon ea aro eai pu Co Rd ni a A q A | == O OSC ANA DA LSD Sol to eo caga O a A Ta IS DR - XXXIH De como é preciso prudência no julgar os desígnios da

PrONIJOCHC doa em e SR SR a a Sd O 2 DO SRD o SR PA

. XXXII Devemos fugir da volúpia ainda que nos custe a vida

. XXXIV Não raro a sortena razão se apóia .....cccccccc. - XXXV Uma lacuna de nossa administração ....cccccccc. E RR =D On ADILO- dese VESTIR nu anne pra ADA DU RD Rn E EC NTSC ALdOrO ONCE. dera Neo Se GE RP Do a e ep DR . XXXVI —- Como uma mesma coisa nos faz rire chorar ....... E SO Apa SI er sejbia Lito pda a a ao AIRE DR TU PRN DS RO RA “er =Consideraçoes acerca de CACO. ras SR RES Sra . XLI— O homem não cede a outrem a glória que conquistou ..... - XLII Da desigualdade entre os homens ...cccccccclccc a ep Das leis SumAÇIAS! 1 me e bu abs a dada pe dl ga Rc et da Re ND SOTO (A ty a aeb aço RD ED AD DR E AD ey A pataliacde ren Se A uia SS RR da do DA o = O SADIO DO Sosa o o nrapad di Onda it DR AE a TR RR DR MEME Dasncerteza dos nossos quiZzos asse pra EN TI Dos cavalos de Snes ars ss aa ET carga Cala Nes RE Dos Costumes antigos pas a e E a E Sobre Demoento EIGracIO qu amo sie RES La e tac GU, Sa bl Vascao as pal Avi as ma E RSS A ia Sera Per Ra LT Parcimonia dos antipos” Mesas also RA TA eae dg A cai Den a sentença de Cesar o pnsh a ps re di a ANA yo Das vas sutilezas patio gas na Do car BS df Pav e ADOS OU ONCS o Run or dane do CU O pra Jide pie E e ASR RARO 7 SS MEVE Das orações sinta urso nai E ao DA ce A ND ag ev RACE E a a a 2 2 RD Ci DAR A a DA RI AR E

Livro Segundo

» | == Da incoerência das Nossas AÇÕES «usuais ais Danda ad SAAB) areia Draco a E aro relata oi uraRa Dio dns ET LOM RR PSD PRE - HI A propósito de um costume da Ilha de Ceos .....ccccc.. Car. CAP. A a Dio co ceiro foiTo pe NDA a O RU NR TOR ES PRO RN RR CAP. CapP. CAP. - X Dos livros

IV Fiquem pata amanha Os NegÓCios Luc .guda pis saia aaa VD ACO NSCICINCIA! mis dci DES co anda ug Da Be Po UV VE = Das recompensas Nononticas «casi subs a cana e ee VIII Da afeição dos pais pelos filhos IX As armas dos partos

CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP. CAP... CAP. CAP. CAP. Car.

CAP. CAP. CAP.

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Xp Da crueldade: «ud ear fa AE E qe qa DP o e ça 'XI Apologia de Raymond Sebond ......ccccccccccc MIT De comoquigara mortes drum pe ade dg pe SO a a XIV Como o nosso espírito cria suas próprias dificuldades .... XV Nosso desejo cresce com a dificuldade ....cccccicc

DRA A O pe io (6 jo Ee RR RR GAR RO ROS DR RR e XVII Da presunção ........... PA ag RD a e E sy = OCS MEN LIdO-A Ss capas rede cr iniro pas is arte ras 2 pn “XIX Da liberdade de consciência ...... RR Ro NR NE iXX Nada apreciamos inteiramente puro .....ccciccccccc. RO = [Dan O CNC] As À Secad ae o ut OR de qa be a RD Cia RR e SOS CONCIOS q asAns uind NR ATARI URI dd ie epi df RS

RATES Dosmelose dos ans Paint o ND iai à e da DOM Iy == [a srandeza FOMAIa ess si ur sanE Ih ger Up MEN Sea

'XRV Da inconveniência de fingir de doente .......cccc.... e vd A DOSPOlCE Ares Dura dead nos doi parado So A TUR Mo o P ÃO ea RU dp

XXVII A covardia é mãe da crueldade ......ccccccc. XXVIII Cada coisa a seutempo ....cccccccccccccc DCD US RO Aa ape RD REAR E ER US a XXX A propósito de uma criança monstruosa ....cccccc. E = A CONCI AS aee en O RR pra ea PE e SR EX ROC == Defesa de-Seneca e Piutalco ce se se a

Peel Elistor jarderE spunina 20 nas DDS ma a mn

XKXIV Observações acerca dos meios que Júlio César punha em SDRAtiGaa DUCIIAM «uq fobia AME RUE AR GS aro da DR Os SR PER TRA é A a e res od SINE TES Sa aa oca ei anda sd PR do RAM VI Dos homens Preemineêntes: sia as REA DO DEEM ADA XXXVII Da semelhança dos filhos com os pais .......cc..

Livro Terceiro

[Dont cido Nones tora ces o pe e E E RS RIR A AS DE Don ependimento Cos Soa PER O die Sn ue RU ar UI Da companhia dos homens, das mulheres e dos livros ..... IV Dadiversão ....cccccc. DE o JR DP DA RR

ENA TODOS MO e MIL BU Dist dra o e RO Sa E ES a EV DON COChes? Bros nao Ea diabo A AD De dc do ER

VI Dos nconvenentes das prandezasS uu ipanema a é VD ararte de CONVERSA Cai qa e O a [X== Davaldade: actas RA q NR RS RR ROB ADR O UU q X Do domínio da própria vontade ........... DEAR e DESA DOS ONO: 4 (Sus UR a En id RS po PS e DR DR fg DT XII Da fisionomia ..cccccc. Ao Fte qu dan RS RD san

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Nota do tradutor

Tendo sido feita a tradução em linguagem atualizada dos Ensaios, de confor- midade com o texto da edição da Pléiade, confrontado com o texto anotado pelo General Michaut, e, somente bem mais tarde, a dos estudos de Pierre Moreau, Pierre Villey e Maurice Weiler, nem sempre coincide literalmente com as cita-

ções desses autores a versão portuguesa. São elas, entretanto, inteiramente fiéis

ao espírito senão à letra do texto original. O leitor não terá dificuldade em identi- ficá-las, quando necessário. S.M.

LIVRO |

DO AUTOR AO LEITOR

Eis aqui, leitor, um livro de boa-fé.

Adverte-o ele de início que o escrevi para mim mesmo, e alguns íntimos, sem me preocupar com o interesse que poderia ter para ti, nem pensar na posteri- dade. Tão ambiciosos objetivos estão acima de minhas forças. Votei-o em parti- cular a meus parentes e amigos e isso a fim de que, quando eu não for mais deste mundo (o que em breve acontecerá), possam nele encontrar alguns traços de meu caráter e de minhas idéias e assim conservem mais inteiro e vivo o conhecimento que de mim tiveram. Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfei- tado e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor efeito. Prefiro, porém, que me vejam na minha simplicidade natural, sem artifício de nenhuma espécie, porquanto é a mim mesmo que pinto. Vivos se exibirão meus defeitos e todos me verão na minha ingenuidade fisica e moral, pelo menos enquanto o permiir a conveniência. Se tivesse nascido entre essa gente de quem se diz viver ainda na doce liberdade das primitivas leis da natureza, asseguro-te que de bom grado me pintaria por inteiro e nu.

Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria deste livro, o que será talvez razão sufi- ciente para que não empregues teus lazeres em assunto tão fútil e de tão mínima importância.

E agora, que Deus o proteja*. De Montaigne, em primeiro de março de 1580.

*“ A frase pode prestar-se a confusão. No texto original diz-se: A Dieu donc o que o General Michaut interpreta: Sur ce, à la grãáce de Dieu. Trata-se do destino do livro e pareceu-me melhor esclarecê-lo. (N. do T)

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CAPÍTULO 1

Por diversos meios chega-se ao mesmo fim

A maneira mais comum de amolecer o cora- ção dos que nos ofendem, quando, vingança em mãos, eles nos têm à sua mercê, é comovê- los pela nossa submissão; inspirando-lhes comiseração e piedade. Entretanto a bravura, a tenacidade e a resolução, meios inteiramente opostos, alcançam às vezes idêntico resultado.

Eduardo, Principe de Gales, que durante tanto tempo governou a nossa Guyenne! e per- sonagem cujos atos e carreira revelam muita magnitude, tendo-se apoderado pela força de Limoges, ordenara o massacre dos habitantes que o haviam gravemente ofendido. Cami- nhava ele pela cidade sem que os gritos dos homens, mulheres e crianças assim condena- dos à morte lhe.amolecessem a alma, quando

deparou com três fidalgos franceses que, sozi-

.nhos, e com incrível ousadia, enfrentavam o

exército vitorioso. Essa coragem inspirou-lhe tal consideração e respeito, que subitamente se lhe acalmou a cólera; e o perdão que de ime- diato concedeu aos temerários, ele o estendeu aos demais habitantes da cidade.

Scanderberg, Principe do Epiro, perseguia um de seus soldados com a intenção de matá- lo. Este, depois de ter tentado em vão acalmá- lo com protestos de toda espécie e. as mais humildes súplicas, resolveu, em desespero de causa, esperá-lo de espada na mão. O gesto resoluto freou instantaneamente a exasperação do senhor, o qual, ao ver tão honrosa atitude, outorgou mercê ao perseguido. O exemplo é suscetível de ser interpretado de outra maneira, mas tão-somente por quem ignore a força pro- digiosa e a valentia desse principe,

O Imperador Conrado Ill, assediando o Duque da Baviera, não consentira em deixar sair da cidade senão as mulheres dos fidalgos que ali se encontravam. Comprometera-se a respeitar-lhes a honra mas à condição de sai-

1 Não confundir com Guiana. Aqui Montaigne se refere à província francesa. (N. do T.)

rem a e levando apenas, com elas, o que pudessem carregar; e recusara-se a atenuar tais condições, por mais humilhantes que fossem as satisfações oferecidas pelo inimigo. Aten- tando unicamente para os ditames do coração, lembraram-se as mulheres de levar às costas os maridos, os filhos e o próprio duque. Impres- sjonou-se o Imperador a tal ponto com essa

prova coragem que chegou a chorar de emoção. O ódio mortal que votara ao duque, cuja desgraça desejava, tornou-se menos vio- lento a partir desse momento ele o tratou, e aos seus, com humanidade.

Ambos os meios dariam resultado comigo, pois tenho grande propensão para a miseri- córdia e a benevolência. Entretanto, acho que cederia mais facilmente ainda pela compaixão do que pela admiração, embora a piedade seja considerada paixão condenável pelos estóicos, os quais admitem que socorramos os aflitos mas não que nos enterneçamos ante o sofri- mento ou dele nos compadeçamos. Os exem- plos que precedem parecem-me sublinhar me- lhor a realidade das coisas. Mostram-nos a alma em luta com estes dois sentimentos contrários: resistir a um sem dobrar e ceder ao outro. Isso se explica se admitimos que entre- gar-se à piedade é mais fácil e característico dos corações bondosos e pouco enérgicos. As pessoas mais fracas, como as mulheres, as

crianças e a gente do povo, a tanto são levadas

habitualmente. Ao passo que não se deixar enternecer pelas lágrimas e súplicas e atentar somente para as provas manifestas de indiscu- tível coragem, é peculiar às almas bem tempe- radas, que apreciam e honram os caracteres enérgicos e tenazes.

Entretanto, espanto e admiração podem produzir semelhantes efeitos nas naturezas menos generosas; haja vista o povo de Tebas que, chamado a julgar no processo intentado contra os capitães de seus exércitos, por se terem mantido nos cargos além do tempo em

14 MONTAIGNE

que deviam ocupá-los, com dificuldade absol- veu Pelópidas, deprimido pela acusação e não sabendo defender-se senão com lamentações e súplicas, enquanto, ao contrário, diante de Epaminondas que, depois de expor em ter- mos exaltados os atos de seu comando, pôs-se, cabeça erguida e verbo sarcástico, a censurar ao povo sua ingratidão a assembléia, toma- da de admiração por homem de tão bela cora- gem, dispersou-se sem ir ao escrutínio.

Dionísio, tirano de Siracusa, tendo-se apo- derado, após longo e difícil assédio, da cidade de Reggio e com ela de Phyton, homem de grande virtude que comandara a obstinada defesa, quis vingar-se de maneira que viesse a constituir um exemplo. Antes de mais nada comunicou-lhe ter mandado afogar o filho e seus demais parentes, ao que Phyton respon- deu apenas que tinham sido mais felizes, por um dia, do que ele próprio. Dionísio entregou- o então aos carrascos que o despojaram de suas roupas e o arrastaram pela cidade, vergastando-o ignominiosamente e o acabru- nhando com as mais brutais e cruéis injúrias. Phyton, conservando presença de espírito e coragem, não afrouxa, continuando a vanglo- riar-se em voz alta de sua honrosa e gloriosa defesa, causa de sua próxima morte e prova de que não quisera entregar sua pátria ao tirano, ao qual ameaça com a punição dos deuses. Lendo nos olhos da maioria dos soldados que estes, em vez de se irritarem com as bravatas, eram levados a desprezar seu próprio chefe e a depreciar a vitória, e, espantados com tama- nha coragem, se iam comovendo e resmun- gavam, falando mesmo de arrancar Phyton das mãos dos carrascos, Denis pôs fim ao mar- trio, mandando jogá-lo às escondidas no mar?.

Em verdade o homem é de natureza muito pouco definida, estranhamente desigual e di- verso. Dificilmente o julgariamos de maneira decidida e uniforme. Eis Pompeu que perdoa toda a cidade dos Marmentinos? contra a qual estava muito irritado, por consideração para com a virtude e a grandeza de alma de Zenão que reivindicava e solicitava ser castigado sozinho. No entanto, em semelhante circuns- tância, em Pérusa, o hospedeiro de Sila nada obteve, nem para si mesmo nem para os

"outros. E contra meus primeiros exemplos vemos Alexandre, o homem mais denodado que jamais houve e tão magnânimo com os vencidos, agir de modo bem diferente em

2 Deodoro de Sicília. História tirada da tradu- ção de Amyot.

3 Habitantes de Brescia (Lombardia).

Gaza, conquistada após numerosas e grandes dificuldades, contra Bétis que comandava a praça e que durante o sítio dera provas de bri- lhante coragem. Encontrando-o só, abando- nado pelos seus, de armas partidás e coberto de sangue a lutar ainda no meio de um punha- do de macedônios que o atacavam de todos os lados, Alexandre, vivamente afetado por uma vitória tão caramente paga (entre outros pre- juízos recebera ele próprio dois ferimentos), disse-lhe: “Não morrerás como o ambicionas, Bétis; fica certo de que antes sofrerás os mais cruéis tormentos que se inventam contra um cativo”. Nada respondendo Bétis à ameaça, antes tomando uma atitude de altivez e desa- fio, Alexandre, diante do silêncio orgulhoso e obstinado, exclamou: “Não dobrou sequer o joelho! Não fez sequer um pedido! Pois eu acabarei com esse mutismo e, se não puder arrancar-lhe uma palavra, conseguirei pelo menos um gemido!” * E, passando da cólera à raiva, mandou furar-lhe os calcanhares e

amarrá-lo ainda em vida a um carro para que, assim arrastado, se fizesse em pedaços. Qual terá sido o móvel dessa crueldade em Alexan-

dre? Uma tal coragem terá parecido natural e pouco digna de apreço em quem também a possuía em alto grau? Ou não podia ele ver em outros sem inveja a sua própria qualidade? Ou não era capaz de dominar-se diante de um obs- táculo à sua cólera? O fato é que, se fosse capaz de domínio sobre si mesmo, tê-lo-ia

exercido por ocasião da tomada e saque de Tebas, onde tantos valentes guerreiros, cuja resistência se desmantelara, foram passados

pelo fio da espada, assim morrendo seis mil, dos quais nenhum se viu fugir ou rogar mercê. Ao contrário, andavam todos pelas ruas a enfrentarem os vencedores, forçando-os a matar em condições honrosas. Não se viu

nenhum, por mais crivado de ferimentos esti- vesse, que não tentasse ainda vingar-se. No seu desespero, tudo lhes servia de arma, consolan-

do-se da própria morte com a morte de alguns de seus inimigos. Essa coragem infeliz |não acordou, entretanto, em Alexandre, nenhuma piedade; eum dia inteiro de carnificina não bastou para estancar-lhe a sede de vingança. O massacre não findou senão quando acabaram as vítimas. E somente as pessoas incapazes de carregar armas, mulheres e crianças, foram poupadas, sendo, em número de trinta mil, reduzidas a escravos *. 3 Quinto Cúrcio, IV, 6. | 8 Deodoro de Sicília. |

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ENSAIOS —I 15

CAPÍTULO II

Da tristeza

Sou dos que menos sentem essa disposição de espirito *; não a aprecio nem a valorizo, em- bora de um modo geral, e preconceituo- samente, os homens a respeitem e estimem. Com ela enfeitam a sabedoria, a virtude, a consciência, mas o -adorno é pobre e feio. Os italianos com muito mais razão deram seu nome à maldade”, pois ela é sempre nociva, sempre insensata, e também covarde e despre- zível: Os estóicos a proíbem aos sábios.

Diz-nos a história” que Psametico, rei do Egito vencido por Cambises, rei da Pérsia, vendo passar a filha, como ele próprio cativa, e que ia buscar água vestida de serva, permane- ceu mudo, olhos voltados para o chão, enquanto choravam todos os seus amigos. Vendo logo depois o filho, que conduziam para a morte, conservou a mesma atitude. No entanto, diante de um criado que levavam à tortura, juntamente com outros prisioneiros, pôs-se a golpear a cabeça demonstrando extre- ma aflição.

Pode-se comparar esse fato ao que ocorreu recentemente com um de nossos príncipes, o qual recebeu em Trento a notícia da morte do irmão mais velho, sustentáculo da honra e da manutenção da família. Logo depois sabia do falecimento do segundo irmão para o qual, desaparecido o primeiro, voltavam todas as esperanças. Ambas as desgraças ele as supor- tou com coragem exemplar. Eis que dias mais tarde vem a morrer um dos seus amigos”, ao

s No texto: “paixão”. O dicionário de Hatzfeld e Darmesteter assinala entretanto o sentido do “sofrimento”, tirando o exemplo do próprio Mon- taigne. Pareceu-nos melhor tradução “disposição de espírito”, adotada por Michaut. (N. do T.)

7 Malignité no original, o que significa na lin- guagem arcaica disposição para fazer o mal. Quanto à palavra italiana a que alude Montaigne, confusão. Trata-se não de “tristezza” mas de “tristizia” para a qual o dicionário de Petrocchi consigna o sentido de “ignomínia”. (N. do T.)

8 Heródoto.

9 No texto “domestiques”, palavra que tinha então o sentido de amigo da casa. (N. do T.)

que não pôde resistir. Sua resolução o aban- dona e ele se desfaz em lágrimas e lamenta- ções, a ponto de observarem que somente ao último acontecimento se mostrara realmente sensível. Na verdade a medida estava cheia e uma coisa de nonada bastara para abater-lhe a energia e provocar um transbordamento de tristeza. Poder-se-ia, creio, assim explicar igualmente a atitude de Psametico, se não acrescentasse a história que Cambises, tendo- lhe perguntado por que motivo ele, que tão pouco se mostrara perturbado com a infelici- dade da filha e do filho, tanto se afetara ante a de um amigo, recebeu esta resposta: “É que esta última tristeza é suscetível de se exprimir por lágrimas; a dor sofrida nos dois primeiros casos estã além de qualquer expressão.”

A propósito, vem-me à memória o caso daquele pintor antigo!º que, no sacrifício de Ifigênia, teve de representar o sofrimento dos diversos personagens segundo o grau de inte- resse que cada um votava à bela e inocente Jovem, e que ao chegar ao pai da virgem havia esgotado todos os recursos de sua arte. Diante da impossibilidade de dar-lhe uma ati- tude em relação com a intensidade da dor, pin- tou-o de rosto coberto, como se nenhuma expressão pudesse ilustrar semelhante desespe- ro. Eis por que os poetas imaginam a miserá- vel Niobé, que depois de perder seus sete filhos viu morrerem as sete filhas, transmudada em rochedo pela sobrecarga de desventura: “petrificada pela dor?'?, a fim de exprimir essa espécie de embrutecimento sombrio, surdo e mudo que se apodera de nós quando as ocorrências nos esmagam ultrapassando o que nos é dado suportar. E, efetivamente, uma dor excessiva, exatamente porque excessiva, deve estupidificar a alma a ponto de paralisar qual- quer gesto, como acontece quando recebemos inesperadamente uma péssima notícia. Somos tomados de espanto, penetrados de pavor ou de aflição e como tolhidos em nossos movi- mentos até que à prostração suceda o relaxa-

10 Cicero. 11 Ovídio.

16.07 | MONTAIGNE

mento. Surdem então as lágrimas e os lamen- tos que aliviam a alma e como que lhe permitem mover-se mais à vontade: “é com dificuldade: que afinal recupera a voz e pode exprimir sua dor” 2.

Durante a guerra do Rei Fernando contra o rei da Hungria perto de Buda!'º um dos guer- reiros mostrou-se particularmente valente nos combates que se verificaram. Ninguém o reco- nhecera e todos o elogiavam e lhe lamentavam a sorte porquanto sucumbira na refrega. E nin-

guém mais do que um Sr. de Raisciac, fidalgo alemão, o engrandecia, entusiasmado com tão rara coragem. Recolhido o corpo, Raisciac aproximou-se como os demais para ver quem “era, e ao lhe tirarem a armadura reconheceu o filho. A emoção dos presentes aumentou mais

ainda; ele permaneceu impassível, sem dizer palavra, sem pestanejar, de pé, contemplando fixamente o corpo até que a violência da dor tendo atingido o próprio princípio da vida o derrubasse para sempre. “Quem pode dizer a que ponto arde, arde bem pouco”! *, dizem os amantes que querem exprimir insuportável pai- xão ou: “Quão miserável sou! O amor pertur- ba-me os sentidos. À tua vista, ó Lésbia, perco a razão. Falar estã acima de minhas forças, minha língua engrola, uma chama sutil percor- re-me as veias, mil ruídos confusos soam-me aos ouvidos e o véu da noite estende-se sobre os meus olhos! º.º

Não é no auge de nossos transportes quando nos ferve o sangue nas veias que somos mais capazes de encontrar o tom que comove e per- suade. Nesses momentos a alma está por de- mais absorvida em seus pensamentos, o corpo

12 Virgílio.

13 Budapeste.

14 Petrarca. 15 Catulo.

demasiado abatido e lânguido de amor; daí, por vezes, a inesperada e fortuita impotência que surpreende o amante tão fora de propó- sito; daí esse gelo que o envolve, em virtude do extremo ardor, na própria fonte de seu gozo. A paixão que se deixa saborear e digerir mal me- rece ser assim nomeada. “Os prazeres leves são loquazes, as grandes paixões silencio- sas! 8

Da mesma forma nos comove a surpresa de um prazer inesperado: “Logo ao ver-me, ao perceber de todos os lados as armas de Tróia, fora de si, como golpeada por pavorosa visão, se imobiliza. Seu sangue gela, desmaia e muito tempo depois pode enfim falar! 7.”

Além daquela romana que morreu de ale- gria ao ver o filho escapar da derrota de Canes; além de Sófocles e Dionísio, o tirano, que também morreram de alegria ao receberem uma boa notícia; e Talma que faleceu na Cór- sega ao saber das honras que o Senado de Roma lhe conferira; vimos neste século o Papa Leão X que, ao ter notícia da tomada de Milão, tão ardentemente desejada, experi- mentou tal carga de alegria que a febre o assal- tou, levando-o à morte. E mais um testemunho comprovador da fraqueza humana tirado dos antigos: Deodoro, o dialético, vendo-se em suas aulas públicas incapaz, de repente, de res- ponder às objeções que. lhe faziam, sentiu tamanha vergonha que morreu na hora. Quan- to a mim, sou pouco predisposto a essas pai- x0es violentas; tenho uma sensibilidade” 8 naturalmente grosseira e a torno mais espessa ainda e empedernida mediante raciocínios diários.

18 Sêneca.

17 Virpílio.

18 “Apprehension” tanto pode ser compreensão

(faculdade de entender), como sensibilidade (faculdade de sentir). (N. do T.) ;

CapíruLo HI -

Dos nossos ódios e afeições |

Os que censuram aos homens sempre se preocuparem com as coisas futuras e nos ensi- nam a gozar os bens presentes, e com eles nos contentarmos, observando que não mandamos no que está por vir, talvez, menos ainda do que

no passado, referem-se ao mais corriqueiro dos erros humanos, se é que se pode chamar erro a essa tendência que, embora a ela sejamos impelidos pela própria natureza no afã da continuidade de sua obra, falseia a nossa

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DS O A ia ie

ENSAIOS— I 17

imaginação, mais exigente de ação que de ciên- cia, ainda que ignoremos aonde nos leva. Nunca estamos em nós; estamos sempre além. O temor, o desejo, a esperança jogam-nos sem- pre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora então não sejamos mais. “Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz ! 9.”

