OS PENSAD Dol RI S
ÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL
IV
HISTÓRIA DAS GRANDES IDEIAS DO MUNDO OCIDENTAL
EDITOR: VICTOR CIVITA
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rablo Ruben Mariconda — Willham Ja
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*aulo Eduardo Arantes — Benjamin Horkheimer Adorno Habermas
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SUMÁRIO
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s filósofos norte-americanos fize- ram alguma contribuição origi- nal para a história da filosofia?
Essa pergunta é feita por Paul Kurtz, um dos mais categorizados historia- dores das idéias na América do Norte, como questão preliminar de toda a visão geral do pensamento no Novo Mundo. Desenvolvendo o tema, Kurtz afirma que nenhuma generalização pode dar conta do problema, pois o pensamento norte- americano tem sido pluralístico, isto é, receptivo a uma grande variedade de temas e movimentos, desde o purita- nismo e idealismo dos primeiros coloni- zadores até o naturalismo e o positi- vismo dos séculos XIX e XX. Qualquer fórmula que pretendesse reduzir esses diversos elementos a uma tradição uni- forme correria o risco de envolver simplificação extremada.
Herbert W. Schneider, outro especia- lista em história da filosofia norte-ame- ricana, afirma: “Nossas mais airosas tradições recendem a inspiração estran- geira”. Ainda segundo Schneider, “fran- ciscanos espanhóis, jesuítas franceses, puritanos ingleses, pietistas holandeses, calvinistas escoceses, philosophes cos- mopolitas, transcendentalistas alemães, revolucionários russos e teósofos orien- tais, de comum acordo, contribuiram para dotar a filosofia norte-americana de continuidade e também provocaram- lhe algumas sacudidelas”.
Não obstante toda essa diversidade e flutuações ao sabor das correntes do pensamento estrangeiro, parece haver uma tendência constante na tradição norte-americana, constituída pelo fato de que todas as idéias têm do avalia- das pragmaticamente e sua importância determinada pela referência a possíveis aplicações práticas.
Esse traço característico veio a se manifestar explicitamente como dou- trina somente a partir das últimas déca- das do século XIX, quando se configurou a chamada idade de ouro da filosofia norte-americana. O periodo, iniciado por volta de 1880, viu nascer um profundo e
Na página anterior: retrato do filósofo William James; óleo de E. E. Rand. (Bettmann Archive, Inc.)
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criativo interesse pela filosofia que con- tinua ativo no século XX, acompanhando a projeção internacional dos Estados Unidos nos domínios econômico e politi- co. Surgiram então os maiores represen- tantes da filosofia norte-americana, entre os quais as duas mais conhecidas expressões da tendência pragmatista foram William James e John Dewey.
Uma família de intelectuais
William James nasceu a 11 de janeiro de 1842, em Nova York, filho de Ienry James, sênior, e Mary Robertson Walsh. A família era muito rica e vivia numa atmosfera altamente intelectual. O pai fazia parte do grupo dos transcendenta- listas, formado por Ralph Waldo Emer- son (1803-1889), Henry David Thoreau (1817-1862), William Ellery Channing (1780-1842) e Theodore Parker (1810-1860). Os transcendentalistas reagiram contra o pessimismo e morbi- dez do calvinismo. Acreditavam na bon- dade natural do homem e em suas possi- bilidades de alcançar o conhecimento de Deus e de praticar as virtudes morais, independentemente da graça divina. Re- Jeitavam, contudo, a possibilidade de uma religião puramente racionalista, à maneira dos deistas do século XVIII. Os transcendentalistas eram poetas e misti- cos que acreditavam na verdade atingida
ela intuição subjetiva. Esposando um idealismo moral, desejavam libertar os individuos da cega adesão às convenções e normas sociais. Thoreau, por exemplo, sustentava a liberdade individual de consciência, a ponto de considerar a desobediência civil como a mais alta obrigação do indivíduo, se a sociedade interferisse em suas profundas convic- ções pessoais. Os transcendentalistas foram ainda progressistas politica- mente, defendendo os direitos naturais, a igualdade social e a abolição da escravatura.
A família de Henry James, sênior, foi assim criada dentro de uma atmosfera de idéias que propiciavam o floresci- mento intelectual livre de preconceitos e permitiam a expansão da criatividade interior e da reflexão filosófica. A criatividade interior manifestou-se com toda força no filho mais novo, o famoso
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JAMES
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Para muitos historiadores, a filosofia pragmatista liga-se intimamente às
características da soctedade norte-americana. Segundo esses intérpretes, a burguesia nos Estados Unidos sempre foi muito mais ativa e realista do que a
burguesia européia, eo pragmatismo expressaria esse traço no plano das idéias. (Max Klepper: “Passeio de Carruagem pela Quinta Avenida”, 1900.)
novelista Henry James, júnior, que reno- vou técnicas tradicionais de narrativa e se tornou um dos maiores romancistas dos fins do século XIX e começo do sécu- lo XX. A reflexão filosófica, aliada ao espírito cientifico, teve sua expressão no filho mais velho, William James.
A educação de William James fez-se de maneira irregular. Frequentou, dos treze aos dezoito anos de idade, diversas escolas na Inglaterra, Suiça, França e Alemanha. Em 1861, ingressou na Uni- versidade de Harvard: estudando ini- cialmente quimica e depois anatomia e fisiologia. Em 1864 começou a estudar medicina e no ano seguinte, na quali- dade de assistente do naturalista Louis Agassiz (1807-1873), acompanhou-o numa famosa expedição científica à flo- resta amazônica (Brasil), onde contraiu varíola e teve afetada sua sensibilidade visual.
Uma nova psicologia
Em 1867, William James encontrava- se na Alemanha, estudando fisiologia
experimental. Da Alemanha deslocou-se para Cambridge, para graduar- se em medicina, e em 1873 iniciou a carreira de professor universitário, lecionando anatomia e fisiologia em Harvard. A partir dessa época deu inicio à linha de desenvolvimento inovadora que o levaria à formulação da filosofia pragmatista. Sua primeira contribuição foi a cons- tituição de uma nova corrente de psico- logia que, ao lado de outras, marcaria o nascimento da psicologia científica. Até então, o estudo dos fenômenos psíquicos constituia uma disciplina de caráter metafísico, ocupada com a essência últi- ma do homem, isto é, com a alma, enten- dida como algo substancial. William James foi o primeiro norte-americano a organizar um laboratório de psicologia experimental, muito embora ele mesmo não se sentisse capacitado para o traba- lho experimental. Apesar disso, defendia o estudo dos fatos psíquicos como inti- mamente relacionados “com os fatos estabelecidos pela fisiologia nervosa”. A estes dever-se-iam aliar a teoria da evo- lução biológica e os dados fornecidos
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O pai de William James foi um teólogo da corrente do místico sueco
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ao mesmo tempo, esposava idéias políticas
liberais por considerar a democracia como um regime ita possibilita o
aperfeiçoamento moral do homem. (Fotografia do sécu
XIX mostra, à
esquerda, Henry James sênior e, à direita, William James aos 26 anos.)
pela arqueologia, para que se pudesse alcançar “uma verdadeira ciência do homem”. Ao mesmo tempo, William James exigia que se aliasse ao espírito cientifico-natural “uma familiaridade concomitante com escritores de estilo mais mtrospectivo”, a fim de preservar o investigador de “certas cruezas de ra- ciocínio, tão comuns no homem de labo- ratório puro e simples”
Esse projeto metodológico de constru- ção de uma nova psicologia levou Wil- liam James a algumas contribuições fundamentais no domínio dessa disci- plina. Entre as principais, encontram-se seu célebre conceito de “fluxo de cons- ciência” e sua teoria das emoções.
James defendeu a idéia de que a cons- ciência não constitui uma estrutura fixa, possuidora de certas faculdades: seria, ao contrário, um fluxo permanente, isto é, um processo dinâmico que se organiza em vista de um fim. Sua teoria das emo- ções — formulada também, independen- temente, pelo fisiologista dinamarquês Carl Lange (1834-1900) — afirma que
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as emoções não são mais que um produ- to da reverberação de certas modifica- ções fisiológicas. Assim, de acordo com a teoria James-Lange, não teria sentido dizer-se, por exemplo. “perdemos nossa fortuna. ficamos tristes e choramos”: não se chora porque se fica triste, pois chorar e entristecer-se constituem uma só coisa.
A verdade e a vida
O método cientifico de James não se limitou ao estudo dos fatos fisiológicos e psíquicos. Pouco depois de ter passado para a cadeira de psicologia da Univer- sidade de Harvard, James orientou seu empirismo experimental. isto é, sua combinação de evolução, psicologia e introspecção, para as próprias crenças filosóficas.
Essa nova orientação dos estudos de James vinculava-se em parte, aos pro-
blemas filosóficos levantados pelos membros da Sociedade Metafísica de
Cambridge, entre os quais figuravam o
BETTMANN ARCHIVE INC
JAMES
BETTMANN ARCHIVE INC
A família de William James sempre viveu numa atmosfera intelectual. O pai escreveu vários ensaios filosóficos e religiosos e o irmão mais moço, Henry James Jr., foi um dos maiores escritores da época. Seus romances e novelas caracterizam-se por inovações na técnica narrativa, posteriormente desenvolvidas pelos ficcionistas do século XX. (Retrato de Henry James Jr.)
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Na passugem dos séculos XIX e XX, a sociedade norte-americana deixou de ser predominantemente agrária para transformar-se numa sociedade tipicamente urbana. Em 1910, quase 50% da população havia se transferido do campo para os grandes centros urbanos, acompanhando o surto industrial. (Nova York, Quinta Avenida, vista da Rua 43; fotografia de 1916 da New York Historical Society.)
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Ao lado do interesse científico despertado muito cedo, William James entusiasmou-se com as artes plásticas, na adplescência. Aos dezoito anos de idade, deixou a casa paterna a fim de estudar pintura com William M. Hunt, em Newport. À experiência não teve resultados positivos e um ano depois o futuro filósofo voltou aos estudos científicos. (Carta de William James, de 1861.)
róprio James, Chaunce Wright (1830-1875), John Fiske (1842-1901) e Charles Sanders Peirce (1839-1914). Tentando resolver complexas questões de teoria do conhecimento, esse grupo lançou as bases do que viria a ser a file sofia pragmatista. Entre eles salientou- se Peirce, em geral considerado o verda- deiro criador do pragmatismo.
Para Peirce, o pragmatismo é funda- mentalmente um método de esclareci- mento de conceitos; em outras palavras, trata-se de uma teoria da significação e situa-se nos terrenos da lógica. Em James, o pragmatismo é muito mais amplo e transformou-se a tal ponto que os dois filósofos romperiam relações e Peirce passaria a designar suas teorias pela expressão “pragmaticismo”.
Willam James entende o pragma-
tismo não apenas como um método de determinação de significados, mas tam- bém como uma nova teoria da verdade, que supunha estivesse implícita nas idéias de Peirce. O primeiro escrito no qual William James sistematizou suas idéias e introduziu o termo pragmatismo para designar a doutrina foi o ensaio Concepções Filosóficas e Resultados Práticos (1898). Nesse trabalho declara que o princípio do pragmatismo deveria ser tomado em sentido muito mais amplo do que o formulado por Peirce. “A prova última do que significa uma verdade”, .escreve, “é, sem dúvida, a conduta que essa mesma verdade dita ou inspira. Mas inspira semelhante conduta porque, sobretudo, prediz uma certa orientação particular de nossa experiên- cia, que extrairá de nós tal conduta.”
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Quando William James faleceu, em 1910, seu irmão Henry James declarou: “Sinto-me pesadamente ferido e no escuro, pois, de muito atrás, da mais recôndita infância, ele havia sido meu ideal irmão mais velho (.. .) via nele (...)omeu protetor, meu amparo, meu chefe e meu orgulho”. (Os dois James em fotografia de 1900, o novelista à esquerda e o filósofo à direita.)
Essa idéia reafirma uma tese anterior de James que se encontra no escrito A Von- tade de Crer (1897), no qual defende “métodos empíricos” para a filosofia, contra os “métodos absolutistas e aprio- ristas” cujo principal representante seria o filósofo Hegel (1770-1831). Segundo James, a filosofia deveria imi- tar os procedimentos das ciências natu- rais e ser indutiva e empírica como elas: para atingir esse objetivo, o filósofo deveria adotar hipóteses de trabalho e substituí-las quando necessário. O crité- rio de manutenção ou substituição das hipóteses seria a capacidade das mes- mas para satisfazer o filósofo na solução do problema em questão. Em outros ter- mos, James defende as hipóteses filosó- ficas na medida em que possam “funcio- nar” e não por serem “verdadeiras”. A
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verdade, portanto, deixa de ser conce- bida como adequação entre o pensa- mento e o pensado, a mente e a realidade exterior, ou então como coerência de idéias entre si, para tornar-se funcional. Nessa ordem de idéias, uma proposição é considerada verdadeira na medida em que possa orientar o homem na reali- dade circundante e conduzi-lo de uma experiência até outra. À verdade — para James — não é algo meios e permanente: pelo contrário, modifica-se e expande- se sempre.
Nesse processo de modificações e crescimento, a verdade deve satisfazer a duas condições diferentes. Em primeiro lugar, o pragmatismo de James salienta a necessidade de as proposições exigi- rem comprovação para serem admitidas como verdadeiras. Nesse sentido, a ver-
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Apesar de não se ter tornado grande pintor como desejara, William James aproveitou os estudos de pintura que fez na adolescência. Durante toda a sua carreira científica e filosófica, sempre Pa capaz de ver o aspecto estético das coisas e seus escritos revelam constante preocupação estilística. (Auto-retrato a lápis, executado por William James em 1866.)
dade seria a verificabilidade:; caso em que não se poderia identificar a verdade pura e simplesmente com as conse- quências benéficas de uma proposição. Em outras palavras, essa primeira con- dição da verdade, estabelecida pelo pragmatismo, entende ““consequência prática” como um modo de “conse- úência teórica”. A segunda condição estabelecida por James para a identifi- cação de uma verdade consiste no seu valor para a vida concreta. Esses dois modos de conceber a verdade unem-se na concepção da verdade como algo essen- cialmente “aberto” e em constante movi- mento. Em sintese, para William James, a verdade não é algo feito ou dado; é algo que “se faz” dentro de uma totali- dade também em constante processo de “fazer-se”
Essa concepção de verdade foi am- pliada por William James, de modo a abranger não apenas a esfera das ciên- cias, mas também o terreno da moral e da religião. Para James, a crença reli- giosa pode ter tanto valor de verdade quanto o conhecimento científico. Em sintese, sua teoria afirma que uma cren- ca deve ser considerada verdadeira, desde que possa satisfazer o desejo de compr censão global das coisas e consti- tuir um bem vital para, determinado individuo. A crença, porém, deve ser viva, indispensável e inevitável.
O próprio William James sentiu-a como indispensável em várias crises mo- rais e físicas que experimentou durante a vida, particularmente depois de 1870, pouco antes de se tornar professor na Universidade de Harvard. Ai, James
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permaneceria até 1907, ocupando suces- sivamente as cadeiras de anatomia, fisiologia, psicologia e filosofia. Além do ensino, dedicou-se à redação de inú- meras obras, até o fim da vida, em 1910. Entre seus principais livros, encontram- se: Princípios de Psicologia (1855), As Variedades da Experiência Religiosa
(1902), Pragmatismo:" Um *Nome Novo
ara alguns Velhos Modos de Pensar (1907), O Significado da Verdade: Uma Continuação do Pragmatismo (1909), Um Universo Pluralístico (1909), Al- guns Problemas de Filosofia (1911) e Ensaios sobre o Empirismo Radical (1912).
18422 — 4 Il de janeiro, nasce William James, na ci- dade de Nova York.
1843 — Nasce o romancis- ta Henry James.
1848 — Marx e Engels lan- çam o Manifesto do Partido Comunista.
1859 — Darwin publica 4 Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural. 1860 — Lincoln obtém maioria nas eleições presi- denciais. presidenciais.
1863 — É proclamada, por Lincoln, a emancipação dos escravos.
1865 — Lincoln é assassi- nado em abril.
CRONOLOGIA
1873 — William James tor- na-se professor da cadeira de fisiologia de Harvard. 1875 — Henry James redi- ge o romance O Americano. 1876 — Publicam-se As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Wilhelm Wundt cria o primeiro labo- ratório de psicologia experi- mental em Leipzig, na Ale- manha.
1878 — Peirce, figura cen- tral do pragmatismo ameri- cano, publica How to Make our Ideas Clear na revista Popular Science Monthly. William James casa-se com Alice H. Gibbens.
BIBLIOGRAFIA
1879 — James torna-se pro- fessor de filosofia na Uni- versidade de Harvard.
1890 — Publica Os Princi- pios de Psicologia.
1897 — Publica A Vontade de Crer.
1902 — Editam-se As Va- riedades de Experiência Re- ligiosa, de William James. 1907 — William James pu- blica Pragmatismo: Um No- vo Nome para Velhos Mo- dos de Pensar.
1909 — Publica Um Uni- verso Pluralístico.
1910 — Morre em Choco- rua, New Hampshire, a 26 de agosto.
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oucos filósofos terão sido tão P influentes junto ao grande público
quanto John Dewey. Suas idéias implantaram-se firmemente no solo da pda norte-americana, estendendo-se também para quase todo o mundo. A chamada aa nova” de pedagogia deve a John Dewey parte essencial de seus fundamentos teóricos.
Dewey nasceu em Burlington, Ver- mont, a 20 de outubro de 1859. Depois de cursar as escolas primária e secun- dária de sua cidade, ingressou na Universidade de Vermont, onde se inte- ressou, sobretudo, pela filosofia e pelo pensamento social e graduou-se em 1879. Dois anos depois, ingressou na Universidade John Hopkins, recém- fundada e centro de grande efervescência intelectual. Ali Dewey doutorou-se com tese sobre a psicologia de Kant, em 1884. Em seguida passou a trabalhar na Universidade de Michigan, onde perma- neceria dez anos. Em Michigan, indis-
ôs-se cada vez mais com a pura especu- ação e procurou novas vias que situassem o pensamento filosófico mais próximo dos problemas práticos.
Essa orientação de seu pensamento tornou-se ainda mais sensível e produziu os primeiros frutos na Universidade de Chicago, para a qual se transferiu em 1894. Em Chicago, Dewey participou ativamente dos trabalhos da Hull House, onde teve oportunidade de co- nhecer diretamente os problemas sociais e econômicos causados pela urbaniza- ção, pelo rápido progresso tecnológico e pelo crescente afluxo de imigrantes; assim teve amplo contato com operários, sindicatos, Rolnieds de esquerda e radi- cais de diferentes orientações. Por outro lado, suas atividades na própria univer- sidade levaram-no a reunir um grupo de amigos preocupados com problemas filosóficos; disso resultou a publicação, em 1903, de uma obra coletiva, intitu- lada Teoria Lógica, na qual se encon- tram trabalhos de todos os membros do grupo. Mas de maior ressonância foi a criação da Escola Elementar da Univer-
Na página anterior: retrato do flósari e educador John Dewey, tela de E. B. Child (Bettmanh Archive)
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sidade (também conhecida como Esco- la-Laboratório), a primeira escola expe- rimental da história da educação. Dirigindo essa instituição e escrevendo incessantemente sobre teoria educacio- nal, Dewey tornou-se um dos maiores nomes de toda a pedagogia.
Entre os principais escritos de Dewey, datam dessa época 4 Escola e a Socie- dade e A Criança e o Curriculum.
Em 1904, Dewey deixou Chicago, transferindo-se para Colúmbia, em vir- tude de conflitos com a direção da universidade, relativos à escola experi- mental. Já era, contudo, um educador reputado em todo o país e o período seguinte de sua vida seria marcado pela difusão internacional de suas idéias pedagógicas e filosóficas. Essa difusão se fez, sobretudo, através dos alunos de todos os paises do mundo que se diri- giam ao Teachers College da Universi- dade de Colúmbia, a fim de conhecer seus métodos pedagógicos. Por outro lado, Dewey também difundiu suas | idéias, proferindo conferências e cursos em Tóquio, Pequim, Nanquim, México, Rússia e Turquia.
Em 1930, Dewey deixou a Universi- dade de Colúmbia. Continuou, porém, trabalhando intensamente, sobretudo na redação de inúmeros escritos. Ao lado da atividade teórica, manteve intensa vida pública, sempre defendendo causas progressistas. Em 1937, presidiu a comissão pública que deveria investigar a veracidade das acusações contra o líder comunista Leon Trotsky, con- cluindo por sua inocência. Em 1941, já com 82 anos de idade, revoltou-se contra a proibição de Bertrand Russell (1872-1970) lecionar no City College de Nova York.
Pensamento e ação
Ao falecer, em 1952, com 92 anos de idade, Dewey deixou extensa obra na qual se destacam: Psicologia (1887), Meu Credo Pedagógico (1897), Como Pensamos (1910), Democracia e Educa- ção (1916), Reconstrução em Filosofia (1920), Natureza Humana e Conduta (1925), Experiência e Natureza (1925), Arte enquanto Experiência (1937) e Teo- ria da Investigação (1938).
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O centro de todo o pensamento de Dewey é a concepção que ele mesmo chamou “instrumentalismo”, para dife- renciar-se dos pragmatismos de Peirce € William James, dos quais partira. Da mesma forma que James, Dewey opôs-se às tradicionais teorias sobre a verdade que a consideram como correspondência entre pensamento e pensado ou coerên- cia das idéias entre si; afastou-se, contu- do, de James, rejeitando sua visão subje- tivista do problema da verdade e sua justificação da crença religiosa. Com relação a Peirce, Dewey achava seu pragmatismo por demais restrito e pre- tendia ampliar seu campo de ação. Ape- sar dessa discordância, o ponto de parti- da de Dewey foi também uma crítica das filosofias especulativas. Os sistemas idealistas e abstratos — pensava Dewey — teriam buscado em vão encontrar a unidade entre os fragmentos de um uni- verso que o próprio pensamento especu- lativo dividiu.
As dualidades matéria-espírito, exte- rior-interior, pensado-pensamento cons- tituem falsos problemas para Dewey. Todos esses falsos problemas decorre- riam de considerar-se a consciência como contemplação. A tal modo de con- ceber a consciência, Dewey opõe seu “instrumentalismo” ou “funcionalismo”. segundo o qual o conhecimento não é mais do que atividade dirigida e parte funcional da experiência. O pensamento — diz Dewey — não tem fim em si mesmo, é uma fase da vida, um aconteci- mento que se produz num ser vivo, em certas condições configuradoras de uma situação de conflito para o homem. O pensamento seria o esforço para recons- truir a atividade do individuo e colocá-lo -em condições de se adaptar à nova situa- ção. Nesse sentido, as idéias funciona- riam como hipóteses de ação referentes exclusivamente ao futuro e verdadeiras na medida em que pudessem funcionar como guias para a ação. Assim, diz Dewey que a racionalidade da natureza, afirmada pelos cientistas naturais, não constitui um postulado teórico, mas uma
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Para Dewey, unir modéstia e coragem crença que propicia à atividade inteli- na defesa das próprias idéias é o Ra a possibilidade de intervir nos único caminho pelo qual “o filósofo enômenos, modificando-os na medida pode encarar seus semelhantes, de do necessário. Assim, o instrumenta- frente, com franqueza e humanidade”. lismo concebe a atividade inteligente 7197
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A modéstia, exaltada por Dewey como virtude filosófica, levou-o a afastar-se das filosofias que pretendem a descoberta de verdades eternas e dedicar-se à formulação de uma pedagogia que procura valorizar a liberdade e a criatividade infantis. (Crianças trabalhando na Escola-Laboratório de Dewey; foto do livro The History of the Laboratory Schools, de Ida B. de Pensier.)
não como algo que lhe vem de fora, mas como produto da “natureza que realiza suas próprias forças em busca de uma produção mais plena e mais rica em acontecimentos”.
