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os THEATEOS DE LISBOA

Tvpojirapilia Editora Praça de I). Pedro (j7

JÚLIO CÉSAR MACHADO

OS

THEATROS

DE

LISBOA

ILLUSTRAÇÕES DE

BORDALLO PINHEIRO

O^

LISBOA

LIV. EDITORA DE MATTOS MOREIRA &

C8, Praça de D. Pedro, G8 1874

PN .

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AO DR.

THOMAZ DE CARVALHO

(L^^á^iue /end émo omea ammo^

o meu meâúe^ e o meu eomM^n/ieih, e/emeo eé/e úhto

.^ ^ ^ ...^.. ^^..y.^....^...^

balha áo ar livre,

<:rve de in- verno, como os capotes.

Em se espa- lhando por to- dos os lados a melancolia do inverno, ahi a- bre elle! de noite não se tra- ja vem cedo as horas pa-

os THEATROS DE LISBOA

ra o serão. E' ainda tempo de fructa, mas é tempo de névoa.

Vão-se encarquilhando as folhas das arvores ; não cantam os pássaros; adormecem as bor- boletas; esfriam as noites, compridas como os dias; vê-se entristecer a terra por sentir o que perde, ou de avistar longe de mais a prima- vera.

Ainda as flores estão bonitas, mas não teem aroma.

E' a hora.

Abre elle as portas, so- berbo, ■ magnifico, e ao mesmo tempo sem cere- monia.

E' o theatro da corte, mas pode, quem quizer, ir .^, vestido para alli como pa- *t ra o quintal.

Bom edifício.

Sala magnifica.

Artistas que toem, entre outras, uma prenda muito agradável para quem não é empresário, serem caríssimos.

Nos camarotes, nas platéas, tudo gente co nhecida.

S. CARLOS

Sócrates, pae da philosophia, nunca sahia de Athenas. Nós, que não somos menos sábios que elle, basta sermos todos conselheiros —não sa- himos nunca de Lisboa, e por isso todos aqui nos conhecemos e saudamos:

Sr. conselheiro!

Garo conselheiro !

Caríssimo conselheiro, e amigo!

Adeus para um lado, adeus para o outro.

A familia portugueza.

Toda a nossa gente; parentes, visinhos, e

amigos.

População fluctuante?

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os THEATROS DE LISBOA

Dois brazileiros e um inglez.

Muitas senhoras na platéa, caladas, mais caiadas do que nós, apesar de costumar- mos armar-lhe reputação de falladoras. Em- quanto os liomens grulliam, cavaqueiam, canta- rolam, interrompem como se fossem deputa- dosr. . . e estivessem na camará, estão quieti- nhas as senhoras, vendo e ouvindo, sem terem de se sujeitar ao preceito estabellecido para as senhoras nos outros paizes ... de fallarem quatro ao mesmo tempo.

Em S. Carlos não ha surprezas. Sabe-se de cór as operas ... e os camarotes.

Sabe-se (juc hão de ver-se certas pessoas do

S. CARLOS

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lado direito, certas outras do lado esquerdo, o nosso amigo fulano ao fundo.

Sabe-se que no segundo intervallo o sr. Si- crano faz uma visita ás senhoras Taes, e que a menina Esta vae no segundo acto para o cama- rote das suas amigas Est'outras.

Sabe-se quem é que não vae alli aos domin-

gos.

Quem tem uma prima doente

Quem está de vestido novo.

Sabe-se tudo. Nada nos apanha de surpreza, e é muito bom assim. As surprezas não pres- tam. Todos nós o sabemos, e cada um á sua custa. Chegar por exemplo quando não se é es- perado— mesmo sem ser marido é máu; vae

12 os THEATROS DE LISBOA

uma pessoa gosando -antecipadamente da ale- gria que julga causar por apparecer de súbito, e por fim o pasmo em que os outros ficam tolhe um pouco o acolhimento que lhe fazem. O pra- zer da surpreza não passa de ficção. Prazeres esperados, prazeres a que a gente viva habi- tuado são os únicos de que se gosa completa e agradavelmente basta havel-os precedido a es- perança e o desejo, temperos por excellencia de todos QS gosos.

Nos theatros de declamação vivem sujeitas as peças á moda caprichosa e fugitiva. Tal assum- pto que deu no goto a toda a gente em certa épocha, não se supporta n'outras . . .

é condão da musica escapar a esta lei.

Porque?

Porque ha nas operas o que raras vezes se encontra nas peças declamadas idealidade, poe- sia.

Nos dramas e nas comedias chamam-se os personagens : Moita

Vasconcellos Gaudêncio Ramos . . .

Nas operas chamam-se:

Ernani

Tancredo

S. CARLOS

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Genaro Polion . . . Nomes de cheiro!

A prosa, que invade tudo, não poude inva- dir por emquanto aquelle palco.

Dizem-nos as primas-donnas e os tenores em descantes admiráveis de brilhantismo e de pai- xão o que é o amor, a ira, o ciúme, a dor.

Não entra n'aquelle tablado das lendas, nem o frack nem o paletot.

Nunca alli se viu um personagem de chapéu de chuva!

E' a capa de D. João, os fatos de seda e de velludo, tudo bordado de cores; grandes espa- das e grandes plumas!

Os personagens

são : Imperadores Pagens

Generaes roma- nos Damas nobres Principes Cavalheiros Trovadores Reis!

Nas primeiras recitas de cada épocha, a maior parte do pubUco está no caso de um homem

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os THEATROS DE LISBOA

que queria ser grande figurão, mas, por não sa- ber muito (los usos da sociedade, tomara um criado que sempre havia andado em casas gran- des, e dera-lhe ordem de coçar o nariz disfar- çadamente, discretamente, para o avisar logo que visse que o amo, como diz o outro, ia dar raia. Dizia por exemplo o homem, estando mesa, á hora do café, a uma senhora que lhe ficara ao lado : ' Vae um caxarolete, minha senhora?

^v;-^

E o criado principiava a coçar o nariz, de forma que o sujeito ficava de braços erguidos e garrafas no ar sem se atrever a pôl-as outra vez na mesa, nem a deitnr no copo os licores vários que compõem aijuella bebida nâo direi de guerra . . . mas de bernarda.

CARLOS

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Assim tamboni tudo vae na recita de aber- tura, para alguns, de haver outro que entenda da obra, ou passe por isso, que seja auctori- dade na platéa - . . . e que coce o nariz.

Se não lhes dâo signal a tempo de que tudo vae bem, dâo pateada!

Dão pateada logo; é sabido; e não faz mal; entretém.

Os tenores, de ordinário, no primeiri3 anno em que põem o em Lisboa, pagam a patente. E' aguentar! Que remédio!? Assim tem sido sempre, assim será em quanto houver S. Car- los. E' da profissão dos tenores levarem duas tacadas, ou três, em Lisboa, logo que abrem a bocca. Não sei até se lhes põem isso na es- criptura. O que vale é que estamos por pouco alivrar-nos d'elles; es- tão todos estropiados e a morrer. Destroço geral. Uns de cama to- do o dia, a gemer, le- vantando-se á noite pa- ra cantar, outros ali- mentando bronchites pavorosas. Por ambos os pulmões não ha nenhum que respi- re — a não ser o que nunca se queixou, nem os jornaes o deram com asthma, signal de que resiste e se conserva óptimo.

Bruni

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os THEATROS DE LISBOA

O publico respeitou-o sempre. Atravez das tormentas theatraes, por entre as agitações e os cataclismos das platéas turbulentas, este tenor es- capou sempre incólume da fúria e do rigor dos pú- blicos.

Lisboa tem-o applau- dido desde que elle tem uso de rasão ; na infân- cia, na adolescência, na edade adulta e agora ainda, todos os annos, pe- lo entrudo, sempre que ha Barbeiro de Sevilha e que elle na parte do sargento merece os sufTragios pelo garbo com que inter- preta a musica e o per-

sonagem.

De uma occasiâo, sen- do elle desde annos im- mèmoriaes encarregado do papel triumphantc do noi- vo na Líícia de La- mermoor aquelle noi- vo que apparece de re- pente no segundo ac- to como um cogumello, e vae todo lépido de calça

S. CARLOS

17

com rendas a empalmar a noiva ao pobre sire de tlavenshow: tiraram-lhe esta parte, e passaram- 0 a simples guarda de Ravenshow, guarda do seu antigo rival; ó opprobrio!

Bruni pareceu sentir-se

d'isto, e eu molhei a penna

nas mais puras lagrimas e

commemorei num folhetim

este desaire. A' noite, encon-

trei-o no corredor do theatro,

e, apesar de eu não ter n'esse

tempo o prazer de gozar as

suas relações, vi-o atravessar

para mim, entreabrindo-se

seus lábios 'para despedirem

algumas phrases.

Mau! pensei eu. Temos obra. Vem pedir-

me explicações, uma satisfação como a gente

diz. Vou ter uma brunice !

A este tempo, elle interpellava-me : —Sr. Machado? A's suas ordens. E' o sr. Machado, escriptor? Faço por isso.

Tenho duas palavras a dizer-lhe. E puxou-me para um canto. Agora é que vamos esbrunar-nosi disse eu entre mim.

Uma vez ao canto, elle, chegando-se bem a

18 os THEATROS DE LISBOA

mim, e pegando-me n'um botão da casaca, ex- pressou-se pelo seguinte theor :

Querem tirar-me também o tabellião da Somnambula ! . . .

—Ah!

Queria outro folhetim!...

Inventor, philosopho, commerciante e sem- pre mais ou menos tenor, o que nâo quer dizer tenor de pouco mais ou menos Bruni tem es- maltado a sua carreira de ephemerides curiosas, e percorrido com facilidade igual áquella com que seu garganteado percorreu sempre a gamma toda a vasta escala das tentativas e ambições hu- manas. Por isso sentem-se de algum modo uns poucos de Brunis lia longa serie de anecdotas, em que prima a existência d'este cantor da Itália, que chega a parecer notavelmente cantor portu- guez, não direi na pronuncia . . . mas na voz.

Pouco depois de haver chegado a Lisboa, e dando-se em S. Carlos a Gazza ladra, Bruni lembrou com instancia á empreza que era justo darem-lhe a parte do judeu n'esta borleta deU- ciosa do velho papá Rossini.

Porque ó justo? perguntou-lhe Vicente Gor- radini.