“Faze aquilo para que és feito e conhece-te a ti mesmo”, eis um grande preceito amiúde cita- do em'Platão. E cada um dos membros dessa proposição nos aponta nosso dever, e traz em si o outro. Quem se aplicasse em fazer aquilo para que é feito perceberia que lhe é necessário adquirir antes de mais nada O conhecimento de si próprio e daquilo a que estã apto. E quem se conhece não erra acerca de sua capacidade, porque se aprecia a si mesmo e procura melhorar, recusando as ocu- pações supérfluas, os pensamentos e os proje- tos inúteis. Da mesma forma que a loucura não se satisfaz ainda que cedamos a seus dese- Jos, a sabedoria, sempre satisfeita com o pre-

sente, nunca se descompraz consigo mesma. A'

ponto de Epicuro considerar que nem a previ- dência nem a preocupação com o futuro são peculiares ao sábio.

Entre as leis relativas ao homem depois da morte, das mais justificáveis se me afigura a que submete as ações dos príncipes a um julga- mento póstumo?º. Os príncipes com efeito devem submeter-se às leis, pois não pairam acima delas. E por não poder a justiça nada contra eles, quando vivos, natural me parece que ao desaparecerem deva ela agir sôbre sua reputação e os bens legados, coisas que não raro preferimos à vida. É um uso que não acar- reta senão vantagens às nações que o adotam. E os bons príncipes; que poderiam queixar-se de ver tratada: a memória dos maus como a sua, hão de desejá-lo. Devemos disciplina e obediência aos reis, bons ou maus; isso é indis- pensável para que desempenhem seu papel. Mas nossa estima e nossa afeição, não lhas devemos, a não ser que as mereçam. Admita- mos que as necessidades políticas nos obri- guem a suportâ-los com paciência por mais que sejam indignos, a dissimular-lhes os vícios, a endossar-lhes os atos quaisquer que sejam,

na medida de nossas forças e desde que de tal.

endosso necessite a sua autoridade. Mas, cum- prindo esse dever, não razão para que nos recusemos a julgá-los e não tenhamos a liber- dade de exprimir nossos ressentimentos se for

13 Sêneca. Deodoro de Sicília.

o caso, nem que nos neguemos a honrar essss- ses bons servidores que, embora conhecendo as imperfeições do senhor, o serviram com res- peito e fidelidade, exemplo útil a ser transmi- tido à posteridade. Aqueles que, em virtude de obrigações pessoais, defendem sem razão a memória de um príncipe indigno, fazem ato de Justiça privada em prejuízo da justiça pública. Tito Lívio anda certo ao observar que a lin- guagem dos homens enfeudados à realeza é sempre cheia de vãs ostentações e falsos teste- munhos, encarando cada qual o seu rei independentemente de seus méritos como um soberano cujo valor e cuja grandeza não podem ser ultrapassados. Pode-se reprovar a altivez dos soldados que responderam a Nero, o qual perguntara a um deles por que lhe que- ria mal e ao outro por que o deseiava matar:

“Gostava de ti quando eras digno desse senti- mento”, respondeu o primeiro; “desde, porém, que te tornaste parricida, incendiário, histrião, cocheiro, odeio-te como o mereces.” E o segundo afirmou: “Porque não vejo outro remédio para teus contínuos desmandos?!” Mas quem de reprovar os testemunhos pú- blicos e universais que depois de sua morte foram obtidos contra esse príncipe, seus tirâni-

cos e odiosos entusiasmos, testemunhos que o estigmatizaram para sempre e como ele todos os maus? Lamento que entre os usos e costumes tão sábios da Lacedemônia se tenha intrcduzido uma hipócrita cerimônia, por oca- sião da morte dos reis. Todos os confederados

e os povos vizinhos, juntamente com os hilo- tas, homens e mulheres, feriam a fronte em sinal de luto, proclamando entre gritos e lamentações que o defunto (bom ou mau tives- se sido) fora o melhor dos reis que haviam tido. Davam, assim, à condição os louvores

que ao mérito deveriam caber, e relegavam para o último lugar aquilo que em primeiro deveria estar. Aristóteles, que trata de todos os assuntos, indaga, a propósito das palavras de Sólon: “ninguém se pode dizer feliz antes de morrer”, se quem viveu e morreu segundo seus desejos, mas deixou reputação ou os seus pósteros na miséria, deve qualificar-se como feliz. Enquanto viverrios temos a faculdade de fazer com que nosso pensamento se pouse onde queremos; quando deixamos de existir acabam as possíveis comunicações com o mundo vivo. Eis por que Sólon teria dito me- lhor se houvesse afirmado que o homem não é nunca feliz, porquanto o é quando não mais existe.

21 Tácito.

18 MONTAIGNE

“Encontra-se com dificuldade um sábio.

capaz de fugir da vida e a repelir: ignorante do futuro, o homem imagina que parte de seu ser sobrevive e não pode libertar-se desse corpo que perece e cai? 2.”

Bertrand du Guesclin morreu no sítio do castelo de Randon em Puy, na Auvergne. Tendo os sitiados capitulado depois da morte dele, viram-se obrigados a depor as chaves da cidade sobre o seu cadáver. Barthélemy de Alviane, general do exército veneziano, tendo morrido na batalha perto de Brescia, tornou-se necessário, a fim de transportar o corpo para Veneza, atravessar o território inimigo de Verona. Os chefes venezianos em sua maioria eram de opinião que se pedisse um salvo-con- duto aos veroneses. Théodore Trivulce a isso se opôs, preferindo passar à força, ainda que fosse preciso combater, pois não era decente, disse, que quem em vida jamais temera o ini- migo parecesse amedrontar-se depois de morto??. As leis gregas apresentam-nos algo semelhante: quem solicitava do inimigo um corpo para inumá-lo renunciava à vitória e não mais a podia consagrar com um troféu; e aquele a quem a solicitação era feita conside- rava-se vencedor. Nícias assim perdeu as van- tagens nítidas que conseguira contra os corin- tios e, inversamente, Agesilas desse modo assegurou um êxito mais do que duvidoso sobre os beócios. Tais fatos poderiam parecer estranhos, se desde sempre não juntassem os homens à preocupação do além a crença de que as bênçãos celestes o acompanham ao tú- mulo e se estendem a seus restos. E tantos são os exemplos antigos a esse respeito sem falar nos de hoje que não se faz preciso insistir. Eduardo I, rei da Inglaterra, tendo observado nas suas intermináveis guerras con- tra Roberto, rei da: Escócia, a que ponto sua presença contribuía para o êxito, cabendo-lhe a vitória onde ele se encontrava, no momen- “to de render o último suspiro obrigou o filho, mediante juramento solene, a mandar ferver- lhe o corpo depois de morto para que, separan- do-se as camnes dos ossos, se enterrassem aque- las e se transportassem estes com o exército sempre que marchassem contra os escoceses. Como se o destino houvesse fatalmente subor- dinado a vitória à presença dos ossos. Jean Ghiska? *, que perturbou a Boêmia na defesa dos erros de Wiclef, exigiu que depois o esfo- lassem e com a pele fizessem um tambor que usariam quando pegassem em armas contra os inimigos, imaginando que dessa maneira aju- daria a manter as vantagens obtidas nas guer- ras anteriores. Certas tribos de índios também

22 Lucrécio. 23 Brantôme. Em outras edições, Ziska ou Vischa.

levavam para o combate contra os espanhóis os ossos de um de seus chefes por causa dos êxitos que tivera em vida. Outras tribos desse mesmo continente carregam com elas, na guer- ra, OS corpos dos seus guerreiros que se te- nham distinguido pela valentia e morrido na luta, pois os consideram suscetíveis de darem sorte e servirem de estímulo. Mostram-nos os primeiros exemplos a recordação de nossos fei- tos honrosos acompanhando-nos ao túmulo; os últimos atribuem, ademais, a essa recorda- ção, um sentido afetivo.

O caso de Bayard é mais admissível. Esse chefe ao sentir-se mortalmente ferido por um tiro de arcabuz no corpo, e instado a retirar-se da luta, respondeu que não era no momento de findar que iria começar a virar as costas ao ini- migo. E continuou a pelejar enquanto as forças o permitiram. E, não podendo mais permane- cer a cavalo porque se sentia desmaiar, man- dou a seu escudeiro que o deitasse ao de uma árvore, porém de maneira a morrer com o rosto voltado para o inimigo. E assim se-fez.

Acrescentarei outro exemplo, tão interes-

“sante no gênero quanto os precedentes. O

Imperador Maximiliano, bisavô do Rei Filipe, atualmente no trono, foi um príncipe dotado de numerosas e eminentes qualidades e notável pela sua beleza física. Entre as suas singulari- dades havia a de não se assemelhar a esses príncipes que para tratar dos negócios mais importantes fazem de sua retrete um trono. Nunca teve criado por mais familiar a quem permitisse vê-lo em trajes menores. Escondia- se para urinar e tão pudibundo quanto uma virgem, nem ao médico nem a ninguém mos- trava as partes do corpo que costumamos cobrir. Eu, que tão impudente tenho a lingua, sou entretanto, por temperamento, igualmente inclinado. a semelhante discrição. E, a menos que a tanto seja levado por necessidade ou volúpia, não exponho aos olhos de ninguém as partes de meu corpo ou os atos íntimos que nossos costumes recomendam se soneguem à vista; e faço disso uma obrigação talvez maior do que convém a um homem, e em particular de minha profissão? *. Mas o Imperador Maxi- miliano a tal exagêro chegara que ordenou expressamente em testamento que lhe, puses- sem ceroulas depois de morto, acrescentando que a pessoa encarregada dessa missão a desempenhasse de olhos vendados. O desejo expresso por Ciro a seus filhos de que nem eles 28 Original: Jy soufre plus de contrainte, que je n estime bienséant à un homme A frase presta-se a confusão. Michaut a interpreta forçando alexpres- são, mas como Montaigne se considera militar (ver comentário de Thibaudet à edição La Pléiade),

parece-nos que a interpretação escolhida atênde ao espírito do texto. (N. do T.)

ENSAIOS 1 19

. nem ninguém lhe tocassem o corpo depois da morte, provém, imagino, de alguma prática devota, pois tanto ele como seu historiador, entre outras grandes qualidades, mostraram-se durante a vida especialmente dedicados à religião.

Desagrada-me o que me contou certo indivi- duo altamente colocado e diz respeito a pessoa de minhas relações intimas, assaz conhecida pelos cargos que ocupou na paz como na guer- ra. Esta personagem, que morreu em sua Corte em idade avançada e após cruéis sofrimentos devidos a cálculos, passou suas últimas horas regulando com exagerados cuidados a cerimô- nia de seu enterro de modo a dar-lhe o maior relevo. Pedia aos nobres visitantes que se comprometessem sob palavra de honra a tomar parte no cortejo fúnebre. Ao próprio príncipe que me narrou o caso, pediu ele insis- tentemente mandasse vir o seu séquito, e citava exemplos e argumentava para provar que tanto se devia a um homem de sua condição. E, tendo arrancado tal promessa e estabelecido acordo com suas idéias a distribuição e a ordem da parada, expirou aparentemente satis- feito. Não creio ter jamais visto tão persistente vaidade.

Preocupar-se com regular os funerais ou de maneira orginal ou com excessiva parcimônia, como por exemplo reduzindo o acompanha- mentó a um simples servidor carregando uma lanterna, são singularidades inversas das pre- cedentes, embora da mesma ordem e de que também encontro exemplos na minha família. entretanto quem aprove tais gestos, como aprovam a proibição de Marco Lépido a seus herdeiros de empregar o cerimonial adequado ao seu caso. Se assim agindo imaginamos fazer ato de temperança e austeridade, evi-

tando uma despesa e uma satisfação que não gozaremos e cuja percepção nos será impossi- vel, tal atitude em verdade não será muito meritória. Se me coubesse resolver quanto ao assunto, eu diria que nessas como em todas as demais circunstâncias da vida, cada qual deve orientar-se pela sua situação na sociedade, e o filósofo Lícon demonstrou sabedoria quando prescreveu a seus. amigos que o enterrassem como achassem melhor, organizando funerais que não fossem nem supérfluos nem miserá- veis? 8. No que me diz respeito, que obedeçam aos usos em vigor; confio na discrição daque- les a quem caberá então tal incumbência. “Eis um cuidado que é preciso desprezar pera si

26 No. textô “mécaniques”, isto é, como os dos

artesãos demasiado simples miseráveis por extensão. Ne soyons ni superbes, ni mécaniques dans notre habillement (Malherbe citado tio

dicionário de Hatzfeld e Darmesteter. (N. do T.)

próprio e não negligenciar para os outros? 7.” Santo Agostinho fala uma linguagem digna de um santo quando diz: “A organização dos funerais, a escolha da sepultura, a pompa das exéquias, são menos necessárias à tranqui- lidade dos mortos do que ao consolo dos vivos.” No mesmo espírito, Sócrates ao morrer respondia a Criton que lhe perguntava como queria ser enterrado “como quiser- des”. Se eu devesse atentar?º mais completa- mente para a coisa, ser-me-ia agradável imitar os que, ainda em vida e na plena posse de suas faculdades, empreendem gozar antecipada- mente as homenagens fúnebres que lhes serão prestadas, deleitando-se na contemplação de sua efigie reproduzida no mármore do túmulo. Felizes aqueles para quem ver o que serão, guando não forem mais é um prazer, e que vivem de sua própria morte.

Embora eu considere a soberania do povo a mais natural e racional, por pouco não me torno seu inconciliável adversário, tal aversão me infunde a atitude injusta e inumana dos ate- nienses que condenaram à morte e imediata execução, sem sequer lhes ouvir a defesa, os valentes capitães que acabavam de vencer os

lacedemônios junto às ilhas Arginusas na batalha naval mais árdua e considerável que os gregos jamais tiveram. E por quê? Porque esses chefes após a vitória tinham procurado tirar partido de suas vantagens, de acordo com a arte da guerra, em vez de se atardarem em recolher os mortos e lhes darem sepultura. A odiosidade da execução ainda maior relevo apresenta ante a atitude de Diomedonte, um dos condenados, soldado e homem político de grande mérito. Depois de ouvir a sentença e

diante da calma restabelecida na assembléia, adianta-se para falar e em lugar de usar a pala- vra em defesa da causa, pondo em evidência a iniquidade de tão cruel veredicto, não pensa senão nos juízes e pede aos deuses que os recompensem e lhes comunica que tais eram os votos dele próprio e de seus companheiros, temerosos de que a ira celeste despertada pela não observância dos deveres funerários se des- viasse deles próprios, os beneficiários de tão brilhante êxito. E sem mais nada acrescentar, sem nenhuma recriminação, marchou corajo- samente para o suplício?º.

27 Cícero.

28 No texto “empescher” o que se entende dando ao verbo o sentido assinalado no dicionário de Godefroy —- refletir, ocupar-se longamente com exemplificado com uma frase de Froissart. Assim o anota igualmente Thibaudet. (N. do T.)

A frase é incrivelmente confusa em sua sintaxe. Adotamos a interpretação de Michaud, procurando aproximar-nos entretanto o mais possível do texto origina:: (N. do T.)

20 MONTAIGNE

Alguns anos mais tarde, o destino puniu os atenienses por onde haviam pecado. Chabrias, comandante de sua frota, tendo vencido perto da ilha de Naxos, a Polis, almirante espartano, perdeu o fruto da vitória, de importância capi- tal, receoso de idêntica condenação. Para não deixar sem sepultura os corpos de alguns dos seus homens, que flutuavam sobre as ondas, deixou que fugissem inúmeros inimigos, os quais, voltando-se ao depois contra ele, fize- ram-no pagar caro a observância tão inopor- tuna dessa superstição. “Queres saber onde estarás depois de morto? Irás para onde se encontram as coisas ainda por nascerem*º.”

Outros concedem em princípio o repouso ao

30 Sêneca.

corpo que a alma abandona.

“Que não tenha túmulo para recebê-lo e onde, aliviado do peso da vida, seu corpo possa repousar em pazº?.?

Tudo nos leva a crer. que a morte não é o fim último. A própria natureza nos fornece exem- plos de misteriosas relações entre o que não mais existe e o que vive ainda. Não experi- menta o vinho nas adegas modificações corres- pondentes às que as estações imprimem às vinhas? E dizem também que a came dos ani- mais mortos na caça e conservada em salga- deiras se modifica e muda de gosto tal qual acontece com a desses mesmos animais quan- do vivos.

31 Enio.

CAPÍTULO IV

De como a alma que carece de objetivo para as suas paixões as manifesta ainda que ao acaso

Um fidalgo de nossa sociedade, sujeito a ataques de gota, tinha por hábito responder, gracejando, aos médicos que lhe recomen- davam abster-se de carnes salgadas, que lhe apetecia responsabilizar alguém ou alguma coisa quando o mal o visitava e seu sofrimento aumentava. E aliviava-lhe a dor poder atribuir a causa disso ora ao chouriço, ora à língua de boi ou ao presunto que comera, mandando-os ao diabo.

Em verdade, assim como nos dói o braço erguido para bater, se o golpe não alcança o alvo e atinge O vácuo, e assim como para tor- nar uma paisagem agradável é preciso que ela não se isole no espaço mas antes se apóie a um fundo apropriado e seja vista a distância suficiente,

“assim como o vento, se espessas flores- tas não se erguem à sua frente como obstáculos, perde sua força e se dissipa na imensidão??,

assim a alma perturbada e agitada se confunde quando lhe falta um objetivo. Em seus trans-

32 Lucano.

portes, exige ela, sempre, algo a que culpar e contra o que agir.

Plutarco?? diz, a propósito dos que se afei- çoam a macacos e cãezinhos, que a nossa necessidade de amar:em não se exercitando normalmente em vez de permanecer insatis- feita projeta-se sôbre objetos ilícitos ou indig- nos dela. Vemos igualmente a alma tomada pela paixão, de preferência a não se entregar a ela, enganar-se a si própria criando um obje- tivo falso ou fantasista, ainda que a expensas de suas próprias convicções. É o que leva os animais feridos a voltar-se contra a pedra ou o ferro que os feriu ou a morder-se a si mesmos para se vingarem da dor sentida.

“Assim a ursa de Panônia se faz mais feroz quando atingida pelo dardo que retém a fina correia de Líbia; furiosa, procura morder a lança que a rasga e persegue o ferro que com ela gira? 4.”

Que causas não inventamos para as desgra- ças que nos afligem? A quem ou a que, com

33 Vida de Péricles. 34 Lucano.

ENSAIOS 1 21

razão ou sem ela, não culpamos a fim de ter algo contra que nos havermos? Em teu deses- pero arrancas as loiras tranças, rasgas O peito

a ponto de o sangue mancthar-lhe a brancura; -

são eles a causa da morte desse: bem-amado irmão que uma bala mortal tão cruelmente atingiu? Não, volta-te, pois, contra outros.

A propósito do exército romano que, na Espanha, acabava de perder seus dois chefes, Públio e Cneu Cipião, ambos grandes guerrei- ros, diz Tito Lívio: “Em todo o exército cada qual se pôs imediatamente a derramar là- grimas e a dar pancadas na cabeça”. Não é esse um costume generalizado? E não andava certo o filósofo Bion quando, a propósito do rei que no arrebatamento de sua dor arrancava barba e cabelos, dizia gracejando: “Pensa ele realmente que a pelada amorteça a tristeza do luto?? *”? E quem não viu jogadores rasgar ou mastigar cartas, ou engolir dados, para se vin- garem de um prejuízo? Xerxes mandou fus- tigar o mar e desafiou o monte Atos; e Ciro divertiu seus exércitos durante muitos dias a querer vingar-se do rio Gindus pelo medo que tivera ao atravessá-lo. Calígula destruiu um magnífico palácio por causa do desgosto? & que sua mãe ali experimentara.

Dizia o povo, na minha mocidade, que um

38 Cicero.

38 O texto é claro e diz “plaisir que sa mêre y avoit eu”. Entretanto Michaut interpreta como. sendo “déplaisir”, desgosto. A edição de Lefevre (Paris, 1834) anota a frase: “Talvez desgosto, porquanto sua mãe estivera prisioneira.” Thibaudet é de opinião que se trata de um cochilo de Montaigne e

na edição La Pléiade opina por “desgosto”. (N. do

T.)

rei dos nossos vizinhos? ?, castigado por Deus, jurou vingar-se. Para tanto ordenou que duran- te dez anos não se rezasse, nem se Lhe mencio- nasse o nome, nem mesmo, na medida em que a autoridade pode preiendê-lo, se acreditasse nEle. E com isso não procurava o povo apon- tar a tolice do soberano mas sim a glória da nação cujo rei assim agia. Presunção e estupi- dez andam juntas, porém tais atos mais se explicam pelo primeiro do que pelo segundo defeito. O Imperador Augusto, tendo enfren- tado violenta tempestade no mar, pôs-se a desacatar Netuno, e, como vingança, mandou retirar a estátua dessa divindade durante as festas circenses, extravagância menos descul- pável ainda que as precedentes38. Mais absur- do ainda se mostrou quando Quintilio Varus foi derrotado na Alemanha. Tomado de cólera e desespero, batia a cabeça contra os muros gritava: “Varus, Varus, devolve minhas le- giões!” Semelhantes insanidades ultrapassam a loucura, principalmente quando a elas se Junta a impiedade e elas se voltam contra Deus ou contra a sorte como se esta nos pudesse ver | e ouvir. Agem assim como as traças diante dos relâmpagos e trovões e que, a exemplo dos Titãs, pénsavam reduzir Deus à razão, intimi- dando-o com flechas desfechadas contra o céu?º, Ora, como diz um poeta antigo, em Plu- tarco, “não nos devemos encolerizar contra os acontecimentos, porquanto não se preocupam com as nossas iras”. Mas nunca criticaremos demasiado essa desordem de nosso espírito.

37 Afonso XI, de Castela. *8 Suetônio. Heródoto.

CAPÍTULO V

Deve o comandante de uma praça sitiada sair pára parlamentar?

Lúcio Marco *º, que comandou os romanos durante a guerra contra Perseu, rei da Macedô- nia, desejoso de ganhar tempo a fim de reorga-

49 Tito Lívio.

nizar seus exércitos, fez ao rei propostas de paz que lhe amoleceram a prudência e o leva- ram a conceder uma trégua de alguns dias, dando ao inimigo azo e tempo para se armar, de que resultou a ruína do monarca. Em Roma

22 MONTAIGNE

alguns senadores imbuídos dos costumes de seus antepassados condenaram essa maneira

de proceder por contraria ao que antes se fize- ra e que consistia em combater com coragem e não com astúcia, não se recorrendo nem à sur- presa, nem aos ataques noturnos, nem aos simulacros de fuga seguidos de inesperadas cargas. A guerra se iniciava depois de declarada e, não raro, após terem sido marca- dos o lugar e a hora da batalha. A tais senti- mentos obedeceram quando entregaram a Pirro o médico que o traíra e aos falessios*! seu desleal mestre-escola. Nisso agiam como verdadeiros romanos e não como esses astu- ciosos cartagineses e esses gregos sutis que dão maior valor ao êxito obtido pela malícia do que ao alcançado pela força. O embuste pode servir. na hora, mas o adversário se sente realmente vencido quando o foi em guerra leal e justa. em que a vitória sorri ao mais valente, e não pela manha nem pela sorte. Os senadores que falavim essa honesta linguagem não conheciam evidentemente ainda esta bela má- xima de Virgílio: “Contra o inimigo não como escolher entre o ardil e a coragem.”

Aos acaianos*2, diz Pólibo, repugnava o emprego da astúcia na guerra, se conside- rando vitoriosos quando o ânimo do inimigo era abatido. O homem sábio e virtuoso deve saber que a única vitória é a que pode procla- mar sua boa-fé e honra. E diz outro ** autor:

“Que nosso valor decida se é a vós ou a mim que a sorte, senhora dos acontecimentos, destina o império.”

No reino de Ternate, uma dessas tribos a que sem hesitação chamamos bárbaras tem por costume iniciar as hostilidades após uma prévia declaração de guerra à qual se acrescenta a enumeração precisa dos meios que pretende utilizar: número de guerreiros, natureza das armas ofensivas e deferisivas, munições. Isso feito, se o adversário não se de- cide a entrar na batalha, julgam-se esses bár- baros no direito de empregar, para o êxito, todos os meios a seu alcance. E outrora em Florença pensavam tão pouco em vencer pela surpresa que preveniam o inimigo um mês antes de marchar para o combate, tocando sem descontinuar um sino a que apelidavam Marti- nela.

Quanto a nós, menos supersticiosos, consi- deramos que as honras da guerra cabem a quem com ela se beneficia e estimamos, depois

“1 Povo da Arcádia. *2 Habitantes da Grécia. *3 Ênio, citado por Cicero Das Deveres I-12.

de Lisandro, que, se a pele do leão não basta, cumpre juntar um pedaço da pele da raposa. Ora, como acontece que é quando se parla- menta que ocorrem as surpresas, nesse mo- mento em particular deve o chefe pôr-se de sobreaviso. Daí a regra em vigor entre os ho- mens de guerra de nossa época, a saber, que O governador de uma praça sitiada nunca saia a fim de parlamentar.

Nossos pais censuraram os senhores de Montmord e de PAssigny, que defendiam Pont-à-Moussof contra o Conde de Nassau, por terem contravindo a tais princípios. Entre- tanto, é desculpável quem sai da praça a parla- mentar, desde que tome todas as medidas para, em caso de perigo, ter por si uma vantagem. Assim o fez o Conde Guy de Rangon quê defendia Reggio. Tendo-se apresentado o Sr. de 1Eut a fim de parlamentar, afastou-se Guy de Rangon tão pouco da praça que, em se veri- ficando uma escaramuça durante as negocia- ções, não somente o Sr. de PEut e sua escolta

qual pertencia Alexandre Trivulce que foi morto) se acharam dominados, como também o Sr. de PEut, para segurança própria, se viu obrigado a entrar na cidade sob a proteção do conde. E o que nos conta Du Bellay, mas Guicciardin o relata igualmente atribuindo-se a glória do acontecimento.