Da mesma forma que a atividade inte- ligente nas ciências naturais, a atividade moral do homem não é concebida pelo
instrumentalismo como dirigida por uma prévia “idéia do bem”. A ação moral — afirma Dewey — é conduzida
por três princípios de origens distintas: o bem, concebido como fim, a regra do dever e a apreciação do outro. À necessi- dade de conciliar esses três princípios
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(que são fundamentalmente diferentes) é que originaria os problemas morais. Com o instrumentalismo, Dewey pre- tendeu contribuir para o restabeleci- mento de uma unidade espiritual que o pensamento contemporâneo teria des- truido. Para Dewey, o pensamento con- temporâneo | estabeleceu dicotomias entre o ideal e o real, entre o espirito e a natureza, e essas dicotomias manifes- tam-se claramente nas especializações irredutíveis do matemático e do historia- dor, dos humanistas e dos engenheiros. A pedagogia tradicional teria mantido essa oposição, formando, de um lado,
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À coragem, outra virtude filosófica exaltada por John Dewey, levou-o a ga as causas da liberdade universitária, do socialismo econômico, da emocracia política e da integração racial. Em seu pensamento, tudo isso depende da transformação do homem desde os seus primeiros anos. (Tela de P. Evergood: “O Futuro Pertence a Eles”; Coleção W. van den Henvel, Nova York.)
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homens de ação, nos quais o pensamento é sacrifidado, e de outro os contempla- tivos, voltados exclusivamente para o pensamento abstrato. Dewey não pre- tende subordinar um pólo dessas oposi- ções ao outro, o pensamento à ação: pelo contrário, procura mostrar que o pensa- mento é uma fase indispensável da ação, quando esta é complexa e progressiva. Desse modo, seu pragmatismo instru- mentalista procura reabilitar a pensa-
mento e não sacrificá-lo, mas sua con- cepção do pensamento leva-o a inverter os graus de inteligibilidade: o mais alto nível de inteligibilidade seria consti- tuído pelas ciências humanas e não pelas matemáticas. Para Dewey, a história e as demais ciências humanas tratam com objetos mais fáceis de serem compreen- didos porque eles são criados pelo pró- prio espírito em atividade incessante, tanto na natureza quanto na sociedade.
18589 — Nasce John De- wey, em Burlington, a 20 de outubro.
1884 — Dewey leciona na Universidade de Michigan, onde permanece até 1894. Nesse período edita um se- manário socialista, Thought News.
1894 — Dewey torna-se chefe do departamento de psicologia, pedagogia e filo-
sofia da Universidade de Chicago. 1896 Cria a Escola-La-
boratório, primeira institui- ção de pedagogia experi- mental da história.
1899 — Publica A Escola e a Sociedade.
CRONOLOGIA
1904 — Passa a trabalhar na Universidade de Colúm- bia, onde permanecerá até 1930. Em Colúmbia começa a colaborar na revista The Journal of Philosophy.
1914 — O assassínio do ar- quiduque austríaco Francis- co Ferdinando desencadeia a Primeira Guerra Mundial. 1916 — Dewey publica De- mocracia e Educação.
1918 — Fim da Primeira Guerra Mundial.
1919 — Dewey pronuncia conferências sobre educação e filosofia em Pequim.
1920 — Edita-se a Recons- trução em Filosofia, de John Dewevy.
BIBLIOGRAFIA
1925 — Dewey publica Ex- periência e Natureza.
1929 — A Bolsa de Nova York registra violento decli- nio nas cotações: é O início da grande crise econômica americana e mundial.
1937 — Dewey preside a comissão de investigação
das acusações contra Trotsky. 1940 — Publicam-se os
Problemas dos Homens e Lógica, a Teoria da Investi- gação, de Dewey.
1941 — Dewey defende a li- berdade universitária, quan- do Russell é impedido de le- cionar em Nova York.
1952 — John Dewey falece.
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OS PENSADORES
Thorstein Bunde Veblen nasceu no
Estado de Wisconsm em 1857. Criança ainda, mudou-se com a família para uma comunidade rural em Minne- sota, onde predominavam a língua, a religião e os costumes escandinavos.
Apesar de sua origem humilde, fre- quentou algumas das melhores universi- dades americanas. Esteve no Carleton College e na Universidade John Hop- kins, onde se graduou em filosofia. Em Yale doutorou-se em filosofia e na Universidade de Cornell estudou econo- mia. Recém-formado, foi para a Univer- sidade de Chicago, como instrutor na cadeira de economia, passando a profes- sor assistente em 1900. Pediu demissão em 1906, depois de ter realizado as pes- “quisas mais importantes de sua vida acadêmica. Já nessa época era conside- rado um pensador herético, visto com desconfiança e suspeita por seus colegas acadêmicos.
Ainda em 1906, foi, como professor associado, para a Universidade de Stan- ford, passando em 1911 para a Universi- dade de Missouri, como professor titu- lar. Em 1919, transferiu-se para a New School for Social Research, onde perma- neceu até 1927. Ao lado das atividades como professor, Veblen escreveu inúme- ras obras, a mais famosa das quais inti- tula-se 4 Teoria da Classe Ociosa, publi- cada em 1899. A esse livro seguiram-se, entre os mais importantes: Teoria da Empresa (1904), O Status Bárbaro da Mulher (1914), A Alemanha Imperial e a Revolução Industrial (1915), Uma Investigação sobre a Natureza da Paz (1917), O Ensino Superior na América (1919) e O Lugar da Ciência na Civiliza- ção Moderna (1919).
F lho de imigrantes noruegueses,
A crítica do capitalismo
A vocação de Veblen para a filosofia definiu-se numa época profundamente marcada pelos debates científicos e teológicos, que cercaram o apareci- mento das doutrinas evolucionistas, em particular a de Herbert Spencer.
Na página anterior: retrato do
sociólogo e pensador Thorstein Bunde Veblen. (Betim Archive Inc.)
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Aluno do Carleton College, Veblen dedicou-se ao estudo das idéias de Spen- cer e, a seguir, dos filósofos do século XVIII, sobretudo David Hume (1711-1776) e Kant (1724-1804).
Da mesma maneira, sua formação em economia sofreu o impacto das idéias de seu tempo. Veblen fez-se economista num período em que a ordem capitalista era submetida à crítica radical pelas tendências igualitárias e socialistas de todos os matizes. A ênfase nos antago- nismos de classe, a condenação do monopólio e do poder econômico, os ata- ques aos partidos e políticos corruptos, a denúncia das universidades, igrejas e jornais, considerados instrumentos de interesses econômicos, esses eram os
andes temas que dividiam os meios intelectuais na Europa e nos Estados Unidos, nas três últimas décadas do sé- culo XIX.
Nessas circunstâncias, a teoria econô- mica clássica não exerceu atração espe- cial sobre Veblen. Ele a considerava uma pseudociência social, pouco mais do que uma apologia da ordem dominante. Tampouco o marxismo lhe parecia uma alternativa teórica válida. Kantiano por formação, a dialética hegeliana — em sua forma original ou na versão materia- lista de Marx — não o estusiasmava. Em sua opinião, a antitese capitalista-prole- tários, definida por Marx (segundo Veblen) em termos puramente econômi- cos, ignorando as dimensões socioló- gicas e psicológicas das duas classes, era excessivamente simplista e abstrata ps ser de alguma utilidade. Assim Ve-
len terminou por definir um caminho eminentemente pessoal de crítica à ordem econômica dominante na época. Em suas análises buscou reconstruir uma sequência histórica evolutiva, que iluminasse as principais características do objeto de sua crítica: o sistema eco- nômico moderno. A história da humani- dade ter-se-ia caracterizado sempre pelo conflito entre forças predatórias e cons- trutivas, inerentes aos seres humanos. Esse antagonismo, sempre presente, mu- daria. apenas de forma em cada época histórica, na medida em que a força bruta e a fraude sem rebuços iam dando ada a uma atitude predatória coberta pelo manto da legitimidade ética e da
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Veblen foi um pensador extremamente independente, sempre em conflito com as autoridades universitárias. Suas profundas análises do mundo contemporáneo são, ao mesmo tempo, críticas impiedosas do sistema empresarial capitalista, do nacionalismo e da religião. Na New School for Social Research, onde Veblen lecionou, encontra-se o afresco de Th. Benton “Atividades Citadinas e Metrô”.
suposta representação dos interesses gerais. A crescente sofisticação da ativi- dade predatória dos homens seria o resultado da capacidade acrescida do sistema produtivo de gerar um exce- dente de proporções consideráveis. A magnitude do excedente, por sua vez, dependeria do nível de desenvolvimento das atividades industriais, resultado da ação das tendências construtivas. Assim o pirata do século XVI teria se transfor- mado no homem de negócios do capita- lismo moderno: o barão ladrão do mundo medieval teria assumido as fei- ções de um respeitável magnata finan- ceiro. Desse modo, enquanto a economia clássica considerava o lucro como a fun- ção da organização eficiente dos fatores produtivos e, para os marxistas, ele nada mais era do que trabalho humano não remunerado, Veblen via nele o fruto de uma técnica industrial versátil, de- senvolvida graças à ciência moderna. O capitalismo competitivo — que Veblen
preferia chamar de sistema de preços ou economia pecuniária — era um momento desse processo movido pela contradição entre tendências construtivas e predató- rias. E, segundo Veblen, estava desti- nado a desaparecer em alguns anos, cor- roido pelas crises, que se repetiam com intensidade crescente, revelando uma falta de ajustamento inerente àquele sis- tema. Entretanto, se o diagnóstico era preciso, a previsão sobre a naturéza da organização econômica que deveria Su- ceder ao sistema de preços demorou a ser explicitada por Veblen. Somente em seus últimos escritos esboçou as linhas gerais de um sistema no qual a produção e distribuição estariam sob controle dos engenheiros, categoria ocupacional onde se incluiam todas as funções técnicas vinculadas à produção.
Apesar de sua erudição prodigiosa e da profusão de idéias originais contidas em seus trabalhos, Veblen não obteve o reconhecimento de seus contemporá-
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FABBRI
OS PENSADORES
neos. Poucos foram seus leitores e anda mais escassos os seguidores que teve em vida. Suas idéias causavam perplexi- dade entre seus colegas economistas e não faziam parte dos temas de debate correntes nos meios acadêmicos. Falecido a 3 de agosto de 1929, não presenciou a crise que havia previsto com grande antecedência e que, aba- lando profundamente o mundo capita- lista, arrastaria a doutrina economista clássica ao colapso e daria nova atuali- dade a sua obra. De seus últimos traba- lhos saíram as idéias mestras que ani-
maram a Tecnocracia, movimento nascido sob o impacto da grande depres- são, apoiado em núcleos organizados nas universidades. Seu objetivo era implementar um novo modelo de organi- zação, econômica e social, baseada no planejamento e dirigida pelos engenhei- ros, em substituição aos falidos meca- nismos de mercado da era do libera- lismo. Da mesma forma, encontra-se a marca de Veblen nos programas de planificação e recuperação econômicas que caracterizaram a política do New Deal de Roosevelt.
1857 — Nasce Thorstein Bunde Veblen, a 30 de ju- lho, numa fazenda em Ma- nitowoc County, Wisconsin. 1880 — Veblen forma-se em Carleton College ,e transfere-se para a Universi- dade John Hopkins.
1881 — Veblen recebe o título de Doutor em Filoso- fia pela Universidade de Ya- le. James Abraham Garfield é eleito presidente dos Esta- dos Unidos em março; em Julho sofre um atentado e fa- lece em setembro.
1892- Veblen leciona na
CRONOLOGIA
Universidade de Chicago, onde permanece até 1906. Thomas Edson inventa o cinetoscópio.
1899 — Veblen publica sua mais conhecida obra, A Teoria da Classe Ociosa. 1906 — Veblen leciona na Universidade de Stanford. Upton Sinclair publica 4 Floresta.
1911 — Veblen transfere- se para a Universidade de Missouri.
1919 — Veblen publica O Lugar da Ciência na Civili- zação Moderna e passa a
BIBLIOGRAFIA
trabalhar na New School for Social Research, onde per- manece por sete anos.
1927 — Veblen deixa o trabalho universitário e pas- sa a viver solitariamente. 1929 — Veblen falece nas proximidades de Menlo Park, Califórnia, a 3 de agosto. Herbert Hoover é eleito presidente dos Esta- dos Unidos. Começa uma grande crise econômica mundial com o “crack” da Bolsa de Nova York. O líder comunista Leon Trotsky é exilado.
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804
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OS PENSADORES
dia a converter-se na chave de explicação da teoria do conhecimento e da lógica, retirando essas disciplinas do campo da filosofia. Contra essa orienta- ção opôs-se o pensador Edmund Husserl, formulando o método fenomenológico e dando origem a um movimento, em torno do qual gravitaria considerável parcela da filosofia do século XX, cujas influên- cias se estenderam a todas as áreas das ciências humanas.
Husserl nasceu a 8 de abril de 1859, na cidade de Prossnitz, Morávia, então pertencente ao Império Austro-Húngaro. Depois de estudar nas universidades de Leipzig, Berlim e Viena, iniciou sua car- reira como professor na Universidade de Berlim, em 1883, de onde se transferiria, sucessivamente, para as universidades de Viena (1884 a 1887), de Halle (1887 a' 1900), de Góttingen (1900 a 1916) e, finalmente, de Freiburg-im-Breisgau, onde permaneceria até 1928, ano em que se retirou do magistério. No curso dessas atividades docentes, Husserl escreveu diversas obras, entre as quais se salien- tam Filosofia da Aritmética (1891), Investigações Lógicas (1901 e 1902), Idéias Diretrizes para uma Fenomeno- logia (1913), e Meditações Cartesianas (1929). Em 1933, com a tomada do poder pelo partido nazista, Husserl foi proibido de sair da Alemanha; no ano de sua morte (1938), seus amigos transfe- riram para Louvain, na Bélgica, inúme- ros escritos de sua autoria, que ficaram conhecidos como Arquivos Husserl.
os fins do século XIX, a psicologia Ng de grande prestígio e ten-
A crítica do psicologismo
Nos prolegômenos das Investigações Lógicas, Husserl procurou mostrar que há uma diferença de direito entre a psicologia, ciência empírica dos fatos do conhecimento, e as ciências normativas
uras, como a teoria do conhecimento e a ógica. A grande importância das Inves- tigações Lógicas consiste em mostrar que é impossível alcançar a apoditici- dade (necessidade e universalidade) da verdade, sem a idealidade das significa-
Na página anterior: retrato do filósofo Edmund Husserl (Foto Fabbri).
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ções lógicas e das significações em geral. Em outros termos, as leis lógicas, sustentáculos da unidade de toda ciên- cia, não podem, segundo Husserl, funda- mentar-se na psicologia, ciência empi- rica e, como tal, sem a precisão das regras lógicas. O psicologismo, diz Hus- serl, não consegue resolver o problema fundamental da teoria do conhecimento, ou seja, o problema de como é possivel alcançar a objetividade; ou, em outros termos, como é possível que o sujeito cognoscente alcance, com certeza e evi- dência, uma realidade que lhe é exterior e cuja existência é heterogênea à sua.
A tendência do naturalismo, do qual o psicologismo é um caso particular, con- siste em resolver a questão anulando a dualidade ou a diferença entre sujeito e objeto, e afirmando que a única reali- dade é a Natureza. Em linhas gerais, as consequências do naturalismo podem ser reduzidas às seguintes: tudo é objeto natural ou físico; a consciência é uma expressão vaga que se costuma atribuir a eventos fisico-fisiológicos ocorridos no cérebro e no sistema nervoso; o conheci- mento é apenas o efeito da ação causal exercida pelos objetos fisicos exteriores sobre os mecanismos nervosos e cere- brais; os conceitos e leis científicos são generalizações abstratas que servem para o homem pensar mais economica- mente a multiplicidade dos objetos exte- riores; os conceitos de sujeito, objeto, consciência, coisa, princípio, causa, efei- to, etc., só têm sentido quando reduzidos a entidades empíricas observáveis; e, finalmente, a teoria do conhecimento é uma psicologia, isto é, uma descrição do comportamento do sujeito na atividade de conhecer.
Husserl procurou mostrar que tais consequências redundam na impossibi- lidade de conhecimento científico, en- quanto conhecimento universal e neces- sário, visto que a universalidade se reduz à generalidade abstrata, e a neces- sidade à frequência e repetição dos even- tos observados. Essa impossibilidade tem sua origem na confusão estabelecida pelo naturalismo entre o físico e o psi- quico. Este diz Husserl, não é o conjunto dos mecanismos cerebrais e nervosos, mas uma região que possui especifi- cidade e peculiaridade; o psíquico é
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HUSSERL
Quando contava dezenove anos de idade, Husserl ingressou na Universidade de Berlim, onde estudou teoria dos números com Kronecker, f losofia com Paulsen e análise matemática com Weierstrass. Posteriormente Weierstrass o convidou para ser seu assistente, mas Husserl permaneceria pouco tempo exercendo essa função. (Palácio do Parlamento de Berlim, na época em que Husserl ali viveu.)
fenômeno, não é coisa. Este é o físico, o fato exterior, empírico, governado por relações causais e mecânicas. O fenô- meno é a consciência, enquanto fluxo temporal de vivências e cuja peculiari- dade é a imanência e a capacidade de outorgar significado às coisas exterio- res. À consciência pode ser dita um fenô- meno empírico quando seu conhecimento é feito por uma ciência empírica como a psicologia, desde que esta não se curve à redução naturalista do psíquico ao fisi- co. Mas, e sobretudo, a consciência, ao ser estudada em sua estrutura imanente e especifica, revela-se como algo que ultrapassa o nível empírico e surge como a condição a priori de possibilidade do conhecimento, portanto, como Cons- ciência Transcendental. A fenomenologia é uma descrição da estrutura específica do fenômeno (fluxo imanente de vivên- cias que constitui a consciência) e, como
RES sa
descrição de estrutura da consciência enquanto constituinte, isto é, como con- dição a priori de possibilidade do conhe- cimento, o é na medida em que ela, enquanto Consciência Transcendental, constitui as significações e na medida em que conhecer é pura e simplesmente apreender (no nível empírico) ou consti- tuir (no nível transcendental) os sigmfi- cados dos acontecimentos naturais e psi- quicos. A fenomenologia aparece, assim, como filosofia transcendental.
Para demonstrar que a filosofia (en- quanto fenomenologia transcendental) é uma ciência rigorosa, Husserl apresenta várias distinções. Em primeiro lugar distingue entre ciências empíricas dás fatos) e ciências puras (de idealidades a priori), como, por exemplo, a física e a matemática. Em seguida, distingue entre ciências exatas e ciências rigorosas. As primeiras vinculam-se ao caráter preciso
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OS PENSADORES
Fabbri
Deixando Berkim em 1884, Husserl tranferiu-se para Viena, onde se ligou ao filósofo Franz Brentano
acima), que exerceu profunda influência sobre seu pensamento.
de suas medições e experimentações; as segundas, ao caráter necessário de seus princípios básicos. Finalmente, Husserl distingue entre ciências rigorosas e ciên- cias absolutamente rigorosas. As primei- ras possuem princípios fundamentados, mas seus fundamentos não são forneci- dos por elas próprias e sim por outras ciências, as absolutamente rigorosas. Estas são aquelas que se autofunda- mentam. A filosofia é, em todos os senti- dos e de pleno direito, a única ciência absolutamente rigorosa porque fornece a si própria os seus fundamentos e os de todas as outras ciências, sejam elas puras ou empíricas.
O psicologismo surge, assim, como um engano teórico que pode compro- meter a possibilidade do próprio conhe- cimento cientifico, e o naturalismo, como um erro que deve ser combatido através da anádise fenomenológica da estrutura imanente da consciência, enquanto Irre- dutível a um fato natural e, mais do que isto, enquanto fonte do significado dos
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próprios fatos naturais. Por outro lado, a lógica, enquanto disciplina filosófica, apresenta um caráter normativo e a prio- ri que impede sua confusão com a psico- logia, ciência empírica dos atos empiri- cos do conhecimento. A empiria não pode fornecer as condições da apoditici- dade. Estas devem ser encontradas numa região a priori, numa esfera de ideali- dades puras cujo caráter universal, necessário e normativo possam oferecer as leis do conhecimento verdadeiro.
Ciência e consciência
A compreensão do projeto fenomeno- lógico de Husserl depende de que se compreenda primeiro como o filósofo apresenta a estrutura da consciência enquanto intencionalidade. Este concel- to, oriundo da filosofia medieval, signifi- ca: dirigir-se para, visar alguma coisa. “A consciência é intencionalidade”, sig- nifica: toda consciência é “consciência de”. Portanto, a consciência não é uma substância (alma), mas uma atividade constituida por atos (percepção, imagi- nação, especulação, volição, paixão, etc.), com os quais visa algo. À esses atos Husserl chama noesis e aquilo que é visado pelos mesmos são os noemas. Esta distinção é fundamental para com- preender-se a crítica do psicologismo, pois este consiste em confundir noesis e noema, isto é, os atos pelos quais a cons- ciência visa um certo objeto de uma certa maneira, e o conteúdo ou signifi- cado desses objetos visados. Quando o psicologista considera que a idéia de um certo ic é formada pela associação de sensações, percepções e outras idéias, confunde os atos empíricos que o sujeito realiza para alcançar tal idéia, com a própria idéia, que, no entanto, é um con- teúdo ou significado não dependente dos atos empíricos do sujeito que procura alcançá-la. Justamente por causa disso, várias noesis diferentes podem estar referidas a um só e mesmo noema. No nível empírico as noesis são atos psicoló- gicos e individuais para conhecer um significado independente deles. No nível transcendental as noesis são os atos do sujeito constituinte que cria os noemas enquanto puras idealidades ou significa- ções. Nessa medida, as noesis empíricas
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HUSSERL
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O método fenomenológieo elaborado por Husserl constitui o centro de gravidade de grande parcela do pensamento filosófico do século XX e suas influências estendem-se a todas as ciências humanas. Entre seus mais conhecidos seguidores, encontram-se Martin Heidegger, autor de Ser e Tempo, e Nicolai Hartmann, que desenvolveu uma ontologia fenomenológica.
são passivas, pois visam uma significa- ção preexistente; as noesis transcen- dentais são ativas porque constituem as próprias significações ideais.
Essas distinções permitem a Husserl elaborar a noção de Ciência como cone- xão objetiva e ideal de noesis e noemas puros.
A ciência caracteriza-se, segundo Husserl, por centralizar-se na noção de unidade, pois é na medida em que existe uma unidade entre o ato de conhecer e seu correlato (aquilo que é conhecido) que se pode falar de ciência. Esta última seria, portanto, um conjunto de conexões objetivas e ideais. Essas conexões se dão em dois níveis: primeiro, o das coisas que são visadas pelo pensamento, ou ainda, pelos atos do pensamento; segun- do, o das verdades. Isso, contudo, não significa que exista umia distinção entre as verdades que dizem respeito às coisas e as verdades que se referem às próprias verdades. Se se aceitasse essa distinção, ficaria anulada a pretensão de estabe-
lecer a unidade da ciência. Portanto, a ordem das verdades não é apenas a ordem do próprio pensamento, porém, na medida em que a ordem do pensamento é conhecida, a ordem da verdade é a ordem das próprias coisas. Isto significa que toda ciência, além das verdades empiri- cas que constata ou constrôi, e além das leis ps gerais que governam todo pensamento apolítico, pressupõe ainda a esfera das condições a priori de possibi- lidade de seus objetos e de seus métodos. Toda ciência pressupõe, portanto, a ca- mada noético-noemática transcendental, que determina as significações ideais de um certo campo de conhecimento e os atos de conhecimento (método) capazes de apreendê-las. Eis por que a diferença entre ciências da natureza e ciências do espírito é uma diferença absoluta, segun- do Hussérl.
A unidade entre o ato de conhecer e o objeto que é conhecido encontra na fenomenologia, na ciência do fenômeno, isto é, da consciência enquanto manifes-
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OS PENSADORES
tação de si mesma e das significações objetivas, a possibilidade de instauração da “filosofia como uma ciência rigoro- sa”. Assim, a descrição do vivido, dos atos intencionais da consciência e das essências que eles visam, isto é, dos cor- relatos intencionais, — enfim, a disci- plina que poderá fundamentar a lógica —, é a fenomenologia. Esta não conside- ra, de maneira inseparável, o ato e o ob- jeto que ele visa, mas estabelece sua união mediante a estrutura básica da consciência, a intencionalidade, que re- vela a impossibilidade de um ato da consciência não ter um objeto, não visar um objeto. Isto não sigmifica, contudo, que a consciência vise seus objetos de uma mesma maneira, nem também que esses objetos se apresentem para a cons- ciência de um mesmo modo. É nesse ponto que o papel da femenologia se des- taca: cabe a ela distinguir, revelar o que há de essencial na percepção, na recor- dação, na imaginação.