Porque sim.

Por((ue sim, não è razão. Se tens resposta que o seja dize.

E' justo dar-se-me o judeu, porque fui eu que o creei.

S. CARLOS 19

Creaste o judeu?

Creei, sim senhor.

Onde diabo creaste tu o judeu?

Em Itália, per Bacho !

Mas a Gazza ladra é mais velha que tu !

Não é tal.

E', não é; discussão, altercação, brinca- deira.

Tudo fica em bem, acredita-se na sua palavra honrada, e dá-se-lhe o judeu.

E' teu o judeu.

Obrigado !

Vamos a ver o que fazes d'elle.

Um phenomeno.

Fel-o, judeu e phenomeno.

A rapaziada da geral de S. Carlos, quen'es- ses tempos era a flor da elegância, da bravura, e da extravagância alegre D. Álvaro, Luiz For- jaz, Manuel Browne, José Vaz de Carvalho, An- tónio Shalback, Lima da Cardiga fez-lhe um triumfo, applaudiu, gritou, pediu bis, e viva e viva !

Fechou o theatro no fim da estação sobre uma ovação d'esta rumorosa qualidade, e, quando che- gou a nova epocha, querendo dar-se a Gazza la- dra, dirigiu-se Bruni aos emprezarios:

20 os THEATROS DE LISBOA

Senhores emprezarios ...

Dirá.

Tenho a fazer uma reclamação á empreza.

Qualé?

Peço um fato novo.

Gomo, um fato novo ?

Um fato novo para o judeu da Pega.

Pois o do anno passado te não serve?

Serve; mas não é próprio. Tive grande triumpho com este papel e, além d'isso, para a verosimilhança da acção é necessária esta des- peza; os judeus são muito agenciadores, e é útil fazer perceber ao publico que este judeu em quanto o theatro esteve fechado continuou sem- pre a locupletar-se e está melhor de fortuna do que estava no anno passado.

Não havia resistir a razoes tão solidas. Deu- se-lhe o fato novo!

Hoje, na terçara secção, acha-se reforma- do em corista, mas apparece de vez em quando.

E' económico, morigerado, paciente, e labo- rioso.

Uniu-se pelos laços do matrimonio a uma das melhores engommadeiras de Lisboa. Tem um quintalinho ; cria gallinhas, rega alfaces de

S. CARLOS

âi

procedeu - cia varia, e faz massa de toma- te.

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É finita /,>% la musica! s 1^ '

Quantas ^0/%

glorias ar- ^i/ ^;

tisticasco- ^í^fc'

nheceu el- f^,\

leeacom- Hw

panhou !

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A quan- tos Almavivas fez elle a continência, n'aqiiella incessante romaria de celebridades em que o theatro de S. Carlos tem vivido sempre!

O Baldanza, o Mira- glia, o Volpini, o SavíK, o Mirate, o Fraschini, o Mongini, o Nicolini . . .

E agora, massa de to- mate!. . .

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os THEATROS DE LISBOA

Ah! S. Carlos é O thea- tro das tradições e das memorias. Quantas legen- das naquellas taboas, n'aquelles logares de pla- tea, n'aquelles camaro- tes, e, principalmente, n'aquelles camarins . . .

As velhas costureiras, de que a mais famosa morreu ha um anno, a il- lustre

gorda, obesa, suflbcada em banhas e em rapé, creatura sem feitio que dava feitio a todas, figu- ra sem sexo e sem edade que tinha o dom de tornar elagante qualquer ;}nma-rfowna em fazen- do gosto n'isso : as velhas costureiras teem na lembrança os fastos d'aquelles camarins glorio- sos.. .

Aqui, dizem ellas, n'este camarim, esteve a famosa Novello, e depois a Castcllan, e a Te- desco, e a Volpini, e a infeliz Pascal-Damiani que quebrou uma perna uma noite e nunca mais se levantou da cama senão para se tratar de um ataque de loucura, e a Giovanoni, e a Fricci, e

S. CARLOS

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a grande Alboni,

a cantora por excellencia, a priveligiada, a maravilha, que o Ruas nos trouxe.

Um prodígio !

A voz mais argentina e fresca! Uma voz de rapaz a pairar com uma voz de rapariga. . . na mesma guela!. . .

A grande, a gorda, a rara Alboni ! . . .

N'aquelle, esteve a Pareppa e a Bian- chi, e a Uberti, e a Dorr, e a Lablache, e a

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os THEATROS DE LISBOA

Lotli...

A força suave! O poder fácil!

A delicadesa vigorosa!

Nem fadiga nunca, nem esforço.

Um pouco fria, diziam; mas tão elegante e tão formosa! Qual fria! Não seria um brazeiro, esta- mos d'accordo; mas não seriam talvez os frialões os que mais se queixavam da frieza d*ella? Os la- drões, por via de regra, são quem mais gosta de gritar «Aqui d'El-rey!»

N'a((uelle, o segundo do lado da escada, esti- veram a Gazzaniga, e a Bendacci, e a Massini, e a

S. CARLOS

25

I

Carlota Marchisio, voz de soprano purissima, a Norma das feias.

Quando ella appareceu em Lisboa com sua irmã Barbara, houve um quarto de hora de surpreza.

Pareciam. . . dois homens! Dois homens feios!

Dois homens feios, vestidos de mulher! . . .

Mas a voz era tão agradável ao ouvido, que . . . fazia fechar os olhos.

Permittiu-se-lhe, á famosa Carlota, uma das maiores temeridades, sem pestanejar de pasmo. Uma noite, na Soinnambíila, quando menos se esperava, appareceu de loira!

Este povo é piuito hospitaleiro! ...

20

os THEATROS DE LISBOA

e a Borghi-Mamo

—a voz com mais talento e com mais\alma que tem acordado no nosso tempo os eccos de S. Car- los. . .

E estremecem as velhas cos- t ireiras, como se avistassem ao longe as sombras da gloria na névoa do passado e na poeira ^ dos camarins. ♦iss^^

Ha artistas que nunca mais esquecem.

n

S. CARLOS

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Uns, pelo sublime.

Mongini, por exemplo.

Mongini que teve entre nós todas as glorias; primeiro as do amor, e no fim, por um momen- to, as do ódio.

Nas recitas finaes da ultima estação que fez em Lisboa, Mongini recusou-se a cantar, por- que a ameaça publica rugia por ahi contra elle.

28 os THEATROS DE LISBOA

accusando-0 de pouco amável para com Portu- gal, por não haver querido cantar a opera dum portuguez O Arco de Santa Anna, de Fran- cisco Sá Noronha. O grande tenor partiu de Lis- boa como que dando a entender que não torna- ríamos a ouvir aquella voz deliciosa, cuja limpi- dez nocturna fazia sonhar com o luar, a banhar- se no orvalho que cae em pérolas sobre as flo- res! Tantas festas, tanto applauso, tantos trium- phos, tanto phrenesi de enthusiasmo, ahi está no que deu tudo isso num capricho! Tudo se quebra n'este mundo; é essa uma das me- lancholias mais profundas da existência huma- na. Por maior génio, esplendor, mocidade e glo- ria, que tenha um homem, chega a hora em os mesmos que o proclamavam inimitável teem gosto em o amargurar. Talvez assim deva ser, para que todos tenham o seu dia; e toque a ca- da um passar por baixo da luz que brilha, co- mo a onda pelo rastilho do luar antes de ir per- der-se na immensidade escura...

Mongini tinha gosto pela poesia ; era grande amador das lettras, cultivava-as como recreio, c estimava muito os (jue se distinguem com talen- to fazendo prolissão d'eUas. Na manha do dia cm que partiu, fez estes versos aos seus amigos de Lisboa:

S. CARLOS 29

Acldio agli amici

In mezzo a voi da gelide contrade

Men venni, or son sei anni sconosciuto;

Tali mi deste prove di bondate

Ghe ringragiai il Ciei d'esser venuto.

Ognor crescente si fu in voi TaíTetto

Giammai conobbi il duol glammai i'afFanno; Voti formai d'amor, per voi nel petto Che per andar di tempo non moranno.

Le Auguste Maestá pien di clemenza Mi vollero onorar con distinzione, Eterna serberó riconoscenza, Ossequio, servitu e devozionc.

Amici addio, giiinto é omai 1'istantc Ne so ove" mi chiama il mio destino ; Che Tartista, per sua vita errante Un limite non ha nel suo cammino.

Ma se varcassi TOceano intero,

Questa terra per me sacra, un sospiro S'avrebbe dei mio cor, che dal pensiero Imille aíTetti suoi non si svaniro.

Se spietata una nube di dolore

Volle oíTuscar tant'anni di contento, L'abblio la sperda, per quel tanto amora Di voi in mezzo a cui grande mi sento !

Amici miei, anche una volta addio!

Suir ali dei pensier, vi giunga ardente Dai patrii lidi il saluto mio II saluto deir uom riconoscente.

Querido artista! Nâo consentiu a morte que elle voltasse a Portugal e que o publico lhe tor- nasse bem sensivel que aquelle momento de ódio á despedida ainda havia sido também, de algum modo, amor!

Lisboa, que tem memoria rebelde e que ás ve- zes leva quinze annos a aprender um nome de que depois se esquece em seis mezes, tem retido es-

os THEATROS DE LISBOA

tas tres syllabas que durante seis annos tantas vezes soaram entre nós Mongini. O artista pri- vilegiado que á sua chegada a Lisboa soube lu- ctar com todas as reminiscências do publico, vence pelas saudades, que ainda agora todos te- mos d'elle, os tenores que teem vindo depois.

Se uns não esquecem pelo sublime, outros não esquecem . . . pelo ridiculo.

Cuida-se ainda estar vendo a

De Giuli-Borsi, alta, magra, estitica, espalmada, voz larga, boc- ca mais larga ainda bocca phenomenal, que a torndu mais citada do que o talento e do que o canto desde que, uma noite da Traviata, certa família, que assistia á recita do alto de um cama-

S. CARLOS

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rote de terceira nrdem, poude avistar, durante os gorgeios de uma ária, no interior do estômago ádi prima-donna, um perdigoto que ella comera ao jantar!

Entretanto o mais 01'iginal. o mais pantafassu- damente original de quantos artistas teem pisa- do aquelle palco glorioso, foi decerto

'^<f/!/»9Í

BeMeventaiio

// cavaliére de Beneventano I

II barone Beneventano!