Antígono, assediando Eumenes em Nora insistindo para que saísse a fim de pessoal- mente parlamentar com ele e alegando que a Eumenes cabia fazê-lo por ser ele, Antígono, mais forte e de mais alta condição, ouviu do sitiado esta nobre resposta: “Não reconhecerei ninguém acima de mim enquanto tiver a facul- dade de brandir uma espada * *? E consen- tiu em encontrar-se com Antígono quando este lhe entregou Ptolomeu, seu sobrinho, como refém.

No entanto houve quem se saísse bem em semelhante ocorrência confiando na palavra do adversário. Testemunho disso temo-lo em Henry de Vaux, de Champagne, sitiado pelos ingleses no castelo de Commercy. Barthélemy de Bonnes* º que os comandava, tendo conse- guido sapar boa parte do castelo e dispondo-se a mandar irrcendiá-lo para esmagar os defenso- res sob os escombros, intimou Henry de Vaux (o qual lhe havia enviado três emissários) a ir pessoalmente parlamentar, no seu próprio interesse. Este foi, e, percebendo a iminência da catástrofe a que não escaparia, demonstrou sua gratidão ao inimigo entregando-se, com seus homens, incondicionalmente. Pôs-sejfogo então na mina escavada, cederam os esteios

Í Plutarco. | 45 Froissart. |

que sustentavam os muros e o castelo esbo- roou-se. Quanto a mim, confio facilmente nos outros, mas não confiaria se viessem a supor

23

tratar-se de um ato de fraqueza ou covardia e não por ser eu franco e acreditar na lealdade de meu adversário.

CAPÍTULO VI

A hora das negociações é perigosa

Ultimamente, nas minhas vizinhanças, em Mussidan * º*, um destacamento inimigo que ocupava a cidade foi forçado a retirar-se. Cla- mavam os soldados, e outros de seu partido, que haviam sido traídos porque os tinham surpreendido e vencido durante as negocia- ções, e antes que um acordo se assinasse. Tais

recriminações se compreenderiam em outros '

tempos, mas, como disse no capítulo prece- dente, nossos processos atuais são diversos e é de se desconfiar de todos enquanto. a assina- tura definitiva não é aposta no tratado. E nem assim se imaginará tudo terminado. E sempre foi perigoso confiar em que um exército vence-

dor saiba cumprir a palavra dada e deixe de,

entrar, de imediato, na cidade que obteve con- dições vantajosas para render-se.

L. Emílio Reggio, pretor romano, tendo -per- dido muito tempo diante da cidade de Focéia da qual não conseguia apoderar-se em conse- quência da tenacidade que punham os habitan- tes em defendê-la, com. eles conveio em consi- derá-los amigos do povo romano. E, tendó-os convencido de suas intenções pacíficas, obteve licença para entrar na cidade como o teria feito em qualquer cidade aliada. Mas logo que ali se encontrou com seu exército, de que se fi- zera acompanhar na maior solenidade, não mais pôde conter os seus, embora o tentasse, os quais saquearam tudo, sob as suas vistas,

levados pelo espírito de vingança e o amor à-

pilhagem que sobrepujam o respeito à autori- dade e a disciplina militar.

Cleômenes sustentava que o direito de guer- ra, no que concerne ao mal que se possa fazer ao inimigo, está acima das leis da justiça divi- na, bem como da justiça humana. Tendo con- cluído uma trégua de sete dias com os argenos, na terceira noite os atacava durante o sono e os batia, alegando que na .trégua não se mencionavam as noites* ?. Mas os deuses .o puniram por sua má-fé. Estando ele em nego-

36 A seis léguas do castelo de Montaigne. “7 Plutarco.

ciações, e tendo os defensores abrandado a vigilância, foi a cidade de Casilinum conquis- tada de surpresa. E isso nos tempos em que Roma possuía o exército mais disciplinado, com chefes imbuídos do sentido da justiça. Porque não está dito que em dadas circuns- tâncias não seja permitido nos prevalecermos da tolice do inimigo como nos prevalecermos de sua covardia. A guerra admite como lícitas muitas práticas condenáveis; O princípio de que “ninguém deve procurar tirar proveito da estupidez alheia” não vale**. Entretanto Xe- nofonte, autor tão competente em tal matéria, grande chefe militar e filósofo, ele próprio dis- cípulo dos mais distintos de Sócrates, nos propósitos que empresta a seu imperador per- feito, a-essas prerrogativas uma extensão por assim dizer sem limites, o que posso admi- tir inteiramente.

O Sr. D'Aubigny sitiava Cápua, comandada por Fabrício Colona. Este, após sangrento combate em que levara a pior, pôs-se a parla- mentar do alto de um torreão, mas durante as negociações, tendo os seus homens relaxado a vigilância, entraram os nossos na cidade e a saquearam. Mais recentemente, em Y voy, o Sr. Juliano Romero, tendo tido a ingenuidade de sair da cidade a fim de parlamentar com o Condestável, encontrou, ão voltar, a praça em poder do inimigo *º. Nós mesmos não estamos isentos de censura: o Marquês de Pescaire sitiando Gênova sob o comando de Otaviano Fregose, que nós sustentávamos, chegara a um acordo que ia ser assinado quando os espa- nhóis conseguiram entrar na cidade e agi- ram como se a tivessem tomado de assalto. Posteriormente, em Ligny, no Barrois, sob o comando do Conde de Brienne, e sitiada por. Carlos V em pessoa, Bertheville, lugar-tenente do conde, tendo saído para negociar, a cidade foi tomada enquanto parlamentava. Dizem os italianos:

*8 Cícero. Montaigne confunde Yvoy com Dinant.

24 MONTAIGNE

Fu il vincer, sempre mai laudabil cosa,

Vincasi o per fortuna o per ingegno.

“É sempre glorioso vencer, deva-se a vitória ao acaso ou ao engenho *º.? O filósofo Crisipo não teria sido da mesma opinião nem eu tam- pouco. Dizia ele que quem toma parte em uma corrida deve em.verdade empregar todas as forças para ganhar, mas não lhe é permitido agarrar o competidor ou passar-lhe uma rastei-

Ariosto.

ra. E Alexandre, o Grande, agiu de maneira mais generosa ainda quando respondeu a Poli- perconte que o instava a valer-se da escuri- dão da noite para atacar Dario: “Não me pare- ce digno roubar vitórias. Prefiro queixar- me da sorte a envergonhar-me da vitória º".”

“Recusa-se a golpear Orode, lançar-lhe um dardo que fira por trás, corre a ele, e é de fren- te, homem a homem, que o ataca. Quer vencer, mas não pela surpresa sim e unicamente pela força das armas *2.”

81 Quinto Cúrcio. 52 Virgílio.

CaPpíTULO VII

As ações julgam-se pelas intenções

A morte, dizem, liberta-nos de todas as obri- gações. Conheço quem haja interpretado essa máxima de maneira singular. Henrique VHI, rei da Inglaterra, comprometera-se com D. Filipe, filho do Imperador Maximiliano, ou, mais honrosamente referido como pai de Car-

los Quinto, a não atentar contra a vida de seu

inimigo, o Duque de Suffolk, chefe do partido da Rosa Branca, que fugira da Inglaterra e se refugiara nos Países-Baixos onde Filipe o man- dara prender, entregando-o ac rei mediante a promessa de respeito à vida do duque. Sen- tindo que ia morrer, Henrique VIII determinou

a seu filho, em testamento, que logo depois de seu falecimento executasse o duque. Ultima- mente nos acontecimentos trágicos que em Bruxelas provocaram o suplício dos Condes de Hom e de Egmont, ordenado pelo Duque de Alba, houve particularidades notáveis. Esta entre outras: o Conde de Egmont, em virtude de cujas promessas de garantias o Conde de Horn se entregara ao Duque de Alba, reivin- dicou com insistência que o matassem em pri- meiro lugar, a fim de que a sua morte o liber-

tasse da obrigação assumida. Parece-me, no

caso, que a morte não eximia o rei da obriga-.

ção de cumprir a palavra dada e que o Conde de Egmont, ainda que vivo, não faltava à sua. Nossas obrigações são limitadas pelas nossas

forças e os meios de que dispomos; a execução e as consequências de nossos atos não depen-

dem de nós; somente a nossa vontade depende.

Nesta e nas necessidades assentam as leis que regulam os deveres do homem. Eis por que o Conde de Egmont, embora com a alma e a vontade amarradas à sua promessa, mas sem

força para executá-la, a ela não estava amárra- do, ainda que sobrevivesse ao Conde de Horn. Ao passo que o rei da Inglaterra, faltando intencionalmente à sua palavra, não pode ser culpado pelo fato de ter adiado o ato desleal para depois de seu falecimento. Idêntico é o caso do pedreiro de Heródoto que, tendo leal- mente guardado segredo acerca do local em que se encontravam os tesouros do rei do Egito, ao morrer o seu senhor, O revelou aos filhos.

Vi outrora muitas pessoas que, sentindo pesar-lhes a consciência por se terem apro- priado de bens alheios, se mostraram dispostas a inserir em seu testamento dispositivos em vista da restituição dos mesmos. Não são elas dignas de louvor, porque atrasaram uma ação que devia ser imediata, porque preten- deram reparar uma falta sem sofrimento nem sacrifício. Deviam ter acrescentado os pró- prios bens; a reparação do mal atendera me- lhor aos reclamos da justiça e mais mérito tive- ra quanto mais pesados e penosos, os sacrifícios. A penitência exige algo mais do que a simples reparação dc dano. Pior fazem ainda os que deixam para depois da morte a

t

ENSAIOS 1 25

manifestação, contra O próximo, dos rancores que esconderam durante a vida. Mostram que pouco prezam a própria honra, não se incomo- dando com provocar a ira dos ofendidos con- tra a sua memória. E menos provas dão de consciência, não tendo sabido, nem sequer por respeito à morte, dominar a própria perversi-

dade que se prolonga dessa maneira além de si mesmos. Tal qual farianí juízes iníquos que se pusessem a julgar sem ter mais a causa em

mãos. Na medida de minhas forças, procurarei evitar de nada dizer após a morte que não haja dito em vida, e abertamente.

CapítruLo VIII

Da ociosidade

Nas terras ociosas º?, embora ricas e férteis, pululam as ervas selvagens e daninhas, e para aproveitá-las cumpre trabalhá-las e semeá-las a fim de que nos sejam úteis. Assim também vemos que as mulheres produzem sozinhas flu- xos de matérias sem consistência, mas para que engendrem em condições favoráveis neces- sário se faz fecundá-las com a boa semente. Assim igualmente os espíritos: se não os ocu- pamos com certos assuntos que os absorvam e disciplinem, enveredam ao léu, sem peias, pelo campo da imaginação.

“Assim, quando em um vaso de bron- ze uma onda agitada reflete os raios do sol ou a imagem tênue da lua, a luz, dar- dejando incerta de todos os lados, à direita e à esquerda, sobe, desce, fere o forro com seus reflexos móveis º *.”

E nesse estado não loucura nem devaneio que não concebam: “forjando vas ilusões, semelhantes às quimeras de um doente” **.

53 Não trabalhadas, não cultivadas. (N. do T.) 84 Virgílio. 55 Horácio.

Sem objetivo preciso, a alma se tresmalha, pois, como se diz, é não estar em nenhum lugar, estar em toda parte * *.

Retirei-me tempos para as minhas terras, resolvido, na medida do possível, a não me preocupar com nada, a não ser O repouso, e viver na solidão os dias que me restam. Pare- cia-me que não podia dar maior satisfação a meu espírito senão a ociosidade, para que se concentrasse em si mesmo, à vontade, o que esperava pudesse ocorrer porquanto, com o tempo, adquiria mais peso e maturidade. Mas percebo que: “na ociosidade o espírito se dis- persa em mil pensamentos diversos? 87, e ao contrário do que imaginava, caracolando como um cavalo em liberdade, cria ele cem vezes maiores preocupações do que quando tinha um alvo preciso fora de si mesmo. E: engendra tantas quimeras e idéias estranhas, sem ordem nem propósito, que para perceber- lhe melhor a inépcia e o absurdo, as vou con- signado por escrito, na esperança de, com o correr do tempo, lhe infundir vergonha.

56 Marcial. 57 Lucano.

CaPpíTULO IX

Dos mentirosos

Não a quem convenha, menos do que a mim, apelar para a memória. Dessa faculdade careço por assim dizer totalmente e não creio

que haja no mundo alguém menos bem aqui- nhoado a esse respeito. Quanto ao resto sou como o vulgo, mas nesse ponto meu caso me-

26 MONTAIGNE

rece ser assinalado e anotado. Além do incon- veniente que disso resulta na vida comum (e por certo, tendo em vista sua importância, Pla- tão tinha razão de qualificá-la entre as grandes e poderosas divindades), como na minha terra diz-se de quem não mostra bom-senso que não tem meinória, quando me queixo da minha pa-

rece que me confesso maluco. Não me acredi--

tam, contestam as minhas palavras, incapazes de distinguir a memória do discernimento, o que agrava ainda mais a coisa. Com isso cometem uma injustiça, pois ve-se na prática juntar-se comumente às memórias excelentes a falta de bom-senso” E me prejudicam ainda tais confusões porque'em relação a meus ami- gos e prezo a amizade acima de tudo a falta de memória passa por ingratidão. Incri- minam-me por um defeito físico: “esquece”, dizem, “tal pedido ou tal promessa; não se lembra dos amigos; sua afeição por mim não o impediu de dizer ou de calar tal coisa”. Sem dúvida tenho facilmente falhas de memória, mas nunca negligenciei deliberadamente a soli- citação de um amigo. Basta a minha enfermi- dade, não é justo que ainda a transformem em uma espécie de vontade, uma falta de fran- queza em contraste absoluto com meu caráter. Eu me consolo atê certo ponto pensando que devo a esse defeito não ter ao que me parece mal maior, e que por certo me houvera ataca- do: a ambição; pois os negócios públicos exi- gem -boa memória. Com isso, entretanto, como ocorre amiúde na natureza, minhas outras faculdades se aguçam na medida em que essa se desgasta. Se tivesse sempre na memória o que os outros disseram e fizeram, em vez de julgar por mim mesmo ter-me-ia apegado, como acontece comumente; às apreciações alheias. Outra consegiência é a concisão de meu falar, pois em geral a memória é mais pro- lixa do que a imaginação. Mais bem dotado a esse respeito, houvera atordoado os amigos com meu palavrório, tanto mais quanto tenho tendência para me entusiasmar com qualquer assunto de conversação. E lamen- tável é ver, o que pude observar em alguns ínti- mos, o narrador levar tão longe a narrativa, à proporção que a memória lhe fornece material, e acompanhá-la de tanto pormenor inútil que se a história é boa lhe destrói o encanto e se não apresenta interesse fica-se a maldizer a memória do discursador ou a sua falta de discernimento. E é coisa difícil concluir conve- nientemente uma narrativa ou interrompê-la oportunamente uma vez iniciada. Ora, o vigor de um cavalo julga-se pela maneira brusca de - estancar nos torneios. Mesmo entre os que possuem plenamente um assunto, poucos co- nheço capazes de sustar sua arenga à vontade;

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e enquanto procuram como fazê-lo, prosse- guem se arrastando e como que pasmados em meio a frases vas e insignificantes. Isso se acentua particularmente nos anciãos que se prendem às recordações do passado e não se lembram das repetições. Vi histórias muito agradáveis tornarem-se aborrecidas na boca de um alto personagem de quem todos a ti- nham ouvido cem vezes.

Em. segundo lugar a fraqueza de minha memória faz, como dizia um sábio da antigui- dade, que guarde menos recordação das ofen- sas recebidas. Fora-me necessário alguém encarregado de mas lembrar. E assim procedia Dario, o qual,'a fim de não esquecer a ofensa dos atenienses, cometera a um pajem a tarefa de repeti-la três vezes a seus ouvidos sempre que se punha à mesa: “Senhor, lembrai-vos dos atenienses.” E mais uma vantagem acho eu nisso: todos os sítios que revejo e todos os livros que releio me encantam pela sua inces- sante novidade. Não é sem razão que se afirma não dever meter-se a mentir quem não tem memória. Sabe-se que os gramáticos estabe- lecem uma diferença entre dizer uma mentira é mentir. Dizer uma mentira é, na opinião deles, adiantar uma coisa falsa que a gente crê verda- deira, ao passo que na língua latina, da qual provém a nossa, mentir é falar contra a própria consciência. O que eu digo aqui se refere por- tanto somente aos que falam em desacordo com o que sabem 8º. Tais pessoas ou inventam o que dizem, fundo e pormenores, ou se limi- tam a deturpar e alterar um fundo de verdade. Quando repetem, alterando-a, uma mesma his- tória, é-lhes difícil não se contradizerem, por- que a coisa se tendo alojado em sua memória, tal qual lha transmitiram ou, como a viram eles próprios, não lhes é possível, depois, con- tá-la várias vezes, e, cada vez com maior ou menor exatidão, rememorar todas as altera- ções nela introduzidas; ao passo que a impres- são primeira lhes permanece sempre presente ao espírito, apagando da lembrança todas as falsidades enxertadas na verdade. Quando inventam inteiramente a narrativa, não exis- tindo uma primeira impressão suscetível de perturbá-los, parecem menos expostos a erros; entretanto, uma coisa que não existe, que nada fixa, foge facilmente à memória, a menos que seja esta excepcional. Disso vi muitos exem- plos, por vezes divertidos, em detrimento dos que, por profissão, falam no sentido de seu maior interesse ou para agradar aos grandes a quem se dirigem. Variando muito as circuns- tâncias a que devem adaptar sua consciência,

s8 Com o que sabem ser verdadeiro, certo. A. do T.

ENSAIOS— I 21

cumpre-lhes modificar por igual a linguagem, chegando a dizer da mesma coisa ora branco ora preto, de um jeito a uns e de outro a outros. E se por acaso esses auditores se comu- nicam tais dizeres contraditórios, que resta do talento inventivo? Além daquilo que por imprudência podem deixar escapar, qual a memória capaz de lembrar as formas tão diversas que imaginaram para sua história? Tenho visto certas pessoas invejarem essa habilidade, sem perceberem que dessa repúita- ção não se tira proveito real 5º.

Em verdade, mentir é um vício odioso. Somente pela palavra é que somos homens e nos entendemos. Se compreendêssemos clara- mente o horror e o alcance da mentira, contra ela pédiríamos o suplício da fogueira que, com menor razão, se aplica a outros crimes. Sou de opinião que castigam em geral as crianças por motivos fúteis, erradamente, que as admoes- tam por atos irrefletidos e de nenhuma conse- quência. A mentira somente, e um pouco menos a obstinação, parece-me, é que deve- riam ser combatidas desde cedo, pois com a criança crescem e se desenvolvem. E bem difi- cil se torna extirpá-las quando se transformam em hábito. Daí o fato de muitos homens, 'pelos demais pontos de vista honestos, se “abaúido- narem a tais vícios e a eles se escravizarem. Conheço um alfaiate, bom sujeito, a quem ninca ouvi dizer a verdade, mesmo quando lhe era útil. Se, como a verdade, tivesse a mentira uma face, eu a poderia ainda admitir, pois bastaria considerar certo o contrário do que dissesse o mentiroso; mas cem mil maneiras de exprimir o reverso da verdade e o campo de ação da mentira não comporta limites. Os pitagoristas tinham para eles que o bem é coisa certa e delimitada, o mal incerto e infinito. Mil caminhos desviam da meta, um conduz a ela. Por certo não posso garantir que tenha força de vontade bastante para não perpetrar uma solene e desabusada mentira a fim de escapar a um perigo extremo e evidente. Disse um antigo prelado que é preferível a compa- nhia de um cão à de um homem cuja lingua- gem desconhecemos. Assim dois homens de países diferentes não são homens em relação um do outro *º. Quanto é mais sociável o silên- cio do que a linguagem mentirosa!

O Rei Francisco I vangloriava-se de ter, à

Michaut interpreta a frase: “si réputation y est, Peffet n'y peut être” de maneira que me parece demasiado livre. Diz, com efeito, “não vêem que uma vez estabelecida a reputação cessa o proveito obtido pela habilidade”. (N. do T.)

Plínio.

força de questioná-lo, confundido a Francisco Taverna, embaixador de Francisco Sforza, Duque de Milão, homem com grande reputa- ção de saber falar e que lhe fora enviado para justificar um ato grave de seu senhor. O rei, para continuar a manter contatos na Itália, de onde acabara de ser repelido, e contatos preci- samente no ducado de Milão, imaginara colo- car junto ao duque um de seus fidalgos, na rea- lidade um embaixador, mas para todos os efeitos um simples cidadão em viagem de negócios. O duque tinha ele próprio grande interesse em não aparentar quaisquer relações conosco, estando muito mais sob a depen- dência do imperador do que sob a nossa, principalmente nesse momento em que nego- ciava seu casamento com a sobrinha do sobe- rano, filha do rei da Dinamarca e atualmente Duquesa de Lorena. Para isso escolheu o rei um Sr: Merveille, fidalgo milanês, seu escudei- ro. Merveille partiu com instruções e cartas secretas, acreditando-o como embaixador, às quais cartas se juntaram outras que O reco- mendavam ao duque a respeito de seus negó- cios pessoais, destinadas estas últimas a serem apresentadas publicamente a fim de dissimular sua verdadeira missão. Mas Merveille perma- neceu tão longo tempo junto do duque, que o imperador veio a desconfiar, o que, acredito, deu causa ao que segue: inculpando-o de assassínio, mandou o duque certa noite corta- rem-lhe a cabeça, sendo o processo liquidado em dois dias. O rei, desejando reparação pelo ato, dirigiu-se a todos os príncipes da cristan- dade e ao próprio dugue; e o Sr. Taverna, enviado a fim de expor o caso devidamente alterado para as necessidades da causa, foi recebido na audiência da manhã. Como base de seu arrazoado, depois de apresentar o fato da maneira mais favorável ao duque, disse que este sempre considerara Merveille um simples fidalgo, súdito seu aliás, vindo a Milão a negó- cios. E negou que o dúque soubesse pertencer ele ao séquito do rei, e até que Sua Majestade o conhecesse, não tendo tido nunca a idéia de ver nele um embaixador. O rei, por sua vez, apertou-o com perguntas e objeções, atacan- do-o de todos os lados, e, chegando finalmente ao caso da execução, indagou por que se fizera ela à noite, como que às escondidas. Ao que o pobre homem confundido, pensando ser cortês, respondeu que o duque, dado o respeito que tinha por Sua Majestade, teria se aborrecido imenso com uma execução à luz do dia. Pode- se imaginar quanto terá sido repreendido de- pois de tamanho despropósito.

O Papa Júlio II enviara um embaixador ao rei da Inglaterra a fim de convencê-lo a agir contra aquele mesmo rei de França. Tendo o

28 MONTAIGNE

enviado exposto sua missão, objetou o rei da Inglaterra mostrando, pormenorizadamente, as dificuldades que se opunham à reunião das for- ças contra tão poderoso adversário. Ao que replicou o embaixador, intempestivamente, que tais motivos também lhe tinham vindo ao espírito e os submetera à apreciação do papa.

Essas palavras, tão pouco hábeis no que dizia respeito à missão de convencer o rei, deram a pensar a este, o que depois se verificou. ser exato, que o embaixador se inclinava pela França. Comunicou então sua dúvida ao papa, o qual confiscou os bens de seu representante e pouco faltou para que o mandasse executar.

É CAPÍTULO X

Dos que improvisam e dos que se preparam para falar

“Nunca foi dado a ninguém cumular todos os dons da natureza º'.” Assim acontece que entre aqueles a quem foi dado o dom da eloquência, alguns cuja palavra é pronta e fácil e têm a réplica tão viva que nunca falham, enquanto outros mais tardios falam “depois de longamente elaborado o tema de antemão escolhido.

Aconselham às mulheres que se dediquem de preferência à ginástica e aos jogos susceti- veis de valorizar sua graça; pois se me cou- besse opinar acerca das vantagens desses tipos de eloquência que parecem, em nosso século, ser apanágio de predicadores e advogados, diria que aos primeiros convém melhor a pala- vra meditada e aos segundos o contrário, pois ao predicador não falta tempo para preparar- se, e quando prega o faz de um fôlego sem que o interrompam, ao passo que o advogado pre- cisa estar sempre pronto para o debate.

As réplicas imprevistas da parte contrária o mantêm na incerteza do que deve dizer e o obrigam a todo irstante a modificar seu ponto de partida.

Foi entretanto o oposto que aconteceu quan- do da entrevista, em Marselha, do Papa Cle- mente com o Rei Francisco I. O Sr. Poyet, que passara sua vida no tribunal e granjeara uma bela reputação, foi encarregado de aren- gar Sua Santidade. Para tanto, preparara-se de longa data, tendo mesmo trazido, dizem, seu discurso pronto de Paris. No dia em que o ia pronunciar, O papa, receoso de vê-lo ventilar assunto suscetível de magoar algum dos embaixadores dos demais príncipes presentes, comunicou ao rei o tema que se lhe afigurava

81 La Boétie.

mais apropriado ao momento e ao lugar e que se verificou ser, infelizmente, bem diverso daquele em que trabalhara o Sr. Poyet. Assim, em não servindo a arenga preparada, cum- pria-lhe fazer outra sem perda de tempo. Como ele se julgasse incapaz de fazê-lo, da coisa se encarregou o Cardeal Du Bellay. A ta- refa do advogado é mais difícil que a do predi- cador e no entanto creio se encontrar em Fran- ça número maior de bons advogados que de bons oradores sacros. É de se acreditar sejam a vivacidade e a improvisação peculiares ao espírito, ao passo que a calma e a prudência caracterizam a sabedoria. Quanto ao indivíduo que permanece inteiramente mudo se não pôde preparar seu discurso, é seu caso tão estranho quanto o de quem teve todo lazer de meditar para fazer melhor e não o conseguiu.