Ontologia regional
Se a consciência, diz Husserl, “é sem- pre consciência de alguma coisa”, conse- quentemente o objeto é apreendido em sua relação com a consciência e, nesse sentido, ele supera a si mesmo. Uma vez que o traço essencial da consciência é a intencionalidade, o objeto pode ser con- siderado como escopo Fa mesma intencionalidade e, assim, transcende a si mesmo, pois, sendo um conteúdo da intencionalidade, ele transcende sua pró- pria existência real, enquanto existência empírica imediata. Por outro lado, se se considera que a intencionalidade pode ser polarizada em múltiplas essências, desde a percepção até a ideação, torna- se possível distinguir diversas “regiões” do ser.
As essências ou significações (noe- mas) são objetos visados de uma certa maneira pelos atos intencionais da cons- ciência. Assim, por exemplo, um cubo pode ser visado pela percepção e, en- quanto essência perceptiva, é distinto do cubo qo visado pela idéia geomêé- trica de volume. Por outro lado, esse mesmo cubo pode ser visado por um ato de imaginação, encontrando-se, assim, uma terceira essência, distinta das
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anteriores. A fenomenologia procura descrever a estrutura Pernas de cada um desses atos e de cada um de seus cor- relatos ou significações. Percepção-per- cebido, imaginação-imaginado, recorda- ção-recordado, ideação-ideado, etc., constituem o campo de trabalho das descrições e análises fenomenológicas. Cada um desses pares constitui uma certa região do Ser, isto é, um certo modo de um ente ser visado pela cons- ciência. Cada região se define, assim, pela estrutura do ato intencional e pela estrutura do correlato intencional; os pares formam uma estrutura unitária e é a unidade imanente existente entre os dois momentos (o ato de visar e a essên- cia ou significação visada) que permite falar na região da natureza fisica, na região dos objetos matemáticos, na ço dos valores morais, etc. A fenome- nologia é uma ontologia regional na me- dida em que se trata do Ser (do grego ón) enquanto estruturado com sentido dife- rente conforme seja visado pela cons- ciência. Cada região, estabelecendo a essência ou oniCadas do objeto pela modalidade da relação ato-correlato in- tencionais, é uma região eidética (do grego eidos: idéia ou essência). As essên- cias que regem conjuntos de fatos empi- ricos são ditas materiais, seja qual br sua região. As essências são materiais, e não meramente formais, porque possuem um conteúdo determinado pelo domínio circunscrito de uma certa maneira pela camada noético-noemática. Assim sendo, as essências configuram campos de obje- tividades que não podem ser extrapola- dos, o que seria possível se fossem pura- mente formais. Por isso a fenomenologia implica uma ontologia regional.
Ciência das essências em geral, mas remetida da consideração do objeto para a da consciência, a fenomenologia estuda as essências da região “consciência”, suas estruturas e seus atos. Inicialmente, Husserl distingue a região “mundo” (exterior) e a região “consciência” (inte- rior). Contudo, no nível transcendental, na medida em que o sentido ou eidos da região “mundo”, ou das várias regiões dice da região “mundo”, é consti- tuído pela região “consciência”, esta se torna a região fundamental que produz o significado das demais.
HUSSERL
No período em que permaneceu em Viena, entre 1884 e 1887, Husserl renegou sua ascendência judaica, converteu-se ao luteranismo e casou-se com Malvine Steinschneider. Do ponto de vista intelectual, os anos passados em Viena foram extremamente fecundos:.as principais idéias que Husserl desenvolveu posteriormente foram esboçadas nessa época. (Universidade de Viena.)
O mundo entre parênteses
Para se compreender a passagem das várias regiões eidéticas, da região “mundo” para a região “consciência”, deve-se levar em conta uma operação muito especial que Husserl denomina de epoquê ou redução fenomenológica. A redução ou epoguê é a operação pela qual a existência efetiva do mundo exte- rior é “posta entre parênteses”, para que a investigação se ocupe apenas com as operações realizadas pela consciência, sem que se pergunte se as coisas visadas por ela existem ou não realmente. A redução, diz Husserl, suspende a “tese natural do mundo” (do grego thésis: posição, aceitação). A “atitude natural” é a atitude cotidiana de “tese do mundo”, ou seja: acredita-se esponta- neamente que as coisas exteriores exis- tem tais como se as vê; portanto, natural
e espontaneamente, “põe-se” o mundo. Ora, quando se descobre que cada indivi- duo pode ter uma “posição” (tese) dife- rente da dos outros a “tese do mundo” torna-se confusa e problemática. A feno- menologia coloca a “tese natural” entre parênteses para indagar, primeiro, como a consciência funciona e como se estrutu- ra, para, no final, justificar essa “tese natural” exatamente enquanto atitude irrefletida, ingênua e que precisa ser fundamentada filosoficamente, já que é o modo de viver cotidiano.
Husserl distingue dois níveis ou mo- mentos da redução. No primeiro, a redu- ção consiste em buscar o significado ideal e não empírico dos elementos empi- ricos. É uma redução eidética que procu- ra essências ou significados. Segundo Husserl, toda ciência (empírica ou pura) deve ser antecedida por uma investiga- ção eidética que defina a essência ou
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estrutura necessária do objeto a ser estu- dado. Assim, antes da psicologia deve vir uma psicologia eidética ou fenomeno- lógica que apresente a essência do psi- quico; antes da física, uma física eidética que faça a mesma descrição da essência do físico; e assim por diante. No segundo momento, porém, a redução é transcen- dental porque visa à essência da própria consciência enquanto constituidora ou produtora das essências ideais. É nesse nível que noesis e noemas se revelam como absolutamente a priori.
A redução, contudo, não pode ser compreendida como uma negação ou uma limitação. Ela não nega o mundo, apenas o coloca entre parênteses. Torna- se um desvelamento do objeto, pois, enquanto procedimento de investigação, a redução torna exequível o mundo da experiência vivida. E, mediante sucessi- vas reduções, manifesta-se a Intenciona- lidade psicológica com seus objetos, a intencionalida transcendental, que pensa o mundo e o sentido do mundo, e, por fim, a intencionalidade criadora (idêntica ao movimento de redução), que faz o mundo aparecer. Por essa análise transcendental, os problemas da lógica se encontrarão Se em um “con- junto de atos de consciência, de atitudes da consciência em face do objeto, de modos sob os quais o objeto é dado à consciência”
“Coisa”, “idéia”, “em”
As coisas, segundo Husserl, caracteri- zam-se pelo seu perspectivismo, pelo seu inacabamento, pela possibilidade de sempre serem visadas por noesis novas que as enriquecem e as modificam. As idéias ou conceitos, ao contrário, carac- terizam-se por seu aspecto globalizador, total e acabado. Por exemplo: o cubo percebido pode ser objeto de infinitas percepções porque é apenas a multipli- cidade de perspectivas que o apreendem. O cubo pensado, por outro lado, é o obje- to geometricamente, definido de uma vez por todas. Basicamente, entre a percep- ção e a ideação encontra-se a diferença entre a transcendência da coisa, que a torna inesgotável, e a imanência da idéia, que a torna completamente defi- nida pela e para a consciência. Essa dife-
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rença abre o campo para uma atividade fundamental da consciência, ampla- mente empregada pela fenomenologia: a imaginação transcendental, que procura, através da variação eidética, captar na multiplicidade infinita dos esboços e perspectivas a unidade de sentido que permite alcançar a idéia de uma coisa que, em si mesma, ê mesgotável, mas que pode ser “aprisionada” pelo seu con- ceito uno e total. A possibilidade de variação eidética (busca do núcleo essen- cial) pela imaginação transcendental decorre da natureza peculiar da cons- ciência. Embora em cada noesis e em cada noema a coisa transcendente pareça parcial e suscetível de novos desenvolvi- mentos e esboços, cada noesis e cada noema enquanto tais, isto é, enquanto atos e correlatos da consciência, são absolutamente totais e presentes. Cada um deles é completo em si mesmo e, assim, a cada passo a consciência se ofe- rece como integral e absoluta. A imanên- cia significa que cada vivido, embora forme um fluxo infinito com os demais, é em si mesmo completo e acabado. A imaginação transcendental consiste em atribuir à multiplicidade transcendente da coisa o caráter acabado que cada vi- vido possui. A idéia ou conceito é à supe- ração da infinidade das perspectivas transcendentes da coisa, pela unidade imanente do significado.
Por outro lado, o eu parece estar na consciência constantemente, mas essa permanência não ê a de um vivido que se obstina estupidamente.
O eu pertence antes a todo vivido que chega repentinamente e se escoa; seu “olhar” irige-se para o objeto através de todo o ER atual. Como diz o pró- prio Husserl, “(...) o eu puro parece ser um momento os a identidade absoluta que ele conserva através de todas às transformações reais e possíveis não permite considerá-lo em nenhum sentido como uma parte ou um momento real dos próprios vividos”. Esse eu surge como uma transcendência, contrapondo- se à imanência dos vividos; é esse eu que vive todos os modos do vido:
Pode-se dizer, portanto, que o eu “na- tural” da psicologia se detém ante as coisas, que ele julga reais e transcen- dentes, no mundo; essa atitude, uma vez
HUSSERL
Desae
,
Rebrt Cud, fes pots de une anita rem |
Embora tivesse deixado a religião judaica em 1886, Husserl foi um dos primeiros intelectuais alemães a sofrer com o anti-semitismo nazista. Em 1933, foi proibido de ausentar-se da Alemanha sem autorização e suas obras foram impedidas de circular. (Em foto da Biblioteca Municipal de Milão,
o alerta aos arianos: “Alemães! Defendam-se! Não cooperem com os judeus!)
suspensa, aparece como tema ao eu “transcendental”, que pensa o mundo como transcendente ao eu empírico; enfim, última modificação do “olhar”, a redução transcendental completa-se ao descobrir no eu puro a origem do senti- do. Ao eu puro. que opera essa última significação, e que fica como simples espectador, aparece o eu que pensa o mundo com o conjunto de seus atos. Quando Husserl elogia Descartes e se considera um neocartesiano, ele o faz or duas razões: a primeira consiste no ato de Descartes ter imposto à filosofia algo que para Husserl é a pedra de toque do filosofar, isto é, ter imposto a ne- cessidade de um método que obrigue a uma reflexão radical sobre os procedi- mentos adequados para o pensamento filosófico; a segunda consiste no fato de Descartes ter encontrado o Cogito como primeira verdade indubitável para come-
çar a pensar corretamente. O Cogito, isto é, a subjetividade, torna-se com Descar- tes o ponto de apoio necessário para o Saber, e Husserl lamenta que o filósofo francês, após ter demonstrado essa ne- cessidade capital, ainda tivesse recor- rido ao argumento teológico que coloca o Cogito na dependência da Inteligência e Vontade infinitas de Deus. O elogio do Cogito cartesiano significa que, para Husserl, o “Eu penso” apresenta aquele caráter a priori necessário e absoluto sem o qual a filosofia é impossível, pois ver-se-ja lançada na contingência das coisas empíricas e jamais poderia pen- sá-las como apoditicas. O Cogito é Res: luto na medida em que conserva aquilo : bm E que as coisas empíricas parecem não poder possuir: a permanência, a identi- dade consigo mesmo através de todos os seus vividos. O Cogito é o que permanece idêntico sob a multiplicidade das vivên-
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cias. E é a identidade que lhe confere o poder de alcançar a identidade das coi- sas através do sentido que outorga a elas. Essa identidade revela, tam ém, que o Cog to não se confunde com o “eu psicoló gico”, , que é empírico, múltiplo e mutável. como toda empiria.
Afirma-se dessa forma, a tese capi- tal do idealismo transcendental — feno- menológico de Husserl: é unicamente a subjetividade transcendental que possui um sentido e, quanto a seu ser, um ser absoluto; ao passo que o mundo real é relativo a ela. O Cogito reabre, porém, duas dificuldades peculiares a todo idea-
lismo transcendental: como demonstrar que a relação entre a subjetividade soli- tária e o mundo objetivo é a mesma para todos os sujeitos? Como explicar que haja uma transformação das significa- ções ideais que, de direito, são intempo- rais? A primeira dificuldade é resolvida por Husserl, pela afirmação de que a subjetividade transcendental é intersub- Jetividade; a segunda, pela teoria da sedimentação e retomada das significa- ções pela Cultura. Esses dois problemas serão retomados por um dos continua- dores da fenomenologia, o filósofo fran- cês Maurice Merleau-Ponty.
1859 — A 8 de abril, em
Prossnitz, Morávia, nasce Edmund Husserl. 1874 — Franz Brentano
publica a Psicologia do Pon- to de Vista Empírico. 1876-1878 — Husserl fre- quenta a Universidade de Leipzig.
1882 — Doutora-se pela Universidade de Viena com a tese Sobre o Cálculo das Variações.
1883 — Torna-se assisten- te, em Berlim, de Weiers- trass, seu ex-professor.
1884 — Husserl retorna a Viena, filiando-se à filosofia
CRONOLOGIA
de Brentano.
1886 — Renega sua ascen- dência judaica e converte-se ao luteranismo.
1887 — Casa-se com Mal- vine Steinschneider. Torna- se livre-docente na Universi- dade de Halle.
1891 — Husserl publica o primeiro volume da Filosofia da Aritmética, inacabada. 1900-1901 — Publica as Investigações Lógicas.
1906 — Husserl é nomea- do professor ordinário na Universidade de Gôóttingen. 1907 — Em seu curso so- bre a Idéia da Fenomenolo-
BIBLIOGRAFIA
gia, surge a primeira idéia explícita de redução.
1910 — Publica A Filoso- fia como Ciência Rigorosa. 1913 — Publica Idéias pa- ra uma Fenomenologia Pura e para uma Filosofia Feno- menológica.
1931 — Publicam-se, tra- duzidas para o francês, suas Meditações Cartesianas. 1933 — Ascensão do na- cional-socialismo na Alema- nha. Husserl fica proibido de deixar o país sem autoriza- ção.
1938 — Falece no dia 27 de abril.
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814
OS PENSADORES
aurice Merleau-Ponty nasceu a 4 Ms março de 1908 em Rochefort-
sur-Mer. Fez o curso secundário nos liceus parisienses Janson-le-Sally e Louis-le-Grand. De 1926 a 1930 foi aluno da École Normale Supérieure, oca- sião em que conheceu aqueles que com ele formariam a “geração existencia- lista” dos anos 40 e 50.
De 1930 a 1935, Merleau-Ponty lecionou no curso secundário. Acabou sua tese complementar, La Structure du Comportement (A Estrutura do Compor- tamento), em 1938. Entre 1939-1940 foi mobilizado como oficial do 5.º Regi- mento de Infantaria. De 1940 a 1945, participando da Resistência, volta a lecionar no secundário. Em 1945 obtém o título de doutor em filosofia, após a de- fesa de sua “tese de Estado”, Phénomé- nologie de la Perception (Fenomenologia da Percepção). Em 1948 torna-se profes- sor da Universidade de Lyon. Nessa época, divide com Sartre a direção da revista Les Temps Modernes, criada logo apôs a Libertação. De 1949 a 1952 ocupa o cargo de professor-titular da cadeira de Psicologia Infantil, na Sor- bonne. Em 1952 é eleito para a cátedra de Filosofia do Collêge de France, pronunciando como aula inaugural o en- saio Eloge de la Philosophie (Elogio da Filosofia). Nessa ocasião a amizade com Sartre e com Simone de Beauvoir passa por uma crise, ocasionada pela análise da posição de Sartre como “ultrabolche- vista” em Les Aventures de la Dialec- Ed Aventuras da Dialética). A aná- lise de Merleau-Ponty provocou uma polêmica que não cessou até a morte do filósofo, ocorrida subitamente a 3 de maio de 1961, vitima de embolia.
As origens da reflexão
Ao mesmo tempo que se dedicava ao ensino da filosofia, Merleau-Ponty pu- blicava livros de ensaios. Humanisme et Terreur (Humanismo e Terror) contém a análise dos processos de Moscou, o con- fronto entre stalinismo e trotskismo, a critica da guerra-fria e de suas implica- ções. Les Aventures de la Dialectique faz
Na página anterior, foto de Merleau-Ponty. (Marcel Amson, Paris.)
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o balanço crítico das diferentes linhas teóricas e políticas assumidas pelo mar- xismo após a revolução de 1917; con- fronta Weber e Luckacs; analisa as posi- ções de Moscou expressas através do Pravda; critica o voluntarismo de Sar- tre; problematiza a proposta de Trótski da necessidade de uma revolução perma- nente. O livro, em última instância, colo- ca os problemas teóricos para a consti- tuição de uma filosofia à luz dos problemas práticos da política. Sens et Non-Sens (Sentido e Não-Sentido) é uma coletânea de ensaios sobre arte (roman- ce, cinema, pintura e literatura); sobre as ciências humanas (significado da noção de estrutura como possibilidade de uma revolução cientifica que destrua o positivismo cientificista); sobre as relações entre a filosofia existencialista, o hegelianismo e o marxismo; e, por fim, alguns ensaios políticos sobre o pós- guerra, analisando a posição dos fascis- tas franceses, da igreja e dos heróis de guerra. Signes (Sinais) é a obra que marca a passagem gradual do filósofo de uma perspectiva fenomenológica para uma investigação ontológica. É também uma coletânea de ensaios sobre a arte, a história da filosofia, a nova epistemo- logia, que reflete sobre a contribuição do estruturalismo nas ciências e sobre a “crise da razão” decorrente da teoria da relatividade. O livro contém ainda en- saios monográficos sobre Husserl, Berg- son e Maquiavel, e um conjunto de pro- pos sobre a atualidade política européia.
O prefácio de Signes pode se lido como uma autobiografia intelectual e política, como verdadeiro balanço que o filósofo apresenta de seu itinerário teó- rico e prático. Aparece aí a afirmação de que a filosofia precisa recuperar alguns truísmos fundamentais, como: o olho olha, a fala fala e o pensamento pensa. Essa afirmação marca o início de nova trajetória do pensamento de Merleau- Ponty. Suas primeiras obras estavam nitidamente vinculadas à fenomenologia husserliana, embora procurasse a cada passo minimizar o papel constituinte da consciência e outorgar à relação corpo sensivel-mundo sensivel o poder doador de significados que Husserl atribuíra ao Sujeito Transcendental. A partir de Sig- nes, Merleau-Ponty encaminha-se para a
MERLEAU-PONTY
O RR
Eno Epa ie
Ao “pensamento de sobrevõo”,
típico da filosofia tradicional e da ciência,
Merleau-Ponty contrapõe o retorno da reflexão ao subsolo pré-reflexivo. A visão do pintor — esse “nascimento continuado” — su gereo itinerário: como em Cézanne, que procurou fixar * “instantes do mundo” que suas telas continuam a nos doar. (Cézanne, A Montanha de Sainte-Victoire, coleção particular).
ontologia como região pré-reflexiva, sel- vagem e bruta, de onde emergem as cate- gorias reflexivas. A filosofia — reflexão — deve voltar às origens da própria refle- xão e descobrir seu solo anterior à ativi- dade reflexiva e responsável por ela. Essa região ê o “logos do mundo estéti- co”, isto é, do mundo sensível, unidade divisa do corpo e das coisas, unidade que desconhece a ruptura reflexiva entre sujeito e objeto. Por outro lado, as refle- xões nascidas na região originária da aesthesis possuem dinamismo e simbo- lismo próprios, que se desenvolvem
historicamente, constituindo a região do “logos do mundo cultural”, isto é, da
rática nter-humana mediada. pelo tra- BalEo e, portanto, pelas relações sociais e pelas coisas aí produzidas.
Sartre e Nizan
O prefácio de Signes segue também outra vertente: a da posição política dos filósofós. Merleau- -Ponty acusa a “mania política dos filósofos”, uma certa manei- ra de fazer filosofia e de pensar a poli- tica que é má filosofia e má política.
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OS PENSADORES
Essa “mania” é a expressão da cons- ciência infeliz filosófica, que obriga o filósofo a assumir o papel pica de “político honorário” por honra da firma e para o bem da causa humana. O que acontece então é que a filosofia se dogmatiza e a política se voluntariza: consequências desastrosas para ambas, acarretando a impossibilidade real de uma filosofia da história e de uma prá- tica política efetiva. No percurso auto- biográfico Merleau-Ponty preocupa-se com o problema da “Rebeldia”, atitude Juvenil que pode ser um motor histórico, mas frequentemente se transforma em obstáculo político. Essa análise é feita como pano de fundo de uma rememori- zação cujo centro é a figura de Paul Nizan, amigo comum de Sartre e de Merleau-Ponty. A morte prematura de Nizan uniu os dois sobreviventes numa amizade fortificada pelos anos da Resis- tência e dilacerada, afinal, pela diver- ência profunda quanto aos princípios Elosófidos concernentes ao homem e à história.
O que mais importa nessa reaproxi- mação de Merleau-Ponty e Sartre atra- vés do amigo morto é a redescoberta de um ponto dE contato que ambos supu- nham perdido: o reconhecimento de que a idéia de uma juventude revoltada é uma quimera porque a revolta não pode permanecer indefinidamente como revol- ta, e não pode, também, chegar à revolu- ção. É ainda o amigo perdido que leva os dois sobreviventes à meditação sobre a morte e sobre a fragilidade humana, encarnadas nos dois gestos fundamentais de Nizan: a ruptura do filho com a fami- lia e, mais tarde, a ruptura do militante com o partido.
Por ocasião de sua morte, Merleau- Ponty preparava um livro sobre a ontolo- gia prê-reflexiva, mundo do ser bruto ou selvagem. O livro micialmente deveria intitular-se LºOrigine de la Vérité (A Ori- gem da Verdade). Nos manuscritos, porém, começou a surgir um novo título, Le Visible et "Invisible (O Visível e o Invisível). Será com este nome que o amigo de Merleau-Ponty, Claude Lefort, preparará a edição póstuma, contendo capítulos semi-acabados e as notas de trabalho. Também se deve a Lefort a publicação póstuma dos Résumes de
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Cours, ministrados na Sorbonne e no Collége de France, e La Prose du Monde (A Prosa do Mundo), coletânea de ensaios sobre problemas de linguagem.
O Pensamento de sobrevõo
Em suas linhas gerais, a filosofia de Merleau-Ponty caracteriza-se pela cri- tica radical do humanismo. Este tem ori- gem no momento em que o pensamento reflexivo, colocado diante dos enigmas do realismo ingênuo — presente na sensa- ção e na percepção —, procura resolver os paradoxos perceptivos recorrendo à separação entre a consciência e o mundo, e reduzindo o real à dicotomia sujeito- objeto. A consciência, res cogitans, sujeito transcendental ou espírito, é defi- nida pela interioridade absoluta e pela identidade absoluta consigo mesma. A coisa, res extensa ou objeto, é definida pela exterioridade absoluta e pela im-
ossibilidade de deter em si e por sia identidade consigo: mesma, a não ser que se converta numa representação, numa idéia. O pensamento ocidental, “pensa- mento de sobrevôõo”, procura dominar e controlar totalmente a si mesmo e esten- der a dominação e o controle à relidade exterior. A dicotomia sujeito-objeto, inaugurada pela metafísica idealista de Descartes, criou o espaço no qual é pos- stvel definir e determimar o ato do conhe- cimento e o conteúdo desse ato. Esse es- paço põe e respeita a cisão consciência- mundo, cisão que funda os dois enganos complementares que constituem aquilo que Merleau-Ponty denomina humanis- mo: o subjetivismo filosófico e o objeti- vismo científico. Em outros termos: dada a cisão, a filosofia outorga ao sujeito cognoscente o poder de se apropriar da realidade exterior e heterogênea a ele. As coisas se convertem em representa- ções constituídas pelo sujeito. O pensa- mento sobrevoa o mundo, transfor- mando-o em idéia ou conceito do mundo. No pólo oposto, a ciência outorga ao ob- jeto o poder de recriar a relação com o sujeito, exercendo sobre este último uma influência de tipo causal, cujo resultado é a presença do exterior na consciência por meio das sensações. O subjetivismo encaminha a filosofia para o idealismo: pouco a pouco as coisas exteriores vão
E
MERLEAU-PONTY
se convertendo em realidades cada vez menos reais, vão se tornando sombras da verdadeira realidade, e esta se reduz, finalmente, à realidade do sujeito cog- noscente e de suas operações. O objeti- vismo científico, por sua vez, seguindo o caminho inverso, vai reduzindo a cons- ciência a uma realidade cada vez mais fugaz, atê que se converta num mero epifenômeno de acontecimentos fisico-fi- siológicos observáveis e objetivos. O pensamento de sobrevõo na filosofia con- verte o mundo em representação do mundo. O pensamento de sobrevôõo na ciência converte a consciência num re- sultado aparente de “fenômenos na ter- ceira pessoa”, isto é, de acontecimentos que pertencem à esfera dos. objetos naturais.