Um galantuommo, como se diz em Itália.

Affabilissimo, delicadíssimo, suavíssimo, can-

os THEATROS DE LISBOA

tando como ninguém a musica rossiniana il mio bravo interprete Beneventano! dizia delle Rossini correctíssimo, affectadissimo, e paspa- Ihissimo!

Beneventano era um gentleman emproado, mas era um gentleman.

Cantando, era um artista. Andando, era um nababo. Conversando, era um paladino. Gesticulando, era um acrobata. Vestindo, era uma caricatura. E...

Vestindo, gesticulando, conversando, andan- do, cantando, era sempre um charlatão.

Charlatão de talento, charlatão com mereci- mento, mas charlatão. Ares de Falstaf, com um quê de Prud'homme, outro quê de Don Quixo- te, e um quê também de Roberto Macário.

um chimico poderia bem examinar de que singulares segredos se compunha aquelle maca?>- sar.

Porque era um macassar ! No reclame, na fa- ma, no brilho, na suavidade, no oleoso, na im- portância. . .

« O' sublime macassar I » diz Byron no D, João,

S. CARLOS 33

A guarda roupa d'este dio dei canto era as- sombrosa.

Tinha setenta casacos, e vinte e dois paletós. em colletes novos, renovava o painel das on- ze mil virgens 1

O nosso conhecimento fez-se de um modo cu- rioso. Eu escrevera muitas vezes a seu respeito dando-lhe o louvor de que era digno mas sem a foguetada de elogios a que os artistas vivem habituados na imprensa. Os meus folhetins e n'esse tempo eu estava em campo, e a Re- volução de Setembro era o único jornal que ti- nha revista critica da semana cajfiiram-lhe em graça, e constava-me, ora por um ora por outro, que o divino Beneventano me fazia as melhores ausências.

De uma occasião, intendeu talvez que isso não era bastante, e recorreu a um expediente curioso. Em nos encontrando no Passeio Publi- co, eu sosinho ou com algum amigo, elle com sua mulher, uma ingleza enxertada em italiana, baixinha, branca, brilhante,— e em numerosa companhia ás vezes de artistas ou de diletanti, que se recreavam em fazer com elle a passeg- giata; em nos encontrando, elle dizia para o seu rancho, indicando-me bizarramente á sua illustre comitiva:

34

os TIIEATROS DE LISBOA

]/ nostro sympathico I

Eu fazia-me corado, ficava sem saber se"de- via tirar o chapéu a agradecer, e ia seguindo o meu caminho n'uma vaidosa perturbação.

D'aUi a dois dias, viamo-nos outra vez, e, sem comprimento, sem paragem, sem mais tir'te nem guard'te, Beneventano deixava cair magestaticamente de seus subhmes lábios estas palavras, meu enlevo e minha gloria:

S. CARLOS

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// nostro sympathico!

Eu tinha vinte annos; e, quando elle me dis- parava esta amabilidade á queima-roupa, dei- tava umas olhadelas á mulher, que era lindis- sima, em que se me iam os vinte annos todos.

No dia de um folhetim a propósito da Semi- ramis, o plumoso. . . não, o encasacado can- tor, foi a minha casa. Grande conversação, gran- des shake-hands, e brava, e mille grazzie, e tanto gentile; ficámos com uma amisade de pe- dra e cal.

N'uma tarde húmida d'esse inverno, estando em sua casa e querendo vir para a minha, op- pôz-se elle galhardamente.

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os THEATROS DE LISBOA

Janle comnosco!

Hoje não pôde ser.

Pode, sim.

Não pode, não.

E, quando ia a despedir-me:

—Meu caro sr. Machado, repare que eslá choviscando !

—Não tem duvida.

Vem sem paletó, e eu não consinto que saia d'esse modo! Na minha vasta guarda-roupa, e bem deve saber até que ponto o barão Bene- ventano leva o capricho c a novidade nas toilet- tes! ha mais de um sobretudo, que deva con- vir-lhe.

E, mettendo-me o braço e levando-me pe-

S. CARLOS 37

las casas dentro, o galantuommo ia dizendo: Temos o paletó D'Orsay, assim chamado por haver sido o famoso condo que lhe deu no- meada! E' amplo, ó soberbo, mas tem o forro pesado de mais. Não lhe convém talvez . . . Eu ia fallar.

Temos o elegantissimo brummell, paletó para de dia, tirando o nome do nunca esquecido Georges Bryan Brummell, rival em gloria dos Lausun e dos Grammont. . .

Eu queria dizer uma coisa.

Temos o paletó Galles, o que ha de mais distincto, o sobretudo predilecto do principe Georges iv . . . Casimira branca, botões gran- des de seda, cintura marcada. . . Este é que ha de ser.

E tirava-o do cabide, e vestia-m'o, ao pro- nunciar taes falias.

O paletó era enorme para mim. Dava-me a cintura no sitio em que as costas mudam de nome ...

Um pouco vexado, um pouco indeciso, não tive remédio senão acceitar, e sair."

Na escada despi-o logo, e, com elle no braço, fui para o Chiado. A chuva apertara mais, re- colhi-me na loja de papel do Pereira, onde es-

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os THEATROS DE LISBOA

tavam recolhidos também uns poucos de ho- mens mais ou menos meus conhecidos.

D'alh a pouco, quem ha de passar? Bene- ventano.

Beneventano, que, ao ver-me, entra na loja, e vivamente surprehendido me diz:

Gomo! Sr. Machado! Despiu-o!!!

Para o não estragar! respondi eu balbu- ciando.

^«^«r

Qual estragar!

E elle ahi m'o veste outra vez, diante d'aquella gente toda, que sustinha diflicilmcnte o riso ao ver-me mettido naquella galère!

S. CARLOS

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Beneventano linha por entre os seus ridícu- los, um talento de artisla. Era estapafúrdio, era

^ i^^ f^ en ^t ffr í!^ (?» m m \n <f^^Pt ifím m m m r\ í^.nim

affectado, fazia jogo de attitudes para qualquer coisa, mãos para o ar como quem desafia os ele- mentos; braço esquerdo erguido como quem con- jura; corpo dobrado e mãos para o chão como quem se espoja em caturreira trágica . . . Entre- tanto, o diabo do liomem, poseur ou mo poseur, era um artista. Ninguém lhe era superior no Moysés, na Semiramis, no canto ornado. Um homem profundamente irónico, desde-

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os THEATROS DE LISBOA

nhoso, qae mettia tudo á bulha, e que respei- tava poucas vezes alguém ou alguma coisa, dis- se-me d'elle uma vez:

Não se pode ser tão charlatão de theatro sem fazer do canto o que elle faz, nem se pode fazer tanto em musica sem ser charlatão! E' ine- vitável.

Este homem era

Ooi^polla

O famoso CoppoUa, que durante muitos an- nos regeu a orchestra de S. Carlos, um dos ra- ros de quem pode escrever-se a palavra

Miaostro

sem a penna espirrar . . . nem o nariz do lei-

S. CARLOS 41

tor com o riso, o que nem sempre acontece a respeito de alguns dos maestros que por ahi le- mos quasi sem dar por isso, e cuja existência e prendas os reclamos dos jornaes mais do que suas obras aíTirmam.

Goppola parecia no ultimo tempo sobreviver a si próprio e passeiar por Lisboa a sua indif- ferença e o seu «não se me dá!» como se lhe estivesse ausente a alma.

Entrar na multidão depois de haver sido um nome, e perder- se na turba como se nunca ti- vesse sido nem illustre nem famoso : deixar apa- gar a inspiração no cérebro e a aureola na fronte, passar ao lado de todos, pelo meio de todos, egual a todos : ter sido illustre e querer ser nin- guém— parecia o intento d'este talento desillu- dido da vida e da gloria.

Jamais alguém o desdenhara, nem fora in- justo para com elle; não devia sangrar-llie o coração pela ingratidão do publico, ao ponto de ter de revoltar-se e de protestar; a Sannazáro reverdecera a Nina, a Borghi suspirara-a en- tre applausos. Não houvera affronta; não cum- pria esperar o dia da reparação; a empresa de S. Carlos considerava-o muito; os seus amigos nunca deixaram de se sorrir para elle e de aper- tar-lhe a mão em o encontrando.

O que era então, e de que provinha essa melancholia incurável? Fugira-lhe o talento? Perdera o dom? Não produzia porventura a

42 os THEATROS DE LISBOA

si próprio o effeito que produzia ainda nos ou- tros?

Ha estrellas fixas, cuja luz leva milhares de annos primeiro que chegue até nós, e a que não poderia observar-se daqui o escurecer senão em centenas de séculos. Quem sabe se uma d'es- sas estrellinhas que a gente admira nas noites serenas não haveria sido arrancada do pavilhão celeste pela mão mysteriosa, no dia da creação do nosso globo . . .

Ainda o olhar se deslumbra ao vel-o; mas o pobre astro caído sabe, de si para si, que lhe tiraram a coroa, e vae indo aos tropeções, opaco e triste, para o fundo turvo da humanida- de...

Assim eu cuidei muitas vezes quando o via no theatro, nas ruas, na casa Podestá se suc- cedia encontrarmo-nos á mesa d'essa amável fa- milia assim eu cuidei ao observar o modo va- go e distrahido d'elle, os ares de absorto numa idea, ou de indiíTerente ao deixal-a fugir-lhe, que guardadas as proporções de um sol a uma cabeça, fosse esta a historia do talento de Gop- pola.

Umaoccasião apenas, ao cantar-se em S. Car- los o Stabat Mater, em que uma das Marchisios, a Carlota, tão extraordinária, tão prodigiosa foi ! elle pareceu accordar com aquella musica; de tudo o que escreveu Rossini o mais sublime e

S. CARLOS 43

superior voo do seu génio. Era natural 1 Haviam sido amigos, os dois maestros, vivendo annos em boa intimidade artistica ; o auctor do Barbeiro estimara sempre muito a Nina, preoccupára-se em querer saber como fora que tinha vindo aquel- la idea a Coppola; haviam estado na fama pela mesma época; e, pelo mesmo tempo depois, se haviam calado ; Rossini permanecendo sereno, descuidoso, irónico, no centro d'aquelle pande- monio de Paris, sem querer compor senão al- gum prato rossiniano, elle de quem se fallára tanto como de Napoleão, elle o primeiro dos ar- tistas vivos, deus moderno que se enfastiara das honrarias, da gloria, dos triumphos, rindo-se de tudo menos do prazer da mesa : Coppola, fi- cando em Portugal numa existência nómada, da rua do Alecrim para as Larangeiras, das Laran- geiras para o Farrobo, convivendo com os artis- tas, entretendo as noites no theatro, ou em reu- niões, não escrevendo nunca, não pensando em si, não tolerando quasi que lhe fallassem d'elle!