Contam que Severo Cássio falava tanto me- lhor quanto menos. preparado e mais devia, portanto, ao talento que ao trabalho. Tão bem o serviam os apartes, quando discursava, que seus adversários hesitavam em provocâ-lo, de medo que a cólera lhe ampliasse a eloquência. Conheço por experiência esse gênero particu- lar de talento oratório que dispensa o estudo prévio e aprofundado e, se não se exprime ale- gre e livremente, nada de bom produz. Dize- mos de certas obras que sabem a azeite de lam- parina, em virtude da parte excessiva de trabalho que exigiram. Por outro lado, o desejo de fazer bem, e essa contenção do espírito por demais atento à sua tarefa, exaurem-no, tra- vam-no, e, por vezes, o inibem. Da mesma forma a água, quando sob forte pressão, pela abundância e violência com que chega, não - pode jorrar por um gargalo estreito ainda que

4|

o orifício se ache aberto. Ocorre também que

ENSAIOS— I 29

talentos oratórios dessa natureza não necessi- tam de paixões violentas e que exaltam como a cólera de Cássio. Eles não querem ser sacudi- dos e sim solicitados. O de que precisam, para acordarem e se inflamarem, é ser solicitados pelos incidentes ocasionais, fortuitos. Se nada OS freia, arrastam-se e esmorecem; a agitação dá-lhes vida e graça.

A esse respeito não me domino por comple- to. O acaso é meu senhor: a oportunidade, a companhia, o próprio fogo das minhas pala- vras atuam sobre meu espírito que produz então muito mais do que quando com ele me isolo, o consulto e o obrigo a trabalhar. Daí valerem mais minhas palavras do que meus

escritos, se é que se deva escolher entre coisas sem valor. E advém disso que não me encontre onde me procuro, e mais me descubra por acaso, do que apelando para a inteligência. E se escrevo algo espirituoso (insignificante tal- vez para os outros mas cheio de sutileza para mim mas deixemos de lado tais considera- ções que cada qual age como pode) ocorre-me perder-lhe de tal maneira o sentido que outros descobrem por vezes, antes de mim, O que quis dizer. E se raspasse todos esses trechos de meus escritos, de tudo me desfaria. De outras feitas, entretanto, acontecer-me-á achá-lo tão claro quanto o sol do meio-dia. E me espanto então com a minha hesitação.

CAPÍTULO XI

Dos prognósticos

s

Quanto aos oráculos, é certo que bem antes de Jesus Cristo não lhes davam muita importância, pois vemos Cicero esforçar-se por descobrir a causa do seu descrédito: “De onde vem que em nossos dias, e até de muito, Delfo não mais pronuncia tais orácu- los? De onde vem que nada se despreza mais? 2? Quanto aos demais prognósticos, como os que se induziam da anatomia dos ani- mais sacrificados e cuja constituição física, segundo Piatão, fora em parte destinada pelo Criador a esse gênero de observações 82, os que decorriam do saltitar dos frangos ou do vôo dos pássaros (“acreditamos que pássa- ros que nascem expressamente para servir a arte dos augúrios” $*) ou do raio, dos redemoi- nhos (“os arúspices vêem quantidade de coi- sas; os áugures prevêem outro tanto; numero- sos acontecimentos são anunciados pelos oráculos, outros pelos vaticínios, outros pelos sonhos, outros ainda pelos milagres” 8 º) e ou- tros que na antiguidade intervinham na maio- ria dos empreendimentos públicos e privados, aboliu-os a nossa religião. Entretanto, ainda restam alguns meios de adivinhação, em parti-

82 Cícero.

83 Adotou-se a interpretação de Michaut, dada a construção extremamente obscura da frase. (N. do T.)

84 Cicero.

65 Td.

cular os astros, os espíritos, as linhas-de nosso - corpo, os sonhos, etc., testemunhos irrecusá- veis da desesperada curiosidade que está em nós e faz que percamos nosso tempo em nos preocuparmos com as coisas futuras, como se não nos bastasse digerir as coisas presentes:

“Por que, ó senhor do Olimpo, quando os pobres mortais são presa de tantos males presentes, lhes dar ainda a conhecer, mediante presságios, as des- graças futuras? Se teus desígnios devem cumprir-se, faze que permane- .Çam secretos e nos atinjam inespera- damente! Que nos seja permitido ao menos esperar tremendo * 8.”

“Nada se ganha em conhecer o futuro; e infeliz é quem se atormenta em vão $ 7.” Como quer que seja, a adivinhação tem bem menor autoridade hoje. Eis por que o exemplo de François, Marquês de Saluce, me parece notá- vel. Esse marquês comandava, além Alpes, o exército: de Francisco I. Tinha prestígio na Corte e devia mesmo ao rei o marquesado con- fiscado a seu irmão. Sem nenhuma razão para fazer como o fez, agindo contra suas próprias afeições, deixou-se no entanto impressionar a tal ponto (como se viu) pelas belas profecias

88 Lucano. 87 Cícero.

30 MONTAIGNE

favoráveis a Carlos Quinto, por toda parte divulgadas (na Itália tais profecias foram leva- das tão a sério que em Roma fortes importân- cias em dinheiro se comprometeram na expec- tativa de nossa desgraça), que, embora se tivesse no intimo condoido da nossa ruína, nos abandonou e se passou para O inimigo. Para sua desgraça, entretanto, qualquer que tenha sido a constelação sob cuja influência agiu. Tomando tal decisão, conduziu-se contudo como um homem solicitado pelos sentimentos mais antagônicos, pois, senhor das cidades e das forças que possuíamos, e estando o exér- cito inimigo sob as ordens de Antoine de Leves nas imediações, sem que ninguém o suspei- tasse, podia fazer-nos pior do que fez, por- quanto com sua traição não perdemos um homem, nem uma cidade, salvo Fossano e ainda assim após longa disputa. “Um Deus avisado escondeu-nos os acontecimentos do futuro sob uma noite espessa, e ri-se do mortal que se inquieta mais do que deve acerca do destino. .: E senhor de si próprio e passa a existência feliz quem pode dizer diariamente: que importa se amanhã Júpiter escurecer a atmosfera sob nuvens sombrias ou nos der um céu sereno; satisfeitos com o presente, evite- mos preocupar-nos com o futuro º8.”

E erram os que interpretam como contrário a nossa tese o seguinte aforismo: “Há quem assim raciocine: se existe adivinhação, existem deuses; se existem deuses, existe adivinha- ção 8º? Pacúvio diz muito mais sabiamente: “os homens entendidos no falar dos pássaros, aqueles a quem um figado de animal mais do que a própria razão acalma, mais vale ouvi-los do que neles crer”.

Assim teve origem essa arte da adivinhação dos toscanos, os quais nela se tornaram céle- bres: um camponês lavrava o seu campo; o ferro do arado penetrando profundamente a terra fez surgir Tages, semideus dos adivinhos, que ao rosto de criança junta a prudência do ancião. Acorreu gente de toda parte e suas palavras e sua ciência, que continham os prin- cipios e os meios dessa arte, foram avidamente recolhidas e transmitidas através dos séculos. Origem digna do seu desenvolvimento. Quanto a mim, prefiro ainda resolver os meus negócios nos dados a fazê-lo pela interpretação dos sonhos. Na realidade, em todos os governos sempre se entregou parte da autoridade ao acaso. Na República que Platão organiza a seu modo a decisão de vários atos importantes é-lhe atribuída. Entre outras coisas propõe que os casamentos entre pessoas honestas se reali-

88 Horácio. 69 Cicero.

zem por sorte. E leva tão a sério essa dleição fortuita que aos filhos dela resultantes deter- mina sejam educados no país mesmo, en- quanto aos que nascem de uniões contratadas por gente ruim'º determina que se exilem. Entretanto, se por acaso uma destas crianças ao crescer se revela capaz, pode-se chamá-la à terra, bem como se pode exilar aquela que, entre as outras, não demonstre aptidões na adolescência.

Conheço quem estudando e comentando, seus almanaques ressalta a exatidão das previ- sões aplicadas aos fatos do presente. Em meio a tantas palavras de haver mentiras e verda- des. “Ao se atirar ao alvo o dia inteiro, al- guma vez se atingirá a meta?!” Não dou importância ao fato de por vezes acertarem, pois seriam de muito maior utilidade se acon- tecesse sempre o contrário do que predizem. Como ninguém anota seus erros, tanto mais quanto constituem a norma e são infinitos, fácil se torna valorizar-lhes as ocasionais adivinhações, como raras, incríveis, prodigio- sas. Eis por que Diágoras, apelidado o ateu, respondeu a alguém que lhe mostrava na ilha de Samotrácia um templo no qual se viam inú- meros ex-votos e quadros comemorativos da autoria de pessoas que se haviam salvo de naufrágios, e dizia: “Então? Você que acre- dita se desinteressem os deuses das coisas humanas, que pensa de tantos indivíduos sal- vos graças a eles?” “E, mas os que perece- ram nada pintaram e são muito mais numero- sos.”

Cicero disse que somente Xenófanes de Có- lofon, entre os filósofos que admitiram a exis- tência dos deuses, se esforçou por combater toda espécie de adivinhação. O que não é de se estranhar 2, porquanto vimos por vezes, e em seu detrimento, alguns espíritos de elite se ate- rem a tais tolices.

Duas maravilhas no gênero que eu gosta- ria de ter visto: o livro de Joaquim, abade da Calábria, predizendo todos os papas futuros com seus nomes e particularidades, e o livro do Imperador Leão que profetizava os impera- dores e patriarcas gregos. Mas o que vi com os meus olhos é que nas perturbações públicas certas pessoas, surpreendidas com os aconteci- mentos, se entregam a práticas supersticiosas, buscando na observação dos astros as causas Os sinais precursores de suas desgraças. E com isso se sentem tão felizes que estou persuadido

Os não sorteados.

71 Cícero.

72 Montaigne escreve: “D'autant est-il moins de merveille”, o que também se poderia traduzir “não como surpreender-se”. (N. do T.) aa

ENSAIOS —I 31

tratar-se de um passatempo divertido para os espíritos sutis e ociosos, e acredito que quem adquire suficiente destreza para inventar e interpretar acha o que bem entenda em qual- quer escrito. Facilita-lhes a tarefa o falar obs- curo, ambíguo, fantasista do jargão profético, pois os que o empregam abstêm-se de se expri- mirem com clareza, a fim de que a posteridade possa arranjâ-lo a seu gosto.

O' demônio familiar de Sócrates consistia provavelmente em certas inspirações que se apresentavam a ele sem passar pelarazão”?.

73 Discours. O vocábulo de que Montaigne usa repetidamente apresenta-se com sentidos diversos. Razão, no caso, significa, outras vezes, conversa- ção, inteligência, entendimento. (N. do T.)

Em alma tão pura quanto a sua, feita por intei- ro de sabedoria e virtude, é de crer-se que, em- bora ousadas e inadmissíveis, tais inspirações

eram sempre importantes e dignas de se ouvi- rem. Não quem não sinta em si mesmo por

I E “14. vezes semelhante obsessão de uma idéia brus- ca, veemente e fortuita. Cabe a cada um de nós

dar-lhe ou não certa consistência, a despeito do que manda a prudência à qual fazemos

ouvidos moucos. Tive-ás eu próprio, carece- doras de razão mas violentamente persuasivas, ou ao contrário (como era o caso de Sócrates),

e a elas me abandonei com tamanha felicidade que quase poderia atribuir-lhes uma origem divina.

CAPÍTULO XII

Da perseverança”

A lei da resolução e da perseverança não implica em que não devamos nos precaver, na medida de nossas forças, contra os males e "inconvenientes que nos podem ameaçar, nem deixar de recear que nos surpreendam. Muito pelo contrário, todo meio honesto de evitar um mal é não somente lícito mas também louvá- vel. À perseverança consiste em suportar com resignação os incômodos para os quais não temos remédio. Por isso não movimento de agilidade corporal ou manejo de armas que devamos achar ruins desde que sirvam para defender-nos dos golpes que nos assestam.

Em muitas nações belicosas era a fuga um dos principais métodos de combate e o inimigo ao qual viravam as costas tinha então mais a temer do que quando as viam de frente. E um pouco o que fazem os turcos. Sócrates, segun- do Platão, criticava Lachez, o qual assim defi- nia a coragem: “Não recuar diante do inimi- go.” Como? dizia Sócrates, então covardia em vencer o inimigo cedendo-lhe ter- reno? E em apoio de suas palavras citava Homero que louva, em Enéias, a ciência de simular a fuga. A Lachez que, contradizendo-

74 Constance, diz Montaigne, o que significa tena- cidade, e também perseverança, firmeza de ânimo. Neste sentido a emprega o ensaísta. (N. do T.)

se, reconhecia ser o método praticado pelos citas e em geral por todos os povos que com- batem a cavalo, ele assinala ainda os guerrei- ros lacedemônios treinados para o combate a e que, na jornada de Platéia, não podendo abrir brecha na falange dos persas, tiveram a idéia de ceder e recuar, a fim de que, imaginan- do-os em fuga e nada terem a fazer senão persegui-los, se desagregasse a massa por si mesma, estratagema que lhes deu a vitória. Voltando aos citas, quando Dario marchou contra eles na intenção de subjugá-los, censu- rou, dizem, a atitude do monarca inimigo que se retirava sem cessar, recusando o combate. Ao que Inatirsez respondeu: que não era por ter medo dele, como não tinha de nenhum outro ser vivo, mas era a maneira de lutar de seu povo, o qual não possuia terras cultivadas, nem casas, nem cidades a defender e que temesse viessem a ser aproveitadas pelo inimi- go. Entretanto, se o desejo de Dario, de chegar as vias de fato, fosse grande, que se aproxi- masse da sepultura dos antepassados dos citas e ali encontraria com quem pelejar à vontade. Diante do canhão, porém, quando se está visado, como acontece em certas circuns- tâncias da guerra, não convém fugir de medo do tiro, tanto mais quanto pela sua rapidez e imprevisibilidade é quase inevitável. Por isso

32 MONTAIGNE

de muito soldado zombaram os companheiros ao vê-lo, nessas ocasiões, erguer a mão ou bai- xar a cabeça a fim de deter ou evitar o projétil. No entanto, quando, da invasão da Provença pelo Imperador Carlos Quinto, o Marquês du Guast, expondo-se fora do abrigo constituído por um moinho durante um reconhecimento diante da cidade de Asles, foi visto pelo Sr. de Bonneval e o senescal d'Azenois, que passea- vam pelas arenas. Eles o assinalaram ao Sr. de Villiers, comandante da artilharia, o qual com tamanha precisão regulou a colubrina que se o marquês não tivesse dado um salto para o lado, ao ver acender a peça, fora atingido em cheio. Assim também, anos antes, Lourenço de Médicis, Duque de Urbino, pai da Rainha Catarina, mãe do nosso rei, sitiando Mondol- fo, na região do Vicariato, vendo acenderem uma peça apontada em sua direção, abaixou- se. E fez bem, porquanto de outro modo o tiro que lhe raspou a cabeça o teria alcançado no estômago. Em verdade, não creio que tais movimentos se efetuassem em virtude de algum raciocínio, pois como verificar a mira em coisa tão repentina? Muito mais judicioso me parece imaginar que O acaso favoreceu o medo, e que em outras circunstâncias o contrá- rio poderia ocorrer e ir a vitima ao encontro do

tiro em vez de evitá-lo. Não posso deixar de tremer quando o ruído do arcabuz soa inopina- damente a meus ouvidos em lugar em que não . o espero, e essa mesma impressão eu a percebi igualmente em outras pessoas mais valentes do que eu.

Os estóicos não afirmam que a alma do sábio possa resistir desde logo às sensações e visões que o surpreendam. Admitem como natural impressionar-se, por exemplo, com um estrondo provindo do céu ou de uma ruína; admitem que pode empalidecer, contrair-se como sob a influência de uma paixão qual- quer, mas que ele deve conservar intata sua lucidez, sem que se lhe altere a razão; de maneira a não ceder ante o terror e o sofri- mento. Quem não é sábio conduz-se do mesmo modo quanto à primeira parte, mas muito diversamente quanto à segunda: a impressão da emoção não será nele apenas superficial; penetrará até a sede da razão, infetando-a e a corrompendo. E será com essa faculdade assim viciada que julgará e se conduzirá.

“Chora, mas seu coração continua inabalá- vel? *?2. O sábio dos peripatéticos não perma- nece insensível às emoções, mas as modera.

75 Virgílio.

CapíTULO XIII

Cerimonial das entrevistas reais

Não assunto, por mais fútil que seja, que não caiba nesta rapsódia 7 º. Segundo os nossos usos, seria grave falta de cortesia para com um igual, e mais ainda para com um grande, não nos encontrarmos em casa quando ele nos pre- veniu que viria visitar-nos. Margarida, rainha de Navarra, acrescentava mesmo, a propósito, que, no fidalgo, seria falta de polidez deixar a casa, como ocorre amiúde, a fim de ir ao encontro do visitante, qualquer que seja o seu nível; que é mais respeitoso e delicado esperá- lo, ainda que seja apenas de medo de um desencontro, bastando acompanhá-lo tão so- mente à saída. Libertando-me, quanto a mim, o mais possível de quaisquer atitudes cerimo- niosas, esqueço não raro uma e outra dessas fúteis obrigações. quem se ofenda com isso, mas que hei de fazer? É melhor que eu

?8 No sentido de conjunto de fragmentos no caso de ensaios. (N. do T.)

ofenda alguém uma vez do que ser aborrecido diariamente, o que redundaria em contínuo constrangimento. E de que serviria ter fugido da servidão da Corte se tal servidão nos deves- se perseguir no retiro? É igualmente de regra sejam os personagens menos importantes os primeiros a chegar, como fazer-se esperar é muito bem visto entre as pessoas de alta condi- ção social.

Entretanto, na entrevista que ocorreu em Marselha entre o Papa Clemente VIL e o Rei Francisco I, este, após haver ordenado os preparativos necessários, afastou-se da cidade durante dois ou três dias a fim de que pudesse aquele descansar antes de se encontrarem. Igualmente na entrevista de Bolonha, entre esse mesmo papa e o Imperador Carlos Quin- to, este se arranjou para que Sua Santidade chegasse em primeiro lugar. Isso a fim de que, dizia, o mais importante esteja antes que O outro no local assinalado, antes mesmo dague-

ENSAIOS —I 33

le no país do qual se realiza a entrevista, pois desse modo de parecer que ao de condição menos elevada cabe procurar o outro e não o

contrário. E ) Não somente cada país, mas também cada

cidade e até cada profissão têm, em questões de civilidade, seus usos próprios. Fui cuidado- samente educado na infância a esse respeito e vivi bastante na boa sociedade para não igno- rar Os que se praticam em França. Poderia

ensiná-los aos outros. Gosto de obedecer a tais regras, mas não a ponto de perturbar minha

vida. Muitas dessas regras são incômodas e

não deixamos de mostrar boa educação se por discrição ou ignorância omitimos algumas. Ao contrário pude ver certas pessoas faltarem aos deveres da polidez, porque os exageraram até se tornarem importunos.

Em verdade, utilíssima é uma tal ciência. Como a graça e a beleza, ela nos abre as por- tas da sociedade e da intimidade das gentes; dá-nos ademais a oportunidade de nos ins- truirmos pelo que vemos fazerem os outros e

por estes é aproveitado o que nós mesmos fazemos.

CAPÍTULO XIV

O bem e o mal o são, as mais das vezes, pela

idéia que deles temos

Os homens, diz antigo ditado grego, ator- mentam-se com a idéia que têm das coisas não com as coisas em sit. Seria grande passo, em alívio da nossa miserável condição, se se provasse que isso é uma verdade absoluta. Pois se o mal tem acesso em nós porque jul- gamos que o seja, parece que estaria em nosso poder, ou não o levarmos a sério ou o colocar- mos a nosso serviço. Se tal coisa depende de nós, por que não a resolveremos, liquidando-a ou tirando vantagem dela? Se aquilo a que chamamos mal não é nem mal nem tormento, e se somente nossa fantasia lhe atribui tal qua- lidade, podemos modificá-lo. E, em o podendo, é absurdo de nossa parte, e sem que nada nos obrigue, apegarmo-nos à solução mais aborre- cida. E por que atribuir à doença, à indigência, ao desprezo um gosto ácido e mau se o pode- mos modificar? Pois o destino apenas suscita o incidente; a nós é que cabe determinar a qua- lidade de seus efeitos. Vejamos portanto se é possivel afirmar com autoridade que aquilo a que chamamos mal não o é em si, ou, o que na mesma, se ainda que o seja depende de nós mudar-lhe a aparência e as consequências.

Se as coisas que tememos tivessem um cará- ter próprio, a todos se imporiam de igual maneira, produzindo idênticas consequências. Todos os homens são, efetivamente, da mesma espécie e, com pequenas diferenças, providos de órgãos semelhantes, instrumentos de con- cepção e julgamento. A diversidade de opi-

niões acerca das coisas mostra claramente que atuam sobre nós segundo um dado estado de espírito. Quando um que seja as admita como são realmente, mil outros as deformam e modi- ficam. Encaramos a morte, a pobreza e a dor como nossos piores inimigos. Ora, essa morte que alguns consideram “a mais horrivel entre as coisas horriveis” outros a julgam “o único refúgio contra os tormentos da vida o

maior benefício que nos deu a natureza a única garantia de nossa liberdade o único amparo imediato e comum a todos contra os males”. Aguardam-na alguns a tremerem de medo; outros, preferem-na à vida. E não falta até quem a considere demasiado acessível: “Ó

morte, quisessem os deuses que desdenhasses os poltrões e que somente a virtude merecesse tua preferência? ?.? Mas não nos ocupemos com tão gloriosas coragens.

Teodoro respondeu a Lisimaco que amea- çava matá-lo: “Farás uma bela coisa, à semelhança do que pode fazer a cantárida.” Em sua maioria os filósofos propositadamente se adiantaram à chegada da morte, ou se apressaram, ajudando-a. Quanta gente do povo nos é dado ver que, ao ser conduzida para a morte, e não simplesmente para a morte mas para a morte ignominiosa, acompanhada as vezes de cruéis suplícios, demonstra grande firmeza de ânimo, ou por ostentação ou natu-

7? Lucano.

34 MONTAIGNE

ralmente, a ponto que se diria nada ter mudado em sua vida? Tais indivíduos resolvem seus problemas domésticos, fazem recomendações aos amigos, cantam, dirigem exortações à mul- tidão, não desdenhando, não raro, a piada. E bebem à saúde de seus conhecidos com cora- gem idêntica à de Sócrates.

Um deles, que conduziam àforca, pediu que “evitassem de passar por tal rua porquanto corria O risco de encontrar certo negociante a quem devia um dinheirinho e receava ser preso”. Outro disse ao carrasco que não lhe bulisse no pescoço, pois era muito coceguento e poderia ter um acesso de riso. Outro respon- deu ao confessor que lhe afirmava cearia à noite com Nosso Senhor: em meu lugar, hoje estou de jejum. Outro, que pedira para beber, vendo o carrasco fazê-lo antes, no mesmo recipiente, recusou “com medo da sifi- lis”. Conhecem todos a história daquele picar- do a quem, quando subia a escada para a forca, apresentaram uma mulher prometendo- lhe mercê se com ela casasse. Ele a examinou um instante, e voltando-se para o carrasco exclamou: “cumpre o teu dever, é coxa”. Con- tam que na Dinamarca igual ocorrência se verificou. A um condenado à decapitação fize- ram idêntica proposta e ele a recusou porque a moça tinha as bochechas caídas e o nariz muito pontudo. Em Tolosa, um lacaio, acusa- do de heresia, dava como única razão de sua crença a palavra de seu patrão, jovem clérigo, como ele preso. Pois preferiu a morte a dei- xar-se persuadir do erro de seu senhor. E rela- tam as crônicas que em Arrás, ao se apoderar Luís XI da cidade, muita gente do povo se entregou à prisão para não gritar “Viva o rei”. Entre os bufões, seres assaz desprezíveis,

houve quem conservasse até o último instante

o espírito jocoso. Um deles, condenado à forca, no momento em que o carrasco o empurrava no vácuo, exclamou: Viva o pra- zer! o que era seu refrão habitual. Outro, a ponto de morrer, fora estendido sobre uma esteira junto à lareira e lhe perguntou o médico onde lhe doia: Entre a cama e a chama, respondeu 78. E ao padre que, para ministrar- lhe a extrema-unção, lhe procurava os pés encolhidos e crispados pela enfermidade, ob- servou: vós os achareis na ponta de minhas pernas. E exortando-o um dos presentes a recomendar-se a Deus: Vai alguém vê-lo hoje? Ao que o outro retorquiu: Tu mesmo, e dentro em breve, se Lhe aprouver. Não poderá ser amanhã à noite? —— Amanhã ou outro qual-

78 O trocadilho “Entre le banc” (leito superior, céu) “et le feu” (fogo da lareira, inferno) é intradu- zível. (N, do T.)

quer momento pouco importa; não demorará muito, por isso trata de te recomendares a Ele. Então é melhor que eu mesmo apresente as recomendações.