Seria errôneo, contudo, julgar que a tendência idealista se confina à filosofia e que a tendência empirista se confina à ciência. Essa primeira direção, exami- nada por Merleau-Ponty em sua obra La Structure du Comportement, encontra uma contrapartida inversa e recíproca: idealismo cientifico e empirismo filosó- fico. Essa contrapartida é examinada na Phénomeénologie de la Perception, onde o problema da relação consciência-mundo é analisado primeiro do ponto de vista do empirismo científico, mas, em segui- da, também do ponto de vista do intelec- tualismo científico. Além dessas duas abordagens, Merleau-Ponty apresenta ainda as duas restantes: o empirismo e o idealismo filosóficos. Assim, subjeti- vismo e objetivismo, idealismo e empi- rismo, metafísica e positivismo são dico- tomias que possuem a mesma fonte: a separação sujeito-objeto, considerados como realidades heterogêneas, distintas e açambarcadoras, que tendem a reduzir seu oposto a uma aparência ilusória. As dicotomias são, portanto, as faces com- plementares de um engano comum e origmario.
O corpo
A separação sujeito-objeto, origem da
Simone de Beauvoir, sua colega filosofia e da ciência modernas, desem- na Ecole Normale de Paris, escreve boca na necessidade de reunir os dois sobre o Merleau-Ponty estudante: termos, c a reunião operada consistirá
“Ele, assim como eu, também sempre em tornar os dois termos absolu- procurava ansiosamente a verdade”. tamente coextensivos pela redução de
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OS PENSADORES
um deles ao outro: ou tudo é consciência, ou tudo é o objeto — e a consciência se reduz então a um epifenômeno de aconte- cimentos objetivos.
A grande preocupação de Merleau- Ponty consiste em exigir que a ciência e a filosofia se questionem, questionando
seus conceitos fundamentais (sujeito- -ob- jeto, fato-essência, - ser-consciência, real-aparência), conceitos usados sem que se perceba que já carregam uma interpretação da realidade, da expe- riência e do sentido. É preciso interrogar a ciência e a filosofia e propor-lhes um novo ponto de partida: a compreensão de suas origens. Isso significa, sobretudo, revelar que a vida representativa da consciência não é primeira, nem única, isto é, não é fundante nem definidora do que sejam a consciência e o mundo. Essa revelação, porém, segue uma trajetória peculiar no pensamento de Merleau- Ponty. No capítulo final de La Structure du Comportement, após ter feito a critica do objetivismo behaviorista e o do rea- lismo gestaltista, o filósofo indaga qual a relação entre a consciência perceptiva e a consciência representativa, e se a segunda não tende a anular a primeira. A resposta encontrada é a de que a cons- ciência perceptiva é fundante com rela- ção à representativa, de sorte que esta continua, no nível puramente intelectual, um conhecimento originado no nível sen- sivel. Essa resposta é desenvolvida na Phénomeénologie de la Perception, de- sembocando pouco a pouco na noção de uma consciência perceptiva solidária com o corpo, enquanto corpo próprio ou vivido, maneira pela qual nos mstalamos no mundo: anhando e doando significa- ção. À partir de Signes, porém, a noção de consciência perceptiva começa a apa- recer como “um rei em sua ilha deserta”, uma “semiverdade” que passa a Ser substituida pela de co e carne, Isto é, por uma Sds ds que não se reduz à imanência da RAR RR mas que não se explica pela exterioridade de mecanismos fisico-fisiológicos. O corpo apresenta aquilo que sempre foi o apaná- gio da consciência: a reflexividade. Mas apresenta também aquilo que sempre foi apanágio do objeto: a visibilidade. O corpo é o visível que se vê, um tocado que se toca, um sentido que se sente.
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Quando a mão direita toca a mão esquer- da, há um acontecimento observável cuja peculiaridade é a ambiguidade: como determinar quem toca e quem é tocado? Como colocar uma das mãos como sujei- to e a outra como objeto? A descoberta do corpo reflexivo e observável leva Merleau-Ponty a mostrar que a expe- riência inicial do corpo consigo mesmo é uma experiência em propagação e que se repete na relação com as coisas e na rela- ção com os outros. À ciência e a filosofia não podem dar conta da relação peculiar do sujeito com o mundo sem destruir um dos termos; a mesma incapacidade surge também no tocante à relação com os outros. À intersubjetividade é impossível para a filosofia da consciência porque nesta a própria subjetividade é descar- tada, de modo que a relação inter-hu- mana pode ser explicada apenas em ter- mos de convenção, de condicionamento e de arbitrariedade. Ao tomar a expe- riência corporal como originária, Mer- leau-Ponty redescobre a unidade funda- mental do mundo como mundo sensível.
O logos do mundo estético
“Eis o enigma: meu corpo é simulta- neamente vidente e visivel. Ele, que olha todas as coisas, também pode olhar-se e reconhecer naquilo que então vê o “outro lado” de sua potência vidente. Ele se vê vendo, ele se toca tocando, é visivel e sensível para si mesmo. É um “si' não por transparência, como o pensamento, que pensa tudo assimilando-o, constituindo- o, transformando-o em pensamento — mas um “si” por confusão, narcisismo, inerência daquele que vê naquilo que vê, daquele que toca naquilo que toca, daquele que sente naquilo que é sentido (...). Esse primeiro paradoxo não ces- sará de produzir outros. Visível e móvel, meu corpo está no número das coisas, é uma delas, está preso no tecido do mundo é sua coesão é a de uma coisa. Mas, porque vê e se move, mantém as coisas em circulo à sua volta, as coisas são um anexo ou um prolongamento dele, estão incrustadas em sua carne, fazem parte de sua definição plena e o mundo é feito do mesmo estofo que o corpo. Essas reviravoltas, essas antino- mias são maneiras diferentes de dizer
MERLEAU-PONTY
Merleau-Ponty reconhece na ciência um pensamento ativo, engenhoso e desenvolto. Mas faz a crítica de seu artificialismo: “A ciência manipula
e)
as coisas e renuncia a habitá-las”.
ue a visão é tomada ou feita lá no meio
as coisas, ali onde persiste, como a água-mãe no cristal, a indivisão do sen- ciente e do sentido” (L'Oeilet PEsprit).
A relação corpo-mundo é estesioló- gica: há a carne do corpo e a do mundo; há em cada um deles uma interioridade que se propaga para o outro numa rever- sibilidade permanente. “O mundo está todo dentro e eu estou todo fora”, escre- ve Merleau-Ponty em Signes. Corpo e mundo são um “campo de presença” onde emergem todas as relações da vida perceptiva e do mundo sensível. Há um logos do mundo estético, um campo de significações sensíveis constituintes do corpo e do mundo. É esse logos do mundo estético que torna possível a intersubjetividade como | intercorpo- reidade, e que, através da manifestação corporal na linguagem, permite o surgi- mento do logos cultural, isto é, do mundo humano da cultura e da história.
Para Merleau-Ponty, a ciência e a filo- sofia da consciência são incapazes de demonstrar a possibilidade da relação intersubjetiva, na medida em que para a primeira cada um é um “amontoado de ossos, carne, sangue e pele” que se igua- la a um autômato, a uma “coisa” ou À matéria inerte, enquanto, para a segun- da, é um “eu penso” único e total, não havendo como sair de si e encontrar o outro. “Como o “eu penso” poderia emi- grar para fora de mim, se o outro sou eu mesmo?” (La Prose du Monde.)
Palavra e significação
Segundo Merleau-Ponty, a ciência e a filosofia, vítimas do objetivismo e do subjetivismo, nunca foram capazes de prestar contas da especificidade da lin- guagem e de seu modo de dar origem à comunidade cultural. Para a ciência, a linguagem se reduz à emissão de sons, objetos de uma ciência natural, a acústi- ca. Assim, a linguagem se reduz a um sistema a econômico de si- nais que permitem aos homens uma certa coexistência. Para a filosofia, a lingua- gem sempre foi uma tradução imperfeita do pensamento e os filósofos sempre se preocuparam em purificá-la para que pudessem “vestir” mais corretamente as idéias mudas e verdadeiras. Filosofia e ciência nunca alcançaram a dimensão expressiva da linguagem. A palavra não é tradução de um sentido mudo, mas criação de sentido. A linguagem não “veste” idéias — encarna significações, estabelece a mediação entre o eu e o outro e sedimenta os significados que constituem uma cultura. A palavra é « modulação de uma certa maneira de existir, que é originariamente sensível. “A linguagem não é mais a seiva das significações, mas o próprio ato de signi- ficar, e o homem falante ou o escritor não pode governá-la voluntariamente, assim como o homem vivente não pode premeditar o detalhe e os meios dos seus gestos. A única maneira para com- preender a linguagem é instalar-se nela e exercê-la” (Signes).
Corpo, mundo, linguagem e intersub- jetividade encarnada levam Merleau- Ponty à crítica fundamental do “pensa- mento de sobrevõo” na filosofia e na
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OS PENSADORES
ciência. Corpo, mundo, linguagem, inter- corporeidade revelam que o real trans- borda sempre, que seu sentido ultra- passa os “dados” e os “conceitos”. A percepção revela o mundo como latenicia como transcendência. A pintura e a lin- guagem surgem como experiências reve- ladoras dessa latência e dessa transcen- dência do real, de um ser selvagem prê- reflexivo, sempre além e aquém dos fatos e das idéias. Qual o enigma da pintura? Quando contemplamos as figuras pinta- das nas cavernas, o que contemplamos? As figuras não são as cores ali fixadas; não são as marcas no calvário; não são cópias de animais e homens que já dei- xaram de existir; não são o material usado para criá-las. Os animais pintados nas paredes das cavernas são pintados porque só existem sob a condição ex- pressa de não se confundirem com a materialidade que os cristalizou nas paredes. O enigma da pintura consiste em fazer com que os objetos estejam na tela sob a condição expressa de não esta- rem ah, de transcenderem a materiali- dade, sem a qual, entretanto, não existi- riam, € rumarem para 0 sentido, sem o qual não seriam pintura. Qual o enigma da linguagem? É o de que nela a signifi- cação sempre ultrapassa o significante, e este sempre engendra novas significa- ções, de sorte que entre significação e significante nunca existe equilíbrio, mas ultrapassamento de um pelo outro gra- ças do outro. Esse ultrapassamento é o sentido. “A linguagem é, pois, este apa- relho singular que, como nosso corpo, nos dá mais do que pusemos nela, seja porque apreendemos nossos próprios pensamentos. quando falamos, seja por- que os apreendemos quando escutamos os outros. Quando escuto ou leio, as palavras não vêm sempre tocar significa- ções pré-existentes em mim. Têm o poder de lançar-me fora de meus pensamentos, criam no meu universo privado cesuras
or onde outros pensamentos podem irromper” (Signes).
A ontologia selvagem
A trajetória merleau-pontyana ruma para a ontologia selvagem ou prê-refle- xiva. Le Visible et "Invisible procura o ser bruto, indiviso, latente, transcen-
822
dente, anterior a todas as separações e fixações que o pensamento filosófico ou científico lhe impõe. É essa ontologia que, partindo dos referenciais já explici- tados, exigirá a radicalidade da interro- gação filosófica. Radicalidade em duplo sentido: por um lado, como exigência de levantamento crítico de todos os conceil- tos filosóficos e científicos, como precon- ceitos que escondem uma metafísica dualista; por outro lado, como exigência da busca da raiz, da origem das relações corpo-mundo, corpo-linguagem, mundo sensíivel-mundo cultural. Essa radical- dade visa criticar as pretensões dos sis- temas conceituais, que aspiram a fechar aquelas relações num circulo determi-
nado de pressupostos e absolutos. A des- coberta do ser selvagem é a descoberta de um “ser de abismo”, que não pode ficar encerrado, mas que se manifesta e se ultrapassa numa modificação infinita- mente aberta e nova.
A última nota de trabalho de Le Visi- ble et PInvisible mdica o plano que o livro deveria seguir: “Meu plano: I o Visível; IL a Natureza; II o Logos. Deve ser apresentado sem nenhum compro- misso com o humanismo, nem, além disso, com o naturalismo, nem, enfim, com a teolo ii
A filosofia não se compromete com um sistema conceitual que faça do homem, da matéria ou de Deus o cânone e o fun- damento do real e de seu conhecimento. Nem antropologia, nem naturalismo, nem teologia, mas ontologia do Ser Bruto, pré-reflexivo, que se manifesta através do homem e das coisas, mas que não se cristaliza neles. A filosofia deve combater os absolutos rivais: homem- natureza, Deus-Natureza, Natureza-His- tória, História-Deus. Nesse combate contra os absolutos, a filosofia recupera o valor da contingência e do aconteci- mento e, dessa maneira, o filósofo apare- ce como um homem entre outros homens e não como o detentor do Saber Absolu-
. “Sua dialética ou sua ambiguidade é ReNera uma maneira de pôr em palavras aquilo que todo homem sabe muito bem: o valor dos momentos nos quais sua vida se renova continuando-se, se retoma e se compreende, passando além, ali onde seu mundo privado torna-se mundo comum” (Éloge de la Philosophie). A única dife-
MERLEAU-PONTY
“Como meu corpo, que entretanto é apenas um pedaço de matéria, se unifica em gestos que visam além dele, assim também as palavras da linguagem, que, consideradas uma a uma, são apenas signos inertes aos quais corresponde alguma idéia vaga ou banal, inflam-se subitamente com um sentido que extravasa no outro quando o ato de falar os ata em um único todo.” (Signes.)
rença entre os homens e o filósofo reside na atenção que este dedica ao surgi- mento das coisas, dos homens e de suas relações recíprocas como surgimento de um sentido latente e novo que pré-existia como possibilidade e que chegou a ser explicitado. A ontologia de um mundo selvagem é a afirmação de que “este mundo barroco não é uma concessão do espirito à natureza, pois. se em toda parte o sentido está figurado, em toda parte se trata de sentido. À renovação do
mundo é também renovação do espírito, redescoberta do espírito bruto que não está aprisionado por nenhuma cultura e ao qual se pede que crie novamente a cultura. O irrelativo, doravante, não é a natureza em si, nem o sistema das apreensões da consciência absoluta, nem, muito menos, o homem, mas a “teleologia” de que fala Husserl — escrita e pensada entre aspas —, juntura e mem- brana do Ser que se realiza através do homem” (Le Philosophie et Son Ombre).
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1908 — 4 4 de março, em Rochefort-sur-Mer, nasce Maurice Merleau-Ponty.
1917 — Os revolucionários comunistas tomam o poder na Rússia. Morre Durkheim. 1919 — Publicação de
LÉnergie Spirituelle, de Bergson. 1926-1930 — Merleau-
Ponty estuda na École Nor- male Supérieure.
1927 — Heidegger publica a primeira parte de Ser e Tempo.
1929 — Thomas Mann re- cebe o Prêmio Nobel de literatura.
1932 — Jaspers publica Fi- losofia.
1937 — Morre Antonio
OS PENSADORES
CRONOLOGIA
Gramsci.
1938 — Publicação de A Náusea, de Sartre.
1939-1940 — Merleau- Ponty é mobilizado como oficial do 5.º Regimento de Infantaria.
1941 — Arthur Koestler publica Darkness at Noon. 1942 — Publica-se La Structure du Comportement, de Merleau-Ponty. Camus publica O Estrangeiro e O Mito de Sísifo.
1945 — Merleau-Ponty doutora-se em filosofia com Phénoménologie de la Per- ception. No mesmo ano, jun- tamente com Sartre, funda a revista Temps Modernes. 1947 — Publica Humanis-
BIBLIOGRAFIA
me et Terreur. 1948 — Publica Sens et Non-Sens. Torna-se profes-
sor na Universidade de Lyon. 1952 — Torna-se catedráti-
co de filosofia no College de France; na aula inaugural, pronuncia seu ensaio Eloge de la Philosophie.
1953 — Morre Stálin.
1955 — Merleau-Ponty pu- blica Les Aventures de la Dialectique. Morre Einstein. 1960 — Merleau-Ponty pu- blica Signes. Surge a Crítica da Razão Dialética, de Sar- tre.
1961 — Em Paris, a 3 de maio, vitima de embolia, fa- lece Merleau-Ponty.
CHAUÍ BERLINCK, M.: Merleau-Ponty e a Crítica do Humanismo, tese de mestrado, USP, 1967
(inédito).
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L 'Arc, n.º 46, dedicado a Merleau-Ponty.
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OS PENSADORES
uma das figuras mais importantes, olêmicas e contraditórias da filo- sofia do século XX. Pensador de múlti- plos interesses intelectuais, desenvolveu atividade de escritor extraordina- riamente fecunda e, desde 1896, quando publicou Democracia Social Alemã, não houve praticamente um ano, até 1946, em que não viesse à luz um livro seu, sem contar imúmeros artigos, publicados nas mais diversas revistas. Nesses escritos encontram-se tratados quase todos os assuntos filosóficos, além de problemas de interesse geral, como o uso militar da energia atômica ou a articipação norte-americana no con- Niio vietnamita. Até sua morte (1970), permaneceu um critico de instituições sociais opressoras, um pacifista ardo- roso e um militante infatigável em movi- mentos em defesa da liberdade humana. Devido a isso, foi muitas vezes atacado por círculos conservadores, tornou-se frequentemente manchete dos jornais, conheceu a prisão.
Ao lado dessas atividades que o torna- ram conhecido de um amplo público em todo o mundo, Bertrand Russell desen- volveu, porém, uma série de trabalhos rigorosamente técnicos, ue o colocam como uma das principais figuras da filo- sofia contemporânea.
B ertrand Russell é, sem dúvida,
Do idealismo ao realismo
A obra filosófica de Russell é consti- tuída, basicamente, por preocu ações lógicas, epistemológicas e metafisicas, mas não é possivel distinguir muito bem essas três ordens de problemas. A cone- xão entre elas pode ser formulada da seguinte maneira: pretendendo-se saber qual a natureza das coisas, é necessário procurar conhecê-las; a questão de saber o que as coisas são é, pois, inseparável da questão de saber como se conhecem as coisas como sendo o que são, e parti- cularmente da questão e saber qual a garantia de que as coisas são o que se diz que elas são ao se pretender conhe- cê-las. Em suma, o problema metafísico
Na página anterior: retrato do
filósofo Bertrand Russell; British Information Services (Foto Fabbri).
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(o que as coisas são?) seria inseparável do problema epistemológico (o que garante a verdade de um suposto conhe- cimento das coisas e como um conheci- mento verdadeiro delas é possível?). Ora, nem o conhecimento das coisas nem o discurso que o exprime são dados simples, indecomponíveis, antes siste- mas estruturados de elementos de dife- rentes espécies. Nesse sentido, o exame do processo do conhecimento é insepa- rável da análise de sua estrutura, ou seja, o problema epistemológico é inse- parável do problema lógico (quais são os elementos que compõem nosso pensa- mento das coisas e como se articulam para produzir um discurso significativo sobre elas?).
A filosofia russelliana aparece como o produto da imbricação dessas ordens distintas de problemas, e nela o privi- légio da lógica só é comparável à má fortuna da metafísica. A espantosa mu- tabilidade das posições filosóficas de Russell no decorrer de sua vida intelec- tual pode ser, em ande parte, enten- dida a partir das dificuldades impostas pela idéia de que toda tese metafísica pressupõe uma certa maneira de anali- sar a estrutura lógica da linguagem, pois, se a estrutura metafísica do mundo deve ser, em algum sentido, inferida da estrutura lógica da linguagem, a ques- tão de saber como efetuar essa infe- rência torna-se crucial. As diferentes respostas que Russell sucessivamente ofereceu e rechaçou correspondem às diferentes etapas de sua história filosó- fica individual.
A primeira etapa caracterizou-se pela oposição ao idealismo, associado por Russell aos nomes de Kant (1724-1804), Hegel (1770-1831) e Bra- dley (1846-1924). O idealismo de Bra- ae principal alvo das críticas de Rus- sell e de quem este se confessa discípulo até 1898, quando dele teria se afastado, por influência de Moore, indavasse sobre a chamada teoria das relações internas. Segundo essa teoria, todo obje- to é de natureza mental, desde que se ad- mita que a natureza de um objeto é determinada pelo conjunto das proprie- dades que podem ser atribuídas a ele. Para Russell, a teoria das relações inter- nas pode ser inteiramente refutada na
RUSSELL
Russell estudou no Trinity College, Cambridge. A respeito dessa escola, escreveria: “O único hábito de pensamento de real valor que adquiri foio da honestidade intelectual”.
Mame DO
FABBRI
base de considerações lógicas, pois a base dessa teoria é constituída por uma doutrina lógica incorreta: a de que toda proposição tem como componentes bási- cos um sujeito e um predicado. A idéia de que a relação com o espírito é uma propriedade determinante da natureza de todo objeto de conhecimento é deriva- da, diz Russell, da idéia de que a propo- sição “o objeto a mantém a relação R com b” decompõe-se em um sujeito (“o objeto a”) e um predicado (“mantém a relação R com b”), sendo que o predi- cado enuncia uma propriedade do sujei- to. A análise lógica das proposições matemáticas e o contato com as doutri- nas lógicas de Peano (1858-1932) e Frege (1848-1925) levaram Russell a reconhecer a irrelevância lógica das categorias de sujeito e predicado. e particularmente a incorreção da análise de proposições que enunciam relações entre da fundada sobre tais catego- rias. A proposição mencionada não comportaria dois, mas três elementos lô- gicos: “o objeto a”; “mantém a relação R com”; e “b”, Nada obrigaria nesse caso a inclurr “b” como elemento consti- tuinte de um predicado enunciado do sujeito, devendo-se antes considerá-lo no mesmo nível lógico que o sujeito, enten- dendo-se a proposição como a enuncia- ção de algo a respeito de a e b. À análise lógica correta de proposições dessa espécie sugere, pois, uma teoria das relações externas, isto é, a idéia de que as relações que um objeto mantém com outros em nada afeta sua natureza própria.
Nesse periodo, que tem como ponto máximo Os Princípios da Matemática (The Principles of Mathematics) (1903), a inferência da lógica à metafísica foi feita por Russell de maneira radical: toda proposição sigmficativa remeteria a um fato no mundo, a estrutura desse fato espelharia a estrutura interna da proposição, de modo que a cada expres- são da proposição corresponderia algo no mundo, e a cada relação entre as expressões corresponderia uma relação entre os objetos por elas significados. Tais objetos existiriam, portanto, como garantia da significatividade das propo- sições e, contrariamente à tese defendida por Bradley, seriam independentes entre
827%
OS PENSADORES
si e em relação ao ato de conhecer.
Esse realismo extremo foi logo aban- donado por Russell. Além dos problemas mais imediatos colocados por ele (como o de reconhecer algo no mundo referido por palavras como “e”, “porém” e ou- tras da mesma SSnecie: “surgiram outros problemas que levaram Russell a aban- donar o realismo extremo. Um dos pri- meiros e mais importantes passos nessa direção foi dado, em 1905, no artigo Sobre a Denotação que, tratando da aná- lise do significado HE expressões deno- tativas, introduziu a teoria dos símbolos incompletos e a noção de significado em contexto.
Construções lógicas
Russell refutou o idealismo de Bra- dley, reconhecendo-o como conse- quência da tese infundada de que toda proposição deve ser analisada com base na distinção entre sujeito e predicado. A passagem do realismo extremo à teoria do signifi icado em contexto foi conse-
iência da recusa em dotar de qualquer relevância lógica as categorias de sujei- to e predicado. Examinando-se as ex- pressões que aparecem como sujeitos de proposições, diz Russell, percebe-se que elas pretendem denotar um ou mais objetos, determinados ou indetermi- nados: “o atual rel da França”, “alguns reis”, “todos os reis”, etc. À luz da dou- trina do significado em contexto, tais expressões, chamadas denotativas, ape- nas poderiam comparecer em proposi- ções significativas se de fato denotassem objetos reais, visto que, na qualidade de SEO das proposições (elementos in-
endentes da estrutura proposicio-
Ea a elas deveriam corresponder ele- indi independentes da estrutura real dos fatos significados. A teoria do signi- ficado em contexto serve para revelar o caráter ilusório dessa necessidade de atribuir denotação às expressões deno- tativas, exibindo-as não como elementos independentes das proposições, mas como simbolos incompletos.