Hoje está em Catanea director do Conser- vatório. Chamáram-o d'aUi os seus amigos e uma irmã que tinha. A irmã offereceu-lhe a casa e os bens que possue ; Coppola não tinha nada, era um philosopho, gastava o que tinha no jogo e nos amores. A irmã exigiu-lhe como única condição que casasse com a mulher com quem

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os THEATROS DE LISBOA

vivia, e que a levasse para com os filhos. Is- to ia dando com elle em doido.

Casar-me aos sessenta annos ! Que idea 1 Com uma mulher que eu conheço tanto ! . . . Não posso! ...

Sempre poude. Casou, partiu. está para Catanea.

O outro director da orchestra

nUioff

Griíilliermc Oossoiil

dava em applicaçâo, em assiduidade, em atten- ção e cm paciência quanto bastasse por dois. Eram-lhe incumbidas as opei'as diíTiceis, que re- queressem grande numero de ensaios e aquella

S. CARLOS

45

dedicação e perseverança que nâo quer ser paga n'outra moeda senão a gloria de agradar e de vencer.

O publico teve sempre confiança nas operas dirigidas por Gossoul ; e os cantores iam para a scena com esperança e fé, em elle estando de poleiro no meio dos músicos, ou antes por cima d'elles, no seu estrado de honra. Quando se interessava por alguma artista, fazia taes pro-

dígios com a batuta, que a maior parte da gente incapaz de comprehender a paixão da arte jul- gava-o namorado. Foi assim que se espalhou que elle ia casar ora com uma prima-donna, ora com outra, c, em" cada anno lhe attribuiram noi- va, até que a ultima cortou a legenda no me- lhor do boato, a

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os THEATROS DE LISBOA

Oantora Harris

Miss Harris;— para que dizermos «mademoi- selle» sendo ella ingleza? ^^que foi por um anno o acontecimento great attraction. A sua voz e a sua pessoa dominavam egualmente o publico. Cantava com agilidade prodigiosa, c os médicos do theatro andavam muito inquietos para averi- guar se ella tinha a Patti na garganta. Que eda- de? Os calumniadores davam-llie vinte annos. Mas, linha deseseis, creio eu: tinha-os porque os parecia ter. Deseseis annos 1 Os egypcios gosta-

S. CARLOS * 47

vam muito d'este numero, e fizeram d'elle emble- ma de voluptuosidade na sua escripta hierogli- phica: nós apezar de portuguezes e de vivermos debaixo do regimen da Carta Constitucional, mos- trámo-nos n'isso da mesma opinião exactamente dos sacerdotes dlsis, contemporâneos de qual- quer Pharaó mais ou menos Nekau, e saudámos a juventude de miss Harris como quem saúda o sol.

E' muito bom, pois então que pensam? muito bom ter grande agilidade de canto, ser- vir-se de uma voz educadissima como do me- lhor instrumento que possa ouvir-se, não fazer senão difficuldades de professora- e ter den- tes, cabellos, andar sem um pausinho, e poder pôr-se de joelhos em scena sempre que seja ne- cessário, sem virem dois moços ajudal-a a levan- tar.

De ordinário quando as primas donnas che- gam a cantar com esta perfeição podem ainda comparal-as quanto quizerem a rouxinoes, mas fica ao longe a primavera 1

Foi todavia rápido, momentâneo, o triumpho para com esta cantora. No segundo anno nin- guém deu por ella, e fez-se gosto em a desgos- tar do publico. Ella então, dir-se-hia a vendetta corsa voltou as costas ao theatro, mandou cha- mar o rabbino e casou com um cavalheiro israe- lita que costumava ir namoral-a da platéa.

48

os THEATROS DE LISBOA

Guilherme Gossoul nem dava por estas coi-

sas.

Qual 1

Ia regendo a orchestra. Ia ensaiando os cantores. Ia trabalhando. Gravemente. Austeramente.

Diziam esses excellentes italianos, ponderan- do a sua seriedade :

Quanto é de sisudo!

E' um modelo!

Tão moço, e sem se rir!

Depois, fora do theatro, ia sendo bom-

S. CARLOS

'^fe^^^^^lJ^SzS^'"^^^^

beiro, e, ainda mais que bombeiro, bombis- ta!,., isto é, brincalhão, farcista, trocista, cas- soista !

Um Vivier, sem a trompa.

E isto apesar do trabalho, da seriedade, e até da gotta, de que elle nâo soffre pouco.

Ha casos em que. sempre se tem medo d'elle como do diabo, por seus artifícios e male- fícios.

A poder de phantasias e ratices chega a attin- 4

50

os THEATROS DE LISBOA

gir por vezes aos olhos da boa gente proporções

> -iíS$^'"

%.r:^->?*

phantasticas...

Dir-se-hia que tem pés de gancho, e que ex- hala de toda sua pessoa um cheiro de enxofre...

Pode ser a alegria das creanças, mas não é o socego dos pães.

Os menos prudentes, tão depressa o vêem apparecer, tomam desde logo precauções inju- riosas.

Se é no campo e se elle vae estar de hospe- de na mesma casa em que estejamos, tem uma

S. CARLOS

51

pessoa todas as noites de visitar o quarto, abai-

xar-se, ver bem por l^aixo da cama, remecher

t>^

•. 3m-

os moveis, sondar as paredes, tapar o buraco

os THEATROS DE LISBOA

da fechadura, dar Ires voltas á chave e guar-

dal-a segura.

E apesar d'este luxo de precauções ainda se

fica inquieto...

S. CARLOS

o3

Se elle por ahi apparecesse...

Não; não pode ser!

Entretanto está uma pessoa assustada, co- mo Ulysses quando ouviu rebolar o rochedo com que Polyphemo lhe fechou a caverna...

Principiam sempre as hostilidades quando os convivas, munidos cada um com a compe- tente palmatória e vela de stearina, vão tran-

quillamente para os seus quartos.

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os THEATROS DE LISBOA

Cahe de repente em cima d'elles uma chu- va de travesseiros e de almofadinhas, que apa-

ga de repente as luzes.

Pragas de um lado, risota do outro, se accende a luz outra vez; e cada um, instruído pela experiência, vae de degrau em degrau abrigando a chamma com mão protectora...

Em se estando deitado, misericórdia divina! recomeçam as estrepolias com uma insistência

S. CARLOS 55

de que não ha precedente na historia dos povos.

O armário dos irmãos Davenport era menos comphcado do que as peças que prega a todos este gaiato mor do paiz.

Desgraçado de quem não tiver cautella com elle. Está perdido.

De varias occasiões, nas Caldas da Rainha, onde elle se achava a fingir que tratava da sua gotta impertinente, fez coisas incriveis a homens pacificos, incapazes de suspeitarem que elle ar- masse laços de tal ordem á sua inexperiência.

Uns ficavam sem sopa, outros ao recolher do Club encontravam -se sem a chave do trinco, e tinham de arrombar a porta, ou de ir pedir, á uma hora da noite, uma escada para trepar e entrarem pela janella...

No meio de uma noitada de folia e de risota,

quando o nosso commum amigo P... que o ha-

56

os THEATROS DE LISBOA

via acompanhado áquella excellenle villa para Iralar de uns padecimentos rheumaticos que ás vezes o entreteem menos agradavelmente do que poderia ser, ia deitar- se, promettendo a si pró- prio dormir emfim umas poucas de horas soce- gado, o nosso homem metteu-lhe um castiçal nas mãos, e disse-lhe com expressões cortezes, porém mahciosas, que lhe desejava uma feliz noite acompanhada de sonhos suaves e propi- cies...

Levou a soUicitude a um ponto, que se tor- naria suspeito a um espirito de menos lealdade

e boa do que o do nosso amigo P.

Elle nâo, achou tudo naturalissimo, e a sua extrema confiança o perdeu. Despiu-se de vagar, como quem saboreia antecipadamente as

S. CARLOS 57

delicias do repouso. Pendurou o fato nas cosias da cadeira.

Assoprou a luz.

Melleu-se pela cama dentro.

Sem se estender todavia, para concentrar o calor do corpo n'um espaço menor.

Ah! dizia entre si. Quanto é agradável! Doce e benéfica invenção da cama ! Não é ho- mem de juízo, o que não souber apreciar este bem! o diz o árabe: E' melhor estar senta- do que em pé, é melhor estar deitado que sen- tado!...

E todo elle era satisfação.

Em seguida, por ir a dar-lhe o somno, e disposto a cerrar definitivamente as pálpebras, procurou a attitude em que deveria encontrar-se de manhã ao acordar.

E estendeu as pernas...

N'esse instante invadiu-lhe o corpo Jodo uma sensação desagradabilissima.

Entornára-se-lhe nos pés um alguidarinlio cheio de agua, e ia a chegar-lh^aos quadris proporcionando-lhe um banhosito glacial.

Saltou para o chão, aos berros ; acudiram- Ihe ; e o rumor publico accusou o nosso heroc de ter a culpa doesta vasta historia, emquanto o pobre amigo, a praguejar contra a sorte e con- tra os humanos, levou a noite a tiritar num ca- napé !

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os THEATROS DE LISBOA

Perguntam-me se tem virtudes?

De certo as tem. Excellente moço, excellente

filho, e muito bom musico. *

Mas não acima de tudo isto, porém a par de tudo isto muito bom brincalhão, o que quer dizer um brincalhão infernal, inaturavel ás ve- zes.

Que alegria permanente, que humor caçoistal Em elle me encontrando na rua finge evitar- me, corta para o lado opposto de repente, volta ainda, torna a ir, vem de tombo cair sobre mim,

S. CARLOS

pede mil desculpas, mette-me o braço, e diz-me placidamente se é no verão:

E' o primeiro dia de calor que faz este an- uo!

Ou, se é de inverno:

E' o primeiro dia de frio que temos!