No reino de Narsinghpur as mulheres dos sacerdotes são ainda hoje enterradas vivas com os corpos de seus maridos; as outras mulheres que não pertencem à mesma casta são queimadas vivas nos funerais de seus espo- sos e todas suportam a sorte não somente com firmeza de ânimo, mas também com alegria. À morte do rei, suas mulheres, suas concubinas, seus favoritos, seus oficiais e servidores apre- sentam-sg om fervor à fogueira em que arde o seu senhor e na qual vão precipitar-se, conside- rando grande honra acompanhá-lo ao outro mundo.

Durante nossas últimas guerras na região milanesa, foi Milão tantas vezes tomada e reto- mada que o povo, impacientado com essas mudanças repetidas de destino, adquiriu tal indiferença ante a morte, que meu pai de quem eu o ouvi contou que, de uma feita, em uma semana, vinte e cinco chefes de família se suicidaram. Esse fato lembra o'que ocorreu no sítio de Xanthe a Bruto. Os habi- tantes, homens, mulheres e crianças, precipita- ram-se em massa ao encontro da morte e com tal desejo de perder a vida, que mais não se teria feito para salvá-la. E foi somente com penosos esforços que pôde Bruto poupar alguns.

Qualquer idéia pode apoderar-se de nós com força bastante para que a sustentemos até a morte. O primeiro artigo do juramento, tão impregnado de coragem, que fizeram os gregos durante as guerras médicas, determinava que todos se comprometessem antes a morrer do que a se sujeitar a dominação dos persas. E quantos na guerra entre turcos e gregos preferi- ram a morte cruel a renunciar a circuncisão e a aceitar o batismo? E de atos semelhantes exemplos em todas as religiões.

Tendo os reis de Castela banido os judeus de suas terras, vendeu-lhes o Rei João de Por- tugal, à razão de oito escudos por cabeça, a faculdade de se refugiarem em seu reino duran- te determinado tempo, ao fim do qual deviam partir. Para tanto se comprometia a fornecer- lhes navios que os transportassem à África. Vencido o prazo, após o qual os que não dei- xassem o território seriam reduzidos à escravi- dão, verificou-se haver número escasso de embarcações. Os que puderam embarcar, rude- mente maltratados pelas equipagens, sofreram mil e uma indignidâdes; e andaram a navegar de um lado para outro até que, esgotadas as provisões, se vissem constrangidos a comprá- las, e mui caro, dos que os transportavam, a

ENSAIOS IT 35

ponto de, em se prolongando tal estado de coi- sas, chegarem a desembarcar com apenas a ca- misa do corpo. Ao se informarem desse trata- mento inumano, os que haviam ficado em Portugal conformaram-se com a servidão. Al- guns fingiram mesmo mudar de credo. O Rei Manuel, sucessor de João, em subindo ao trono, devolveu-lhes inicialmente a liberdade. Mais tarde, mudando de opinião, ordenou-lhes que saíssem do reino e lhes assinou três portos de embarque. Diz o Bispo Osório, historiador latino digno de em nossa época e que escre- veu a crônica daqueles tempos, que, em não os tendo convertido a liberdade, esperava o rei se decidissem ante tais condições, a fim de se livrarem do saque dos marinheiros a que de- viam ser entregues, ou ainda para não troca- rem uma terra, a que se haviam acostumado e na qual possuíam grandes riquezas, por qual- quer região estrangeira deles desconhecida. Vendo-os resolvidos a partir e assim perdidas suas esperanças, o rei suprimiu dois dos portos autorizados, ou porque esperasse que um per- curso maior e os maiores incômodos disso resultantes atemorizassem certo número, ou porque em os reunindo todos em um local teria maiores facilidades na execução do proje- to concebido de separá-los dos filhos menores de catorze anos, os quais, longe dos pais, se educariam segundo a nossa religião. Osório acrescenta que a execução dessa medida teve conseguências horríveis. A afeição natural pelos filhos juntando-se ao apego à própria (de encontro ao que se chocava a bárbara ordem) fez que numerosos pais e mães se destruíssem a si próprios e, espetáculo mais horroroso ainda, por amor e compaixão, jogas- sem os filhos em poços a fim de subtrai-los à

violência imposta. Finalmente, esgotado o

prazo para a partida, e dada a falta de meios de transporte, retornaram os judeus à servidão. Alguns se tornaram cristãos, mas ainda hoje, cem anos passados, poucos portugueses estão convencidos da sinceridade de sua fé, bem como dos demais de sua raça, muito embora o hábito e o tempo, mais do que a coerção, sejam os fatores de maior influência nas mudanças de tal natureza. Em Castelnaudary, cinquenta albigenses, acusados de heresia, recusaram-se a renegar sua crença e foram queimados vivos, todos juntos, suportando o suplício com uma coragem admirável: “Quantas vezes vimos enfrentarem a morte certa não somente nossos generais mas tam- bém nossos exércitos inteiros 7º.”

Vi um de meus amigos íntimos desejar a morte à força. Absolutamente imbuído dessa

79 Cicero.

idéia, que ele próprio enraizara em si atravês

de uma argumentação especiosa contra a qual nada pude, valeu-se com ardor febril da pri- meira oportunidade honrosa que se lhe ofere- ceu para pô-la em prática sem que o percebes- sem. Temos vários exemplos de pessoas, inclusive crianças, que em nossa época se sui- cidaram para abreviar a incômodos de nona- da. A esse propósito não nos diz um autor antigo: “Que não havemos de temer, se recea- mos o que a própria covardia escolhe como refúgio 280?

Não acabaria mais se aqui enumerasse todos os indivíduos de sexos, condições e sei- tas diferentes que, em tempos mais felizes, aguardaram a morte com resolução, ou a pro- curaram voluntariamente, e a procuraram não somente para pôr fim aos males desta vida como também, alguns, por andarem fartos dela ou porque esperavam vida melhor no outro mundo. São em número infinito, e mais cômo- do me parece suputar aquelas para quem a morte foi motivo de temor. Um exemplo basta: estando o filósofo Pirro em um navio, presa de violenta tempestade, aos que maior pavor evidenciavam mostrava ele um porco indife- rente ao temporal, e os instava a tomá-lo como exemplo. Ousaremos pois sustentar que a razão, essa faculdade de que tanto nos orgu- lhamos, e em virtude da qual nos conside- ramos donos e senhores dos demais seres, nos foi dada para objeto de tormento? De que nos serve entender as coisas se com isso nos torna- mos mais covardes, se esse conhecimento nos tira o repouso e a tranquilidade de que goza- riamos sem ele, se nos reduz a condição pior que a do porco de Pirro? Para nosso maior bem é que fomos dotados de inteligência; por que fazê-la voltar-se contra nós, contraria- mente aos desígnios da natureza e à ordem universal que querem que cada um use suas faculdades e seus meios de ação da maneira mais conveniente à sua comodidade?

Admitamos, direis, que tendes razão no que concerne à morte, mas que pensais da indigên- cia? E da dor, que ÁAristipo, Jerônimo e a maioria dos sábios consideraram o maior dos males, isso com que concordam, na realidade, mesmo os que o negam em suas palavras? Sofrendo Possidônio aguda crise de dolorosa enfermidade, recebeu a visita de Pompeu, o qual se desculpou de haver escolhido tão mau momento para ouvi-lo divagar sobre filosofia: “Não permita Deus”, disse o filósofo, “que me domine a dor a ponto de me impedir de disser- tar”, e pôs-se a falar precisamente acerca da

Montaigne não nomeia o autor, mas trata-se de Sêneca.

36 MONTAIGNE

atitude de desprezo a ser assumida diante da dor. Enquanto discorria, ia entretanto aumen- tando o sofrimento: “Por mais que me casti- gues, ó dor, jamais convirei em que és um mal.” Que prova esta história de que se preva- lecem- os filósofos para discursar acerca do desprezo que devemos votar à dor? É questão de palavras. Se não se comovia com as alfine- tadas da dor, por que interrompeu seu discur- so? Por que pensava fazer ato meritório em não a chamando um mal? Não se trata aqui simplesmente de imaginação. Podemos opinar com conhecimento de causa, porquanto são nossos próprios sentidos os juízes: “Se nos enganam, a razão igualmente nos engana?!” Poderemos forçar nossa came a admitir que chicotadas sejam cócegas? E nosso paladar a apreciar a babosa como um vinho Graves*2? O porco de Pirro entra aqui em apoio de nossa tese: não se apavora ante a morte iminente; mas se o batermos, gritará. Negaremos a lei geral da natureza, que se manifesta em tudo o que, sob a abóbada celeste, tem vida e treme ao golpe da dor? Até as árvores parecem gemer quando as mutilamos!

sentimos a morte pelo pensamento, tanto mais quanto é coisa de um instante: “Ou a morte foi, ou será; nada é presente nela?” Ela é menos cruel do que sua esperaº *. Milha- res de homens, milhares de animais morrem sem'se sentirem ameaçados. Dizemos também que o que tememos principalmente na morte é

a dor, seu sinal precursor. Entretanto, a julgar:

por um Pai da Igreja: “A morte nac é um mal senão pelo que vem depois? *.” Creio estar mais perto da verdade dizendo que nem o que a precede, nem o que a ela se segue são partes integrantes-da morte. Falamos erroneamente a esse respeito. A experiência mostra que é antes a inquietação causada pelo sentimento da morte que faz com que lhe sintamos vivamente a dor, e nossos sofrimentos nos são penosos quando os pressentimos capazes-de nos condu- zir a tal fim. Mas o raciocinio enche-nos de vergonha por temermos coisa tão repentina, inevitável e que não se sente; e mascaramos nossa covardia com os pretextos mais plausi- veis. Os males que, como consequência, nos trázem sofrimento, nós os consideramos sem perigo. Quem encara como doença as dores de dentes, a gota, por dolorosas que sejam, se não nos ameaçam a vida? 82

81 Lucrécio.

82 Bordéus branco.

83 La Boétie.

8* Ovídio.

85 Santo Agostinho.

se confusão de Montaigne quanto à gota, que pode ser mortal.

Admitamos um momento que na morte principalmente a dor nos preocupe. Não é tam- bém a dor que se nos apresenta no caso da pobreza, e no-la torna sensível pela sede, o frio, o calor, as vigílias? Ocupemo-nos pois unicamente com ela. Admito seja O pior aci- dente que nos possa acontecer, e isso tanto mais quanto sou 0 homem no mundo que lhe quer mais mal, e a evito quanto posso, embora, graças a Deus, não tenha tido por enquanto muita intimidade com ela. Mas está em nós, senão aniquilá-la, ao menos diminuí-la em nos mostrando pacientes e em livrando dela nossa alma e nossa inteligência, ainda mesmo que mantenha em suas garras O nosso corpo. Se assim não fosse, que valor teriam a virtude, a valentia, a força, a magnanimidade, a firmeza de ânimo? Que papel desempenhariam se não pudéssemos desafiar a dor? “A virtude é ávida de perigos* 7.” Se não devêssemos dormir ao deus-dará, aguentar dentro da armadura o calor do meio-dia, comer carne de cavalo e asno, ser cortado em pedaços, deixar extraírem uma bala da nossa came, sofrer quando nos recosem ou nos cauterizam, ou nos colocam sondas, como adquiririamos nossa superiori- dade sobre o homem comum? E não nos con- vidam os sábios a evitar o mal e a dor, quando. nos dizem que entre muitas ações igualmente boas cabe-nos desejar cumprir a que maiores dificuldades apresenta em sua execução? “Não é pela alegria e pelos prazeres, nem pelos divertimentos e pelo riso, companheiros habi- tuais da frivolidade, que nos tornamos felizes; nós o somos também amiúde na tristeza, pela decisão e pela perseverança**.” Eis por que nossos pais nunca compreenderam que as con- quistas feitas pela força e correndo os riscos da guerra fóssem mais vantajosas do que as obti- das sem perigo pela inteligência e pela diplo- macia: “A virtude é tanto mais doce quanto mais nos custa**º

mais, e isso nos deve consolar: é que, naturalmente, “quando a dor é violenta, dura pouco; e quando se prolonga, é leve”*º. Não a sentimos muito tempo se é excessiva; ou deixa- de sê-lo ou porá fim à nossa existência, o que na mesma. Se não a podemos suportar ela nos destrói: “Lembra-te de que as grandes dores terminam com a morte; de que as peque- nas nos deixam numerosos intervalos de repouso e de que somos capazes de dominar as de intensidade média. Enquanto são suportá- veis; suportemo-las com paciência; se não o

87 Sêneca. 88 Cicero. 8% Tucano. 90 Cítero.

ENSAIOS Ei

são, se a vida nos aborrece, saiamos dela como de um teatro”! ?

O que faz que tão impacientemente suporte- mos a dor é que não estamos habituados a pro- curar em nossa alma nossa principal satisfa- ção; não contamos suficientemente com ela, que é a única e soberana senhora de nossa con- dição neste mundo. O corpo tem (salvo quanto ao mais e ao menos) uma maneira de ser e de fazer; a alma, sob formas diversas e variadas e segundo o estado em que se acha, submete a si as sensações do corpo e outros acidentes. Dai a necessidade de estudá-la, e

acordar nela seus meios de ação que são todo-

poderosos. Não raciocínio, nem prescrição, nem força que possam prevalecer contra suas preferências. Entre tantos milhares de meios à nossa disposição, escolhamos um que assegure nosso sossego nossa conservação e estare- mos não somente resguardados contra qual- quer insulto, como também ofensas e males redundarão, se nos aprouver, em vantagens para nós. E talvez até nos regozijemos com eles. A alma tira partido de tudo indiferente- mente: erro e sonho servem-lhe tanto, quanto a realidade, para nos proteger e satisfazer. E fácil verificar que nosso estado de espírito é que excita em nós a dor e a volúpia; nos ani- mais, sobre os quais o espírito não atua, as sensações físicas manifestam-se naturalmente, tal qual são sentidas, e são por conseguinte mais ou menos uniformes em cada espécie, como se constata pela similitude das reações. Se não interviéssemos ro comportamento de nossos membros, pot certo nos sentiriamos melhor, pois sem dúvida lhes deu a natureza reações justas e moderadas em relação à dor; e não poderiam deixar de ser justas, porquanto em todos seriam idênticas. Mas como nos emancipamos de seus ditames, e nos entrega- mos à mais anárquica fantasia, procuremos ao menos orientar-nos no sentido que nos seja mais agradável.

Platão receia que atentemos demasiado para a dor e a volúpia, o que, a seu ver, tornaria a álma dependente em excesso do corpo. Acre- dito antes que a desligam deste e a libertam. Assim “como a fuga torna o inimigo mais encamiçado na perseguição, orgulha-se a dor de nos fazer tremer. Em relação a quem a enfrenta ela se mostra mais cordata; resista- mos, pois, e contenhamo-la. Batendo em retira- da, deixando que nos acue, provocamos e cha- mamos a nós a ruína que nos ameaça. Em se retesando, o corpo suporta melhor a carga; assim também a alma.

Mas, passemos aos exemplos de interesse

Sd:

particular para as pessoas que como eu sofrem dos rins. Veremos que ocorre com a dor o mesmo que com os cristais que se coloram de acordo. com o fundo em que repousam; e que ela ocupa em-nós o lugar que lhe damos: “Quanto mais eles se entregam à dor, tanto mais ela os dominaº*. Sentimos mais aguda- mente um golpe de bisturi dado pelo médico do que dez estocadas no calor da luta. As dores do parto, que os médicos, e também Deus, estimam grandes e que cercamos de tan- tos cuidados, não lhes dão atenção certos povos. Deixo de lado as mulheres de Esparta, mas entre as suíças, na nossa criadagem, não se percebe que pariram, a não ser por anda- rem, ao depois, atrás de seus maridos com a criança ao pescoço, que antes carregavam no ventre. E essas ciganas feias que surgem por vezes em nossa terra lavam seus filhos recém- nascidos no riacho em que se banham ao mesmo tenpo. Sem falar de tantas raparigas** que dão à luz diariamente; e clandestinamente, crianças também concebidas às escondidas. Mas a nobre e bela esposa de Sabino, patrício romano, a fim de não comprometer a outrem, suportou sozinha e sem gemido as dores do parto de dois gêmeos. Um jovem de Lacede- mônia, que roubou uma raposa e a escondeu sob o manto, deixou que ela lhe rasgasse o ven- tre para não confessar a tolice, porque temia mais a vergonha que nós a punição. Outro, ao apresentar o incenso, deixa-se queimar pór uma brasa caída em sua manga, a fim de não perturbar a cerimônia. E não se mencionam numerosos casos de crianças de sete ános que nos sacrifícios da iniciação, entre os lacedemô- nios, suportavam, sem chorar e até morrerem, a flagelação? Cicero viu-os baterem-se em gru- pos, de unhas e dentes, até perderem os senti- dos para não se confessarem vencidos: “Jamais os costumes vencerão a natureza, que é invencível; mas a moleza, os prazeres, o Ócio, a indolência alteram nossa alma; as falsas opi- niões e os maus hábitos corrompem-na? *.” Todos conhecem a história de Scevola que, tendo-se introduzido no acampamento inimigo para matar o chefe, não o conseguiu e, dese- joso de atingir de qualquer maneira seu obje- tivo de libertar a pátria, teve uma idéia estra- nha. Confessando seu projeto a Porsena, o rei visado, acrescentou, a fim de assustá-lo, que no campo romano"havia muitos como ele pró- prio decididos a tentar o golpe que falhara. E para mostrar que espécie de homem era ele,

*2 Santo Agostinho.

93 No texto “garce”, hoje pejorativo, outrora femi- nino de “garçon”. (N. do T.)

94 Cicero.

38 MONTAIGNE

aproximou-se de um braseiro, estendendo o braço e assim o manteve a grelhar e sem demonstrar sofrimento até que o monarca ini- migo, horrorizado, mandasse afastar o brasei- ro. E que dizer daquele que não interrompeu a leitura enquanto lhe amputavam um membro? E do outró que persistiu em motejar e rir-se das torturas, a ponto de se exasperarem os car- rascos e se confessarem vencidos após os mais cruéis suplícios inventados para dominá-lo? É verdade que era filósofo !

Um gladiador de César não cessou de grace- jar enquanto lhe abriam os ferimentos e os sondavam: “Já se viu um gladiador, por infimo. que seja, gemer ou mudar de fisionomia? Que arte não põe ele em sua própria queda para esconder tal vergonha aos olhos do público! Derrubado afinal pelo adversário e.condenado pelo povo, virou jamais a cabeça ao receber o golpe de misericória?º *”

Passemos às mulheres. Quem não ouviu falar daquela que, em Paris, mandou que a esfolassem na esperança de obter uma pele mais suave? quem arranque dentes sadios e viçosos para que a voz se torne mais doce ou para que eles tenham mais bela aparência. Quantos exemplos de desprezo à dor não temos nós desse gênero? São capazes de tudo e nada temem por pouco que sua beleza se bene- ficie: “Existe quem mande arrancar os cabelos brancos e se raspe para obter pele novaº 8? Vi quem engolisse areia, cinza, e sacrificasse o estômago a fim de conseguir uma tez pálida. Para ter o porte fino e elegante das espanholas, a quantas torturas se sujeitam, afetadas, arro- chadas, entaladas até se ferirem e por vezes morrerem!

Entre muitos povos de nossa época acontece comumente que, para provar a veracidade de suas palavras, se inflijam voluntariamente cas- tigos. Nosso rei cita casos vistos na Polônia, verificados como comprovantes de declarações que lhe foram feitas. Em França, afora casos semelhantes de imitação, vi na Picardia, pouco antes de voltar dessas famosas reuniões de Blois, uma moça que, para demonstrar a since- ridade de Si promessas, e sua fidelidade, espetou o braço cinco vezes com um estilete que trazia aos cabelos, sangrando abundante- mente. Os turcos dão-se grandes cutiladas em honra de suas damas, e a fim de que não se apaguem queimam as chagas longamente, não para sustar o sangue mas também para que se formem cicatrizes. Isso me foi dito e jurado por pessoas que o presenciaram. Nesse mesmo país vêem-se todos os dias indivíduos que, por

35 Cícero. 96 Tibúrcio.

algumas moedas, talham profundamente o braço ou a coxa. Agrada-me que abundem os testemunhos das coisas que importa estabele- cer, e nesse ponto o cristianismo nos fornece provas concludentes. Depois de nosso divino Guia, quantos quiseram, como ele e por devo- ção, carregar a cruz! Testemunhas dignas de informam-me de que São Luís usou cilício até o momento em que, na velhice, o proibiu seu confessor. E todas as sextas-feiras fazia-se açoitar por um padre, com um açoite de cinco ferros que para tal trazia sempre consigo entre seus apetrechos domésticos.

O último Duque de Guyenne, Guilherme, pai de Eleonora, que trouxe para a casa de França esse ducado, usou constantemente, como penitência e durante dez ou doze anos, uma couraça sob o hábito religioso. Foulques, Conde de Anjou, foi até Jerusalém com uma corda ao pescoço, para se fazer açoitar dian- te do túmulo do Senhor. E não se vêem todos os anos, na sexta-feira santa, homens e mulhe- res aos magotes flagelarem-se reciprocamente até se rasgarem a pele e porem a nu os ossos, espetáculo de que fui não raro testemunha e não me seduziu jamais? Tais pessoas usam máscaras e algumas que o fazem por dinheiro para garantir a salvação de outrem. Demonstram um desprezo à dor tanto maior quanto a avareza é um estimulante menos forte do que o fanatismo.

C. Maximus enterrou o filho, personagem consular; Catão o seu, pretor nomeado; L. Paulus os dois que tinha, a poucos dias de intervalo, e seus rostos não refletiram a menor emoção, nada revelou-lhes a tristeza. De uma feita disse eu de alguém, gracejando, que frus- trara a justiça divina: por um cruel destino, perdera no mesmo dia, de morte violenta, três filhos grandes; pouco faltou para que consi- derasse o acidente como um favor e um benefi- cio particular da Providência. Não aprecio

esses sentimentos antinaturais: perdi dois ou

três filhos, em verdade ainda de peito. Con- quanto eu não tenha morrido de dor, não dei- xou a coisa de me chocar. Trata-se aliás de uma das infelicidades a que o homem é mais sensível. Existem muitas outras causas de afli- ções que se verificam comumente e não me perturbariam se me atingissem. Desdenhei algumas que me ocorreram, dessas que todos consideram deverem afetar realmente; e.não ousaria sem corar vangloriar-me em público de minha indiferença: “De como se verifica que a aflição não provém da natureza, mas decorre da opinião” 7.” Esta é, com efeito, uma potência 'que tudo ousa e não tem medida.

97 Cicero.

ENSAIOS —I 39

Quem jamais procurou a segurança e o repou- so com mais ansiedade do que mostraram Ale- xandre e César na busca da inquietação e das dificuldades? Terez, pai de Sitalcez, dizia amiúde que quando não estava em guerra não lhe parecia houvesse alguma diferença entre ele e o seu moço de estrebaria. Quando cônsul, à fim de assegurar a submissão de certas cida- des da Espanha, Catão proibiu o porte de armas aos habitantes, em consequência do que muitos se mataram: “nação feroz que não “acreditava se pudesse viver sem combater”º 8 E não conheceis inúmeros que renunciaram à doçura de uma existência tranquila em seu lar, entre amigos e conhecidos, para irem viver em horríveis desertos inabitáveis? E outros não adotaram um tipo de vida abjeta, degradante, em que afetam comprazer-se, desprezando a sociedade? O Cardeal Borromeu, recém-fa- lecido em Milão, a quem a nobreza, a imensa fortuna, o clima italianó e a mocidade outorga- vam todas as alegrias e gozos, viveu constante- mente em tal regime de austeridade que usava a mesma batina, no inverno como no verão; dormia unicamente sobre a palha; e as horas que os deveres do cargo não lhe consumiam, ele as passava de joelhos, estudando continua- mente, tendo ao lado de seu livro um pedaço de pão e um pouco de água, que era tudo de que se compunha sua refeição, e também o tempo que lhe destinava. Conheço quem, com perfeito conhecimento de causa, tirasse pro- veito e promoção da infidelidade da mulher, coisa cuja simples idéia apavora tanta gente. Se a vista não é o mais necessário dos nos- sos sentidos, é pelo menos o que nos maior prazer; e de todos os nossos órgãos, os que contribuem para gerar parecem os mais úteis e os que proporcionam maior felicidade. Certas pessoas, entretanto, os detestam unicamente por causa das inefáveis satisfações que nos for- necem, é OS sacrificam por isso mesmo que são valiosos. É provavelmente análogo o racio- cínio de quem vaza voluntariamente os olhos. A opinião que temos das coisas é que as valoriza. Isso se pelo grande número daque- las que não examinamos a não ser para as ava- liar, antes que a nós mesmos. Não lhes ponde- ramos nem a qualidade nem a utilidade, mas apenas o que nos custam para as obtermos, como se o que pagamos fosse parte integrante delas; e o valor que lhes atribuímos mede-se não pelos serviços que nos prestam, mas pelo que demos para consegui-las. Isso me induz a achar que as usamos de maneira estranha, pois valem segundo o que pesam e na medida do peso. E nunca as deixamos desvalorizarem-se.

98 Tito Lívio.

O preço valor ao diamante; a dificuldade à virtude; a dor à devoção; o amargor ao remé- dio. quem para chegar à pobreza jogue ao mar seus escudos, esse mesmo mar que outros esquadrinham e batem para encontrar a rique- za. Epicuro disse: ser rico não signfica des- pir-se de preocupações, mas tão-somente tro- cá-las por outras, e em verdade não é a carência e sim a abundância que acarreta a avareza.