O pressuposto de que toda expressão denotativa denota algo acarreta proble- mas insolúveis; torna impossível, por exemplo, a negação de existência. To- me-se por exemplo a proposição “O
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atual rei da França não existe”; se ela for reconhecida como significativa, de- ver-se-ia reconhecer a existência de algo denotado por “o atual rei da França” e, portanto, a falsidade da proposição. Nenhuma negação de existência seria então verdadeira, pois sua significati- vidade implicaria necessariamente sua falsidade. Uma linha de solução, assu- mida entre outros por Meinong (1853-1921), consiste em distinguir entre existência e subsistência e exigir que expressões denotativas denotem não entidades existentes mas simplesmente subsistentes. Sem falar na obscuridade da noção de subsitência, se essa distin- ção resolvesse o problema no que con- cerne a “o atual rei da França”, certa- mente não o resolveria no que concerne a
“o círculo quadrado”, visto que o cará- ter contraditório das propriedades que a entidade supostamente denotada por essa expressão deveria possuir impede atê mesmo que seja admitida como subsistente, seja qual for o sentido que se dê a “subsistência”. Problemas seme- lhantes poderiam ser também levanta- dos com respeito a expressões como “um centauro”, “todos os anjos”, etc.
Trata-se pois de mostrar como uma expressão denotativa pode ocorrer em proposições significativas sem que ne- cessariamente denote algo. A solução de Russell consistiu em reconhecer tais expressões como símbolos incompletos, isto é, expressões sem significado inde- pendente, mas apenas em contexto. Se elas aparecem como elementos inde- pendentes da estrutura gramatical da proposição, como seu sujeito, é porque essa estrutura gramatical não corres- ponde à sua estrutura lógica, e o que se chama sujeito da proposição não corres- ponde necessariamente a um elemento independente de seu significado. Anali- sando o significado de uma proposição onde aparece “o atual rei da França”, percebe- se que ele não contém necessa- riamente a afirmação de que algo corres- ponde a essa expressão como sua deno- tação, mais ainda, que na estrutura lógica da proposição nada corresponde a
'o atual rei da França”. Segundo Rus- sell, a estrutura lógica de “o atual rei da França é calvo” encontra um correspon- dente gramatical adequado na proposi-
RUSSELL
A família de Russell pertencia à ala mais liberal da aristocracia inglesa:
o avó paterno foi primeiro ministro e notabilizou-se pelas lutas em defesa da instrução popular e da emancipação dos judeus; o pai pretendeu educá-lo como agnóstico; a mãe foi líder de movimentos feministas e, “não raro, metia-se em maus lençóis”. (Paris em 1900: passeata pelo direito de voto às mulheres.)
ção “algo é rei da França e é calvo, e nada mais é rei da França”. Vê-se clara- mente que nenhuma parte dessa proposi- ção apresenta-se como indicadora de um objeto determinado que seria o atual rei da França; isso evidencia pois que a expressão denotativa em questão é parte gramatical, mas não logicamente rele- vante da proposição inicial. Nesse senti- do, ela não contribui para o significado total da proposição com uma parcela isolável, mas o faz apenas no contexto global dessa proposição. Indicar a espe- cificidade dessa contribuição não é, por- tanto, especificar um significado inde- pendente, mas indicar como contextos contendo expressões denotativas podem ser parafraseados globalmente por con- textos onde elas não ocorrem, visto que, na qualidade de simbolos incompletos, elas significam apenas em contexto.
A teoria dos simbolos incompletos
constatui o núcleo da noção russelliana de construção lógica. Numa primeira fase de seu pensamento, Russell susten- tava que a estrutura dos fatos deveria ser inferida da estrutura das proposições de modo imediato. Problemas como os acima examinados levaram-no, não pro- priamente a abandonar esse princípio, mas a distinguir dois niveis na estrutura de uma proposição: o gramatical e o ló- gico, a estutura material e visível da proposição e a estrutura de seu signifi- cado. A superação do realismo extremo é, de fato, recusa da inferência que con- clui a estrutura material, mantendo-se contudo a possibilidade de tomar como premissa a estrutura lógica revelada pela análise lógica. De fato, nem tudo que a linguagem pretende denotar existe efetivamente, pois nem toda expressão denotativa efetivamente denota. Se uma proposição, que aparentemente se refere
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FABBRI
OS PENSADORES
a certas entidades, puder ser parafra- seada de modo que a paráfrase não implique referência a tais entidades e tenha o mesmo valor de verdade que a proposição original, diz-se que a propo- sição é uma construção lógica a partir daquela oferecida como paráfrase, e que as supostas entidades são de fato cons- truções lógicas a partir dos elementos es Ra RÃ na paráfrase. À lógica caberia, pois, o caráter de reverso dessa construção, reduzindo o mundo aparente — imduzido pela interpretação imediata das proposições — ao mundo real dos elementos a partir dos quais aquele logi- camente se constrói. À análise lógica aparece, portanto, como instrumento essencial da filosofia, e até mesmo da metafísica.
Construindo a ciência A noção de construção lógica mostra-
se extremamente fecunda no dominio da epistemologia. “Desde muito jovem”,
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1924, “desejei ardentemente acreditar que pudesse haver algo como o conhecimento, desejo combinado com grande dificuldade em aceitar muito do que passa por conheci- mento.” De fato, nem toda teoria cienti- fica exibe à plena luz as garantias de sua veracidade, em grande parte devido ao caráter problemático das entidades a que fazem referência. Ora, se fosse pos- sivel parafrasear as proposições de uma tal teoria, de modo a evitar qualquer referência a essas entidades, e portanto reduzi-las a construções lógicas, isso seria um passo importante no sentido de uma fundamentação satisfatória da ciên- cia. Russell foi, assim, levado a estabe- lecer o princípio: “Sempre que possível substituir inferências a entidades desco- nhecidas por construções a partir de entidades conhecidas”. É pena notar que, para Russell, isso não si
fica necessariamente identificar entda des desconhecidas a outras conhecidas, pois é possível também, em certos casos,
confessa Russell em
O
RUSSELL
“Busquei, primeiro, o amor, porque ele produz êxtase — um êxtase tão grande que, não raro, eu sacrificava todo o resto da minha vida por umas poucas horas dessa alegria.”
(A primeira esposa do filósofo, Alys Russell; a segunda, Dora Blair; Russell, em 1907; ea terceira esposa, Patricia Hellen Spence.)
FABBRI
entender as expressões que pretendem denotar entidades desconhecidas como simbolos incompletos, de modo a não encontrarem correspondente algum nas paráfrases obtidas.
Dentro da perspectiva desse princípio, pode-se encarar o trabalho epistemo- lógico de Russell como tentativa de reduzir os corpos constituídos de ciência a construções lógicas a partir dos ele- mentos mais primitivos, obtendo assim uma economia de entidades a serem tomadas por irredutíveis. O momento mais célebre e bem sucedido desse tra- balho foi, sem dúvida, a construção da teoria aritmética a partir de elementos exclusivamente lógicos, momento ex- presso com perfeição nos Principia Mathematica. Além da matemática tam- bém a fisica e a psicologia mereceram a atenção de Russell, respectivamente em Análise da Matéria e Análise de Espíri- to. Nesses livros, Russell advogou a idéia de que toda proposição a respeito de corpos poderia ser parafraseada em
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OS PENSADORES
“O anseio de amor, a busca do conhecimento e a dolorosa piedade pelo sofrimento da humanidade” foram as paixões do filósofo. (Russell, por Woodmansterne; Nat. Portrait Gall.)
termos de dados dos sentidos e de que toda proposição a respeito da mente poderia ser parafraseada em termos de sensações. Corpos e mentes não seriam, pois, entidades irredutíveis, mas cons- truções lógicas a partir de entidades mais primitivas, dados dos sentidos e sensações. Não se trata de identificar corpos a dados dos sentidos, mentes a sensações, mas entender toda proposi- ção a respeito de corpos como uma “ma- neira de dizer algo” a respeito de dados dos sentidos, sem que deva haver neces- sariamente paralelismo entre a estrutura da paráfrase e a da proposição parafra- seada. Em outros termos, expressões aparentemente denotando corpos pode- riam ser encaradas como simbolos in- completos, significativos apenas no con- texto de uma proposição, analogamente a “o atual rei da França”. Ao contrário do que ocorre no caso da aritmética, porém, o projeto construcionista apli- cado à física e à psicologia não conse- guiu jamais ultrapassar o nivel da inten- ção e do esboço.
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FABBRI
Matemática e lógica
As concepções epistemológicas de Russell acerca da matemática são gover- nadas pela idéia nuclear de que a mate- mática não é mais que um desenvolvi- mento da lógica, toda proposição matemática podendo ser parafraseada em termos exclusivamente lógicos. Essa paráfrase far-se-iia em duas etapas. Mostrar-se-ia em primeiro lugar como parafrasear a aritmética em termos lógi- cos, em seguida como parafrasear todo o campo tradicionalmente atribuído à ma- temática pura.
A fim de levar a cabo esse projeto, Russell foi obrigado a efetuar uma reestruturação radical da lógica clássi- ca. Em primeiro lugar, a paráfrase das proposições aritméticas em termos lógi- cos pressupõe a possibilidade de discri- minar as partes logicamente relevantes dessas proposições, pois ela assume necessariamente a forma de um inven- tário de regras indicando como traduzir logicamente uma proposição a partir do conhecimento das partes que a com- põem, dado o número potencialmente infinito de proposições a parafrasear, bem como o número finito de expressões logicamente simples a partir dos quais podem ser construidas. Ora, as catego- rias da lógica clássica são inadequadas para uma análise lógica precisa, princi- palmente as de sujeito e predicado. Além disso, as proposições da lógica que se devem oferecer como paráfrase para as aritméticas são de tal modo complexas que não poderiam ser formuladas con- tando-se apenas com o vocabulário disponível na lógica clássica. Enfim, se a redução da aritmética à lógica não pode consistir simplesmente em uma tal pará- frase, mas também na demonstração de que a proposição lógica que traduz uma lei aritmética é sempre logicamente dedutível de leis lógicas gerais, a lógica clássica não se mostra capaz de oferecer uma teoria da dedução à altura dessa tarefa.
A reestruturação da lógica levada a cabo por Russell é idêntica em espírito à efetuada por Frege (1848-1925). As categorias de sujeito e predicado cedem lugar às de argumento e função proposi- cional; a oposição entre juízos univer-
RUSSELL
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FABBRI]
Ardente defensor do pacifismo, Bertrand Russell trabalhou ativamente para que a Inglaterra permanecesse neutra, durante a Primeira Guerra Mundial; por causa disso chegou a ser encarcerado. (Cartaz inglês exorta as mulheres a ngressar no Serviço Rural Feminino, e um jornal norte-americano anuncia a entrada dos Estados Unidos no conflito; Fototeca Histórica Nacional, Roma.)
sais, particulares e singulares é formu- lada em termos de uma teoria da quantificação; a oposição entre afirma- ção e negação é abarcada por uma teoria mais ampla das funções de verdade. A noção de função proposicional foi obtida por Russell por extensão da noção mate- mática de função: “Por uma “função proposicional” entendemos algo que con- tém uma variável x e exprime uma proposição quando um valor é atribuído a x. Isto é, difere de uma proposição somente pelo fato de ser ambígua: con- têm uma variável cujo valor não é atri- buído. Concorda com as funções ordiná- rias da matemática no fato de conter uma variável não atribuida; difere delas pelo fato de serem os valores da função proposições. São funções proposicio- nais, por RA tr é homem”, “x é menor que yº 'x não é ímpar”. Um valor para a amáde que converta a fun- ção em proposição é chamado argu- mento da função. e a proposição resul- tante é chamada valor da função para aquele argumento. Toda proposição ele-
mentar, isto é, toda proposição que não contém outras como partes, pode ser encarada ou como o valor de certa fun- ção para um ou mais argumentos, ou como a afirmação de que todo argu- mento converte uma função em proposi- ção verdadeira, ou ainda como a de que algum argumento converte certa função em proposição verdadeira. Diz-se que as duas últimas espécies de proposição são obtidas a partir de tunções proposi- cionais por operações de generalização, termo substituído, depois de Russell, por quantificação. À partir de proposi- ções elementares podem ser obtidas proposições moleculares mediante cer- tas operações hoje conhecidas como fun- ções de verdade. Essas operações carac- terizam-se pelo fato de ser o valor de verdade da proposição complexa univo- camente determinado pelos valores de verdade das proposições elementares componentes. À negação, a disjunção, a implicação, entre outras, são encaradas como funções de verdade, visto que o valor de verdade da negação de uma
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Alfred North Whitehead, autor de uma obra original, como matemático e Roso pa ho também o colaborador o principal livro de Russell, os Principia Mathematica.
proposição, por exemplo, é univoca- mente determinado pelo valor de verda- de da proposição negada, isto é, como seu inverso.
As categorias inadequadas da lógica clássica mostram-se tão solidárias com a natureza das linguagens ordinárias que dificilmente a formulação de propo- sições da lógica em termos das novas categorias poderia ser acomodada nes- sas linguagens. Surgiu assim a necessi- dade de conduzir o trabalho de redução da aritmética à lógica, mediante uma linguagem simbólica artificial, cuja gra- mática fosse construida de acordo com essas novas categorias. Além disso, a posse de um simbolismo adequado per- mitiu a especificação de um conjunto bem determinado de regras de dedução, indicando como passar de certas sequên- cias simbólicas a outras logicamente deriváveis daquelas, o que permite a
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FABBRI
constituição de uma teoria precisa da dedução. A operação de de pode então ser efetuada mecanicamente, como uma operação sobre simbolos, dispon- do-se, portanto, de um cálculo lógico, no sentido do projeto leibniziano de uma característica universal.
Um paradoxo decisivo
As proposições aritméticas enunciam propriedades e relações numéricas. O primeiro passo da redução da aritmética à lógica consiste, pois, em exibir o con- ceito de número como uma construção lógica a partir de materiais lógicos. Isso se faz em duas etapas. Em primeiro lugar, proposições acerca de números são reduzidas a proposições acerca de classes de objetos, e em seguida proposi- ções acerca de classes são reduzidas a proposições acerca de funções proposi- cionais. A primeira etapa desse projeto foi cumprida por Russell na mesma linha seguida por Frege em sua obra Leis Fundamentais da Aritmética (1903), tendo os dois grandes lógicos chegado a resuldados praticamente idênticos de modo independente. Em comparação com Frege, o trabalho de Russell é menos rigoroso no manejo do simbolismo e na condução das demons- trações, representando, do ponto de vista da sintaxe lógica, um passo atrás. Por outro lado, enquanto Frege nem che- gou a examinar as operações aritméticas elementares dos números cardinais, Russell ofereceu definições para os car- dmais e ordinais, Inteiros e RacionaRoa positivos e negativos, racionais e irra- cronais, chegando a esboçar uma teoria lógica da operação de medir grandezas concretas.
Do seguinte modo Russell apreende números cardinais enquanto classes: Um cardinal n pode ser encarado como algo que certas classes de objetos têm em comum, precisamente as classes de n objetos; esse “algo em comum” pode ser nada mais que o fato de pertencerem todas a uma certa classe, a classe das classes que têm n elementos. Russell de- fine então o número cardinal que convém a uma classe como sendo a classe de todas as classes que têm o mesmo núme- ro de elementos que ela. Russell evitou a
- q
as -
RUSSELL
“À satisfação que então sentíamos em ser companheiros oi crescendo e parece continuar crescendo sem limites, convertendo-se numa felicidade duradoura e
estável que é a base de nossa vida."
* Assim o filósofo refere-se a Edith
Finch, sua quarta esposa, com quem se casou aos oitenta anos de idade.
(Bertrand Russelle Edith Finch, em foto de 1953; Staatsbibliothek, Berlim.)
flagrante circularidade dessa definição, definindo a relação “ter o mesmo núme- ro de elementos que” em termos pura- mente lógicos: uma classe tem o mesmo número de elementos que outra sea cada elemento da primeira se pode fazer corresponder um único da segunda e vice-versa, ou seja, se existe entre elas uma correspondência biunivoca. Enfim, define-se o conceito de número da seguinte maneira: algo é um número se e somente se existe uma classe da qual esse algo seja o número. Os cardinais finitos são definidos, em seguida, de modo recursivo: em primeiro lugar defi- ne-se O como o número da classe vazia; depois define-se o 1 como o número de uma classe não vazia, de modo tal que, dados quaisquer elementos a e b, a é considerado igual a b; finalmente, indi- ca-se como ohter o número n+l a partir da definição do número n. Reduzidos os
cardinais a classes, consequentemente as propriedades, relações e operações numéricas são reduzidas, em seguida, a propriedades, relações e operações no domínio das classes, obtendo-se, pois, um método para reduzir proposições sobre cardinais a proposições sobre classes.
Russell, contudo, não considerou in- teiramente satisfatória a redução dos números a classes, por dois motivos. Em primeiro lugar, a vantagem epistemo- lógica dessa redução ficava comprome- tida pelo caráter problemático das su- postas entidades que seriam as classes. Russell resolveu essa dificuldade mos- trando como tudo o que se pretende com a noção de classe pode ser também obti- do com a noção de função proposicional. Além disso, definiu contextualmente o conceito de classe, indicando como para- frasear proposições contendo nomes e
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FABBRI
OS PENSADORES
variáveis para classes, em termos exclu- sivamente de funções proposicionais. Essa passagem deixa claro por que, para Russell, proposições sobre classes são proposições da lógica.
Outro aspecto torna problemática a redução de números a classes. Se cabe demonstrar as proposições artiméticas reduzidas a partir de leis lógicas gerais, uma dessas leis deve especificar a natu- reza geral das classes. Os primeiros ló- gicos e matemáticos que se aprovei- taram da fecundidade da noção de classe, como Frege, Cantor (1845-1918) e Dedekind (1831-1916), julgaram evi- dente que essa lei devesse tornar possi- vel afirmar a existência de uma classe correspondendo a toda função proposi- cional, precisamente a classe de todos os objetos que satisfizessem essa função, ou seja, que a convertessem em proposi- ção verdadeira. Mas, em 1903, Russell descobriu uma contradição implicada em tal afirmação, contradição conhecida como o paradoxo das classes: tome-se a função proposicional “x é uma classe que não é membro de x” e chame-se de k a classe por ela determinada; a classe k será membro de k, se e somente se satis- fizer a função que determina k, isto é, se e somente se k não for membro de k, o que é uma contradição. Em sua Autobio- grafia, Russell refere-se ao paradoxo de maneira mais simples: “Burali-Forti já haviam descoberto uma contradição se- melhante e, através da análise lógica, verificou-se que havia entre ela afini- dade com a contradição grega antiga a respeito de Epimênides, o Cretense, que disse que todos os cretenses são mentiro- sos. Uma contradição essencialmente semelhante à de Epimênides pode ser produzida dando-se a uma pessoa um pedaço de papel em que esteja escrito: “A afirmação existente no verso deste papel é falsa”. A pessoa vira o papel e lê, no verso: “A afirmação existente no outro lado deste papel é falsa”. Parecia indigno de um homem já adulto perder seu tempo com tais trivialidades, mas que é que eu poderia fazer? Havia algo errado, já que tais contradições eram mevitáveis em premissas ordinárias. Trivial ou não, a questão constituía um desafio”.
A crise provocada pela descoberta do
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paradoxo é de tal ordem que levou Frege a abandonar a crença na possibilidade de reduzir a aritmética à lógica.
A construção das classes a partir de funções proposicionais não altera em nada a situação, visto que o paradoxo pode ser reproduzido para funções pro- posicionais: basta indagar se a função “F é uma função proposicional que não satisfaz a si própria” satisfaz a si pró- pria. Russell contudo não desesperou, e ofereceu como remédio a chamada teoria dos tipos.
O paradoxo é inevitável quando se ad- mite a possibilidade de toda função proposicional ser tomada como argu- mento de toda função proposicional, e particularmente de uma função ser to- mada como argumento de si própria. Essa possibilidade não pode, por outro lado, ser inteiramente abolida, pois os números devem ser apreendidos como classes de classes, o que equivale, após a redução de classes a funções, à exis- tência de funções satisfeitas por funções. Além disso, se essa possibilidade há que ser de algum modo restrita, isso deve ser feito por bons motivos lógicos, se as pre- missas das deduções aritméticas devem ser leis lógicas gerais. É o que Russell pretendeu com a teoria dos tipos. Ela consiste em ordenar os objetos em uma hierarquia de tipos mutuamente exclusi- vos, e em limitar os argumentos de toda função aos objetos de um sô tipo. Assim, objetos que não são funções seriam de tipo 1, funções cujos argumentos são de tipo 1 seriam de tipo 2, e assim por dian- te, de modo que uma função de tipo n+1 apenas pudesse tomar como argumentos objetos de tipo n. Desse modo, uma expressão que pressupusesse o contrário não deveria ser tomada como falsa, mas como não significativa, gramaticalmente incorreta. Em particular, não seria sig- nificativa a expressão “F não satisfaz F”, pois implica tomar como argumento de F uma função de mesmo tipo, a pró- pria F.
Russell encarou a teoria dos tipos como logicamente admissível na medida em que é simplesmente a generalização de um fato lógico inconteste: o fato de nem sempre ser possivel a uma expres- são ocupar no contexto de uma proposi- ção qualquer posição lógica. Uma ex-
RUSSELL
Por volta de 1955, Bertrand Russell empreendeu grandes esforços pela utilização pacífica da energia nuclear e contra a bomba atômica. Para isso, entrou em contato com os mais eminentes cientistas e intelectuais de todo o
mundo e organizou a conferência de Pugwash, na Índia. (O
ilósofo e Albert
Schweitzer, 1955; foto do livro Russell, de autoria de Philip Devane.)
ressão que denote um objeto que não é funcao não pode evidentemente ocupar a posição reservada a expressões de fun- ção. Do mesmo modo, dada uma função F, nem todo objeto pode aparecer na posição de seu argumento, surgindo o paradoxo como evidência de que, em especial, a própria função F não o pode. Essa impossibilidade seria requerida ainda por um princípio que Russell en- cara como lógico, o princípio do círculo vicioso: “Tudo aquilo que implica a totalidade de uma coleção não deve ser
membro da coleção”. Se uma coleção é formada a partir de seus membros, estes devem estar disponíveis no momento de formá-la, nenhum deles podendo impli- car, portanto, a existência prévia da coleção. Ora, uma função proposicional determina-se pelo conjunto de seus valo- res possíveis, não sendo possivel, sem incorrer em círculo vicioso, admitir que alguns desses valoes dependam da disponibilidade prévia da própria fun- ção como argumento possível.
A adoção do princípio do círculo
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FABBRI
OS PENSADORES
!
Quase centenário, Bertrand Russell liderou um movimento contra a di dos norte-americanos no
conflito vietnamita, e instituiu um tribunal para julgar crimes de guerra.
vicioso levou Russell a complicar a hie- rarquia dos tipos, acrescentando uma hierarquia de ordens, de modo que fun- ções do mesmo Al an pertencer a diferentes ordens, de acordo com o tipo das funções que aparecem como partes de suas expressões. Essa hierarquia de ordens complica muito a manipulação do simbolismo e, principalmente, torna necessário acrescentar um novo axioma ao sistema, a fim de que ele comporte a redução da aritmética à lógica; trata-se do axioma da redutibilidade, que garan- te a pessibi doa ae de encontrar, para toda função de tipo n, outra função de mesmo tipo, satisfeita pelos mesmos argumentos e da menor ordem compa- tivel com o tipo n, o que praticamente equivale à possibilidade de manipular o simbolismo independentemente de consi- derações acerca das ordens de funções; Na verdade, a hierarquia de ordens ape- nas é relevante quando se trata de afas-
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FABBRI
tar paradoxos semânticos, surgidos no momento em que são admitidas na lin- guagem expressões que denotam expres- sões da própria linguagem. Na medida em que a qe que deve servir ao projeto de redução da aritmética à lógi- ca prescinde de tais expressões, pode-se construí-la de modo que os paradoxos semânticos não apareçam; a hierarquia de ordens, assim, torna-se supérflua.