Depois, mesmo de braço dado commigo, não perde de vista os que vão e vêem. Finge que escorrega sobre um, faz como se estivesse preso por um botão ao chaile de uma senhora, larga a mostrar-me nem elle sabe o quê, apontando para um quarto andar; e d'alli a nada toda a gente principia a olhar também para o quarto andar...

Todos riem, todos lhe acham graça, todos gostam d'elle, e ha deveras razão para isso porque ninguém fica triste na sua companhia. Elle aproveita essa occasião para fallar serio por três minutos, e quando todos lhe prestam a at- tenção mais profunda, salta elle no collete de um amigo que por alli passa e grita-lhe fulmi- nantemente :

A minha cadeia e o meu relógio!... Oh! . . . Até que os encontrei!...

Eu tenho medo d'elle como de apanhar sol...

E entretanto, em se estando tempo sem o vêr, ou em os jornaes dando noticia de que a atroz, barbara gotta, o está pregando á cama, todos nós volvemos um pensamento de saudade ás alegres estroinices, infantis, innocentes, d'esse

60

os THEATROS DE LISBOA

moço, que se distinguiu sempre pelo seu me- recimento, e por um chie especial de graça e folia.

Folia, que parecia dever empallidecer na pre- sença da alegria ruidosa, communicativa, do mais agradável e espirituoso companheiro que pôde achar-se, hoje rotundo, mas sempre gentil, gordo e ágil, bem nutrido e bem posto, feições de uma frescura, de uma quasi meninice im- morredoura, perna curta, arqueada, e forte, hom- bro intrépido, barriga de banqueiro elegante, cores sadias, pequenino bigode á Gherubim, meio anjo meio Artagnan, um elegante enxertado em empresário, esperto, lesto, vivo, audaz :

Valdez

S. CARLOS 61

Ah!

Cuido ainda estar a vel-o nos tempos em que elle se apeava de umcavallorio immenso á porta da Eschola Polytechnica! Um pequenito armado em cabo de esquadra; fardeta apurada, golla a estoirar-lhe o pescoço atochado e curto ; baixi- nho, buhçoso, e vivaz; rosto de feições dehca- das, regularissimas, pelle fresca e rosada, olhos de extrema sagacidade...

O nome illustre da sua famiha, e a graça que em todo elle respirava, ganharam-lhe facilmente entrada segura no mundo.

Tinha a seu favor mil coisas.

Era moço.

Bem parecido.

Bem educado.

Intelligente.

E... rico.

De todos os talentos, este ultimo, sempre o melhor.

Estudava o seu primeiro anno de mathema- tica de manha, e cursava o Marrare pelo dia adiante.

Como o fadara Deus com uma delicada apti- dão para a musica, principiou a ser dilletante, accumulando as distincções de grande amador ao piano, e entendedor de arte e de artistas no theatro.

Um pequenóte terrível!

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os THEATROS DE LISBOA

Tocava piano com extremo gosto, sentia e ex-

pressava a musica dos mestres ; protegia oii an- niquillava as celebridades de S. Carlos.

Foi o anjo da guarda de Nery Baraldi, e da Tedesco!

Capitaneava janotas, era o heroe da platéa, fazia artistas como Warvich fazia reis.

Foi-lhe apparecendo o buço n'estas lides.

Conhecido em Alcácer pela sua familia, foi sempre tratado alli como o menino bonito, o her- deiro, o fidalgo, o menino Campos. Em Lis- boa, o menino Campos, freguez por excellencia do Marrare, e terror do theatro lyrico, era o sr. Valdez.

Com os annos, com a experiência, com o des- envolvimento no trato da vida, foi passando a Campos Valdez, e fez-se empresário.

Desde esse dia, representou sempre a boa administração theatral nas suas relações com a

S. CARLOS 63

I

arte e o gosto. Ninguém como elle, para arran- jar e accommodar as diíBculdades, os embaraços, as dissenções, que ha sempre entre empresa e artistas. O publico não sabia nunca d'essas com- binações, e via o resultado ; que importa de que modo é feito o guisado, em o jantar sendo bom?

Cedendo nos pontos secundários, inflexivel nas grandes luctas. Não concedendo de mais ás exigências do publico, nem ás commodi- dades dos artistas, e andando sempre entre uns e outros ora como um advogado, ora como um dilletante.

Conhecendo perfeitamente que era preciso de vez emquando lembrar- se de que a multidão não gosta de correr sempre para o sublime, e teima de vez emquando com alguma pretenção prudhommesca.

O que querem os senhores? perguntava- Ihes elle. Estão fartos da Norma, da Somnam- hula, da Favorita, da Africana, dos Hugueno- tes: desconfio que estão a appetecer o Eurico I

Estamos, sim! dizia-lhe a imprensa e a platéa.

Pois vamos a elle.

E dava-lh'o; dava-lh'o para não lh'o pedirem mais.

Activo, laborioso, perspicaz, ninguém venceu ainda com maior denodo os mil embaraços que

64 os THEATROS DE LISBOA

a todo o momento se levantam no palco e na sala de um theatro lyrico.

Conhecendo o publico e os artistas, sabendo entreter ambos, e alcançar de ambos quanto que- ria, amável, cortez, engraçadíssimo, obtinha da primadonna uma opera a mais, do tenor uma opera a menos (para a dar ao outro e conten- tal-o) sem empregar para isso senão o seu mo- do jovial, communicativo, que desarma pelo chis- te e pelo tom irresistivel e attrahente de moci- dade.

Valdez foi durante annos o typo curiosíssimo do empresário cavalheiro e rapaz; gostando de musica, de boa mesa, de bons vinhos, de con- versação, de alegria; gostando de viver emfim, e sabendo como se vive, sem egoismo, sem vis- tas mesquinhas, rasgadamente; tendo amigos, gostando de os ter, e merecendo tel-os. Co- mo empresário conseguiu saber-se entender com o governo, com o Estado, com o publico, com a nação no que ella tem mais intelligente e distincto entre os seus membros, e foi sempre o representante do S. Carlos antigo, theatro aris- tocrático e estróina.

Foi o Medicis do theatro lyrico em Portugal !

AL fadado.

Abriu para fechar: primei- ra ratice!

Em 49, no dia dos annos do sr. D. Fer- nando, que ain- da não era rei artista, mas que era rei bom homem, sempre prompto para aturar qualquer representação de principio ao fim, em com- panhia da sua famiha, com vivas demonstrações

5

66

os THEATROS DE LISBOA

de agrado, inauguroú-se o theatro, dando a tra- ducçâo de uma peça íranceza, O sr. de Dimhiky, que levou a mais formidolosa paleada por entre todo o regosijo d'aquella noite de gala, pateada que foi a única coisa que se ouviu bem por- que do que os actores disseram pouco se perce- beu, queixando-se por isso o publico e a im- prensa de que o theatro não era acústico.

Fecharam-o no dia immediato, fizèram-lhe no- vas obras, pozeram aqui, tiraram alli, ficou peor, e abriu com o Magriço, drama histórico de outro, de outro magriço chamado Aguiar Loureiro, um litterato que rebentou como um cogumello considerado venenoso, e não se dei-

xando saborear, a poder dos abrimentos debocca que suscitava.

Refrescaram aquelle caso com os Dois rene- gados, do sr. Mendes Leal, que foi por muito tempo o drama de salvação para onde appella- vam as jangadas theatraes. Cantou ainda a xa- cara a sr.""

D. MARIA

e foi como que o despedir do palco para essa actriz que havia sido a Mademoiselle George de Portugal. Mulher esbelta, formosa em tempos a que o meu olhar nunca alcançou, instruida o sufficiente para não escalavrar o estilo aos au- ctores, dando-se o chie de arranhar o seu bo- cado de francez prenda n'essas epochas mui citada , traduzindo uma comedia ou outra nem melhor nem peor do que sempre em geral por se fez, e ostentando uma reputação de vir- tude que chegava para a companhia toda, a não querer aspirar ao premio Montyon. As familias indicavam-a a dedo ; e diziam com veneração :

E' uma senhora.

Isto queria dizer que não mudava de amante como quem muda de luvas, e que fazia gosto em dar um exemplo ao mundo de que também no tablado pode haver Lucrecias.

68 os THEATROS DE LISBOA

O que tornava ainda mais pesada a idéa d'aquella virtude famosa, era o tom em que a actriz declamava ; antiga escola, escola da can- tilena, do sublinhar de intenções, dos grandes tons, e grandes geitos e tregeitos. Tudo affectado, assoprado, maneirado, tudo grandiloquo, tudo magestaticol...

Nâo cheguei a poder formar idéa clara do talento d'esta artista; isto é, ella nâo repre- sentava os seus verdadeiros papeis, quando a vi; e n'esses em que ainda cheguei a vêl-a, os Dois Renegados por exemplo, tinha de comba- ter a edade, a estatura, a nutrição, e de sujeitar tudo isso a parecer-se com uma donzella de de- zeseis annos, apaixonada, terníssima, ideal, toda suspiros, ais d'amor, bailadas, delirios...

Morte e aíTronta ao assassino, Morte e aíTronta ao renegado!

Era diíTicil...

E oxalá fora impossível !

Isto nâo impede, e folgo de lhe render esse tributo de justiça, que ella de uma occasiâo me haja produzido uma impressão profunda e com- movente.

Encontrando-a um dia no Rocio, logo depois da lei da reforma a haver afastado do theatro, e suppondo que ella própria estimaria isso, dei- Ihe os parabéns de estar livre do tablado. As la- grimas que lhe rebentaram espontâneas e copio-

D. MARIA 69

sas, fizeram-me comprehender toda a singulari- dade da exasperação dolorosa de uma artista, que sobrevive a si própria, passeando pela cidade.

A morte parecer-lhe-hia pouco, em compara- ção de similhante desgraça: ao menos, ao seu tumulo iriam lançar-lhe coroas.

Tive pena sincera de ver o espectáculo d'aquel- la angustia. Fora em Portugal a mais conside- rada, a mais respeitada artista, e custava-lhe a entrar para a multidão depois de haver sido in illo tempore o assombro d'ella. E' comprehensi- vel esta magua; mais que comprehensivel, res- peitável: mas respeitável nem sempre quer dizer attendivel, e, apesar de estarmos no paiz das re- considerações, não intendeu nenhum commissa- rio régio reconsiderar sobre o caso, fundando-se em que também o tempo não queria reconside- rar remoçando-a outra vez. O peor é que, apezar dos defeitos da sr.* Talassi, as actrizes que apparecem agora nem d'esses defeitos são capazes!