Eis o que.a esse respeito me sugere a experiência:

Minha vida ao sair da infância apresentou três fases. A primeira durou cerca de vinte anos durante os quais vivi de recursos fortui- tos, na dependência de outros, sem renda pró- pria, sem uma situação definida nem previsão orçamentária. Gastava tanto mais alegre e descuidadamente quanto tudo provinha dos acasos felizes da sorte. Nunca passei melhor; nunca me aconteceu achar fechada a bolsa dos amigos. Impusera a mim mesmo, de resto, e como dever primeiro, pagar minhas dívidas em seu vencimento, o que me valeu mais de uma vez a prorrogação do mesmo, porquanto meus credores se comoviam com o meu esforço. Tal lealdade me tornou econômico e nunca enga- nei a ninguém. Sinto naturalmente algum pra- zer em pagar o que devo, como se me desfi- zesse de um fardo incômodo, imagem da servidão. Por outro lado, satisfaz-me fazer algo justo e que contente a outros. Abro exce- ção para os pagamentos em que é preciso rega- tear e contar. Quando me encontro nessa necessidade e não posso dar a outro a incum- bência, vergonhosamente e por certo erronea- mente, adio quanto possível o cumprimento da obrigação, a fim de evitar essas discussões a que, por temperamento e maneira de me expri- mir, sou infenso. Nada detesto mais do que regatear: é uma justa de trapaças e impudên- cias em que, após uma hora de conversas, cada qual transige, falhando à palavra dada e às afirmações reiteradas. E isso por alguns vin- téns a mais ou a menos. Também me via em apertos quando tinha de pedir emprestado, e, não me animando a fazê-lo oralmente, corria o risco por escrito, o que me parece menos peno- so e torna mais fácil a recusa. Entregava mais facilmente e com menor inquietação à minha estrela a satisfação de minhas necessidades do que me ocorreu depois, ao se desenvolverem em mim o espirito de previdência e o racioci- nio. As pessoas que têm negócios a adminis- trar consideram em geral horrível viver nessa constante incerteza. Em primeiro lugar não se lembram de que a maioria dos homens assim vive. Quanta gente de bem abandonou a renda certa e quanta o faz diariamente para ir

40 MONTAIGNE

em busca de favores reais e de fortuna! César, para se tornar César, endividou-se em cerca de um milhão em ouro. Quantos negociantes se iniciam no comércio mandando tender sua fazenda às Índias “por tantos mares borrasco- sos”ºº. Nesta época em que tão cara se faz a devoção, não vivem mil e uma congregações e sem percalços contando diariamente com as liberalidades do céu para comer? Em segundo lugar essa gente ordeira não pensa que o que se lhes afigura assegurado não é menos incerto e arriscado do que o próprio acaso. Com mais de mil escudos de renda estou tão perto da miséria como se a beirasse. Não somente o destino tem em suas mãos cem meios de abrir uma brecha na riqueza para a entrada da pobréza (e por vezes não meio termo entre a fortuna excessiva e a miséria) “a fortuna é de vidro; quanto mais brilha tanto mais frágil”"ºº. não somente tem esse destino a possibilidade de derrubar e desmantelar todas as defesas que possamos erguer a fim de nos protegermos; mas acho também que a indigência existe em geral tanto entre os que possuem como entre os que não têm nada. Direi mesmo que, sozinha, ela incomoda menos do que em companhia da riqueza, resul- tando esta menos da renda que da ordem na sua-administração: “Cada qual é o artesão de sua fortuna”'º1, e um rico necessitado, com dificuldades, me parece mais miserável do que um pobre, simplesmente pobre: “a indigência no meio da riqueza é a mais pesada das pobre- zas”'º02 Os maiores príncipes, aqueles mes- mos que são os mais ricos, quando carecem de dinheiro, quando seus recursos se esgotam, são os mais -habitualmente impelidos às piores ações, pois haverá coisa mais triste do que se fazer tirano e se apossar injustamente dos bens

de seus súditos? tg A segunda fase de minha existência ocorreu

quando eu tinha dinheiro. Tomando gosto nisso, não demorei em criar reservas, impor-

tantes para a minha condição, estimando que sornente o que sobreexcede a despesa comum constitui um haver e que não podemos ter por seguro um bem apenas augurado, por mais jus- tas que sejam as esperanças, pois, dizia a mim mesmo, que me aconteceria se me surpreen- desse tal ou qual acidente? O resultado de pen- samento tão fútil e doentio foi que me esforcei, com a criação dessa reserya supérflua, por me garantir contra qualquer eventualidade desa- gradável. E aos que observavam serem essas eventualidades demasiado numerosas para que

98 Catulo.

19º Públio Siro. 101 Sêneca. 102 Td.

me precavesse contra elas, eu respondia que, se não me podia resguardar de todas, podia aten- tar para algumas e em particuiar as mais prováveis. Isso não se verificava sem me cau- sar apreensões. Mantinha-as secretas e eu, que falo tão livremente de tudo que me diz respei- to, não falava a verdade quanto ao dinheiro que possuía. Ágia como muitos outros, cs ricos que se dizem pobres e os pobres que afir- mam ser ricos, dispensando a consciência de um testemunho sincero, o que constitui ridi- cula e vergonhosa prudência. Se viajava, pare- Cia-me sempre não estar suficientemente provi- do de dinhéiro e quanto mais levava comigo tanto mais preocupado me tornava, por causa da insegurança das estradas, porque não depositava confiança na fidelidade da criadagem encarregada das bagagens. Se dei- xava meu cofre em casa, quanta suspeita e inquietação, tanto piores quando não podia confessar-me a ninguém e tinha o espírito constantemente voltado para esse lado. Afinal de contas guardar o dinheiro mais trabalho do que ganhá-lo. E se não fazia tudo o que estou a dizer, não me custava menos evitar de fazê-lo. Disso tirava em verdade pouco ou ne- nhum proveito, e embora me fosse permitido gastar mais, não me pesava menos o gesto, pois, como diz Bion: “Quem tem farta cabe- leira não sofre menos do que o calvo, se lhe arrancam um cabelo”. Adquirido o habito e fi- xada a mente no pecúlio a juntar, não mais ousamos esborciná-lo; é um edificio que teme- mos ver desmoronar-se em o tocando e é preci- so um grande aperto para que o parcelemos. E empenhar minhas roupas ou vender um cavalo me fora menos penoso do que mexer nessa bolsa querida que tão bem guardava. O perigo estã em que é dificil estabelecer limites preci- sos para essa mania de entesourar (assim ocor- re com as coisas que julgamos boas) e pôr um paradeiro nela. Yamos sempre ampliando o que acumulamos e fixando tais limites, sempre mais alto, a ponto de nos privarmos pouco honrosamente do gozo de nossos próprios bens, guardando o total sem usá-lo. Desse ponto de vista as pessoas mais ricas do mundo seriam as encarregadas de controlar as portas e os baluartes de uma cidade importante.'Todo indivíduo possuidor de muito dinheiro tem ten- dência para a avareza.

Platão assim classifica os bens corporais ou humanos: a saúde, a beleza, a força, a riqueza. E diz: a riqueza não é cega, iluminada pela prudência é muito clarividente. Dionísio, o Jovem, teve um dia uma idéia divertida. Avisa- do de que um de seus siracusanos enterrara um tesouro para escondê-lo, mandou-lhe que o trouxesse. O homem obedeceu, não porém sem

ENSAIOS —I 41

primeiro levar uma parte com a qual se estabe- leceu noutra cidade. Sua desventura matara nele o gosto de entesourar e pôs-se a viver largamente. Soube-o Dionísio, e ordenou a restituição do tesouro, dizendo que o fazia de bom grado porquanto o dono aprendera a

usá-lo. neta Assim continuei durante alguns anos pen-

sando unicamente em economizar. Não sei que bom demônio me guiou, como ao siracusano, e me levou a mudar de conduta e a abandonar por completo esse espirito de poupança. A uma viagem muito dispendiosa devo a resolu- ção de renunciar a tão tola maneira de viver. E desse modo cheguei a uma terceira fase, certa- mente muito mais agradável e normal, penso eu, deixando que corram despesas e renda, sobreexcedendo-se mutuamente ao acaso, mas sem diferenças sensíveis. Vivo assim ao sabor do momento, contentando-me com atender às necessidades do presente e às despesas previs- tas. Quanto ao imprevisto, não bastariam todas as previsões do mundo, e seria loucura imaginar que com suas próprias mãos nos armasse a fortuna contra c destino!º*: é com os nossos meios que devemos combatê-lo; qualquer arma de ocasião nos trairia no momento crítico. Se junto ainda, não o faço em vista de despesa futura, nem para comprar terras, de que não preciso, mas para me diver- tir: “é ser rico não se mostrar ávido de rique- zas; é uma renda não comprar”?!º *. Não temo que meus rendimentos falhem nem desejo que aumentem: “o fruto da riqueza é a abundância e a abundância acarreta a saciedade” 8. Feli- cito-me a mim mesmo por me haver corrigido dessa inclinação para a avareza em uma idade em que para ela tendemos naturalmente, e por me haver desfeito dessa loucura, a mais ridi- cula das loucuras humanas e tão comum nos velhos. Feraulez, que passara por essas duas fases da fortuna, achando que à ampliação de seus bens não correspondera um aumento igual do apetite, da sede, da possibilidade de dormir e acariciar a mulher, e tendo em mente ainda os aborrecimentos decorrentes da admi- nistração de suas riquezas, resolveu fazer a felicidade de um rapaz pcbre, amigo fiel que sonhava com enriquecer. Deu-lhe todo o seu patrimônio, que era considerável, excessivo até, com o acréscimo da forte valorização de- vida à guerra e às liberalidades de Ciro, seu bondoso e generoso senhor, sob a condição de se encarregar o beneficiado de alimentá-lo e

103 “contre elle-même”. O trocadilho fortuna» riqueza e fortuna-destino -— tornaria obscuro o pensamento. (N. do T.)

104 Cicero.

105 Id.

sustentá-lo decentemente como hóspede e amigo. Desde então viveram igualmente satis- feitos com a mudança de situações.

Eis um gesto que de bom grado imitaria e muito louvo o sábio partido que tomou um velho prelado meu conhecido, o qual entrega muito simplesmente sua bolsa e suas rendas e o cuidado de sua existência ora a um ora a outro servidor. Desse modo viveu longos'anos tão ignorante .de seus negócios domésticos quanto um estranho. A confiança na bondade alheia é um testemunho nada desprezível da própria bondade, e Deus a protege. E talvez isso explique por que esse prelado teve sempre a casa tão dignamente administrada. Feliz de quem regula tão bem suas necessidades que suas rendas lhe bastam, sem que se tornem motivo de preocupação ou perturbação e sem que repartição ou recuperação sejam um entra- ve a outras ocupações mais de acordo com

- seus gostos e às quais se possa dedicar conve-

niente e trangiilamente.

- Abastança e indigência dependem, pois, da idéia que delas temos. À riqueza, como a gló- ria e a saúde, atrai e causa prazer na medida em que empresta prazer e atração a quem a possui. Estamos bem ou normal neste mundo segundo o que pensamos: contente está quem se acredita contente e não aquele que os outros imaginam contente. Nossa crença é que faz seja ou não seja real a felicidade. A fortuna não nos outorga o bem ou o mal, ela se limita a fornecer-nos os elementos do bem e do mal, os quais nossa alma, mais poderosa do que ela, trabalha e aplica como lhe apraz, tornando-se dessa maneira única senhora e causa de nossa condição. Os efeitos externos tiram cor e sabor de nossa constituição interna, como as roupas que usamos nos aquecem não com seu calor próprio, mas com O nosso, que conservam e desenvolvem. Se com eles cobrissemos um corpo frio, inverso seria o resultado. Desse modo conservam-se a neve e o gelo. Todas as coisas dependem da maneira por que são enca- radas: o estudo é motivo de tormento para o preguiçoso; o beberrão sofre sem vinho; a frugalidade é um suplício para o comilão; o exercício uma tortura para o delicado ocioso, etc. As coisas não são nem dolorosas nem difi- ceis em si. Para julgar de sua elevação e gran- deza é necessário uma alma com essas quali- dades, sem o que lhes atribuiriamos nossos próprios defeitos. Um remo é reto, e no entanto quando mergulha: na água parece. curvo. Não basta ver a coisa, importa como vê-la.

Por que, entre tantos raciocínios que de mil maneiras provam que'o homem deve desprezar a morte e dominar a dor, não encontramos um que nos convença? Por que entre tantos argu-

42 MONTAIGNE

mentos por outros aceitos, não achamos um do nosso gosto que nos persuada igualmente? Que quem não pode engolir o medicamento enérgico e detergente, suscetível de destruir o mal, absorva pelo menos um lenitivo que ali- vie: “nós nos amolecemos, não menos pela volúpia do que pela dor e nesse estado nada

mais temos de viril e forte; uma picada de abe- lha basta para arrancar-nos gritos; saber domi-

nar-se, eis o segrêdo”1º 8. 108 Cícero.

Seja como for, não se escapa da filosofia exagerando a acuidade da dor e a fraqueza

humana: apenas a forçamos a opor-nos às irrespondíveis réplicas de sempre: “se não vale a pena viver, viver sem que valha a pena não é imprescindível. Ninguém verá prolongar-se o seu mal se não o quiser”. Mas a quem não se

dispõe a suportar a morte nem a vida, a quem não quer resistir nem fugir, como ajudar?

CAPÍTULO XV

Merecedor de punição é quem aefende uma

praça forte além do razoável

A valentia tem seus limites, como qualquer virtude; ultrapassá-los pode levar ao crime. Pois é ela suscetível de tornar-se temeridade, obstinação, loucura em lhe ignorar os marcos delimitadores, bem difíceis em verdade de se

perceberem em dados pontos de separação. Dat, dessas considerações, nasceu o costume de, na guerra, punir-se até com a pena de morte quem teima em defender uma praça não

mais defensável segundo as regras da arte mili- tar. Sem o que, confiando na impunidade, não houvera choça que não sustasse a marcha de um exército.

No sítio de Pavia, o condestável de Mont- morency, tendo recebido ordem de atravessar o Tessino e de se estabelecer no arrabalde de Santo Antônio, viu-se impedido de fazê-lo por causa de certa torre situada na extremidade da

ponte e cuja guarnição se obstinou em defen- der até a derrota final. Vitorioso, o condestável mandou enforcar todos os prisioneiros. Mais

tarde, acompanhando o delfim em campanha além Alpes, e tendo conquistado à força o cas- telo de Villane, mortos os defensores todos pelos atacantes exasperados, à exceção do capitão e do tenente, a estes mandou o condes- tável punir por lhe haverem resistido, fazendo- os enforcar. O Capitão Martin du Bellay assim agiu igualmente contra St. Bony, governador

de Turim, cujos soldados tinham sido massa crados ao ser tomada a praça forte.

A apreciação do grau de resistência ou fra- queza de uma praça resulta da importância das forças assaltantes e dos seus meios de ação. Assim, quem com razão se obstina em se defender contra duas colubrinas, insensato seria se o fizesse contra trinta canhões. que considerar ainda a glória que dão ao príncipe inimigo suas conquistas anteriores, sua reputa- ção e o respeito que lhe é devido. Mas é peri- goso atentar-se demasiado para estas últimas considerações, pois quem se imagine tão altamente colocado que não lhe parece justo se o enfrente, e não o admitindo não hesite em passar pelo fio da espada os defensores, em lhes sendo a sorte favorável. É o que se deduz das formas em que são concebidos a intimação e o desafio de antigos príncipes orientais e até de seus sucessores. Em sua linguagem orgu- lhosa e altiva, repetem-se ainda hoje as mais bárbaras injunções. E na região pela qual os portugueses iniciaram a conquista das Índias, povos havia entre os quais era regra comum e sempre aplicada que ao inimigo vencido pelo rei em pessoa ou seu lugar-tenente não fossem concedidos mercê nem resgate.

Portanto evite, quem possa, cair nas mãos de um inimigo vitorioso e armado, com pode- res para julgar.

ENSAIOS 1 43

CAPÍTULO XVI

Da covardia

De um príncipe, e grande capitão, ouvi certa vez que por ato de pusilanimidade não se devia condenar um soldado à morte. E, estando à mesa, narrou o processo do Sr. de Vervins que a tal pena se condenara por se ter rendido em Boulogne. Convenho em que é justo diferen- ciar-se um erro devido à fraqueza de ânimo da falta maliciosa 7. Neste caso agimos com pleno conhecimento de causa contra o que nos dita a razão posta pela natureza a nosso servi- ço a fim de nos guiar. No outro caso parece- me que podemos invocar a própria natureza, da qual provém nossa fraqueza e imperfeição. É esse raciocínio que leva muita gente a pensar que devamos ser responsabilizados pelo que fazemos de contrário à nossa consciência. E mesmo nessa regra que se baseiam as pessoas que censuram e condenam à pena capital heré- ticos e infiéis; e também pela mesma razão não como responsabilizar juízes e advogados que por ignorância erram no cumprimento de seus deveres.

Quanto à covardia, é certo que vergonha e ignomínia são os castigos mais comumente infligidos aos réus. O legislador Charondas passa por ter sido o primeiro a aplicar tais penalidades. Antes dele, os gregos puniam com a morte os que fugiam ao combate: Charondas contentou-se'com ordenar que, vestidos de mulher, ficassem durante três dias expostos em praça pública. Esperava, assim, que, a vergo- nha lhes reavivando a coragem, pudessem vol-

tar às fileiras do exército. “Pensai em fazer

com gue se envergonhe o culpado mais do que em lhe derramar o sangue!º*.?

107 Cometida por velhacaria, índole. (N. do T.) 108 Tertuliano.

Parece que também as leis romanas puniam com a morte os desertores, pois Aumien Mar- celino cita o Imperador Juliano como tendo condenado à degradação e à morte de conformidade com as leis antigas dez sol- dados que haviam virado as costas ao inimigo numa carga contra os partas. Entretanto, de outras feitas, e por causa idêntica, contentou- se ele em condenar os culpados a marcharem com os primeiros em meio às bagagens. O rude castigo infligido pelo povo romano aos trâns- fugas do desastre de Canas e da mesma guerra aos que acompanharam Cneio Flã- vio na derrota, não chegou à pena de morte. Em casos como estes é de se temer que a ver- gonha engendre o desespero e os dessa manei- ra atingidos se tornem possivelmente: nossos

. inimigos.

No tempo de nossos pais, o Sr. de Franget, então tenente da companhia do Marechal de Chatillon, nomeado pelo Marechal de Chaban- nes, governador de Fontarabie, em substitui-

ção ao Sr. de Lude, entregou essa praça forte aos espanhóis. Foi condenado, bem como os seus, à degradação e à perda de seus títulos nobiliárquicos, declarado plebeu, sujeito a

impostos, e proibido de usar armas. Essa sen- tença rigorosa foi executada em Lion. Poste-

riormente, idêntica penalidade foi aplicada a todos os fidalgos que se encontravam em

Guise quando o Conde de Nassau se apoderou da cidade. E a outros ainda, desde então. Entretanto, quando a falta evidencia igno- rância grosseira ou covardia fora do comum, é racional considerá-la ato malicioso, resultante de maus sentimentos. e punita nessa qualida- de.

44 MONTAIGNE

CarpítruLO XVII

Maneira de agir de alguns embaixadores

A fim de aprender sempre alguma coisa em minhas relações com os outros (o que é um dos melhores meios de se instruir), procuro em mi- nhas viagens orientar as pessoas com as quais me entretenho para os assuntos que conhecem melhor: “que o piloto se contente com falar dos ventos, o lavrador de touros, O guerreiro de seus ferimentos e o pastor de suas ove- lhas?1º9. O mais das vezes é o contrário que se verifica: preferem todos falar do ofício alheio, imaginando acrescentar algo assim à própria reputação. Testemunho disso é a cen- sura de Arquimedes a Periandro que abando- nava a glória de ser um bom médico para adquirir a de um mau poeta.

Vede como César insiste em nos revelar sua capacidade de construir pontes e máquinas de guerra e como se mostra relativamente dis- creto ao comentar seus feitos e gestos de solda- do, sua valentia, e sua maneira de comandar os exércitos. Quer mostrar-se excelente na enge- nharia, de que entende pouco, quando seus atos testemunham a grandeza do capitão. Dio- nísio, o antigo!''º, era na guerra um general muito bom, como convinha à sua condição; pois se atormentava para que apreciassem nele principalmente seu talento poético, em verdade bem medíocre. Certo personagem do corpo judiciário, a quem tempos se mostrava uma biblioteca abundantemente provida tanto de obras de direito, como das disciplinas do saber humano, nada disse a respeito, preferindo en- trar em explicações doutorais acerca de uma barricada que se erguera à entrada do edifício, assunto que desconhecia e que cem capitães e soldados viam diariamente sem pensar em cri- ticar ou louvar. “O pesado boi gostaria de car- regar a sela e o cavalo de puxar a charrua! 11?

Agindo desse modo nada fazemos de útil. Esforcemo-nos portanto por ouvir em seus ofi- cios ao arquiteto, O pintor, o sapateiro e outros.

109 Propércio.

Em certas edições o texto diz “O velho Dioni- sio”, e o exemplo vem no fim do parágrafo. (N. do T.)

111 Horácio.

A propósito, quando leio histórias, gênero que a tantos apetece hoje em dia, tenho por há- bito atentar antes de mais nada para quem as escreve. Se se trata de profissionais das letras atenho-me em particular ao estilo e à lingua- gem; se são médicos acredito neles enquanto se referem à temperatura do ar, à saúde, à constituição física dos príncipes, aos ferimen- tos e às doenças; se são jurisconsultos, ouço-os em particular nas discussões acerca do direito, das leis, da fatura dos regulamentos e outros assuntos análogos; se são teólogos, acerca dos negócios da Igreja, das censuras eclesiásticas, das dispensas e dos casamentos; se são corte- sãos, a propósito. dos costumes e das cerimô- nias; Se são guerreiros, acerca do que lhes diz respeito, e principalmente das ações a que assistiram; se são embaixadores, das gestões, dos contatos e das práticas relativas à diplo- macia e à maneira de orientá-los. Foi o que me lévou a ler com interesse um trecho das crôni- cas do Sr. de Langey, muito entendido nessas coisas e que não teria lido se o fosse em outras. Diz ele das famosas admoestações feitas em Roma por Carlos Quinto, em pleno consistório a que assistiam nossos embaixadores, o Bispo de Macon e o Sr. de Velly. Depois de algumas palavrás ofensivas para nós, entre as quais que se seus capitães, sóldados e súditos não mos- trassem maior fidelidade a seus deveres do que os dos reis de França (e isso parece que o pen- sava de verdade porquanto o repetiu mais de uma vez), iria com a corda ao pescoço pedir misericórdia; o imperador disse também que desafiava O rei para um combate singular, em camisa, e de barco em pleno rio, com espada punhal, a fim de que nenhum dos adversários pudesse recuar. Termina o Sr. de Langey nar- rando que ao relatarem a sessão ao rei dissi- mularam seus embaixadores o que precede. Ora, acho estranho que um embaixador possa dispensar-se de relatar propósitos dessa ordem nos relatórios enviados a seu soberano, princi- palmente quando são de tal alcance e provêm de personagem tão importante, e foram ouvi- dos em semelhante assembléia. Parece-me que o dever do servidor é reproduzir fielmente

ENSAIOS —I 45

tudo, tal qual se apresentou, a fim de que o se- nhor tenha liberdade de ordenar, apreciar e escolher. Alterar-lhe a verdade de medo que a interprete mal e tome um partido errado, e por isso esconder-lhe o que lhe interessa, é a meu ver inverter os papéis. Manda quem pode e não o pode quem obedece. Isso cabe ao tutor e ao professor e não a quem, em sua situação, não somente é inferior à autoridade mas deve tam- bém estimar-se inferior em relação à prudência e à experiência. Como quer que seja, no que me diz respeito não gostaria de ser servido dessa maneira.

Tanta vontade temos de nos subtrair ao comando alheio e tudo é tão bom pretexto para usurparmos as prerrogativas dos que têm o poder; aspiramos tão naturalmente à liberdade e à autoridade, que nada será mais precioso ao superior do que encontrar em seus servidores obediência pura e simples. Não obedecer intei- ramente a uma ordem recebida, fazê-lo com, reticência, é falta e erro!!2. Públio Crasso, qualificado pelos romanos como cinco vezes feliz, estando na Ásia, encomendara a um engenheiro grego que lhe trouxesse o maior dos mastros de navio que vira em Atenas, a fim de empregá-lo na construção de uma mãá- quina de guerra. Este, apoiando-se em seus

112 Adotou-se aqui a interpretação de Michaut, pois o texto original exige mais equivalência de pen- samento que fidelidade literal. (N. do T.)

conhecimentos técnicos, tomou a si trazer O menor, que lhe parecia mais conveniente. Crasso ouviu-lhe as expiicações sem o inter- romper e mandou açoitá-lo assim mesmo, por considerar que mais do que a obra executada em melhores ou piores condições importava a disciplina.