Embora outras soluções tenham sido propostas para os paradoxos em ques- tão, a teoria dos tipos não perdeu sua atualidade na moderna teoria dos con- Juntos, inspirando, entre outros, o siste- ma exposto pelo lógico W. Quine (1908- ) em seu conhecido e impor- tante artigo Novos Fundamentos de Ló- gica Matemática.
Os átomos da lógica
O método de análise lógica das teorias científicas e do discurso sobre as coisas ocupa lugar central na filosofia de Rus- sell, articulando facetas epistemológicas e metafísicas. Para Russell, tudo o que se conhece é obtido ou a partir de um contato direto (acquaintance) com obje- tos, ou por construções lógicas redutí- veis, em última instância, a elementos dados diretamente. A análise lógica das teorias é, pois, ao mesmo tempo, o discernimento das etapas e procedi- mentos que possibilitam a edificação de um sistema de conhecimentos, e um 1ns- trumento indispensável a toda investiga- ção epistemológica. Essa maneira de encarar o conhecimento foi posta por Russell a serviço do empirismo. À noção de “contato direto” tende a confundir-se com a de “experiência direta”, de modo que a análise lógica de uma teoria deve poder apresentar todo o conjunto de suas proposições como formulado em termos de expressões simples, denotando enti- dades simples e diretamente acessíveis à experiência. O empirismo russelliano afasta-se, porém, do empirismo tradicio- nal, ou ao menos daquilo que Russell Julgava ser o empirismo tradicional, no sentido de reconhecer a necessidade de princípios de inferência não empirica- mente fundamentados, para tornar pos-
RUSSELL
Analisando os fundamentos lógicos da matemática, Bertrand Russell abriu novos rumos para a filosofia nos terrenos da mais alta abstração, mas manteve-se sempre interessado pelos problemas concretos da humanidade e liderou diversos movimentos populares. Na foto acima, em Trafalgar Square, Londres, o filósofo dirige-se a encrme público, abordando o problema do desarmamento nuclear.
sível a construção do corpo geral de conhecimentos, a partir da experiência imediata. Em particular, as leis lógicas e matemáticas não seriam SeneraliZaÉ ções da experiência, como acreditava Stuart Mill (1806-1873), mas princípios diretores de construções lógicas, inde- pendentes da experiência. Russell apro- xima-se, assim, do empirismo lógico do Circulo de Viena, do qual diverge, porém, ao abandonar a idéia, inicial- mente professada, de que a lógica e a matemática dispõem de evidência ime- diata, por serem construídas a partir de meras definições. Segundo Russell, em- bora não deriváveis da experiência, os princípios lógicos e matemáticos devem poder ser confirmados em suas aplica- ções empíricas, dai retirando seu valor de conhecimento.
Do mesmo modo que o primeiro Rus- sell inferia a estrutura metafísica do mundo a partir da estrutura lógica da
linguagem, não distinguindo entre estru- tura amatical e estrutura lógica, o Russell construcionista chegou a crer na possibilidade de inferir essa estrutura metafísica a partir da estrutura última das teorias, revelada pelo procedimento de análise. Essa inferência, influenci- ada em muito por um seu antigo aluno, Ludwig Wittgenstein (1889-1951), le- vou-o ao atomismo lógico, expresso como teoria metafísica em 1918, numa série de conferências intitulada 4 Filo- sofia do Atomismo Lógico, e logo aban- donado. Assim como toda teoria cienti- fica deveria poder ser formulada em termos de expressões simples para obje- tos, propriedades e relações, o mundo seria redutível a objetos, propriedades e relações simples. A posse de uma pro- priedade simples por um objeto simples, ou uma relação simples entre objetos simples seriam fatos atômicos, o mundo real nada mais sendo que a totalidade
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OS PENSADORES
dos fatos atômicos que realmente ocor- rem. Toda descrição do mundo seria redutível à expressão de fatos atômicos ou de um complexo de tais fatos, indi- cado por uma proposição molecular construida mediante o uso de funções de verdade. O atomismo lógico aparece em Russell inseparável do empirismo, visto que os elementos simples do mundo se- riam imediatamente acessíveis à nossa experiência.
Contudo, duas espécies de problemas levaram Russell a abandonar o ato- mismo como tese metafísica e a descrer da possibilidade de efetuar a inferência da linguagem ao mundo. O atomismo deixa sem correspondente metafísico as proposições gerais, que exprimem as leis cientificas mais importantes, visto que não remetem a fatos atômicos nem, se o universo de objetos for infinito,
podem ser reduzidas a compostos fun- cionais-veritativos de pro osições expri- mindo fatos atômicos. Além disso, de- pendendo a estrutura metafísica do mundo do tipo de linguagem adotada como última e irredutível, a possibili- dade, cada vez mais presente para Rus- sell, de encontrar várias linguagens divergindo quanto aos elementos a serem encarados como simples — e todas igualmente adequadas — introduz na metafísica uma relatividade insupor- tável. O atomismo lógico tende, pouco a pouco, ao estatuto de simples máxima de análise lógica, retirando-se paralela- mente da filosofia todo direito a pronun- ciar-se sobre a natureza do real, direito que caberia com exclusividade à ciência. Um problema de filosofia, afirma Rus- sell, ou é um problema de lógica ou não é um problema de filosofia.
1872 — A 10 de maio, em Trellek, País de Gales, nas- ce Bertrand Arthur William Russell.
1874 — Morre sua mãe. 1875 — Perde seu pai.
1890 — Russell ingressa no Trinity College.
1894 — Gradua-se em filo- sofia. Casa-se com Alys Pearsall Smith.
1896 — Viaja para a Ale- manha. Publica a Democra- cia Social Alema.
1897 — Publica Um Ensaio sobre os Fundamentos da Geometria.
1903 — Escreve The Princi- ples of Mathematics
1910 - 1913 — Russell, jun- tamente com Whitehead,
CRONOLOGIA
publica os Principia Mathe- matica.
1920 — Já divorciado de Alys, casa-se com Dora Black.
1929 — Publica Casamento e Moral.
1932 — Publica Educação e Ordem Social.
1935 — Divorcia-se de Do- ra, casando-se com Patricia Helen Spence.
1940 — E convidado a inte- grar o departamento de filo- sofia da Universidade da Ci- dade de Nova York. Sua in- dicação é rejeitada devido a suas concepções morais. Torna-se conferencista da Fundação Barnes, em Me- rion, Filadélfia.
BIBLIOGRAFIA
1943 — Em janeiro, é des- pedido da Fundação.
1950 — Recebe o Prêmio Nobel de Literatura.
1952 — Divorcia-se de Pa- tricia e casa-se com Edith Finch.
1957 — Patrocina a primei- ra conferência de Pugwash (contra a corrida armamen- tista). »
1961 — E preso devido a sua campanha pelo desar- mamento nuclear.
1963 — Cria a Fundação de Paz Bertrand Russell. 1967 - 1969 — Publica sua Autobiografia.
1970 — Morre em Penrhyn- deudracth, País de Gales, a 2 de fevereiro.
Frirz, €. A.: Bertrand Russell's Construction of the External World, Londres, 1952. GórtTuinD, E.: Bertrand Russell's Theories of Causation, Uppsala, 1952.
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Oxford, 1956.
WARNOCK, G. J.: English Philosophy Since 1900, Londres, 1958.
840
CAPÍTULO 65
OS PENSADORES
os fins de século XIX, o idealismo era a filosofia dominante na Ingla- terra. A tradicional corrente empi- rista, que caracterizara por séculos a filosofia britânica, esteve quase total- mente extinta, salvo a ética de Sidgwick e o pensamento de John Stuart Mill (1806-1873); este era visto apenas como um mau exemplo dessa tradição. Triunfante através do estilo incompa- ravelmente gracioso e claro de Mac Tag- gart (1866-1927), da teoria do “eu ativo” de James Ward (1843-1925), do neoberkelianismo de Hastings Rashdall (1858-1924) e do pragmatismo huma- nista de F. C. S. Shiller (1864-1937), cedo, no entanto, o idealismo viu conta- dos os seus dias. Nesse sentido, o ano de 1903, com recisão fora do comum em matéria de história das idéias, foi o divisor de águas entre duas épocas bem marcadas. Em 1903, vieram à luz The Principles of Mathematics, primeira das grandes obras de Bertrand Russell (1872-1970), e dois livros de George Edward Moore (1873-1958), Principia Ethica e Refuta- ção do Idealismo. Eos obras marca- ram o surgimento de uma nova corrente de pensamento, que teria profundas consequências no desenvolvimento pos- terior da filosofia britânica, particular- mente no período compreendido entre as duas guerras mundiais de 1914 e 1939. As idéias desenvolvidas pelo novo movimento poderiam ser caracterizadas, em primeiro lugar, exprimindo uma espécie de realismo. Russell e Moore, a despeito de suas diferenças, susten- tavam que o mundo consiste em uma vasta pluralidade de coisas, de espécies radicalmente diferentes, independentes e logicamente distintas. Em segundo lugar, os dois filósofos retomaram o tradicional empirismo inglês, levando-o a refinamentos originais, em conexão com o desenvolvimento das ciências no século XX e com a lógica matemática. Em terceiro lugar, Russell e Moore, ambos criticando a teoria das relações internas, definida pelos idealistas, che-
Pág. anterior: George Edward Moore; desenho do acervo Galeria Nacional de Retratos, Londres (Susan Pinkus).
842
aram à conclusão de que a tarefa do
Elósofo deve ser, sobretudo, analítica; assim, não haveria lugar na filosofia para as grandes sínteses das metafisicas tradicionais que pretendiam explicar a totalidade das coisas.
O principal centro do neo-realismo e da filosofia analítica inglesa foi a Universidade de Cambridge, onde Geor-
e Edward Moore passou a maior parte dé sua vida acadêmica e formou toda uma geração de pensadores. Além da influência sobre esses filósofos, muitas das idéias de Moore ressurgem em Witt- genstein (1889-1951) e no grupo dos neopositivistas.
A análise filosófica
Moore dedicou-se sobretudo à análise da significação de expressões emprega- das na linguagem corrente e à investiga- ção das principais proposições dos filó- sofos. Esses dois tipos de análise são distintos: no caso da linguagem corren- te, Moore aceita seus significados como verdadeiros e os acha suficientemente claros; no caso da linguagem dos filóso- fos (sobretudo dos idealistas) o mesmo não ocorreria, sendo necessário, por um lado, investigar o significado das proposições e, por outro, inquirir sobre sua verdade ou falsidade. Embora as proposições do senso comum, diz Moore, não possam ser provadas ou contestadas, e melhor aceitá-las como verdadeiras, pois, caso contrário, che- ga-se a muitos paradoxos.
Por essa razão, muitos críticos viam em Moore apenas um filósofo do senso comum. No entanto, essa opinião só deve ser aceita na medida em que se tenha em conta o fato de ele ter utilizado o senso comum não apehas para elucidar os significados encontrados nas proposi- ções dos filósofos, como também para distinguir o que essas proposições conte- nham, por ventura, de verdadeiro. Em suma, sua defesa do senso comum tem um significado sobretudo metodológico.
O método analítico de Moore consiste mais numa prática metodológica do que propriamente num método rigorosa- mente elaborado. Isso não significa que não se possa averiguar O que seja seu método, mas é necessário aceitar o fato
MOORE
SUSAN PINKUS
Embora sem maior ressonância junto a um público mais amplo, as obras de Moore e suas atividades na Universidade de Cambridge tiveram profunda influência
na filosofia inglesa e moldaram toda uma geração. “Homenagem a Maret”, tela
de Orpen William, mostra Moore, o primeiro sentado à esquerda, e W. Steer, H. Tonks, H. Lane, D.S. Mac Colle W. Sickert. (City Art Gallery, Manchester.)
843
Ee CS SESSS:
OS PENSADORES
de que ele não é constituido por uma série de regras, como o método baconia- no, por exemplo. Como consegiência, toda exposição do pensamento de Moore exige que se siga sua prática. Em outros termos, é mais fácil seguir do que expor o método de Moore.
O interesse mostrado por Moore no sentido de pôr em prática o seu método analítico não significa, no entanto, que ele tenha se desinteressado de toda
proposição filosófica acerca da realida-
de, nem, tampouco, que seu método seja destituído de pressupostos filosóficos. O próprio Moore afirma, numa de suas obras, que a filosofia tem por missão “dar uma descrição geral de todo o universo”: por outro lado, ao fazer a análise das significações, Moore pressu- põe a existência de um universo de signi- ficações manifestado nas expressões da linguagem.
Uma das mais interessantes aplica- ções do método analítico de Moore encontra-se em seu livro Principia Ethi- ca, no qual elabora uma doutrina objeti-
vista da natureza da moral. Primeira- mente, Moore analisa as “coisas boas”; em seguida investiga o significado da palavra “bom”. Esta última parte é de especial importância; nela, Moore chega à conclusão de que “bom” é um predi- cado básico, já que não se pode decom- por a significação desse termo em outras significações mais primárias. Os filóso- fos que tentaram realizar essa decompo- sição, diz Moore, foram levados a isso por uma “falácia naturalista”. O fato de tratar-se de um predicado básico, no entanto, não faz de “bom” uma quali- dade misteriosa; para Moore trata-se apenas da expressão que designa uma qualidade irredutível, da mesma forma como “amarelo” também é irredutível. Posteriormente, Moore admitiu que “bom” pudesse ser uma palavra para designar a atitude de “aprovação”, não concebendo, no entanto, a “aprovação” como uma atitude “natural”, mas, antes, como resultado de um “uso linguístico”, tomada esta expressão no seu mais amplo sentido.
1873 — Em Londres, a 4 de novembro, nasce George Edward Moore.
1879 — Nasce Albert Einstein.
1892 — Moore no Trinity College. 1899 — Publica The Na- ture of Judgement.
1903 — Moore publica, A Refutação do Idealismo e os Principia Ethica.
ingressa
CRONOLOGIA
1904 — Surge a Psicopa- tologia da Vida Cotidiana, de Freud.
1907 — Bergson publica a Evolução Criadora.
1910 — Início da publica- ção dos Principia Mathema- tica, de Russell e White- head.
1913 — Publicação de Idéias para uma Fenomeno- logia Pura e para uma Filo-
BIBLIOGRAFIA
sofia Fenomenológica, de Husserl.
1916 — Moore casa-se com Dorothy Ely, com quem terá dois filhos.
1922 — Moore publica os Estudos Filosóficos.
1953 — Publica Some Main Problems in Philo- sophy.
1958 — Morre em Cam- bridge, a 24 de outubro.
MaALCOLM, N.: Knowledge and Certainty, Englewood Cliffs, Nova Jersey, 1963. PASsMORE, J.: Moore and Russell, in A Hundred Years of Philosophy, Londres, 1957. UrMmson, J. O.: Philosophical Analysis, its Development between the tuo World Wars,
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cana, Buenos Aires, 1969.
844
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CAPÍTULO 66
qcrmeira [AR na
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OS PENSADORES
om a publicação, em 1922, de Os
Argonautas do Pacífico Ocidental,
Malinowski não realizou apenas uma adição, embora substancial, à etno- grafia da Melanésia, mas procedeu a uma verdadeira revolução na lhteratura antropológica.
O caráter inovador da obra de Mali- nowski, exemplificado nessa monografia e nos trabalhos que a sucederam, ultra- passou de muito o circulo restrito dos es- pecialistas em antropologia. Talvez ape- nas Morgan (1818-1881), antes dele, e Lévi- São (1908- ), depois, tenham logrado uma repercussão tão ampla de seus trabalhos, inclusive entre o público leigo.
No caso de Malinowski, como no dos outros dois, a popularidade da obra e seu significado movador repousam na apresentação de uma nova visão do ho- mem e na indicação de uma nova ma- neira de compreender o comportamento humano. Com os Argonautas, desfaz-se definitivamente a visão das sociedades tribais como fósseis vivos do passado do homem, equivalentes humanos das pe- cas de museu, aglomerados de crenças e costumes irracionais e desconexos. Os costumes e as crenças de um povo exó- tico adquirem agora plenitude de signifi- cado e o comportamento nativo aparece como ação coerente e integrada. A etno- grafia adquiriu a capacidade de recons- truir e transmitir uma experiência, de vida diversa da nossa, mas nem por isso menos rica, ou menos humana.
Essa inovação não resulta simples- mente de uma intuição feliz, mas é, sem dúvida alguma, o produto de uma refle- xão laboriosa, que arquitetou novas téc- nicas de investigação e novos métodos de interpretação, tão candidamente expos- tos na Introdução de Os Argonautas. A singular mistura de objetividade cienti- fica e vivência pessoal, de humildade e jactância que transparece nessa Introdu- ção, revela muito da personalidade de Bronislaw Kaspar Malmnowski.
Professor rilhante, conferencista magnífico, polemicista apaixonado, Ma-
Foto de Bronislaw Kaspar Malinowski em Yale, pouco tempo antes de sua morte, ocorrida em 1942.
(John Phillips — Time Life)
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linowski possuía simultaneamente a ca- pacidade de simpatia e a intolerância que coexistem tão frequentemente nas pessoas muito afetivas. Por isso mesmo, criou discípulos fervorosos e adversários ferrenhos. O próprio caráter polêmico, complexo e muitas vezes contraditório de sua obra provoca a admiração sincera e a crítica impiedosa que têm marcado todas as avaliações de sua contribuição científica. A extraordinária vivacidade e penetração da análise etnográfica colo- cam problemas teóricos da maior rele- vância, que permanecem hoje tão atuais como no passado. Por outro lado, as ten- tativas de sistematização CE Grica espe- cialmente como aparecem nos poucos en- saios que publicou sobre o método funcionalista, dois dos quais póstumos, estão eivadas de contradições insolúveis e generalizações apressadas, que obscu- recem o alcance e a importância das questões levantadas nos trabalhos etno- gráficos. Por isso, a apreciação do que existe de vivo e provocante na sua obra só pode ser feita através da leitura de uma de suas monografias, como Os Ar- gonautas do Pacífico Ocidental.
As novas bases da antropologia
Malinowski chegou à antropologia por caminhos transversos. Sua formação inicial foi no campo das ciências exatas, tendo obtido em 1908 o doutoramento em fisica e matemática pela Universi- dade de Cracóvia, sua cidade natal. Nessa época, tinha apenas 24 anos de idade, pois nascera nessa antiga cidade polonesa, a 16 de maio de 1884.
De constituição franzina, teve que in- terromper sua carreira cenulica logo depois de formado, por motivos de saúde. Impedido de gaba lhar: leu, como distração, a famosa obra de Sir James Frazer, The Golden Bough, que o atraiu defini isamende para a antropologia e que exerceu influência profunda em sua formação. Dirigiu-se então para Leipzig onde, em breve permanência, iniciou-se em sua nova vocação sob a orientação de Karl Búcher e Wilhelm Wundt. Em 1910
Já estava na Inglaterra, tendo sido admi-
tido na London School of Economics como aluno de pós-graduação.
MALINOWSKI
Cortesia do Consulado da Polônia
Natural de Cracóvia, Polônia, Malinowski cedo deixou seu país, passando a realizar inúmeras viagens de estudos e pesquisas. Iniciou-se na antropologia em Leipzig (Alemanha); a partir de 1910 estudou em Londres; em 1914 organizou uma expedição à Nova Guiné, a primeira de uma série ligada ao trabalho de campo em várias regiões do Pacífico. (Acima, vista da cidade de Cracóvia.)
847
OS PENSADORES
Cpm
A formação inicial de Malinowski foi no campo das ciências exatas: em 1908 doutorou-se em fisica e matemática pela universidade de Cracóvia (acima). A leitura do livro de Sir James Frazer, The Golden Bough, marcou o início
de seu interesse pela antropologia. O começo da carreira de Malinowski, como
antropólogo, coincidiu com o desenvolvimento de novas técnicas de pesquisa.
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EDS Ê : - Lda +
4 Cortesia do Consulado da Polônia
MALINOWSKI
Em menos de três anos, Malinowski já era reconhecido como antropólogo pro- missor e de grandes qualidades intelec- tuais, tendo publicado três artigos e um bvyro. Em 1913, começou sua carreira docente, tendo ministrado, entre esse ano e o seguinte, dois cursos na London School of Economics, como Lecturer on Special Subjects. Nesse mesmo período travou relações com os maiores antropó- “logos da época como Seligman, Haddon, . Rivers, Frazer e Marett. Com Seligman, particularmente, mantinha contato muito estreito, o mesmo acontecendo também com Westermarck, que prefa- ciou seu primeiro livro, The Family Among | the Australian Aborigines.
O início da carreira de Malinowski coincide com um periodo de grande efer- vescência na antropologia, caracteri- zado pelo desenvolvimento de novas téc- nicas de pesquisa e pela critica aos métodos de interpretação vigentes.
Até o fim do século XIX, a quase tota- lidade dos antropólogos jamais havia se- quer visto um representante dos chama- dos povos primitivos sobre os quais escreviam. Seus trabalhos baseavam-se em material histórico e arqueológico so- bre as civilizações clássicas e orientais e em informações sobre sociedades tri- bais contidas em relatos de viajantes, co- lonos, missionários e funcionários dos governos coloniais. Havia, é claro, algu- mas exceções, principalmente na Amé- rica: Morgan imabalhara com informan- tes iroqueses, Cushing vivera cinco anos entre os indios Zuni. Com Boas (1858-1942), a tradição do trabalho de campo estabeleceu-se definitivamente nos Estados Unidos: já em 1883-1884, realizara uma pesquisa entre os esqui- mós e depois disso promoveu um traba- lho de pesquisas de campo sistemáticas entre os indios da costa noroeste.
No final do século, começaram a mul- tiplicar-se também na Europa os traba- lhos de antropólogos ou estudiosos e missionários com formação antropoló- gica, contendo observações feitas direta- mente sobre populações tribais.
A publicação, em 1899, das extensas investigações desenvolvidas por Spencer e Gillen entre os aborígines australianos demonstrou definitivamente as grandes potencialidades do trabalho de campo e
A saúde precária obrigou Malinowskt a abandonar sua carreira no setor das ciências exatas. E ele acabou como um dos maiores nomes da antropologia. (Malinowski ao se formar em Cracóvia.)
a importância das informações obtidas por meio de observação direta para a re- solução dos problemas teóricos coloca- dos pela antropologia. Só essa obra ins- pirou pelo menos três grandes trabalhos, cada um dos quais constituía uma refle- xão movadora em seu próprio campo: Às ormas elementares da vida religiosa, de Durkheim (1858-1917), Totem e Tabu, de Freud (1856-1939), e A família entre os aborigines australianos, o primeiro livro de Malinowski, todos publicados em 1913.
A publicação da obra de Spencer e Gil- len coincide com a realização (em 1888-1889) da famosa Expedição Cam- bridge ao estreito de Torres (entre Aus- trália e Nova Guiné), organizada por Haddon e da qual participaram, entre outros, Seligman e Rivers (1864-1922). Tratava-se pois de uma equipe de reno- mados especialistas, realizando simulta- neamente uma série de investigações científicas na mesma região.
Em 1901, Rivers trabalhou entre os Todda. Seligman, em 1904, empreendeu
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OS PENSADORES
um survey monumental de toda a Nova Guiné Britânica e, nos anos seguintes, es- teve, com sua mulher, entre os Vedda do Ceilão e as tribos do Sudão britânico. Quando Malinowski chegou à Ingla- terra, todos esses pioneiros já estavam formando a primeira geração de investi- adores de campo e Radcliffe-Brown (1881-1954) havia acabado de concluir sua pesquisa entre os Andamaneses, rea- lizada entre os anos de 1906 e 1908 (embora só publicada em 1922).
O funcionalismo
O desenvolvimento do trabalho de campo sistemático produziu uma enorme quantidade de novos conheci- mentos e colocou em xeque o modo tra- dicional de manipular os dados empiri- cos. A nova geração de antropólogos britânicos, cujos expoentes são justa- mente Radcliffe-Brown e Malmnowski, promoveu a crítica radical dos postula- dos evolucionistas e difusionistas que dominavam a antropologia clássica, es- tabelecendo um novo método de investi- gação e interpretação que ficou conhe- cido como “escola funcionalista”. O funcionalismo, na antropologia, desen- volve-se em três linhas, algo distintas: a dos discípulos de Boas, nos Estados Uni- dos; a de Malinowski e a de Radcliffe- Brown, na Inglaterra.