Pelo género, pelas predilecções, pelas quali- dades, e até pelos deffeitos, foi a actriz do seu tempo; foi-o também por outra circumstancia ainda, pela estatura.

Os artistas eram quasi todos grandes n esse tempo.

Theodorico velho.

Theodorico sobrinho, que é esse que ainda hoje ahi temos.

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os THEATROS DE LISBOA

"Ventura,

Victorino, Tasso, Vianna, Lisboa . . .

Este ultimo era mais do que alto, era gigante.

Imaginem a sr."" Tallassi, esbelta na scena, merecedora de um namorado que arrancasse arvores e usasse, como Pichrocolo, de um homem

<^.

n

nC2

^^r:^*í;t!^

em ar de bengala, imaginem-a em scenas amo-

D. MARIA

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rosas com um heroe miúdo, que em possança e dotes phisicos lhe fosse notavelmente infe- rior 1

tenho ouvido contar aos que teem expe- riência d'essas coisas por sua vida aventurosa e prendas bem fadadas, que na vida real são os contrastes o maior encanto: adoram os velhos a juventude, homem forte quer noiva franzininha, e as viragos teem o mais doce fraco por homens delicados e airosos. . .

Mas no theatro, nâo. No thealro é tudo ar- mado á óptica.

Imaginem-a soberba e magnifica, ancha, es- pectaculosa, mulher de apparato e de enormes fei-

tos, a ser raptada n'um incêndio e levada em

72

os THEATROS DE LISBOA

braços por algum dos actores de hoje, gente pe- quena, de maior fôlego que presença, por exem- plo

Santos

(|ue não é o que se chama miudinho, que não se parece com o delicadÍ7iho d' Évora, mas

D. MAIUA

73

que tem sem duvida maior cabelleira que esta- tura.

(i.^iV

O que não quer dizer que não tenha maior chapéu ainda... do que cabelleira!

Ah! Mas...

Mas, se falíamos em chapéu, também nãa posso parar aqui !

Seria injustiça.

Quando o traje dos heroes é característico, adquire vulto como o personagem.

A niza de briche de Frederico da Prússia... •A redingote grise de Napoleão...

O chapéu de Santos...

Vamos á parte histórica. Venham factos:

De uma occasião, ha poucos mezes...

Vi sobre o balcão da loja do Roxo, ao Rocio, um objecto de proporções incalculáveis, tendo até certo ponto, ou, para que digamos melhor,

74

os THEATROS DE LISBOA

tendo de certo ponto... para diante, as formas de um chapéu.

Do mesmo modo que Paulo Plantier tem por ci- ma das portas da sua relojoaria um relógio enor- me, em symbolo e distinctivo do estabelecimen- to, cuidei também que fosse destinado a pôr-se á porta, na altura de um lampeão, como annun- cio da chapellaria, aquelle chapéu formidoloso.

Ia a juntar-se gente, parava sempre aUi quem passava, e eu não pude resistir á tentação de entrar, levando commigo para dentro da loja ou-

ÍÍ1I5Í'

iru\.

tro amigo para vermos o chapéu juntos, por- que eu sósinho... nâo podia.

Uma vez encostados nós dois, dando-nos mutuo auxiho e incitando-nos reciprocamente a este commettimento de proporções de chaldeu, exclamámos juntos exactamente como as Mar- chisio exclamavam tudo, isto é, em duetto, por- que isolada a voz de qualquer d'ellas não tinha

D. MARIA

75

a força sufficiente para as grandes phrases:

Que chapéu!...

O povo á porta exclamava também:

Que chapéu!...

O chefe do movimento n'aquella chapelaria acreditada é um homem loiro, fleugmatico. Olha- va-nos sorrindo serenamente, e parecia disfruc- tar in peito a surpresa e o pasmo da turba.

Novamente nós repetíamos:

Que chapéu ! !

E a multídão, accrescentada a todo o instan- te por novos transeuntes, repetia por sua vez :

Que chapéu!!!

Então, o chapelleiro deixou cair de seus lá- bios, com uma suavidade ideal, como se fosse mel, como se fora o puro hymeto, estas pala- vras:

E' para o actor Santos. O povo recuou.

O meu amigo e eu, encostando-nos de novo um ao outro, e tomando a respiração— as res-

76

os THEATROS DE LISBOA

pirações para lograrmos força digna do as- sumpto, perguntámos áquelle honrado industrial (estylo jornalistico) : Para o actor Santos... Mas para quê?

Para levar para o Porto! Para usar. Para trazer na cabeça. Para ser o seu chapéu!

O seu chapéu!...

E as vozes do povo ao longe, repercutiam em écco:

O seu chapéu!!!

Teem quasi sempre os artistas de excepcional vocação o seu tic de originalidade. Fallou-se sempre em França das goUas de Frederic Le- maitre e das gravatas de Lafont; porque deixa- ríamos de fallar do chapéu de Santos?

E' um typo.

D. MARIA

77

Um verdadeiro typo meridional, ardente, que convém para theatro. Grandes olhos, grande franzir de sobrancelhas, encrespando-as como Júpiter e abalando o mundo. Nariz largo e ex- pressivo: tez bronzeada...

5^ /yi?— v.^*j.-s^- 1.V.S

As ladies, quando elle esteve em Inglaterra,

78 ^

OS THEATROS DE LISBOA

perguntavam sensivelmente desmaiadas o que si- gnificava aquelle typo . . .

f^i

No ihealro até os banqueiros o examinavam, e os porteiros deitavam-Ihe o occulo . . .

Foi de uma vez tirar o retrato a um photo- grapho, e d'alli em diante viu-se grego com o artista, porque o homem tinha tanta venda aos retratos do moço, que o queria escripturar, nâo para o vêr representar, mas para lhe tirar cli- chés!

Em Paris deu-se com elle igual caso memoran- do. Deixara ficar o retrato n'um photographo (andava sempre a tirar retratos em successivas edições, que se esgotavam rapidamente, como dizem os editores nas folhas publicas) e estivera seis dias sem o ir buscar.

D. MARIA

79

Ao sétimo dia foi o photographo procural-o :

Meu senhor...

—Viva!

O sr. é o cavalheiro que ha seis dias foi a minha casa tirar o seu retrato... Exactamente.

E que não voltou?

E que não voltou; sou eu. Faz empenho no seu retrato?

Como, se faço empenho?

Se o estima, se o deseja, se sempre quer ficar com elle?

—De certo. Por ter muito que fazer é que não fui estes dias.

80

os THEATROS DE LISfiOA

E' porque, proseguiu o photographo nura tom de embaraço ha alguém que deseja viva- mente compral-o...

Ahl As mulheres ! exclamou Santos, desde- nhoso, e enfastiado. Estou farto de me deixar amar, sr. photographo, é preciso pôr ponto n'isto !

D'esta vez não é mulher.

Não é mulher?!

Não, senhor.

—E' homem?!!!

E' estallajadeiro.

Ah! Isso é outra coisa! Mas, em todo o caso, que empenho pode ter de me possuir em efíigie um honesto locandeiro, locandeiro, di- gamos, que nem me conhece?

Deseja pol-o na parede, do lado da rua... por cima da porta...

Que diacho...?

Sim, senhor. Elle é o dono da es- tallagem, bem co- nhecida até nos ro- mances e nos melo- dramas, chamada a Tête-noirel

Ah! A Téte-noirel percebo!

D. MARIA" 81

percebe?

percebo. Quer-me para symbolo!...

Santos, emquanto estava na edade das aspi- rações, do culto pelo bello, da nobre ambição, que constitue os dotes de enthusiasmo e de sem os quaes nenhuma alma de artista ousa atrever-se aos voos do génio, foi um mancebo feliz. Seguia a sua vocação, ia atraz da sua es- trella, conquistava o bem a que aspirava, sem preoccupaçôes, sem inimisades, sem as invejas e os despeitos que o tempo levanta sempre de algum lado a perseguirem quem tiver talento.

Era um actor de bons dotes, imaginoso, quen- te, audaz. Assim o era e assim lho diziam

De uma occasião em diante principiaram a dizer-lhe mais alguma coisa: que era um actor sublime.

Isso pesou-lhe.

Ha poucas coisas tão incommodas como um homem achar-se de um dia para outro armado em divindade.

O sublime deve ser sempre uma aspiração ; nunca um emprego.

Em que se emprega o senhor?

Em ser sublime.

E' mau.

Diz um provérbio árabe:

Deus te defenda de realisares o teu ideal. Grande e triste verdade.

82 os TH^ATROS DE LISBOA

Santos entristeceu, desde que realisou o seu ideal.

Chegar a ter todas as immunidades, todos os direitos ; ser o grande sacerdote, o pontífice thea- tral do verbo novo; não poder enganar-se, nem agradecer os conselhos dos seres secundários que gravitem no espaço inferior; não ser elle que mude de systema, serem as coisas que mu- dem em redor d' elle ; tornar-se para elle a cri- tica um attentado, e a opposição um crime; infal- livel, impeccavel, infinitamente perfeito, Messias do que se aprende de cor, cercado de jornaes a tocarem trombeta e a dizerem d'e11e todos os dias o que não dizem uma vez por anno de Gar- rett nem de Herculano... viE' um encargo, e uma semsaboria.

Se elle fosse um piegas, tinha ficado conten- tissimo ; mas ao contrario, data d'então uma in- differença altiva e melancholica, um desdém e desapego a tudo.

Natureza de artista, que a tem mais que nenhum em Portugal quiz ainda fundar co- mo que uma arte nova. O que resta d'es- sas ambições? Tentativas, que teem a marca dos esforços e dos desvios de uma individuali- dade, que foi servir de modelo absoluto para o gosto, para a dicção, para a forma, e que, se não poude conseguir fazer artistas, fez uma alu- vião de exemplares de si próprio em ponto pe-

D. MARIA

83

queno, um rancho de santinhos, que, á falta do ta-

lento de Santos, aspiram a ter a volubilidade da sua declamação e a grandiosidade dos colletes d'elle. Não seria fácil indicar por um termo que marque um géne- ro, uma especialida- de, um temperamen- to, uma physionomia, a Índole característica doeste artista. vão a afastar-se d'elle os^^ annos de Cherubim,

e entretanto vêmol-o muitas vezes ingé- nuo e namorado a dar idéa pelo sentimento, pela sinceridade, pelo enthusiasmo, d'essa edade da vida que escalda o sangue e o coração.