Cumpre observar, entretanto, que uma tal obediência passiva não se deve senão a ordens precisas acerca de objetivos previstos. Os embaixadores têm maior latitude, e em certos pontos podem agir livremente, pois sua missão não é simplesmente executar e sim esclarecer e orientar com seus conselhos a opinião de quem representam. Vi em meu tempo pessoas come- tidas em postos de comando, a que se censurou haverem obedecido ao da letra às ordens recebidas do rei em. vez de se inspirarem na realidade das coisas que podiam pessoalmente constatar. Os entendidos criticam ainda hoje o costume que tinham os reis da Pérsia de frear de tal maneira a ação de seus agentes que para as mais ínfimas resoluções eram eles forçados a recorrer à autoridade real, o que, dada a imensa extensão do país, ocasionava perdas de tempo que foram não raro causa de sério pre- Juízo para seus negócios. Quanto a Crasso, escrevendo a um profissional e lhe comuni- cando o emprego a que destinava o mastro pedido, não o incitava assim a examinar em comum: a coisa e não o convidava a agir como lhe parecesse mais conveniente?

CapítTuLO XVIII

Do medo

“Tomado de estupor, fiquei de cabelos arre- piados, e sem voz !!3.? Não sou muito versado no estudo da natureza humana, como dizem, e ignoro de que maneira o medo atua em nós. Certo é que se trata de estranho sentimento. Nenhum, afirmam os médicos, nos projeta tão precipitadamente fora do bom-senso. E em verdade vi muita gente tornada insensata pelo medo. Mesmo entre os mais assentados provo- ca ele terríveis alucinações.

Ponho de lado o homem vulgar ao qual faz

113 Virgílio.

o medo que ora veja seus antepassados saírem do túmulo, envolvidos em seus sudários, ora lobisomens, gnomos, quimeras. Mesmo porém entre os soldados, sobre os quais o medo deve- ria ter menor influência, quantas vezes não transformou ele um rebanho em um esquadrão couraçado? E caniços e bastões em policiais e lanceiros? E nossos amigos em inimigos, e a

cruz vermelha em cruz branca? Quando o Sr. de Bourbon tomou Roma, o

porta-estandarte encarregado da guarda do subúrbio de São Pedro foi tomado de tal pavor à primeira alerta que, passando através de um buraco no muro em ruinas, saiu da cidade car-

46 MONTAIGNE

regando seu estandarte e marchou ao encontro do inimigo convencido de que se dirigia para o interior da praça forte. Vendo a gente do Sr. de Bourbon se aprestar para a batalha, voltou a.si e, na crença de que os defensores tentavam uma sortida!! *, virando as costas entrou de novo pelo mesmo buraco na cidade de que se afastara cerca de trezentos passos. O porta-es- tandarte do Capitão Júlio não se saiu tão bem quando o Conde de Bures e o Sr. Du Reu

tomaram São Paulo. Desesperado de medo, lançou-se fora da cidade pela canhoneira, de

estandarte em mão, e foi dar em cheio nos assaltantes que o fizeram em pedaços. Nesse mesmo sítio verificou-se um caso extraordi-

nário: o medo surpreendeu, agarrou e a tal ponto paralisou um fidalgo que este caiu morto repentinamente, e sem o menor ferimen-

to, do baluarte em que se achava. Semelhante inconsciência furibunda apodera-se por vezes das multidões. Em um encontro de Germãâni-

co!" com os alemães duas frações impor- tantes de suas tropas, postadas em pontos dife- rentes, fugiram apavoradas, em direção uma da outra e acabaram por se chocarem.

Ora o medo põe asas em nossos pés como no caso dos porta-estandartes, ora nos prega ao solo e nos imobiliza como aconteceu com o Imperador Teófilo. Batido em uma batalha contra Os agarenos, ficou tão estupefato e tran- sido que não podia decidir-se a fugir “tanto se apavora o medo daquilo que lhe pode aju- dar!1 8” E assim permaneceu até que Manuel, um de seus principais chefes, o sacudiu como para acordá-lo de um sono e lhe disse: “Se não me seguirdes eu vos matarei, pois é melhor que percais a vida do que serdes prisioneiro e cor- rerdes o risco de perder o império.”

É principalmente quando sob a sua in- fluência recobramos a coragem que ele nos ti-

rara contra o que o dever e a honra determina- vam, que o medo revela sua ação mais intensa. Na primeira batalha séria que tiveram e perderam os romanos contra Aníbal, sob o consulado de Semprônio, um exército de cêrca de dez mil infantes tomado de pavor debandou e, na sua covardia, não descobrindo por onde passar, jogou-se contra o grosso do inimigo. Tanto e tão bem fez que depois de matar gran- de número de cartagineses rompeu-lhes as filei-

O termo militar é consignado em J. Mesquita de Carvalho (“Dicionário Prático da Língua Nacio- na!??). (N. do T.)

115 Trata-se do general romano Júlio César Ger- mânico (15 a.C.-19 d.C.). (N. do E.)

116 Quinto Cúrcio.

ras, pagando uma fuga vergonhosa com os mesmos esforços que teriam de fazer para alcançar uma vitória gloriosa.

O medo é a coisa de que mais medo tenho no mundo. Ele ultrapassa, pelos incidentes agudos que provoca, qualquer outra espécie de acidente. Que aflição será mais penosa e justi-

ficável do que a dos amigos de Pompeu, teste- munhas em seu próprio navio de horrível mas- sacre? No entanto, o medo que lhes causou a aproximação das velas egípcias abafou neles esse sentimento, a tal ponto que se observou terem pensado apenas em instar os mari- nheiros para que à força de.remos lhes facili- tassem a fuga até que, chegados a Tyr e sem receios, tiveram o lazer de meditar sobre a perda sofrida e dar livre curso aos lamentos e as lágrimas que o medo, mais forte do que a dor, paralisara: “o pavor expulsa então de meu coração toda sabedoria!" 7.” Os que muito sofreram em alguma ação guerreira, nela foram feridos e ainda trazem o ferimento a

sangrar, ao combate podem ser novamente levados, logo em seguida, mas, os que tiveram forte medo do inimigo, ninguém fará sequer que voltem a olhá-lo de frente. Os que têm mo- tivo para temer a perda de seus bens, o exílio ou a servidão, vivem em constante angústia. Não comem, nem bebem, nem dormem, enquanto, em idênticas circunstâncias, os

pobres, os banidos, os servos, continuam a viver, não raro tão alegremente como de costu- me. Quantas pessoas, atormentadas pelas

fustigações do medo, não se enforcaram, se afogaram ou se atiraram em precipícios, demonstrando ser o medo mais importuno e insuportável do que a própria morte!

Os gregos admitem um outro tipo de medo, que não provém de um erro de nosso racioci- nio, mas ocorre sem causa aparente e por von- tade dos deuses. E povos inteiros e exércitos inteiros o experimentam. Dessa ordem foi o que provocou em Cartago tão prodigiosa deso-

lação. se ouviam gritos de pavor; os habi- tantes precipitavam-se fora de suas jcasas, como a um sinal de alarma e se atacavam

mutuamente, e se feriam, e se matavam como se inimigos houvessem entrado na cidade. A desordem e o tumulto imperavam. E a isso,

que findou quando, mediante preces e sacri- fícios, conseguiram acalmar a cólera dos deu- ses, Chamam os gregos “terror pânico”.

717 Enio. Neste caso sabedoria assume o senti- do de prudência, retidão, razão. (N. do T.)

ENSAIOS— II 47

CAPÍTULO XIX

Somente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou infelizes em vida

“Nunca se deve perder de vista o último dia do homem, nem declarar que alguém é feliz antes de vê-lo morto e reduzido a cinzas! 1º.” Conhecem as crianças a esse respeito a histó- ria do Rei Creso. Creso, feito prisioneiro por Ciro, fora condenado à morte. Ao aproximar- se a hora do suplício, pôs-se a gritar: “Sólon, Sólon.” Comunicada a exclamação a Ciro, este indagou de sua significação e Creso lhe explicou que para sua desgraça, dele Creso, Ciro estava confirmando a verdade de certa máxima que Sólon lhe transmitira: “os ho- mens, quaisquer que sejam os favores com que os cumule a sorte, não podem estimar-se feli- zes enquanto não vêem chegar q seu último dia”, e isso em virtude da instabilidade das coi- sas humanas que um pormenor basta para mudar inteiramente. Nessa mesma ordem de idéias Agesilau respondeu a alguém que acha- va o rei da Pérsia muito feliz, porque, tão jovem, era senhor de tão poderoso Estado: “sem dúvida, mas Priam, na mesma idade, não era infeliz”. Não se viram reis da Macedônia, sucessores de Alexandre, acabarem em Roma como marceneiros e escribas? E tiranos da Sicília como mestres-escola em Corinto? E Pompeu, conquistador de metade do mundo e chefe supremo de tantos exércitos, não pagou seus últimos cinco ou seis meses de vida com a humilhação de enviar súplicas aos miseráveis oficiais do rei do Egito? No tempo de nossos pais viu-se morrer cativo em Loches e, o que é pior, depois de dez anos de detenção, Ludovico Sforza, décimo Duque de Milão e que durante tanto tempo agitara a Itália. A mais bela das rainhas, viúva do maior rei da cristandade, não acaba, indigna e bárbara crueldade, de morrer pela mão do carrasco? Tais exemplos existem aos milhares, pois assim como temporais e tempestades se abatem encarniçadamente con- tra os mais belos e altos edifícios, também, nos céus, espíritos invejosos das grandezas da terra: “tanto é verdade, que uma força secreta

118 Ovídio.

derruba as coisas humanas e sem dificuldade esmaga aos pés o orgulho dos fachos, e parte as achas consulares”'?º. Dir-se-ia que a sorte aguarda por vezes nosso último dia, a fim de nos fazer compreender o poder que possui de derrubar em um instante o que custou longos anos para edificar, e assim nos impelir a excla- mar com Labério: “Ah! este dia é um dia a mais dos que eu deveria viver!2º?

Dai aceitar-se com razão a máxima tão Justa de Sólon. Mas como se trata de um filó- sofo para o qual os favores e as desgraças da sorte não contam nem como coisa feliz nem como coisa infeliz, pois ele encara grandeza e poder como acidentes mais ou. menos sem importância em nossa vida, penso que sua intenção seja mais profunda e tenha querido dizer, com isso, que essa felicidade de nossa existência, dependente da tranqgiiilidade e da satisfação de um espírito reto, da resolução e da firmeza de uma alma serena, não deve ser atribuida ao homem enquanto não representa o último ato e sem dúvida o mais dificil da comédia de sua vida.

Quanto a tudo mais podemos dissimular; fazer como filósofos belos discursos de forma excelente; conservar a nossa serenidade em face de acidentes que nos atinjam superficial- mente. Mas na última cena, a que se representa entre nós e a morte, não como fingir, é pre- ciso explicar-lhe com precisão em linguagem clara e mostrar o que de autêntico e bom no fundo de nós mesmos: “então a necessidade arranca-nos palavras sinceras, então cai a máscara e fica o homem!???. Eis por que a esse momento devem relacionar-se todos os demais atos de nossa vida. É o dia principal, o dia que valoriza todos os outros. É o dia, diz um escritor anfigo, que julgará todo o meu passado. Deixo que a morte se pronuncie sobre minhas ações; por ela se verá se minhas pala- vras saem dos lábios ou do coração. Quantos

118 TLucrécio. 120 Macróbio. 121 TLucrécio.

48 MONTAIGNE

deveram à morte a reputação de terem bem ou mal vivido? Cipião, sogro de Pompeu, desfez, em bem morrendo, a opinião que até então ha- viam tido a seu respeito. Epaminondas inda- gado acerca de quem ele mais estimava, se a Chabrias, a Ificrates ou a si mesmo, respon- deu: “Para que me pronuncie é preciso primei- ramente ver como será nossa morte.” Em ver- dade, quanto a ele, fora injusto julgá-lo sem levar em conta sua morte, tão honrosa e cheia de grandeza. Deus faz o que quer, mas de meu tempo três pessoas das mais execráveis que conheci, e cuja vida não fora senão um amon- toado de abominações e infâmias, tiveram morte decente e tal que em nenhuma circuns- tância se poderia querer melhor. fins glo-

riosos, e mesmo felizes. Vi a morte interrom- per, na flor da idade, a existência de alguém que tudo indicava estar a caminho de realizar as mais admiráveis ambições; colheu-o a morte em condições tais que a meu ver a pró- pria realização de suas esperanças não o teria elevado mais alto!?2. Morrendo ultrapassou mais gloriosamente do que sonhara a fama e o poder a que aspirava em vida. Quando se trata de julgar a vida dos outros, observo sempre como terminou; quanto à minha, esforço-me principalmente para que acabe bem, isto é, tranquila e silenciosamente.

122 Provavelmente La Boétie.

CAPÍTULO XX

De como filosofar é aprender a morrer

Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso, talvez, porque o estudo e a contemplação tiram a alma para fora de nós, separam-na do corpo, o que, em suma, se assemelha à morte e constitui como que um aprendizado em vista dela. Ou então é porque de toda sabedoria e inteligência resulta finalmente que aprendemos a não ter receio de morrer. Em verdade, ou nossa razão falha ou seu objetivo único deve ser a nossa própria satisfação, e seu trabalho tender para que vivamos bem, e com alegria, como reco- menda a Sagrada Escritura'?3. Todas as opi- niões propõem que o prazer é a meta da vida, mas diferem no que concerne aos meios de atingir o alvo. É se assim não fosse, as repeli- ramos de imediato, pois quem daria ouvido a alguém que apontasse na pena e no sofrimento os objetivos da existência? A esse respeito, as dissensões entre as seitas filosóficas são puro palavrório: “deixemos de lado essas sutile- zas”"2*: em tais discussões entra mais obsti- nação e picuinha!?8 do que convém à ciência tão respeitável. Mas em qualquer papel que se proponha desempenhar põe o homem um pouco de si mesmo!2 8.

123 Eclesiastes, UI, 12.

124 Sêneca.

125 Picoterie argumentação maliciosa e prevo- cante. (N. do T.)

128 O texto original é obscuro. Michaut o inter- preta também sem muita clareza. (N. do T.)

Digam o que disserem, na própria prática da virtude o fim visado é a volúpia. E agrada- me repetir essa palavra que pronunciam constrangidos. E se significa prazer supremo e extremada satisfação melhor se deva ela à vir- tude do que a qualquer outra causa, pois a volúpia, robusta e viril, é a mais seriamente voluptuosa. E deveriamos chamá-la prazer, denominação mais feliz e mais natural, do que a de vigor que lhe damos. Quanto à volúpia de ordem menos elevada, se acreditam que mere- ça igual nome que o mantenham, mas não com exclusividade. Mais do que a virtude tem ela seus inconvenientes e seus momentos dificeis; além de serem mais efêmeras as sensações que nos procura, e mais fluidas e fugidias, tem suas vigilias, seus jejuns, suas penas, seu suor e san- gue. Paixões de toda sorte influem nela e redunda ela em tão pesada saciedade que equi- vale a uma penitência. É erro nosso imaginar que tais inconvenientes a estimulam, e a condi- mentam, em razão dessa lei da natureza que afirma tudo se fortalecer ante o obstáculo encontrado; e erro é também pensar que, quan- do se trata de volúpia proveniente da virtude, semelhantes dificuldades a acabrunham e a tornam austera e inacessível.

Ao contrário do que se verifica com a volú- pia, na prática da virtude tais dificuldades eno- brecem, requintam e realçam o prazer divino e perfeito que ela nos procura. Bem indigno de senti-lo é por certo quem pesa o custo e o ren-

ENSAIOS 1 49

dimento dela; não lhe conhece as belezas nem o uso. Os que nos afirmam que, embora sua posse seja agradável, penosa e laboriosa é a sua conquista, não nos estarão dizendo ser a virtude coisa sempre desagradável? Mesmo porque quem a terá jamais atingido? Os mais perfeitos tiveram de se contentar com aspirar a ela, dela se aproximar sem nunca chegar a possuí-la. Enganam-se porém os que assim faiam, pois não prazer conhecido cuja pró- cura em si já-não constitua uma satisfação. Ela liga-se ao objetivo visado e contribui muito para o resultado de que participa essencial- mente. A felicidade e a bem-aventurança da virtude enchem-lhe as dependências e os cami- nhos, desde o portão de entrada até os muros que lhe cercam os domínios.

Um dos principais benefícios da virtude está no desprezo que nos inspira pela morte, o que nos permite viver em doce quietude e faz se desenrole agradavelmente e sem preocupações nossa existência. E, sem esses sentimentos, toda volúpia é sem encanto. Eis por que todos os sistemas filosóficos concordam nesse ponto e para ele convergem. Embora todos se enten- dam igualmente em nos recomendar o des- prezo à dor, à pobreza e outros acidentes a que

está sujeita a vida humana, nem todos o fazem com igual cuidado, ou porque tais acidentes não nos atingem forçosamente (em sua maio- ria Os homens vivem sua vida sem sofrer com a pobreza, e alguns, como o músico Xenófilo! 2? que morreu com cento e seis anos, vivem em perfeita saúde, sem conhecer nem a dor nem a doença), ou porque, na pior das hipóteses, pode a morte, quando quisermos, pôr fim aos nossos males. E ela própria é inevitável: “Marchamos todos para a morte; nosso desti- no agita-se na urna funerária; um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, o nome de cada um dali sairá e a barca fatal nos levará a todos ao eterno exílio' 28.” Portanto, se a receamos, temos nela um motivo permanente de tormen- tos e andaremos como em país inimigo a deitar os olhos para todos os lados: “ela é sempre uma ameaça, como o rochedo de Tântalo”"2º.

Nossos tribunais ordenam muitas vezes se execute o criminoso no próprio local do crime. Conduzam-no durante o trajeto, entre belas residências e dêem-lhe as melhores refeições; os mais deliciosos acepipes não poderão acari- ciar-lhe o paladar, nem o canto dos pássaros, nem os acordes da lira lhe devolverão o sono!3º. Pensais que será sensível a nossos cui-

*27 Filósofo que Montaigne qualifica como músi- ço.

128 Horácio. 128 Cicero. 130 Horácio.

“dados e que o fim último de sua viagem, sem-

pre em mente, não lhe alterará e tornará insos- so qualquer possível prazer? “Inquieta-se com o caminho, conta os dias, mede a vida pela extensão da estrada, sem cessar atormentado pela idéia do suplício que o espera!3?.

A meta !32 de nossa existência é a morte; é este o nosso objetivo fatal. Se nos apavora, como poderemos dar um passo à frente sem tremer? O remédio do homem vulgar consiste em não pensar na morte. Mas quanta estupidez serã precisa para uma tal cegueira? Por que não coloca o freio no rabo do asno, desde que meteu na cabeça andar de costas? '33 Não como estranhar caia tão amiúde na armadilha. As pessoas se apavoram simplesmente com lhe ouvir o nome: a morte! E persignam-se como se ouvissem falar no diabo. E como ela é men- cionada nos testamentos, resolvem fazer o seu quando os condenou o médico. E Deus sabe em que estado de espírito se encontram então, sob o impacto da dor e do pavor.

Como esta palavra ressoava demasiado forte a seus ouvidos, e lhes parecia de mau augúrio, tinham os romanos se habituado a adoçá-la ou a empregar perifrases. Em vez de dizer: morreu, diziam: parou de viver, viveu; bastava-lhes que se falasse em vida. Nós lhes tomamos de empréstimo esses eufemismos e dizemos: Mestre João se foi '2*.

Se porventura se aplica o ditado “a palavra é de prata”, como nasci entre onze horas e meio-dia no último dia de fevereiro de 1533 e começamos o ano em janeiro !3º, como acon- tece agora, faz exatamente quinze dias que completei meus trinta e nove anos. Posso pois esperar viver ainda tal periodo; e atormentar- me meditando sobre tão longinqua eventucli- dade, fora loucura. Mas jovens e velhos se vão da vida em condições idênticas. Partem todos como se acabassem de chegar, sem contar que não homem tão decrépito ou velho ou alquebrado que não alimente a esperança da longevidade de Matusalém, e não tenha ainda vinte anos de vida diante de si. Direi mais: quem, pobre louco, fixou a duração de tua existência? Acreditas no que dizem os médicos,

131 Cláudio.

132 Em outro trecho Montaigne diz fim (bout) e não meta (but). (N. do T.)

183 Lucrécio.

134 “Feu?, do latim “fuit” foi Fulano, que se foi Hoje ainda se diz “feu un tel” em francês, mas será então traduzido por “falecido fulano”. Quanto a “maitre Jean” é o apelido que se dava outrora aos pedantes, sábios ou doutores. (N. do T.)

135 Em França o ano teve vários inícios. Foi Car- los IX quem fixou em 1563 a data do começo do ano em janeiro.

50 MONTAIGNE

sem atentar para o que se verifica em torno de ti, e sem julgar pela experiência. Pelo andar das coisas, muito não vives, senão por excepcional favor. ultrapassaste a-duração habitual da vida. Podes comprová-lo contando quantos entre os teus conhecidos morreram antes dessa idade, em bem maior número do que os que a alcançaram. Anota os nomes dos que, pelo brilho de sua existência, adquiriram certa fama; aposto encontrar entre eles, mortos antes dos trinta e cinco, muitos mais do que depois.

O razoável e o piedoso está em tomar como exemplo a humanidade de Jesus: ora, sua exis- tência terrena findou-se aos trinta e três anos. O maior homem do mundo, homem e não Deus, Alexandre, morreu também com essa

idade. Quantas maneiras diversas tem a morte de

nos surpreender? “O homem nunca pode che- gar a prever todos os perigos que o ameaçam a cada instante! * 8.” Deixo de lado as doenças, as febres, as pleurisias. Quem poderia imagi- nar que um duque de Bretanha fosse morrer sufocado pela multidão'como aconteceu a um deles, quando da entrada em Lião do Papa Clemente, meu compatriota? Não vimos um dos nossos reis morrer em folguedo? E não faleceu outro, seu antepassado, da queda de um porco que montava? Esquilo, advertido de que morreria da queda de uma casa, embora dormisse em um campo de trigo, foi esmagado por uma tartaruga caída das garras de uma águia. Houve quem sucumbisse em conse- quência de uma semente de uva engolida; outro, imperador, morreu de uma arranhadura feita com o pente; Emílio Lépido em virtude de uma topada na porta de sua casa; Aufídio por ter batido com a cabeça no batente da entrada da sala do Conselho. E entre as coxas das mulheres: o pretor Cornélio Galo, Tigelino, comandante da guarda de Roma, Ludovico, filho de Gui de Gonzaga, Marquês de Mân- tua, e, o que é péssimo exemplo, Spensipo, filó- sofo platônico. E até um papa de nosso tempo.

O pobre Bebius, que era juiz, ao adiar o jul- gamento de certa causa, morreu subitamente; chegara a sua hora. O médico Caio Julius, ao tratar dos olhos de um enfermo, teve os seus próprios fechados para sempre. E, para mistu- rar-me à enumeração: um dos meus irmãos, Capitão Saint Martin, de vinte e quatro anos e que dera provas sobejas de seu valor, foi atingido por uma bola logo abaixo da orelha direita quando jogava péla. Nem vestígio nem contusão, não se sentou sequer, não inter- rompeu O jogo, e no entanto cinco ou seis

138 Horácio.

horas depois, ei-lo atacado de apoplexia causa- da pelo golpe recebido.

Tais exemplos são tão frequentes, repetem- se tão comumente diante de nossos olhos, que não parece possível evitar se oriente nosso pen- samento para a morte, nem negar que a cada instante nos ameace ela. Que importa o que possa acontecer, direis, se não nos preocu- pamos com isso? É também meu parecer, e se houvesse meio de escapar ao golpe, ainda que fosse sob uma pele de vitela, não seria homem se não o empregasse, pois a mim me basta viver sossegado e pondo em prática tudo o que para tanto venha a contribuir, embora pouco glorioso ou exemplar: “prefiro passar por louco, ou impertinente, se meu erro me agrada ou não o percebo, a ser sábio e sofrer” '3 7, É loucura, porém, querer furtar-se assim a essa idéia. Vai-se, volta-se, corre-se, dança-se: ne- nhuma notícia da morte, que beleza! Mas quando ela nos cai em cima, ou em cima de nossas mulheres, nossos filhos, nossos amigos, que os surpreenda ou não, quantos tormentos, gritos, imprecações, desespero! Vistes alguém mais humilhado, transtornado, confundido? É preciso preocupar-se com ela de antemão. Pois essa incúria animal, ainda que pudesse alojar- se na mente de um homem inteligente, o que acho inteiramente impossível, nos faz pagar

caro demais sua mercadoria!'*º. Se a morte fosse um inimigo suscetível de se evitar, acon-

selharia agir diante dela como um covarde diante do perigo; mas, em não sendo isso ver- dade, e atingindo ela infalivelmente os fugiti- vos, poltrões ou valentes, “persegue o homem em sua fuga e não poupa nem mesmo a tímida Juventude que tenta escapar-lhe”"3º: como nenhuma couraça nos protege contra ela, “cobri-vos de ferro e de bronze, a morte vos atingirá sob a armadura”! *º, aprendamos a esperá-la de firme e a lutar. Para começar a despojá-la da vantagem maior de que dispõe contra nós, tomemos por caminho inverso ao habitual. Tiremos dela o que tem de estranho; pratiquemo-la, habituemo-nos a ela, não pen- semos em outra coisa; tenhamo-la a todo ins- tante presente em nosso pensamento e sob todas as suas formas. Ao tropeço de um cava- lo, à queda de uma telha, à menor picada de alfinete, digamos: se fosse a morte! e esforce- mo-nos em reagir contra a apreensão que uma tal reflexão pode provocar. Em meio às festas e aos divertimentos, lembremo-nos sem cessar de que somos mortais e não nos entreguemos tão inteiramente ao prazer que não nos sobre

137 Horácio. ; 138 Sa denrée no caso, suas ilusões. (N. do T.) 139 Horácio. : 140 Id.

ENSAIOS —I 51

tempo para recordar que de mil maneiras nossa alegria pode acabar na morte, nem em quantas circunstâncias ela sobrevém inopina- damente. É o que faziam os egípcios quando em seus festivais e votados aos prazeres da mesa, mandavam trazer um esqueleto humano para rememorar aos convivas a fragilidade de sua vida: “Pensa que cada dia é teu último dia, e aceitarás com gratidaó aquele que não mais esperavas! 41.”