Em qualquer uma de suas formas, o funcionalismo está estreitamente vincu- lado ao trabalho de campo. Isso não quer dizer, entretanto, que o funciona- lismo se reduza a uma técnica de pes- quisa. Mesmo em Malinowski, que é o etnógrafo por excelência, a crítica à an- tropologia clássica e a formulação de no- vos problemas teóricos precedem seu trabalho de campo. Já no seu primeiro livro, 4 família entre os aborígines aus- tralianos, baseado exclusivamente em material bibliográfico, Malinowski aponta com muita exatidão a deficiência das categorias de análise e dos conceitos evolucionistas difusionistas e propõe um novo método de ordenação e inter- pretação da evidência empírica.
Os primeiros trabalhos de Mali- nowski, assim como os de Radcliffe- Brown, acusam uma forte influência de Durkheim, que forneceu a ambos a for-
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mulação inicial dos conceitos de função e de integração funcional, com os quais essa nova geração de antropólogos pro- curou contruir um método próprio e che- gar a uma nova teoria antropológica.
A crítica fundamental que Malinowski e os demais funcionalistas dirigem à an- tropologia clássica refere-se à arbitra- riedade das categorias utilizadas. A comparação entre sociedades diversas é feita através de um desmembramento inicial da realidade em itens culturais tomados como elementos autônomos; com os fragmentos assim obtidos os au- tores procedem a um rearranjo arbitrá- rio, agrupando-os de acordo com catego- rias tomadas de sua própria cultura e fabricando com isso intituições, comple- xos culturais e estágios xo luLINDE que não encontram correspondência em qual- quer sociedade real.
A preocupação com a adequação das categorias à realidade estudada está es- treitamente associada ao empenho em reconhecer e preservar a especificidade e particularidade de cada cultura. Para os funcionalistas, os elementos culturais não podem ser manipulados e compostos arbitrariamente porque fazem parte de sistemas definidos, próprios de cada cul- tura e que cabe ao investigador descobri- dor. Essa noção se expressa no postu- lado da integração funcional, que assume importância fundamental em toda análise funcionalista. O conceito de função aparece como o instrumento que permite reconstruir, a partir dos dados aparentemente caóticos que se oferecem à observação de um pesquisador de ou- tra cultura, os sistemas que ordenam e dão sentido aos costumes nos quais se cristaliza o comportamento dos homens.
São essas preocupações, já aparentes em 4 vida familial dos aborígines aus- tralianos, que orientam Malinowski quando parte para o trabalho de campo.
A oportunidade de realizar uma inves- tigação de campo surge em 1914. Gra- ças ao apoio e aos esforços de Seligman, Malinowski obtém duas bolsas, a Robert Mond Travelling Studentship, da Uni- versidade de Londres, e a Constance Hutchinson Scholarship, da London Schooll of Economics, que lhe permitem organizar uma expedição à Nova Guiné. A escolha da área prende-se, obvia-
MALINOWSKI
A publicação, em 1899, das extensas investigações feitas por Spencer e Gillen sobre os aborígines australianos mostrou que o trabalho de campo podia fornecer dados decisivos para a resolução e problemas teóricos colocados pela antropologia. Essa publicação inspirou o primeiro livro de Malinowski: A família entre os aborígines australianos. (Malinowski ainda estudante.)
Routledge & Kegan Paul, London
OS PENSADORES
Até o fim do século XIX, os antropólogos em geral teorizavam com base em relatos de sas missionários e funcionários de governos coloniais que
escreviam sobre os chamados povos primitivos. O trabalho de campo como sustentação das teorias antropológicas firmou-se definitivamente nos Estados Unidos com Franz Boas (acima), grande figura da linguística e da antropologia.
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MALINOWSKI
mente, à influência de Seligman, que já havia então publicado seu trabalho mo- numental sobre essa região.
A observação participante
Malinowski chegou a Port Monesby depois de passar pela Austrália já em pleno início da Segunda Guerra Mun- dial, o que lhe causou dificuldades adi- cionais, visto ser então tecnicamente sú- dito austriaco e, portanto, cidadão inimigo. Na verdade, só voltou à Ingla- terra depois de terminado o conflito; a longa duração de sua permanência em campo — que lhe permitiu realizar um trabalho de investigação tão intenso e minucioso — talvez se deva, pelo menos em parte, a essas dificuldades políticas.
De início passou alguns meses — de se- tembro de 1914 a março de 1915 — entre os Mailu, habitantes da ilha de Tulon, sobre os quais publicou, no mesmo ano, uma pequena monografia.
Retornando à Austrália em 1915 e ob- tendo recursos adicionais através da in- fatigável boa vontade de Seligman, diri- giu-se novamente para o campo, desta vez para os arquipélagos que se esten- dem a nordeste do extremo oriental da Nova Guiné. Tendo encontrado dificulda- des em seguir seus planos iniciais, que compreendiam permanência em diversas has, acabou fixando-se nas Ilhas Tro- briand, onde permaneceu de junho de 1915 a maio do ano seguinte. De volta à Austrália, dedicou-se durante um ano e meio à ordenação e interpretação ini- cial do material coletado. Nessa época, recebe, de Londres, o título de Doutor em Ciências, que lhe é outorgado pelos seus dois trabalhos já publicados: o re- lativo aos aborígines australianos e a monografia sobre os Mailu. Além disso, apronta e envia para publicação o ensaio intitulado Baloma: Spirits of the dead in the Trobriand Islands, que aparece no mesmo ano. Um artigo sobre a pesca nas ilhas trobriandesas, publicado na revista Man, em 1918, data também provavel- mente dessa época. Em outubro de 1917. parte para novo período de trabalho de campo, voltando mais uma vez às ilhas trobriandesas, onde permanece todo um ano, até outubro de 1918.
Planejado ou não, esse interregno en-
tre duas extensas permanências em campo revelou-se extrenlamente fruti- fero para Malinowski. Sem uma elabora- ção preliminar do material é impossível determinar suas insuficiências e, em- bora nem sempre possível. esse procedi- mento constitui ainda hoje o ideal da prática da investigação etnográfica. tal como a prescreveu Malinowski a partir dessa época
A grande inovação de Malinowski no trabalho de campo consistiu na prática do que é chamado hoje em dia observa- cão participante. Os princípios funda- mentais dessa prática e o desenvolvi- mento dessa experiência estão minuciosamente relatados na Introdução dos Argonautas.
As pesquisas de campo anteriores de- pendiarh quase inteiramente de inquéri- tos realizados com uns poucos informan- tes bilingies ou de questionários aplicados com o auxílio de tradutores. A observação direta do comportamento era necessariamente breve e superficial, pois realizada durante visitas de curta dura- ção às aldeias indígenas. Através dessas técnicas de investigação “é possível acu- mular grande número de informações e, inclusive, testar a veracidade dos infor- mes utilizando informantes diferentes. No entanto, é impossível captar, com esse trabalho, toda a riqueza de signifi- cados que permeia a vida social — e a cultura aparece, necessariamente, como o conjunto de itens independentes que fi- guram nos inquéritos. Além disso, a or- denação das questões apresentadas é feita a frequentemente em termos de cate- gorias alheias ao universo cultural in- vestigado, introduzindo assim pequenas ou grandes distorções no próprio mate- rial etnográfico.
Malinowski alterou radicalmente essa prática, passando a viver permanente- mente na aldeia, afastado do convivio de outros homens brancos e aprendendo a lingua nativa, tarefa para a qual, ahás, era extremamente dotado. Desse modo, embora não dispensando o uso de infor- mantes, substituiu-o em grande parte pela observação direta, que só é possível através da convivência diária, da capaci- dade de entender o que está sendo dito e de participar das conversas e aconteci- mentos da vida da aldeia.
853
OS PENSADORES
Malinowski preconizou e praticou a observação participante: sem dispensar os informantes, substituiu-os em parte pela observação direta do comportamento dos indígenas. O antropólogo deve conviver prolongadamente com os nativos em suas aldeias e aprender-lhes a língua, assimilando categorias inconscientes que ordenam o universo cultural investigado. (Papuas — nativos da Nova Guiné.)
É importante ressaltar que o funda- mento dessa técnica reside num processo de “aculturação” do observador que con- siste na assimilação das categorias in- conscientes que ordenam o universo cul- tural investigado. Através desse processo, que é análogo ao do aprendi- zado de uma língua estranha e, como este, também em parte inconsciente, o observador apreende uma “totalidade in- tegrada” de significados que é anterior ao processo sistemático da coleta e orde- nação das informações etnográficas. Isto é, a apreensão inconsciente da totalidade prece de e permite o procedimento analí- tico consciente da investigação da reali- dade cultural.
Dessa maneira, a totalidade e a inte- gração da cultura, que consistiam em pressupostos teóricos decorrentes da cri- tica à antropologia clássica, transfor- mam-se agora numa realidade que é atingida intuitivamente pelo investiga-
dor por meio de sua vivência da situação de pesquisa.
Se a observação participante recoloca para Malinowski o problema da totali- dade, ela obviamente não o resolve. A fa- miliaridade com o nativo, a capacidade de participar de seu universo constituem condições prévias para o investigação, mas não eliminam o laborioso trabalho da coleta sistemática de dados, nem a in- terpretação e integração da evidência empírica de modo a recriar a totalidade vivida pelo nativo e apreendida pela in- tuição do pesquisador. Essa tarefa devia ser resolvida na elaboração das mono- grafias sobre os trobriandeses, tarefa à qual Malinowski se dedicou com o má- ximo empenho durante o resto de vida.
A instituição
Após sua extraordinária experiência de trabalho de campo, Malinowski vol-
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Os trabalhos de Malinowski sobre a vida sexuale a família de aborígines da Melanésia tornaram-se suas obras mais populares. Numa época ainda marcada pelo puritanismo vitoriano, faz descrições bastante explícitas da vida sexual
dos indígenas, e mostra dE A a de uma sociedade matrilinear — o inverso da sociedade ocidental de então. (Nova Guiné: família de nativos.)
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OS PENSADORES
tou à Austrália, onde se casou com Elsie Masson, filha de um professor de qui- miça da Universidade de Melboure. Sua saúde, sempre frágil, estava bastante abalada e, logo após seu regresso à In- glaterra. a ameaça de tuberculose for- cou-o a retirar-se para Tenerife, nas ilhas Canárias. Foi aí que em abril de 1921 terminou sua primeira monografia sobre os trobriandeses, à qual deu o nome romântico de Argonautas do Pací- fico Ocidental. No ano seguinte, a obra era publicada na Inglaterra, para onde Malinowski já havia voltado.
O trabalho difere bastante das mono- grafias tradicionais. Não é uma descri- ção de toda a cultura trobriandesa. Não é também uma análise especializada de um dos aspectos nos quais os antropólo- gos normalmente decompõem a cultura: economia, parentesco e organização so- cial, religião, ritual e mitologia, cultura material. Consiste, na verdade, de todos esses aspectos vistos da perspectiva de uma única instituição, o Kula. A escolha da análise institucional constitui, por- tanto, a solução encontrada por Mali- nowski para reconstituir, na descrição etnográfica, a integração e a coerência ou, em outras palavras, a totalidade 1n- tegrada que a técnica de investigação lhe havia permitido captar no trabalho de campo.
Se, para Malinowski, a cultura consti- tui uma totalidade integrada, não é, en- tretanto, um todo indiferenciado, mas apresenta núcleos de ordenação e corre- lação que são as instituições. As institui- ções se apresentam portanto como limi- tes “naturais”, isto é, estabelecidos pela própria cultura, que permitem evitar o perigo de transformar a análise funcio- nalista no estabelecimento infindável de correlações. O conceito de instituição permite a Malinowski resolver o pro- blema da adequação entre as categorias da análise e a realidade empírica, esta- belecendo um isolado teórico que corres- ponde às unidades observadas na pró- pria realidade e que dela emergem.
Para Malinowski, a instituição é sempre uma unidade multidimensional. Conforme a formulação elaborada anos mais tarde, no seu ensaio Uma Teoria Científica da Cultura, ela compreende uma constituição ou código, que consiste
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no sistema de valores em vista dos quais os seres humanos se associam; isto é, corresponde à idéia da instituição tal como é concebida pelos membros da pró- pria sociedade. Compreende também um grupo humano organizado, cujas ativi- dades realizam a instituição. Essas ati- vidades se processam de acordo com normas e regras, que constituem mais um elemento dessa totalidade. Fimal- mente, compreende um equipamento ma- terial que o grupo manipula no desempenho de suas atividades. Esses diferentes elementos definem o que Mali- nowski chama estrutura da instituição.
O aspecto mais importante dessa con- ceituação consiste na preservação da multidimensionalidade do real, reprodu- zindo, em cada unidade de análise, as di- mensões do processo cultural em sua to- talidade. Com efeito, o processo cultural, isto é, a própria vida social, em qualquer de suas manifestações concre- tas, envolve sempre, para Malinowski, seres humanos em relações sociais defi- nidas, pessoas que manipulam artefatos e se comunicam através da linguagem e de outras variadas formas de simbo- lismo. O equipamento material, a orga- nização social e o simbolismo consti- tuem três dimensões mtimamente vinculadas e a realidade jamais pode ser compreendida integralmente se não se apreender a simultaneidade de todas as suas dimensões.
Na interpretação de Malinowski, a instituição não deve ser concebida como a simples soma dos aspectos de sua es- trutura, mas verdadeiramente como sua sintese. A integração das diferentes di- mensões da cultura é a referência cons- tante de toda a investigação. Por outro lado, é necessário não confundir a sin- tese construida pelo antropólogo com a idéia que dela fazem seus portadores. Note-se que Malinowski sempre insiste na diferença entre o código e as normas da instituição, de um lado, e, de outro, as atividades efetivamente desempenha- das pelos membros do grupo. É através da análise das atividades e de seus resul- tados que o investigador encontra instru- mentos para superar a consciência res- trita e deformada que os membros de uma sociedade possuem de sua própria cultura.
MALINOWSKI
Desse modo, verifica-se que os dife- rentes aspectos da instituição não pos- suem todos a mesma relevância explica- tiva, pois é nas atividades, isto é, no comportamento humano real, que se en- contra o elemento verdadeiramente sin- tético que fornece a chave para a apreen- são da instituição na totalidade de seus aspectos.
A sintese que Malinowski se esforça por construir na descrição etnográfica não se reduz pois ao estabelecimento de interdependências entre sistemas analiíti- cos diversos (legais, econômicos, técni- cos, religiosos), tomados em sua inde- pendência. Para ele, esse tipo de sintese não pode ser atingido a posteriori, pela justaposição e correlação de aspectos descontinuos, mas deve estar presente de início e em todos os momentos da inves- tigação. Por isso é que os temas que isola como focos de análise, isto é, as instituições, como o Kula. são escolhi- dos de modo a preservar, na unidade de investigação, essas totalidades comple- xas que incluem a multiplicidade do real e, ao contrário das monografias tradicio- nais, jamais se encontra em Malinowski uma análise de sistema econômico, poli- tico, religioso, etc., em si mesmos.
A instituição aparece pois como uma projeção parcial da totalidade da cul- tura, não como um de seus aspectos ou partes. A descrição sempre as desenvolve no sentido de mostrar, simultaneamente, como a instituição em apreço permeia toda a cultura e, inversamente, como toda a cultura está presente na institui- ção. Muitos autores já apontaram um aparente paradoxo: Malinowski. que tanto se preocupou com a noção da tota- lidade da cultura, jamais apresentou uma descrição integrada de todos os as- pectos da cultura trobriandesa. É que o estudo do todo não se confunde com o es- tudo de tudo e a totalidade só pode ser apreendida concretamente através de realizações parciais, projetada no com- portamento dos homens.
Harcount, Brace & World, Inc.
Viagens e trabalhos
Para Malinowski o conceito de função
é que permite, a partir de dados Após a publicação dos Argonautas, aparentemente caóticos, reconstruir com a qual formula as linhas gerais de os sistemas que ordenam e dão seu método, abre-se um período muito
sentido aos comportamentos e costumes. fértil na carreira de Malinowski. 891
OS PENSADORES
Tendo retornado a Londres em 1921, retoma a atividade didática que iniciara antes do trabalho de campo, no começo novamente como Occasional Lecturer na London School of Economics e, a partir de 1922, como Lecturer in Social An- thropology na mesma instituição. Em 1924, assume o cargo de Reader in An- tropology pela Universidade de Londres, cargo que entretanto é exercido na Lon- don School. Em 1927, é indicado para a primeira Cadeira de Antropologia, criada para ele naquela universidade.
Com sua reputação estabelecida nos meios científicos, Malinowski dedica-se a defender sua nova visão da antropolo- gia, atacando vigorosamente as coloca- ções evolucionistas e principalmente di- fusionistas, generalizadas no mundo acadêmico britânico. Exemplo dessa po- lêmica é otrabalho “*The Life of Culture”, parte da publicação Culture — The diffu- sion controversy, em que figuram traba- lhos de seus opositores, G. Elliot Smith, H. S. Spinden, A. Goldenweiser. A rigi- dez de muitas de suas formulações pren- de-se inegavelmente ao caráter polêmico de grande parte dos trabalhos que escre- veu nessa época.
Malinowski também viajou muito, tendo ministrado cursos e conferências em Genebra, Viena e Oslo, visitando muitas outras capitais e mantendo con- tatos pessoais com antropólogos de todo o mundo. Visitou os Estados Unidos em 1926, 1933 e 1936 quando recebeu o
au de Doutor Honorário pela Universi- dade de Harvard. Em 1934, percorreu também a África Meridional e Oriental, visitando então muitos de seus discípu- los que estavam realizando trabalhos de campo, pois Malinowski foi o responsá- vel pelo primeiro programa de treina- mento em pesquisa de campo do Interna- tional African Institute. Certamente sua capacidade de falar diversas línguas e sua origem polonesa contribuiram muito para esse contato tão amplo com insti- tuições e pesquisadores de diferentes países, duebrado o relativo isolamento que caracterizava a comunidade de an- tropólogos britânicos.
Sua vida pessoal, entretanto, conti- nuava marcada pela doença. Sua pri- meira mulher, com quem teve três filhas, foi acometida de uma doença incurável
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que afetou a coluna vertebral, tendo fale- cido em 1935, após dez longos anos de sofrimento.
Além de toda essa intensa atividade e de sua enorme dedicação às tarefas didá- ticas, Malinowski manteve, durante todo esse período, uma constante produção de artigos, ensaios e livros.
Após a publicação dos Argonautas, o interesse de Malinowski — até então con- centrado em grande parte em questões econômicas — volta-se para outros te- mas. Até 1929 publicou, além de inúme- ros trabalhos menores, alguns ensaios muito importantes, além de mais uma monografia sobre os trobriandeses.
Sobre religião, magia e mitologia, pu- blica, em 1925, o ensaio Magic, Science and Religion e, em 1926, Myth in Primi- tive Psychology. Em 1926 aparece ainda o primeiro trabalho no qual formula, de modo sistemático, embora resumido, sua visão própria do trabalho antropológico. Trata-se do verbete Anthropology, publi- cado na 13.º edição da Encyclopaedia Britannica. Data ainda desse mesmo ano Crime and Custom in Sarage Society, onde explora a nação de reciprocidade como princípio de ordenação social.
São entretanto os temas referentes ao sexo e à vida familiar que parecem cons- tituir a preocupação central de Mali- nowski até o fim da década de 20, exem- plificada através de inúmeros pequenos trabalhos, reunidos em parte no livro Sex and Repression in Savage Society, de 1927. Essa fase culmina, em 1929, com a publicação de sua segunda grande monografia sobre os trobriandeses, The Sexual Life of Savages in North Western Melanesia.
Sexo e cultura
Os trabalhos referentes à vida sexual e à familia certamente foram — e talvez ainda sejam — os mais populares de toda a obra de Malinowski. Do ponto de vista antropológico, assim como do público científico e leigo em geral, o fascínio desses trabalhos reside na capacidade de Malinowski de retratar o funcionamento de uma sociedade matrilinear que cons- titui, pelo menos sob esse aspecto, prati- camente o inverso da sociedade ociden- tal da época Além disso, pode-se bem
MALINOWSKI
Fabhri
Para Malinowski o processo cultural, em todas as suas manifestações concretas, envolve sempre seres humanos em relações sociais definidas e que man pulam artefatos e se comunicam utravés da linguagem e outras formas de simbolismo. Equipamento material, organização sociale simbolismo estariam intimamente vinculados. (Imagem e máscara da região do Golfo de Papua, Nova Guiné.)
imaginar o sucesso de trabalhos em que figuram descrições bastante explícitas
da vida sexual numa época ainda mar-..
“ada por muitos resquícios de purita- nismo vitoriano.
Do ponto de vista europeu, a primeira grande peculiaridade trobriandesa resi- dia justamente na ampla liberdade se- xual. Com efeito, entre eles, não só a castidade pré-nupcial era totalmente desconhecida, como também a fidelidade conjugal não era observada com muito rigor. A segunda peculiaridade refe- ria-se ao fato de que os trobriandeses, além da negarem a paternidade social, apresentando-se como sociedade estrita- mente matrilinear, ignoravam inclusive a paternidade fisiológica, acreditando que as fêmeas (tanto humanas, quanto animais) procriavam independentemente das relações sexuais. A descrição de uma sociedade desse tipo não podia deixar de fascinar um público muito mais amplo que o círculo restrito dos antropólogos profissionais.
O problema básico que Malinowski se propunha não era analisar a estrutura do
sistema de parentesco, tema tradicional da antropologia, mas estudar a dinâmica específica da ordenação das condutas dentro desse quadro institucional, Isto é, como “funcionava”, na verdade, uma so- ciedade matrilinear.
A ordenação dos dados, nesses traba- lhos, não se faz tanto em termos da imsti- tuição da família, mas em termos de um aspecto universal do comportamento hu- mano, presente em todas as culturas: o impulso sexual.
A análise da vida sexual é feita em ter- mos de uma dupla referência: os impul- sos biológicos e sua regulamentação so- cial. A importância desse tema, para Malinowski, está justamente em que consiste no tipo de atividade, por exce- lência. na qual se integram, de modo o mais explícito, impulsos naturais e im- perativos sociais, apresentando-se por- tanto como ponto central da reflexão so- bre a própria natureza da cultura. Essa integração, entretanto, só pode ser apreendida ao nível individual e a refe- rência básica ao impulso sexual implica numa abordagem que localiza no indiví-
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Fabbri
OS PENSADORES
duo (e não na sociedade) todos os pro- cessos significativos e todas as explica- ções formuladas. Aparecem assim nesse tema, com grande nitidez, o biologismo e o psicologismo que estão latentes em quase toda a obra de Malinowski.
É necessário reconhecer que, apesar das deficiências desse tipo de aborda- gem, ela permite a Malinowski, como talvez em nenhum outro trabalho, fazer emergir, com extraordinária nitidez, a visão do nativo “em carne e osso”. Foca- lizando quase que exclusivamente as atl- tudes e a motivação do comportamento — isto é, o arranjo particular trobrian- dês de aspectos universais do compor- tamento humano —, torna-se aparente, através da peculiaridade do costume, a qualidade humana da conduta.
Malinowski demonstra que o compor- tamento do trobriandês não é nem irra- cional nem imoral, mas coerente e com- preensível dentro das premissas da cultura trobriandesa. Para demonstrar isso, é necessário apreender as premis- sas, mas não é necessário analisá-las como sistema. Por isso mesmo, nesses trabalhos evidenciam-se claramente tanto a riqueza como as limitações desse tipo de abordagem. Dê um lado, ela nos aproxima da vida real, mas, de outro, abandona uma problemática de enorme relevância, muito mais presente nas duas outras monografias, que consiste na aná- lise das forças sociais que explicam a emergência e a força das atitudes pró- prias das situações investigadas: a natu- reza das relações entre os grupos e a oposição entre segmentos sociais, estru- turadas através do parentesco.
Na verdade, a ausência de uma análise sistemática do parentesco, frequente- mente impede o esclarecimento de aspec- tos fundamentais da organização social, constituindo uma deficiência que tem sido apontada por todos os críticos de Malinowski.
O biologismo tantas vezes criticado em Malinowski relaciona-se diretamente com sua concepção de cultura, que é sempre referida à capacidade de satisfa- zer necessidades humanas. A instrumen- talidade da cultura é que assegura, do ponto de vista de Malinowski, sua racio- nalidade inerente.