84

De outras vezes, homem de vivacidade e de ex-

pansão, da alegre folia, da extravagância ele- flfflntft-

gante

Bebe, grita, ri.

Almoça com patuscos; janta festivamente; ceia com as bellas, duas, três bellas; nunca menos d'isso.

E' pimpão, é intrépido, fica leve apesar de gordo, é catita, é gingão, é estróina.

Deixa de ser dogmático, entra pelo papel da peça e pela alegria como nós por nossa casa.

Um folião.

D. MARIA

85

De outras, grave, austero, pesando as sylla-

bas,' calculando as intenções.

Todo elle reticencias.

Grandes pausas de umas que commovem o Stark na platea ao ponto de o fazer irromper em doces lagrimas.

Alto gesto, passo de tapete, phisionomia de retrato antigo, retrato de antepassado illustre; grande sabor de dignidade, aroma de nobreza, muito serio, muito serio.

Aquillo a que o povo chama um homem de capitulo I

I

86

os THEATROS DE LISBOA

Ainda d'outras, a facilidade moderna, um con- versador, um diseur, o tom amplo da experiên-

cia e da sociedade, o gesto largo dos homens de mundo, mil segredos de declamação imitando a extrema naturalidade a mais artificial accen- tuação, e a mais difficil, de quantas ha.

Chegam as senhoras nos camarotes a dizer ás vezes com sinceridade a seus maridos:

Gostava que tu fosses assim! Pois eu nãol E' bom no theatro; mas que- rias que eu fosse assim na rua Augusta?

D. MARIA

87

E' um galã, é um centro,

é um gracioso?

os THEATROS DE LISBOA

E' tudo isto talvez; não é talvez nada d'isto : é um actor de hoje, para as peças de Augier, de

Dumas filho, de Sardou, uma natureza de artista essencialmente moderna, creada nas leituras de Balzac, de Dumas e de Musset: a melancholia de um philosopho, a imaginação de um impru- dente, a extravagância de um phantasista, e uma alma ardente no fundo de tudo isto: alma de bons voos, desprendida de misérias: susceptivel de abater as azas para seguir um capricho lou- co, mas sabendo elevar-se pelo sentimento, pela aspiração para a arte, pelo culto do bello; meio Kean, meio Don Juan; excêntrico nas tollettes, talvez excêntrico na vida, mas tendo a qualida- de rarissima da gratidão, (jue imporia a lealda-

D. MARIA

de para com os homens, e, o que é mais, a ho- nestidade para com as mulheres. Não a hones- tidade de José do Egypto, de lhes querer fugir com o capote, mas a de as agasalhar com elle. Gomo vão longe os que lhe foram mestres, e os que lhe serviram talvez de tentação para se- guir os destinos da vida de theatro! Vamos pa- recer velhos, se fallarmos de

£Ipip]iLa,iiio,

90

os THEATROS DE LISBOA

e entretanto é preciso fallar, não ha remédio : fallemos.

Lembram-se bem d'elle? Na estatura, na so- branceria, havia o seu quê de similhança com o heroe dos Solteirões...

Parece-me estar vendo ainda esse original

actor, que, quando não estava no palco estava no camarim: quando não estava no camarim nem no palco, estava no salão : e quando não estava no salão, no palco, nem no camarim... passeava no Rocio a olhar para o theatro!...

Era um caracter melancólico, como que farto do espectáculo das coisas humanas: espirito com- templativo, pouco accessivel ás manifestações sempre novas da arte, e havendo concentrado o seu pensamento num ponto fixo substituir

D. MARIA 91

a velha declamação de theatro, pela eschola franceza de mil oitocentos e trinta; e que, nos últimos annos da sua existência, não se lembrou que era tempo de que a eschola da forma sin- gela substituisse essa declamação emphatica, plangente, cadenceada, que fizera, como que n uma revolução, as delicias da sua épocha, mas que as leis do gosto tinham ainda de modificar.

As lagrimas e os soluços constituiam, no ul- timo período da sua vida, um dos recursos sym- pathicos á sua maneira de commover. A phrase sahia-lhe sempre chorada e arrastada. D'ahi, os defeitos de eschola para os discipulos, e para os coUegas, que, de certa forma, também discipulos eram d'elle. Para o imitarem, e para consegui- rem harmonisar com o mestre quando jogavam de scena, tinham de se entregar também a uma declamação pesada, que não desentoasse do sys- thema! Os resultados tinham de ser, e foram, prejudiciaes para os artistas. Ainda hoje no thea- tro se chora muita phrase, que devia ser dita simplesmente, por causa do muito que se cho- rava no palco n essa épocha de diálogos solu- çados.

Quando se edificou o theatro de D. Maria II, principiou para Epiphanio a mais acreditada épocha da sua carreira artistica, a de ensaia- dor.

A direcção de ensaios foi-lhe confiada, e elle deu prova de acertado gosto nas funcções

92 os THEATROS DE LISBOA

de director de scena, e nas attribuiçôes que fi- cavam ao seu cargo, produzindo discipulos e aperfeiçoando alguns collegas.

Foi a primeira vez em Lisboa, que nos car- tazes se leu esta innovação franceza da phrase mise-en-scéne. Os annuncios especialisavam sem- pre a direcção e a mise-en-scène de Epiphanio.

Advertia-se d'isto como de um facto novo: e era eífectivamente um facto sem precedente na nossa terra, porque os ensaiadores antigos nun- ca se deram ao incommodo de attender á dispo- sição das figuras, á coUocação dos grupos, á gesticulação dos actores.

Não é fácil suppôr, quem hoje os theatros portuguezes no estado de regularidade a que o tempo e os esforços dos artistas teem alcança- do, como corriam d'antes por as coisas thea- traes I

Não ha cem annos; basta referirmo-nos jus- tamente á épocha em que Epiphanio, Theodo- rico, Victorino, etc. principiaram, e em que eram homens quem representava os papeis de mu- lher!...

O scenario, era uma traquinada tão ridicula e económica, que, n'uma peça em que a scena figurava um momho ao fundo, o actor, que era muito mais alto que a porta, trouxe, ao entrar, o moinho em cima dos hombros!

Quando se chega ao estado de civilisação das artes, não se pensa bem o que foi a scena no

D. MARIA 93

tempo antigo. Em Inglaterra, por exemplo, ado- ptaram-se por muito tempo expedientes de illu- são, de se morrer de riso. Um comparsa com uma lanterna, um arbusto e um cão, significava o luar !

Uma circumstancia curiosa e excêntrica é a teima com que Ghateaubriand se obstina a que- rer provar nos Ensaios sobre a litteratura ingle- za, que a exactidão do objecto inanimado an- nuncia a decadência da alta poesia e do verda- deiro drama, porque, diz elle, contenta-se com as pequenas bellezas, quem não pode attingir ás grandes: imita-se, a ponto de enganar avis- ta, os sophás e o velludo, quando não se chega a poder pintar a physionomia do homem senta- do sobre esse velludo e n'esse sophá!

E' curiosa esta opinião do grande escriptor da França, de que a verdade do theatro não precise de exactidão de vestuário e scenario, e que os melhores monólogos, ou as mais vehe- mentes apostrophes da tragedia antiga fariam tanto effeito lidas por Talma n uma sala, como recitadas sobre um palco, estando o homem de manto grego nos hombros!

Nas peças ensaiadas pelo Epiphanio obser- vava-se naturahdade, e boa combinação nas en- tradas e na coUocação das figuras. Estudava muito as peças, attendia á marcha da acção, á Índole especial de cada caracter, á feição pró- pria para cada typo, aos gestos e ás maneiras.

94 os THEATROS DE LISBOA

As peças espectaculosas principiavam então o pomposo reinado, que durante algum tempo levou a população da capital e das provincias a assistir á representação do Alcaide de Faro, Templo de Salomão, e Prophecia!

Foi nos espectáculos apparatosos que elle desenvolveu o melhor tacto de ensaiador. Jogar com duzentos comparsas como com peças de um jogo de xadrez, fazer que não se adiantem e não se atrazem, dar aos grupos toda a eleva- ção do quadro, ás marchas toda a solemnidade guerreira, attendendo, na disposição d'aquellas duzentas figuras que enchem o palco, ao efteito d'optica que melhor possam produzir eis o que Epiphanio fez como ninguém o fizera, e como ninguém o faz por emquanto!

Por capricho de artista, ou para se ensaiar em géneros de desencontrada indole, tentou em papeis de mui diversa natureza dar a medida da sua vocação percorrendo todas as escalas da arte cómica, e desempenhando a cada passo tão depressa um centro, tão depressa um galã; ap- parecendo-nos hoje com a fronte calva e grave do ancião, amanhã com o enfarinhado rosto de palhaço: pae nobre agora, namorado cómico em seguida!...

Era muitas vezes notável, mas tinha um se- não fatal em todos os seus papeis era massa- dor. Havia occasiões em que divertia tão pouco que chegava a não parecer peccado o ir ao thea-

MARIA 9^

tro durante a quaresma para o ouvir n uma co- media 1 A festa era uma expiação.

Tinha sido nos seus tempos o Etelwood da Catharina Howard, e deu- se o chie de ser Rmj Blas n'uma traducçâo de Eduardo de Faria, aquelle bom e amável Eduardo de Faria que fez entre differentes extravagâncias memoráveis o diccionario que por ahi anda, de que elle era sem- pre o primeiro a gracejar e o sr. D. José de La- cerda o ultimo.

O Trapeiro de Paris, e o Casal das giestas foram as suas peças : ou antes as suas verdadei- ras peças eram aquellas, em que elle conseguia que os outros fossem bons.

Com elle acabaram os grandes espectáculos dos dramas de apparato, que acordaram a cu- riosidade no animo do publico. Nunca mais se viu no theatro de D. Maria II, dramas de que o annuncio comportasse algum d'aquelles cartazes, que, pelo gigantesco da forma e pela dimensão das letras, são dum prestigio que outr'ora te- ve o condão de seduzir José Agostinho de Ma- cedo: «Violentissima tentação dum cartaz de comedia que toma uma esquina de cabo a ra- bo, desafia e titilla a nossa curiosidade! Um car- taz é um verdadeiro prestigio; se ha bruxaria no mundo é o Diabo de um cartaz de comedia. Os que se pregam no Malcosinhado são uns len- çoes de casados, e quando é dia de beneficio é o cartaz como a vella grande da nau Centauro!»