Não sabemos onde a morte nos aguarda, esperemo-la em toda parte. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; ne- nhum mal atingirá quem na existência com- preendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda-sujeição e constrangimento. Paulo Emílio, ao ir receber as honras do triunfo, respondia ao mensageiro enviado por esse infeliz rei da Macedônia, seu prisioneiro, a fim de suplicar-lhe que não o incluísse em seu séquito: “Que o solicite a si próprio.”

Em verdade, sem certa anuência da natureza é dificil que a arte e a indústria progridam nas obras que produzem. Eu não sou melancólico, sou sonhador. Não nada que minha imagi- nação vasculhe mais do que a idéia da morte, e isso desde sempre, mesmo no período de minha vida em que mais me dediquei aos pra- zeres: “estava então na flor da idade”! “2. Entre senhoras e festas, imaginavam que andasse preocupado a remoer algum ciúme ou à espera inquieta de qualquer acontecimento, enquanto, na realidade, meu pensamento se orientava para não sei quem que, dias antes, ao sair de festa semelhante, entregue ao ócio, ao amor e às doces recordações, fora tomado de febre e morrera. E considerava que coisa aná- loga me aguardava de atalaia: “Em breve o tempo presente não será e não poderemos lembrá-lo! *3.”'E não me franzia a fronte, mais do que outro qualquer, esse pensamento.

É impossível que à princípio essa idéia não nos cause penosa impressão. Mas vol- tando a ela, encarando-a de todos os ângulos, aos poucos acabamos por nos acostumarmos a ela. De outro modo teria eu andado continua- mente agitado e amedrontado, pois ninguém mais do que eu jamais desconfiou tanto da vida e contou menos com a sua duração. Minha saúde, até agora excelente, apenas per- turbada por pequenas indisposições, não me maiores esperanças de grande longevidade, como tampouco as doenças me fazem temer

141 Horácio. 142 Catulo. 143 TLucrécio.

um fim prematuro. A cada instante tenho a impressão de haver chegado minha última hora, e repito sem cessar: o que devera ocorrer fatalmente um dia pode acontecer hoje. Efeti- vamente, OS acasos e perigos a que estamos expostos pouco ou nada nos aproximam do fim. E se pensarmos em quantos acidentes podem ameaçar-nos, além dos que imagina- mos iminentes, deveremos reconhecer que no mar como no lar, na guerra como no retiro, a morte sempre se encontra perto de nós: “Nenhum homem é mais frágil do que outro, nenhum tem assegurado o dia seguinte! * *.”? Para fazer o que me cumpre fazer antes de morrer, todo tempo me parece curto, ainda que se trate de trabalho de uma hora. Alguém, folheando meu caderno de notas, revelou algo que eu desejava se fizesse depois de minha morte; disse a essa pessoa a verdade, isto é, que ao registrar essa nota me encontrava a uma légua apenas de casa, mas me apressara em escrevê-la porque não estava certo de não morrer antes de entrar. A chegada da morte não me surpreenderá; acho-me sempre, e quan- to posso, preparado para essa ocorrência. Ela se mistura sem cessar a meu pensamento, nele se grava. Na medida do possível andemos sem- pre de botas e prontos para partir e, em parti- cular, não tenhamos negócios a tratar senão com nós mesmos: “por que, em tão curta vida, fazer tantos projetos?! * 8” Suficiente trabalho teremos com esses nossos negócios próprios, para que nos embaracemos com outros. Mais do que da morte queixam-se uns de que venha interromper uma bela vitória; lamentam-se ou- tros de não terem podido casar a filha antes ou educarem as crianças; um lastima deixar a mulher, outro o filho, entes a que mais se ape- gavam. Quanto a mim, graças a Deus, estou em estado de desaparecer quando Lhe aprou- ver, sem nenhuma saudade senão da própria vida. Estou em regra com tudo e como que disse adeus a todos, salvo a mim mesmo. Nunca homem se apresentou mais bem prepa- rado para deixar a vida no momento neces- sário e sem a menor dissimulação. Ninguém se desprendeu melhor e mais completamente da vida do que eu. As mortes mais integrais são as mais desejáveis! * 8. “Oh desgraça dizem uns —, um dia nefasto basta para envene- nar todas as alegrias da vida! * 7.” Não termi-

144 Sêneca.

145 Horácio.

146 No texto “les plus mortes morts”, isto é, as mortes em que tudo morre ao mesmo tempo em oposição às mortes: em que o indivíduo se extingue gradualmente, através de sucessivas perdas de facul- dades. (N. do T.)

147 Lucrécio.

52 MONTAIGNE

narei nunca a minha obra lamenta o arqui- teto —, deixarei pois imperfeitos esses soberbos baluartes! *º.” Nada se empreenda pois, em vista de tão remota conclusão, pelo menos não se o faça com a apaixonada inten- ção de chegar ao fim. Nascemos para agir: “quero que a morte me surpreenda em pleno

trabalho”? 4º, Vamos agir portanto e proitonguemos os tra-

balhos da existência quanto pudermos, e que a morte nos encontre a plantar as nossas couves, mas indiferentes à sua chegada e mais ainda ante as nossas hortas inacabadas! *º. Conheço alguém que, na hora extrema, lastimava inces- santemente lhe fosse cortar a mcrte, no décimo quinto ou no décimo sexto de nossos reis, o fio de uma história em andamento. “Não pensem que a morte nos rouba a saudade das coisas mais queridas! 81,”

Devemos desfazer-nos dessas preocupações vulgares e nocivas. Se se construíram cemité- rios perto das igrejas e nos lugares mais frequentados da cidade, foi, diz Licurgo, para acostumar a plebe, as mulheres e as crianças a não se assustarem à vista de um morto e a fim de que o continuo espetáculo de ossadas, tú- mulos, pompas funerárias, advirta todos do que os espera: “Era outrora costume alegrar os festins com' execuções e com combates de gladiadores; estes caiam amiúde entre as taças

e inundavam de sangue as mesas do banque- te! 52»

Os egípcios em seus festins faziam apresen- tar aos convivas uma imagem da morte, que lhes gritava: “bebe, goza, pois serás assim de- pois de morto”. Também se tornou em mim um hábito não somente ter sempre presente a idéia da morte como também falar dela constantemente. E nada me interessa mais do que indagar da morte das pessoas: que disse- ram, que atitude assumiram? Nas histórias que leio, os trechos referentes à morte são os que mais me prendem a atenção. Vê-se isso pela escolha dos meus exemplos e pela afeição par- ticular que revelo pelo assunto. Se fosse escri- tor, anotaria as mortes que mais me impressio- naram e as comentaria, pois quem ensinasse os homens a morrer os ensinaria a viver. Dicear- cus escreveu um livro com êsse título, porém diferente e menos útil em seu objetivo.

Dirão que em sua realidade a morte ultra- passa a nossa concepção; por mais que nos preparemos para enfrentá-la, quando ela che- gar estaremos no mesmo ponto. Deixai-os

148 Virgílio.

149 Ovídio.

15º Imparfait não feito, não terminado. 151 Lucrécio.

152 Silius Itálico.

falar. Sem dúvida uma tal preparação com- porta grandes vantagens, pois será pouco caminhar ao seu encontro sem apreensões? mais: a própria natureza nos ajuda na ocor- rência e nos a coragem que poderia faltar- nos. Se nossa morte é súbita e violenta, não emos tempo de receá-la; se não, na medida em que a enfermidade nos domina, diminui natu- ralmente o nosso apego à vida. Custa-me muito mais aceitar a idéia de morrer quando gozo saúde do aus quando estou com febre. Quando não me sinto bem, as alegrias da vida me parecem menos valiosas, tanto mais quanto não estou em condições de usufruí-las,a morte se me afigura menos temível. Disso concluo que quanto mais me desprender da vida e me aproximar da morte, tanto mais facilmente me conformarei com a passagem de uma para outra. Como diz César, e como o verifiquei em mais de uma circunstância, as coisas produ- zem maiores efeitos de longe que de perto. Assim é que me atormentam mais as doenças se estou bem de saúde do que se as enfrento. A alegria, o prazer e a força induzem-me a uma ampliação desproporcional do estado contrá- rio e os incômodos da enfermidade eu os con- cebo mais pesados do- que os sinto realmente quando adoeço. E espero que o mesmo se quanto à morte.

As flutuações a que se sujeita a nossa saúde, o enfraquecimento gradual que sofremos, são meios que a natureza emprega para dissimu- lar-nos a aproximação de nosso fim e de nossa decrepitude. Que resta a um ancião do vigor de sua juventude e do seu passado? “Ah, como sobra pouco aos velhos! 83.” César, a quem um soldado, alquebrado e decrépito, viera pedir em plena rua autorização para se matar, respondeu rindo: “Pensas então que ainda estás vivo?”

Creio que não seríamos capazes de suportar uma tai mudança se a ela chegássemos repenti- namente. Mas em nos conduzindo pela mão, devagar, quase insensivelmente, a natureza nos familiariza com essa miserável condição. De tal modo que a mocidade se extingue em nós - sem que lhe percebamos o fim, em verdade mais penoso do que o de nosso ser inteiro ao ter de deixar uma vida de achaques quando morremos de velhice. O salto que nos cabe dar para passar de uma existência miserável ao fim dela não é tão sensível quanto o que separa uma vida tranquila e florescente de uma vida

“difícil e dolorosa. O corpo curvado tem menos

força para carregar um fardo; o mesmo ocorre com a alma, que é preciso fortalecer e pôr em condição de resistir à opressão causada pelo

153 Pseudo Galo.

ENSAIOS 53

medo da morte. Como é impossível que encon- tre a calma sob o peso desse temor, se o pudes- se dominar inteiramente o que está acima das forças humanas estaria a alma assegu- rada contra a inquietação, a ansiedade, o medo e tudo o que nos aflige: “nem o rosto cruel de um tirano, nem a tempestade furibunda que revolve o Adriáticô, nada lhe pode abalar o ânimo; nada, nem Júpiter lançando seus raios”! 84. A alma tornar-se-ia então senhora de suas paixões e de seus mais ardentes dese- jos; nada a atingiria, nem a indigência, nem a vergonha, nenhuma adversidade. Esforcemo- nos pois por conseguir essa vantagem. Nisso consiste a verdadeira e soberana liberdade, a que nos permite desafiar à violência e a injusti- ça, desprezar a prisão e os ferros escraviza- dores: “Sobrecarregar-te-ei os pés e as mãos de cadeias, e entregar-te-ei ao mais cruel dos carcereiros. Um Deus me libertará quando eu o quiser esse Deus, penso eu, é a morte, a morte, termo de todas as coisas! 8 8”

Nossa religião não teve alicerce humano mais sólido que o do desprezo à vida. E não é somente a voz da razão que a isso nos conduz, pois por que temeríiamos perder uma coisa que, uma vez perdida, não podemos lamentar? E como a morte nos ameaça sem cessar sob vá- rios aspectos, não será mais desagradável ficarmos a receá-los todos, de antemão, do que nos resignarmos uma vez por todas, diante dela? Por que se préocupar com sua vinda, se é inevitável? Dizia alguém a Sócrates: “os trinta tiranos condenaram-te à morte”. Ao que o filó- sofo respondeu: “Eles o foram pela nature-

* Que tolice nos afligirmos no momento em

que nos vamos ver livres de nossos males !-

Nossa vinda ao mundo foi para nós a vinda de todas as coisas; nossa morte será a morte de tudo. Lastimar não mais viver dentro de cem anos é tão absurdo quanto lamentar não ter nascido um século antes. A morte é origem de outra vida. Nascemos entre lágrimas e muito nos custou entrar na vida atual; passando para uma nova vida despojamo-nos do que fomos na precedente. Não pode ser grave uma coisa que acontece uma vez; será razoável recear com tanta antecedência acidente de tão curta duração? Em relação à morte, viver pouco ou muito é a mesma coisa, pois nada é longo ou curto quando deixa de existir. Diz Aristóteles que no rio Hipanis insetos que vivem somente um dia: os que morrem as oito da manhã morrem jovens e os que morrem às cinco da tarde morrem de decrepitude. Quem não acharia divertido que tão insignificante

154 Horácio. 155 Td.

diferença em existências tão efêmeras bastasse para tachá-ias de felizes? Semelhante aprecia- ção acerca da duração da vida humana não é menos ridícula se a comparamos com a eterni- dade, ou sirhplesmente com a duração das montanhas, dos rios, das estrelas, das árvores e

até de certos animais. | A natureza nos ensina: sais deste mundo

como nele entrastes. Passastes da morte à vida sem que fosse por efeito de vossa vontade e sem temores; tratai de vos conduzirdes de igual maneira ao passardes da vida à morte; vossa morte entra na própria organização do universo: é um fato que tem seu lugar assina-

lado no decurso dos séculos: “Os mortais se emprestam mutuamente a vida... é a tocha

que se transmite de mão em mão nas corridas sagradas! 88?” Mudarei para vós esse belo entrosamento das coisas? Morrer é a própria condição de vossa criação; a morte é parte integrante de vós mesmos. A existência de que gozais participa da vida e da morte a um tempo; desde o dia de vosso nascimento cami- nhais concomitantemente na vida e para a morte: “a primeira hora de vossa vida é uma hora a menos que tereis para viver”!8?7 “nascer é começar a morrer; o último instante de vida é consegiiência do primeiro”! 58, O tempo que viveis, vós o roubais à vida e a res- tringis proporcionalmente. Vossa vida tem como efeito conduzir-vos à morte. E enquanto viveis estais constantemente sob a ameaça de morte, e mortos, não viveis mais; ou, se assim preferis, a morte sucede à vida, logo durante a vida estais moribundos; e a morte atinge muito mais duramente e essencialmente o moribundo do que o morto. Se soubestes usar a vida e gozá-la quanto pudestes, ide-vos e vos declareis satisfeitos: “por que não sair do banquete da vida como um' conviva sacia-

. do?! 89?” Se não a soubestes usar, se ela vos foi

inútil, que vos importa perdê-la? E se ela conti- nuasse em que a empregaríeis? “Para que pro: longar dias de que não se saberá tirar melhor proveito do que no passado? º” A vida em si

não é um bem nem um mal. Torna-se bem ou mal segundo o que dela fazeis. É se vivestes

'um dia vistes tudo, pois um dia é igual a

todos Qs outros. Uma é a luz, uma é a noite. Esse sol, essa lua, essas estrelas, em sua dispo- sição, são os mesmos que apreciaram vossos antepassados e que conhecerão vossos descen-

dentes. “Vossos sobrinhos não verão nada mais do que viram seus pais! 8!” E em última

156 TLucrécio. 157 Sêneca.

15º Manílio. 159 Tucrécio. 160 Td.

161 Manílio.

54 MONTAIGNE

análise pode-se dizer que a totalidade dos atos diversos que comporta a comédia a que vos convidei cumpre-se no decurso de um ano, cujas quatro estações, se o observastes, abar- cam a infância, a adolescência, a idade virile a velhice do mundo. Essa marcha é constante; não a modifico nunca e sem cessar ela se repe- te, e assim será eternamente: “Giramos sempre em torno do mesmo círculo”! 82. “o ano reto- ma sem descontinuar a estrada percorri- da”? 83. Não estã em meus projetos inovar para vós a ordem das coisas: “não posso nada imaginar, nada inventar de novo para vos agradar; é, e será sempre, a repetição das mes- mas cenas”! 8*. Dai vosso lugar a outros como outros vos deram o seu. A igualdade é a pri- meira condição da equidade. Quem se de queixar de uma medida que atinge a todos? Podeis prolongar vossa vida, o que quer que façais não diminuirá em nada o tempo que ten- des para serdes mortos. Por mais' comprida que seja, vossa vida não será nada, e esse esta- do que lhe sucederá e que pareceis tanto temer terá a mesma duração que se houvés- seis morrido no berço: “Vivei quantos séculos quiserdes, nem por isso será menos eterna a morte" 2

Nesse estado em que vos porei não tereis motivo para descontentamento: “Ignorais que não vos sobrevirá um outro vós mesmo, O qual, vivo, vos possa chorar como morto e gemer sobre o vosso cadáver!" 88” E essa vida que tanto lamentais perder não mais a deseja- reis: “Não teremos mais com que nos inquie- tarmos nem com nós mesmos, nem com a vida... nenhuma saudade teremos da existên- cia! 87” “A morte é menos temível do que nada, se é que alguma coisa menos que nada é possível! 88” Morto ou vivo, vós não lhe esca- pais: vivo, porque sois; morto, porque não sois mais. Por outro lado ninguém morre antes da hora. O tempo que perdeis não vos pertence mais do que o que precedeu vosso nascimento, e não vos interessa: “Considerai em verdade que os séculos inumeráveis, passados, são para vós como se não tivessem sido! 8º.”

Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante. Imagináveis então nunca chegardes ao ponto para o qual vos dirigieis? Haverá

162 T[ucrécio. 163 Virgílio. 164 Lucrécio. 1655 Td.

caminho que não tenha fim? E se o fato de ter companheiros vos pode consolar, pensai que o mundo inteiro segue caminho idêntico: “As raças futuras vos seguirão por sua vez! 7º” Tudo obedece ao mesmo impulso a que obe- deceis. Haverá algo que não ênvelheça como vós envelheceis? Milhares de homens, milhares de animais, milhares de outras criaturas mor- rem no mesmo instante em que morreis: “não uma noite, nem um dia em que não se ouçam, misturados aos vagidos dos recêém-nas-

cidos, os gritos de dor em torno dos esqui-

feg”1 71 Por que tentar recuar se não vos é permitido

voltar atrás? Vistes mais de um indivíduo que se satisfez com morrer, fugindo assim a gran- des misérias; deparastes com alguém que se achou prejudicado? E não será tolice condenar

uma coisa que não conheceis nem pessoal- mente nem através de outro? Por que vos quei-

xardes de mim e do destino? Nós vos estare- mos prejudicando? Cabe-vos governar-nos ou, ao conirário, dependeis de nós? Por mais moço que sejais, vossa vida chegou ao fim; um homem de pequena estatura é tão completo quanto outro muito grande. Nem a estatura do homem, nem sua existência têm medidas

determinadas. É : Quiron recusou a imortalidade quando

Saturno, seu pai, deus do tempo e da mortali- dade, lhe revelou as condições dela. Imaginai a que ponto uma vida sem fim fora menos tole- rável e mais penosa para o homem do que a que lhe foi dada. Se não tivésseis a morte, vós me amaldiçoaríeis sem cessar por vos haver privado dela. Foi propositadamente que a ela juntei alguma amargura, a fim de impedir que

ante a comodidade de seu uso não a buscásseis com excessiva avidez. Para vos trazer a essa

moderação que solicito de vós, de não abreviar a vida e não tentar esquivar a morte, temperei- as pelas sensações mais ou menos suaves, mais ou menos duras gue vos podem outorgar. Ensi- nei a Tales, o primeiro entre vossos sábios! 72, que viver e morrer são igualmente indiferentes; o que o impeliu a responder muito sabiamente a alguém que lhe perguntava por que então não se matava: porque é indiferente. A água, a terra, o fogo, tudo o que constitui meu domínio e contribui para vossa vida, não contribuem mais do que à morte. Por que temeis vosso últi- mo dia? Ele não vos entrega mais à morte do que o faz cada um dos dias anteriores. Não é o último passo a causa de nossa fadiga; ele ape- nas a determina. Todos os dias levam à morte, o último a alcança. Eis os sábios conselhos que vos a natureza, nossa mãe.

166-171

Lucrécio. 172 Filósofos.

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ENSAIOS— I 55

Amiúde indaguei de mim mesmo por que,na guerra, a perspectiva ou a presença da morte, nossa ou de outrem, nos impressiona muito menos do que em nossos lares. Se assim não fosse, um exército se comporia unicamente de mêdicos e de choramingas. Estranho igual- mente que a morte em sendo a mesma para todos, a acolham com mais calma os campo- neses e o povo miúdo que os outros. Creio, em verdade, que são essas fisionomias de circuns- tâancia e esse aparato lúgubre com que a cer- cam, que nos impressionam mais do que ela própria. Quando ela se aproxima, uma modificação total em nossa vida cotidiana: mães, mulheres é crianças gritam e se lamen- tam. Inúmeras pessoas nos visitam, consterna-

das; a gente da casa está, pálida e desespe- rada; a obscuridade reina no quarto; acendem-se velas; à nossa cabeceira juntam-se padres e médicos; tudo, em suma, em volta de nós se dispõe como para inspirar horror; ainda não rendemos o último suspiro, e estamos amortalhados e enterrados. As crianças ame- drontam-se quando as pessoas, mesmo suas conhecidas, se apresentam mascaradas; pois é O que ocorre nesse momento. Arranquemos as máscaras às coisas como às pessoas e por baixo veremos muito simplesmente a morte. A mesma com a qual partiu ontem sem maior pavor tal ou qual criado ou aia. Feliz é a morte que nos surpreende sem que haja tempo para semelhantes preparativos!

CAPÍTULO XXI

A força da imaginação

“Uma imaginação fortemente preocupada com um acontecimento pode provocá-lo”, dizem os clérigos.

Sou desses sobre os quais a imaginação tem

grande domínio. Todos são atingidos por ela,

mas alguns que ela derruba. Ela me perse- gue e eu me esforço por fugir na impossibi- lidade de lhe resistir. Viveria sempre, de bom grado, na companhia de pessoas sadias e de bom humor; a vista das angústias alheias influi fisicamente em mim de maneira penosa, e não raro sofro de sentir que alguém sofre. Diante de quem tosse continuamente sinto igual irrita- ção nos pulmões e brônquios. Sou levado a visitar menos os doentes pelos quais me intê- resso, e preciso ver, do que os outros, os que não considero tanto e visito ocasionalmente. Pego a doença que estudo e a semeio em mim. Não acho estranho que a imaginação febre e mesmo provoque a morte nos que não a controlam.

Simon Thomas foi um grande médico em seu tempo. Lembro-me de que com ele me encontrei em Tolosa em casa de um ancião rico e doente do peito. Entre outros meios de cura, aconselhou-lhe Simon Thomas a fazer com que eu me agradasse em sua companhia, pois em contemplando o frescor de meu rosto, concentrando o pensamento na alegria e no vigor que se irradiavam de meu ser, então em

plena adolescência, impregnando todos os seus sentidos dessa exuberância de saúde que havia em mim, poderia melhorar seu estado de saúde habitual. Omitia de dizer, entretanto, que o meu talvez se ressentisse da experiência.

Galo Víbio dedicou-se de tal modo ao estu- do das causas e efeitos da loucura que perdeu a razão e não mais a recobrou. Podia vanglo- riar-se de se ter tornado louco por excesso de sabedoria. Em certos condenados o pavor adianta-se à ação do carrasco, como se viu no caso do condenado a quem desvendaram os olhos no patíbulo a fim de lhe comunicarem ter sido agraciado. Ao lhe tirarem a venda verificaram que morrera, fulminado pela sua imaginação. Suamos e trememos, empalide- cemos e coramos sob a sua influência. Em leito de pluma agita-nos o corpo a ponto, por vezes, de nos levar à morte; e tanto inflama a fogosa mocidade que ocorre aos jovens satisfa- zerem em sonho seus desejos amorosos.

Embora não seja raro ver-se, à noite, apare-

.cerem cornos em quem não os tinha ao deitar-

se, o caso de Cippus, rei da Itália, é particular- mente notável. Assistira durante o dia a uma luta de touros e se interessara tanto que a noite inteira sonhara lhe cresciam chifres na cabeça, o que pela força da imaginação aconteceu efetivamente. O amor deu ao filho de Creso a voz que a natureza lhe recusara. Antíoco con-

56

traiu uma febre!?? em consegiência da, impressão profunda que lhe causou a beleza de Estratonice. Plínio afirma que viu Lúcio Cos- sitio mudar de sexo e se tornar homem no dia de suas núpcias! 74. Pontano e outros relatam semelhantes metamorfoses ocorridas na Itália em séculos passados; e em virtude de violento desejo dele próprio e de sua mãe, Ífis: “pagou como homem as promessas que fizera quando mulher”?! 78.

De passagem por Vitry-le-François! 7 £ foi- me dado ver um rapaz a quem o bispo de Sois- sons dera o nome de Germain na confirmação, e que todos os habitantes do lugar haviam tra- tado por Maria, como mulher, até a idade de vinte e dois anos. Quando o conheci era velho, muito barbudo e não se casara. Expli- cou-me que, em consequência de esforço feito para saltar, ocorrera O aparecimento de seus órgãos viris. É ainda de uso na região canta- rem as moças uma canção em que se reco- menda não fazerem grandes exercícios para não lhes acontecer tornarem-se rapazes como Maria-Germano. Não é tão extraordinário assim o caso, e essa espécie de acidente se veri- fica não raro. Pode-se observar entretanto que a ação da imaginação em tais casos consiste em uma contínua obsessão e excitação que levam à mudança definitiva de sexo como solução mais cômoda e eficiente! 7 7.

quem atribua à imaginação os estigmas do Rei Dagoberto e de São Francisco. Diz-se também que sob a sua influência pode o corpo humano erguer-se por vêzes do seu lugar. Paracelso conta que certo padre se alçava a um êxtase tal que durante longo tempo perma-