A relação entre as instituições e a sa-
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tisfação das necessidades humanas apa- rece constantemente em suas tentativas de elaboração teórica e constitui um pro- blema que ele jamais conseguiu resolver de modo satisfatório. Nas elaborações posteriores, especialmente tal como apa- rece em 4 Scientific Theory of Culture, Malinowski postula toda uma gama de tipos de necessidade. Inicialmente, há a considerar as necessidades biológicas do organismo, denominadas básicas (nutri- ção, procriação, proteção, etc.). Como o homem, entretanto, só pode satisfazer essas necessidades básicas através da cultura, surgem necessidades derivadas, relacionadas à manutenção, reprodução e transmissão do próprio equipamento cultural. Estas, Malinowski subdivide em imperativos instrumentais (que inclui a organização econômica, legal e educa- cional da sociedade) e imperativos inte- grativos (como a magia, a religião, a ciência e as artes). A dificuldade funda- mental que encontra é a de relacionar, de um lado, as necessidades derivadas às necessidades básicas e, de outro, as ins- tituições às necessidades.
Caberia exatamente ao conceito de função superar esta última dificuldade. Dentro dessa formulação, Malinowski define o conceito em termos da corres- pondência entre a instituição e as neces- sidades que ela satisfaz. Obviamente, tal definição distancia-se enormemente da aplicação efetiva do conceito à análise etnográfica.
Na verdade, a posição de Malinowski nessa questão é bastante ambígua, pois elaborou diferentes conceitos de função, definindo-a também, em oposição aa có- digo ou carta de uma instituição, como seu papel no esquema geral da cultura, tal como é definido pelo investigador. Verifica-se facilmente que essa definição é diferente da anterior e muito mais pró- xima do método de interpretação usado no tratamento dos dados empíricos, onde é a análise da função que permite a pas- sagem da consciência dos agentes para as conexões gerais, constituídas pelo ob- servador e que definem a natureza da instituição (como ocorre, por exemplo, na análise do Kula).
Questões teóricas e metodológicas permeiam toda a obra de Malinowski. Após 1930 aparecem mais alguns en-
MALINOWSKI
saios, verbetes e artigos nos quais pro- cura explicitar e sintetizar sua posição teórica. Datam dessa época, por exem- plo, o verbete Culture da RR a of Social Sciences (1931), verbete Anthropology, do Book of hê Year de 1938 da Encyclopaedia Britannica cas diferentes versões do artigo “Culture as determinant of Behavior” (1937, 1937, 1938). É também a partir dessa época que sua posição começa a ser criticada pelos antropólogos mais jovens, sobre os quais aumenta a influência do funciona- lismo estrutural de Radcliffe-Brown.
A última grande obra
Entretanto, não se pode dizer que di- minua o prestígio de Malinowski. Seus próprios alunos começam a atingir a ma- turidade cientifica; muitos deles. Já tendo terminado o trabalho de campo sob sua orientação, começam a publicar obras originais. Malinowski prefaciou muitas dessas monografias: em 1932, escreveu a introdução do livro de Reo Fortune, Sorcerers of Dobu e de Audrey Richarde: Hunger and Work ina Savage Tribe; em 1934, prefaciou o trabalho de lan Hogbin, Law and Order in Polyne- sia; em 1936, o de Raymond Firt. We, The Tikopia; no ano seguinte, o de Ash- ley- Montagu, Coming of Age in Samoa; em 1938, aparece, com prefácio de Mali- nowski, o livro de Jomo Kenyata, Facing Mount Kenya, a primeira monografia antropológica escrita por um membro da sociedade tribal.
Com tantos discípulos fazendo traba- lhos de campo, aumenta também seu in- teresse pelos problemas da transforma- ção cultural induzida pela dinâmica da situação colonial, interesse que cresce depois de sua visita à África. Em 1936, aparece seu primeiro artigo sobre esse problema, “Native Education and Cul- ture Contact”. Data de 1938 um ensaio intitulado “Introductory Essay on the Anthropology of Changing African Cul- tures”, incorporado mais tarde em Dyna- mics of Culture Change. Além desses, há
Leslie A. White
Malinowski foi um dos expoentes do inúmeros trabalhos menores sobre o
co em antropologia. mesmo assunto, a respeito do qual pas- Malinowski no Encontro Anual da sou a conduzir seminários regulares.
Associação Antropológica Americana, Apesar das dificuldades que encontra
realizado no ano de 1939.) em formular de modo satisfatório os
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OS PENSADORES
princípios da abordagem funcionalista, o grande trabalho que publica em 1935, a monografia Coral Gardens and Their Magic indica um grande progresso em relação às anteriores, tanto no que diz respeito à formulação das questões teó- ricas quanto à integração do material empírico.
Retomando os problemas relativos à economia primitiva, volta-se agora para o estudo do trabalho agricola e da pro- priedade da terra nas Ilhas Trobriand. Apesar de incluir muito material já ana- lisado em trabalhos anteriores — espe- cialmente nos Argonautas — Coral Gar- dens é uma obra original, um esforço novo e produtivo para resolver os proble- mas relativos à integração da cultura. Nota-se também uma nova preocupação com as questões relativas à estrutura so- cial: encontram-se ainda nesse trabalho não apenas uma apresentação muito mais clara da estrutura social trobrian- desa como, e pela primeira vez, um tra- tamento adequado, embora parcial, da estrutura do sistema de parentesco.
Nesse trabalho, Malinowski aborda, com inigualável maestria, a relação en- tre o trabalho, a magia, a mitologia e a propriedade da terra. Demonstra como as atividades relacionadas à produção, distribuição e consumo do alimento — atividades que compreendem trabalho e magia, técnica e crença, uso e signifi- cado, ação e representação — simulta- neamente expressam e produzem a pró- pria sociedade.
Desaparece, nesse trabalho, o psicologismo que permeara as monogra- fias anteriores. A relação entre o social e o individual não é mais direta e ime- diata, embora a análise realize constan- temente a passagem de um nível a outro. Mas agora os aspectos psicológicos apa- recem como sintese, ao nível do compor- tamento, dos aspectos culturais e sociais revelados pela análise etnográfica.
Nos capítulos finais, Malinowski aborda a questão da propriedade da terra. levantando, de modo extrema- mente rico e original, a questão básica da relação entre o processo produtivo e sua regulamentação juridica, política e mitológica. Com Coral Gardens, encer- ra-se o ciclo das suas grandes produções etnográficas.
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Publicações póstumas
Em 1938, Malinowski volta nova- mente à América para uma permanência mais prolongada. Com a saúde outra vez abalada, estabelece-se por algum tempo em Tucson, Arizona, onde o clima se mostra benéfico para suas complicações pulmonares.
O início da guerra na Europa leva-o a prolongar a permanência nos Estados Unidos, sendo contratado como profes- sor visitante pela Universidade de Yale em outubro de 1939. Permanece nessa Universidade até 1942, através de uma subvenção do Bernice P. Bishop Mu- seum, de Honolulu, tendo encontrado tempo e energia para iniciar novo traba- lho de campo entre os Zapotec, no Mé- xico. No início de 1942 foi nomeado pro- fessor permanente da Universidade de Yale, mas faleceu a 16 de maio desse mesmo ano, em New Haven, antes de as- sumir seu novo posto.
Nesses últimos anos reconstituiu sua vida familiar, tendo se casado com a ar- tista Valetta Swann. A crise deflagrada pela ascensão do nazismo e o início da Segunda Guerra Mundial, entretanto, perturbaram- no profundamente. Via na emergência do totalitarismo uma ameaça à própria civilização, com a des- truição de todos os valores nos quais realmente acreditava.
Embora tivesse se naturalizado cida- dão britânico há muitos anos e não se identificasse politicamente com a Polô- nia, a invasão de seu pais pelos alemães levou-o a solidarizar-se com o povo po- lonês, tendo ajudado a fundar, nos Esta- dos Unidos, o Polish Institute of Arts and Sciences, do qual foi presidente, através do qual se empenhou em auxiliar os refugiados poloneses.
Nesse período final de sua vida, Mali- nowski não produziu nenhuma obra de grande relevância. Os trabalhos dessa época, em reral pequenos, estão quase todos voltados para as questões que o vi- nham preocupando desde o início da dé- cada de 30, especialmente aquelas rela- tivas à transformação das sociedades tribais e à fundamentação teórica do fun- cionalismo. Sobre esta última questão publicou, em 1939, The Group and the individual in functional analysis.
MALINOWSKI
AND OTHER ESSAYS
ROBERT REDFIELD
Harcoun, Brace & World, Inc.
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ao cds o os.
Re Cuenca
A cultura, para Malinowski, não é um todo indiferenciado, mas uma totalidade integrada que apresenta núcleos de ordenação e correlação — as instituições. A instituição é uma unidade multidimensional que compr -cende: uma constituição ou código, um grupo humano organizado e um equipamento material manipulado pelo grupo na realização de suas atividades. (Capas de obras de Malinows E
Após sua morte,e entretanto, a viúva, auxiliada por amigos e discípulos de Malinowski, empreendeu a publicação dos manuscritos que ele havia deixado. Em 1944 aparece 4 Scientific Theory of Culture — and other essays, com refácio da Huntington Cairns que preparou o manuscrito para publicação.
Esse trabalho consiste numa tentativa de conciliar e integrar a abordagem ba- seada na análise das instituições com a concepção instrumental da cultura; nele Malinowski elabora a teoria das necessi- dades básicas e dos imperativos cultu- rais. Apesar de incompleto e contraditó- rio, O livro teve grande aceitação, sendo traduzido para inúmeras línguas.
Em 1945 é publicado The Dynamics of Culture Change, ednado por Phyllis M. Kaberry e uma de suas obras mais discutíveis — que incorpora trabalhos que publicara anteriormente e as discus- sões que promovera durante os seminá-
rios que conduziu em Yale em 1941. Tal como é apresentada nesse trabalho, a análise da transformação cultural as- sume a forma extremamente rígida de relações entre instituições de três reali- dades ou culturas distintas: a do coloni- zador, a tribal e a nova cultura que emerge da interação entre as duas.
No conjunto, essas duas obras póstu-
mas, apesar de sua ampla divulgação e aceitação, guardam um caráter de im- provisação e estão cheias de generaliza- ções apressadas e de contradições. Mui- tas das críticas dirigidas a Malinowski e à fragilidade de sua teoria da cultura baseiam-se exatamente nesses traba- lhos, que se prestam facilmente à crítica e, com isso, obscurecem o alcance da sua contribuição à antropologia moderna e às ciências humanas em geral. ; Muito discutível foi também a utili- dade ou o interesse da publicação, em 1967, da tradução de seu diário intimo
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Harcourt. Brace & World, Inc.
OS PENSADORES
— redigido em polonês durante o traba- lho de campo nas ilhas Trobriand — e que Malinowski certamente jamais pre- tendeu publicar. De pouco valor cienti- fico ou literário, demonstra apenas sua constante preocupação com a saúde (aliás, não sem motivo) e as frequentes crises de angústia, mal humor e hostili-
dade para com os nativos que acometem, mevitavelmente, todo pesquisador de campo na situação de ab seRtaças parti- cipante” preconizada por Malinowski.
Na verdade, o significado e a profun- didade da obra de Malinowski estão con- tidas, com toda sua riqueza, nas monografias etnográficas.
1858 — Franz Boas nasce em Minden, Alemanha.
1881 — Radcliffe-Brown nasce em Birmingham, In- glaterra.
1883/84 — Boas realiza ob- servações entre os esquimós.
1884 — Nasce Bronislaw Malinowski em Cracóvia, Polônia.
1906/08 | — | Radcliffe-
Brown faz pesquisas entre os andamaneses.
1910 — Malinowski é ad- mitido na London School of Economics.
1911 — Boas publica Chan- ges in Bodily Form of Des- cendents of Immigrantes. 1913 — Publicação de As formas elementares da vida religiosa, de Durkheim:
CRONOLOGIA
Totem e Tabu, de Freud; e de A família entre os abori- gines australianos, de Mali- nowski.
1922 — Malinowski pu- blica Argonautas do Pacífico Ocidental; publica- ção de The Andaman Islan- ders, de Radcliffe-Brown.
1925 — Malinowski pu- blica Magic, Science and Religion.
1926 — Publica o verbete Antropologia, na Enciclopé- dia Britânica, e as obras Crime and Custom in Sa- vage Society e Myth in Primitive Psychology. 1927 — Publica Sex and Repression in Savage So- ciety.
1929 — Publica The Se-
BIBLIOGRAFIA
xual Life of Savages in North-Western Melanesia.
1930 — Radcliffe-Brown publica The Social Organi- zation of Australian Tribes.
1932 — Malinowski pu- blica The Sexual Life of Sa- vages.
1935 — Publica Coral
Gardens and Their Magic. 1942 — Morre Malino wski. Morre Franz Boas.
1944 — Publicação de A Scientific Theory of Culture. 1945 — Publicação de The
Dynamics of Culture Change. 1947 — Publicação de
Freedom and Civilization. 1948 — Publicação de Ma- gic, Science and Religion and Other Essays.
DurHAM, E. R.: 4 Reconstituição da Realidade. Um estudo sobre a obra etnográfica de Bronislaw Malinowski. Tese de Livre-Docência apresentada ao Departamento de Ciências Sociais da F. F. L.e C. H. da U.S.P. Edição Mimeografada. S. Paulo, 1973.
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OS PENSADORES
o economista Otto Neurath
(1882-1945) e o fisico Philip Frank começaram a reunir-se informal- mente, em Viena, para discutir proble- mas de filosofia da ciência. O intuito fundamental era o de conciliar uma con- cepção essencialmente empirista da ciên- cia, sob influência das doutrinas de Ernst Mach (1838-1916), e o reconheci- mento da importância inegável da lógi- ca, matemática e física teórica na cons- trução de teorias. Esse projeto, inicialmente vago, antecipava contudo o que seria uma das principais preocupa- ções filosóficas do Circulo de Viena, grupo de filósofos e cientistas preocu- pados com a filosofia da ciência, consti- tuído a partir daquele núcleo inicial, sob a orientação intelectual do filósofo ale- mão Moritz Schlick.
Schlick nasceu em Berlim em 1882. Após quatro anos de estudo de fisica na Universidade de Berlim, sob a orienta- ção de Max Planck (1858-1947), apre- sentou em 1904, uma dissertação sobre a reflexão da luz em meios não homogê- neos, que lhe valeu o título de doutor. Interessado em filosofia e descontente com as correntes de inspiração neokan- tiana e fenomenológica, então dominan- tes no cenário filosófico alemão, Schlick começou a refletir sobre o que é o conhe- cimento científico e por que a filosofia tradicional não constituiu um corpo de conhecimentos admissíveis. Essas refle- xões orientaram boa parte de suas ativi- dades no período de 1911 a 1917, resul- tando na publicação, em 1918, de uma Teoria Geral do Conhecimento. Entre- tanto, já em uma obra dedicada a ques- tões de física, Espaço e Tempo na Física Presente, Schlick voltava-se contra a tese kantiana de que as leis relativas ao espaço e tempo são ao mesmo tempo sintéticas e a priori, referentes ao domi- nio da experiência mas não deriváveis de nenhuma experiência. Essa crítica da noção de proposição sintética a priori prenunciava um dos temas dominantes de seu pensamento posterior, a ponto de Schlick afirmar que as doutrinas do Cir-
E m 1907 o matemático Hans Hahn,
Na página anterior: retrato do filósofo e professor austríaco Karl Popper (Associated Press).
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culo de Viena poderiam resumir-se a um empirismo que nega a possibilidade de Juízos sintéticos a priori. E foi feita sob influência do convencionalismo de Poin- caré (1854-1912), que afirmava que as leis mais gerais da natureza, como as leis gerais do espaço e do tempo, não são deriváveis da experiência nem verdades lógicas, mas convenções usadas na siste- matização dos dados empíricos.
Na Teoria Geral do Conhecimento a crítica de Schlick ultrapassa os limites da física, generalizando-se em termos da noção geral de conhecimento. Exami- nando todas as espécies de proposições a que Kant (1724-1804) conferira caráter sintético a priori, Schlick concluia que cada uma delas poderia ser precisamente formulada, ou como uma verdade logica- mente necessária, e portanto analítica e não sintética, ou como dotada de con- teúdo empírico determinante de seu valor de verdade, e portanto a posteriori e não a priori. Proposições admitidas por convenção não deveriam ser encara- das como leis em sentido próprio, mas como regras de organização dos dados empíricos. Todo conhecimento indepen- dente de quaisquer fatos particulares seria simplesmente lógico e todo conhe- cimento fatual seria simplesmente empi- rico, não restando lugar algum para um conhecimento fatual a priori, projeto que Schlick descobriu na essência da filoso- fia tradicional. Se a metafísica, alvo principal de suas objeções, mantém uma aparência de relevância teórica, é por- que, diz Schlick, a linguagem garante a possibilidade de usos não científicos de suas expressões, nem sempre nitida- mente distintos dos usos propriamente científicos. Proposições científicas se- riam as univocamente verdadeiras ou falsas, opondo-se, por exemplo, a propo- sições que aparecem em um texto poeti- co, para as quais não se colocaria a questão da verdade. As regras da gramá- tica não seriam, pois, suficientes para se fazer distinção entre, de um lado, se- quências de expressões que constituem proposições científicas e, de outro, se- quências despidas de relevância para o conhecimento. Seria necessário comple- tar a gramática, acrescentando-lhe um inventário de regras lógicas, capazes de determinar com rigor os limites do con-
FASBRI
SCHLICK
Viena, capital da Áustria, foi sede de uma das mais importantes orientações do pensamento filosófico do século XX. Ali, formou-se o chamado “Círculo de
Viena”, do qual participaram inúmeros filósofos e cientistas,
reocupados,
sobretudo, com a análise da estrutura da linguagem científica. (Viena: edifício do Parlamento Austríaco, obra do arquiteto Th. Edward Hansen.)
Junto de proposições cientificamente re-
levantes. Schlick concebia a natureza dessas regras a partir da idéia de que todo conhecimento é descrição de rela- ções entre elementos dados empirica- mente, sendo ilusório o projeto de conhe- cer o conteúdo dos fenômenos. Esse conteúdo seria acessivel não teorica- mente, mas por meio de uma experiência intuitiva e emocional. A pretensão meta- fisica de conhecer o conteúdo, a essência das coisas reais, envolveria, pois, uma contradição. Para Schlick, a grande parte das teses que compõem sistemas metafísicos seriam simplesmente propo- sições sem significado de conhecimento, sequências de expressões construídas em desacordo com as regras lógicas da lin- guagem, e, portanto, nem verdadeiras
nem falsas, mas, do ponto de vista do conhecimento, não significativas. A apa- rência de cientificidade de que elas se revestem, diz Schlick, exprimiria tanto a inadequação da gramática como critério para a edificação da linguagem da ciên- cia, quanto a possibilidade de conferir à metafísica um significado emotivo, aná- logo ao que cabe ao discurso poético. Nessa primeira fase do pensamento de Schlick, estão presentes muitos dos pon- tos que caracterizarão mais tarde as doutrinas do Circulo de Viena. Em pri- meiro lugar, a convicção de que a lógica, a matemática e as ciências empíricas esgotam o domínio do conhecimento pos- sivel, salientando-se a estreita relação entre matemática e lógica enquanto for- mas de conhecimento analítico, sem con-
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OS PENSADORES
teúdo fatual. Nesse sentido, Schlick par- tilhava da convicção de Mach, segundo a qual, todo conhecimento deve poder reduzir-se, em última análise, à descri- ção da experiência, descrição que, entre- tanto, requer instrumentos analíticos, investigados pela lógica e pela matemá- tica. Outro ponto que, posteriormente, ressurgiria no Círculo de Viena, diz res- peito ao estatuto da filosofia. Mais do
ue um projeto fracassado, Schlick ten- dia a encontrar na filosofia tradicional um projeto impossível, e, nos sistemas metafisicos, mais do que teses falsas, teses sem sentido. A esse Re porém, a primeira posição de Sch ick é ainda mais amena que a assumida em
Viena, alguns anos depois. Ela não .
implica ainda na recusa em conceder à filosofia qualquer relevância teórica, mas apenas na recusa em concedê-la nas condições requeridas pela filosofia tradi- cional. Schlick reconhece que algumas uestões filosóficas são de natureza atual, e, nessa medida, admitem solução satisfatória, a partir de uma análise dos resultados das ciências empíricas. Uma dessas questões exprime-se na contro- vérsia entre realismo e idealismo. Segun- do Schlick, a atitude cartesiana diante desse problema conduz necessariamente ao idealismo, se for coerentemente man- tida. De fato, se para encontrar-se um conhecimento absolutamente verdadeiro da realidade é necessário, de início, duvidar metodologicamente de tudo que aparentemente contenha algo de proble- mático, nada mais restará além de dados imediatos da experiência, a partir dos uais nenhuma realidade pode ser inferi- dE Nada autoriza, porém, a exigência de que conhecimentos adequados à su- posta realidade devam mostrar-se como tais, de modo imediato. A realidade de um conhecimento, pelo contrário, mos- tra-se apenas no final de uma investiga- ção, como o resultado de uma reflexão crítica. Responder à questão “O que é real?” consiste apenas em examinar criticamente o conjunto de proposições científicas, excluindo dele toda proposi- ção que se possa demonstrar falsa. O conjunto de proposições que resistirem ao exame exprimirá a realidade como ela é, não havendo nenhuma razão para não identificar os objetos de que tratam
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tais proposições com as coisas reais em si mesmas. Essa posição, que consiste em admitir que o real pode ser conhecido em si mesmo, não de inicio, mas como o resíduo de uma depuração critica, rece- beu de Schlick o nome de realismo criti- co. A questão filosófica de saber se algo é real admite resposta derivada da res- posta que se dê à questão científica de saber se as hipóteses acerca de fenôme- nos PR podem resistir a tentativas de refutação empírica.
Empirismo lógico
Em 1922, Schlick aceitou o convite para ocupar a cadeira de filosofia das ciências indutivas, na Universidade de Viena. Rapidamente reuniu um grupo de filósofos e cientistas, ligados pelo inte- resse comum por certos tipos E: proble- mas, bem como pela atitude francamente empirista assumida diante dos mesmos. Faziam parte do grupo inicial Neurath, Frank, Hahn, Herbert Feigl, Friedrich Waismann, Kurt Gódel, Karl Menger (1840-1921), Victor Kraft, entre outros. Concordando com o empirismo clássico, quanto ao caráter empírico de todo conhecimento fatual, os membros do Cir- culo de Viena, contudo, julgavam insa- tisfatória a concepção da matemática e da lógica como sistemas de proposições muito gerais, estabelecidas indutiva- mente a partir de fatos empíricos parti- culares. O progresso das duas ciências no início do século e o alargamento de seus limites, com o desenvolvimento da teoria dos conjuntos, pareciam obrigar os novos empiristas a encontrar outra maneira de fundamentar a cientificidade do domínio lógico-matemático.
Dentro desse panorama crítico, foi decisivo para os membros do Círculo de Viena a leitura empirista que fizeram do Tractatus Logico-Philosophicus de Witt-
enstein (1889-1951), uma das mais Importantes tentativas de extrair conse- quências filosóficas da nova lógica, publicado em 1921. Para Wittgenstein, o mundo é um conjunto de fatos simples, fatos atômicos, e o estado atual do mundo determina-se pelo conjunto de fatos atômicos que tamento ocor- rem, com a exclusão daqueles que não ocorrem. Assim, segundo Wittgenstein,
SCHLICK
FABBRI
tm 1928, o Círculo de ct idas a Sociedade Ernst Mach, com a finalidade de “divulgar e desenvolver uma perspectiva científica” e “criar os instrumentos intelectuais do empirismo moderno”. O nome foi escolhido para homenagear o filósofo do século XIX que teve decisiva influência na formação das primeiras idéias do grupo. (Foto de Mach; Archiv Gerstenberg, Frankfurt.)
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FABBRI
A teoria da relatividade, formulada por Albert Einstein, desempenhou papel relevante na constituição do pensamento do Círculo de Viena. A noção E “construção lógica do mundo”, elaborada por Carnap e que considera o universo como um conjunto de pontos-instante, utiliza a concepção einsteiniana de espaço-tempo. (Foto de Einstein em 1903; Biblioteca Politécnica, Zurique.)
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SCHLICK
toda proposição é significativa, fornece alguma informação acerca do estado atual do mundo, na medida em que afir- me a ocorrência de certos fatos atômicos e exclua a ocorrência de outros. O valor de verdade de uma proposição deve, pois, poder ser determinado a partir do conhecimento da ocorrência, ou não- ocorrência, dos fatos atômicos