96 os THEATROS DE LISBOA

Assim o dizia já, na segunda carta do Foga- ça, José Agostinho, com a sua chistosa graça de grosseirão; isto prova que o cartaz monstro não data apenas do Alcaide de Faro, o que muita gente cuida, porém daquelles tempos, em

que um gallego com um boiâo de papas, um pin- cel de caiar e uma bola de papel ás costas, ia pregar nas esquinas um papelão monstro com dois triângulos romboides !

Não foi unicamente aos seus discipulos que os conhecimentos d'arte do Epiphanio se torna- ram úteis: também os companheiros lhe deveram lição em mais d'um papel, e a grande actriz por- tugueza, Emilia das Neves, alcançou uma boa parte dos seus triumphos, auxiliada pelos con- selhos d'esse ensaiador.

Os destinos outr'ora brilhantes do artista que

D. MARIA 97

íizera épocha para o thealro portaguez, haviam no ultimo tempo da sua vida perdido quasi to- do o prestigio que os illuminava: a imprensa mostrava-se adversa ao seu methodo, e o pu- blico desgosta va-se por vezes do tom da sua phrase. E todavia quando acordava da atonia em que o espirito parecia haver-se-lhe suffoca- do, era grande ! A Pobreza Envergonhada e Es- pinhos e Flores, foram os últimos signaes que deu de vida artistica. Sinto tristeza ao escrever os titulos d'estes dois dramas, porque elles mar- cam o final do drama d'essa existência que te- nho contado aqui. Época fatalmente triste para a população de Lisboa, épocha que recorda a cada um uma saudade e um tumulo !

A febre amarella, de que apenas se citava desconfiadamente dois casos em julho, e dez em agosto, caiu nos fins de setembro de 1857, des- apiedada, implacável, aterradora, sobre a ca- pital!

O cholera havia sempre atacado quasi exclu- sivamente as classes pobres, mas a febre ama- rella não teve predilecções do primeiro ao ulti- mo periodo do seu devastador reinado. Os feli- zes da vida tiveram de recuar horrorisados ou de cair como os pobres, ao sopro irremessivel d'este inimigo commum!

O terror apoderou-se então de todos os espí- ritos e de todos os corações : nenhuns limites prováveis, anniquillavam a sua duração : Lisboa

98 os THEATROS DE LISBOA

tomou um aspecto horroroso ; a população co- berta de luto lembrava-nos as mortes da véspe- ra: e as macas que se cruzavam, as mortes do dia seguinte!...

Também, a philantropia acordou então; e os actos de generosidade desceram da casa dos ri- cos, e, consolando as classes indigentes, parece- ram pedir-lhes perdão, em face da morte, da indifferença com que nos tempos bons da vida insultavam a miséria com o luxo e com a ava- reza ! Mas, não iam depôr-lhes a esmola á ca- beceira: atiravam-lh'a e fugiam, ou mandavam-a de Cintra, de Bemfica, do Lumiar, de Bellas, de Cacilhas, de Pedroiços, onde as habitações che- garam a um preço fabuloso, tanto foi o impul- so com que a população lisbonense desertou ! Os pares, os deputados, os empregados públi- cos, abandonaram as camarás e as secretarias. A familia real e os pobres, foram apenas os que permaneceram face a face com a morte ; isto é dizer-lhes que os actores ficaram também, por- que n'este paiz os actores são do numero dos pobres!

Epiphaneo vivia em companhia de dois fi- lhos: a febre entrou n'essa casa e com ella a morte; o filho mais novo succumbiu á doença. En- tão aquelle coração de artista que era um gran- de coração de pae, sentiu-se ferido do mesmo golpe. Passara as noites ao do leito do doen- te, e, dias depois da morte de seu filho, o gran-

D. MARIA

99

de actor caiu também ao sopro pestífero do mesmo mal que lho roubara. A impressão que aquella morte lhe produzira havia sido profunda e irremediável ; não sei bem se foi a febre ama- rella, se a falta do filho, o que o matou!...

De quantos artistas ensinou na sua longa car- reira de mestre de theatro, a primeira, a única que chegou realmente a attingir proporções no- táveis, foi

«Toseplia, Sollei*

A infehz SoUer!

Os elementos pareceram sempre ora querer, ora não querer que ella fosse actriz 1

Declamara aos três annos n'um theatro, de que era empresário o seu pae: volvera á scena

100 os THEATROS DE LISBOA

aos cinco annos, e a intelligencia precoce que revelava era a melhor garantia do talento dra- mático, que, com o tempo e o estudo, poderia dar ao seu nome, um dia, a aureola dos trium- phos.

Todavia um gosto natural pela dança arre- dou por muito tempo da arte dramática esta creatura, que invejava, talvez, o prestigio, a ele- gância, a graça voluptuosa das dançarinas creaturas excepcionaes que os rapazes appiau- dem sempre com maior capricho, e maior en- thusiasmo.

Realmente, dou razão em parte á SoUer ! As dançarinas, quando teem a fortuna de não bri- lharem apenas pela arte, mas também pela bel- leza, e que deixam campo ás primeiras illusões da vida para acceitar n'ellas a incarnação de um sonho, qualquer coisa de sublime, e des- hgado das existências terrestres, entes maravi- lhosos que se elevam sobre o pó, como o átomo se ergue e se perde na atmosphera fluctuante, impellido pelo calor das manhãs do estio... são verdadeiras creações de poeta, que incendeiam a imaginação e a alma!

Por mais que se teimasse e insistisse, por maiores, mais activas e constantes diligencias, que a familia empregasse, para que a Soller n um paiz tão escasso de actrizes preferisse a carreira dramática, que não devia apenas sei - lhe mais lucrativa, porém mais brilhante, a

D. MAttIA

101

obstinada creança proseguia no seu inlenlo, e porfiava em seguir como dizem os choreogra-

phos questa philosofica arte delia danza !

Uma desgraça, porém, tinha de cortar-lhe a carreira. A pobre dançarina, encontrou-se subi- tamente impossibilitada de proseguir na sua ma- nia ! Uma extenção nervosa, na perna esquerda, resistiu a todos os esforços da medicina, e obri- gou-a a afastar dos horisontes do tacté e do balloné as suas aspirações e as suas tendências !

Desgraçadas dançarinas, a quem não é pre- ciso mais do que pôr um em falso, para ve- rem a sua carreira cortada, tornar-se infructi- fero todo o estudo dos primeiros annos, e cahi- rem por terra, luctuosos, humildes, desengana- dos, os sonhos de prosperidade e de gloria que lhes haviam dado coragem de trabalhar !

102 os THEATUOS DE LISBOA

Pois que! o nome, a gloria, o futuro de uma creatura, cujo merecimento parecia assegu- rar-lhe os destinos da illustração e da celebri- dade, estão por tal forma escravos e dependen- tes da felicidade de um battement, que bas-

tando uma piroeta para torcer uma linha, se- ja uma linha torcida o sufficiente para deixar sem fortuna, sem destino, e sem pão um ente infehz, que teve a sorte de pôr o seu talento nas pontas dos pés?l

Não houve remédio.

Quando a rapariga viu que estava de perni- nha para todo o sempre, deixou-se de médicos e mandou chamar dilletanti.

Acudiram os janotas do tempo, os grandes

D. MAIIIA 103

práticos das fortunas e dos revezes de tliea- tro.

Que hei-de fazer? perguntou ella.

Vae ser actriz! disse D. Álvaro.

Vae ser trágica! disse-lhe José Vaz.

-Vae-te ás soubrettes! aconselhou D. João de Menezes.

Vae ás ingénuas! disse o marquez de Ni- za.

Depois, todos elles, em alto diagnostico, lhe predisseram :

Serás grande! Trata d'isso.

Gustou-lhe ao principio.

A fatalidade que a opprimia foi-lhe tanto mais penosa, que estava para partir para Vien- na d' Áustria na companhia de Mabille, que qua- tro annos depois deu ordem expressa á irmã de madame Santy de a escripturar se estivesse restabelecida; a esse tempo, porem, a Soller . . . estava actriz.

Actriz! Existência de sensações e gloria, a que ella não aspirava, que não pedia, com que não sympathisava até ! Singular destino, que a forçou a valer-se do talento, a reconhecel-o, a educal'0, a deixar que o publico a admirasse e

104 os THEATROS DE LISBOA

applaudisse! Comediante como sua mãe, a Vas- quez de Corunha, como seu pae José SoUer, de Valença, que tomou o nome de Navarro, por- que, fugindo á familia para seguir a vida de actor, quiz crear elle o seu nome para a gloria ou opprobrio que lhe coubesse ! Oh ! ella tinha de ser actriz; e debalde o seu capricho, por louca phantasia de creança, tentava talvez suffo- car a vehemencia de uma vocação, que a natu- reza ou o destino tornaria um dia invencivel e irreconciliável !

Pois que! Esta mulher que se abraçava aos pés de Terpsichore, olha um dia para a face aus- tera de Thalia, e a deusa sorri-lhe e abraça-a, e as almas dâo-lhe lagrimas, o pubhco dá-lhe flores, a imprensa dá-lhe applausos, e ella acorda actrizl actriz inesperadamente ! actriz re- pentinamente!

Fizera-se bailarina, mas fora actriz que nas- cera! Pode dizer-se que ninguém lhe ensinou a arte senão depois de ella se mostrar artista; e mostrou-se artista desde o primeiro dia! Como aprendeu, pois? Como adivinhou, então?

Vi-a eu estrear-se, eu que tinha onzean- nos. Ainda me recordo de a ver apparecer na montanha com o seu chapeusinho de cigana le- vemente inclinado sobre a orelha, no famoso theatro do Salitre, toda a brilhar como se ainda estivesse nos divertissemenis, saia curta, botinha

D. MAKIA

iOS

de cano, n'uma peça que foi fallada n'esta Lis- boa:

A Ciganinha !

Que noite, que noite ! Os ratos, únicos fre-

quentadores hoje d'esse theatro, ainda estreme- cem do que seus avós lhe contaram de tal caso.

106 os THEATUOS DE LISBOA

A rapaziada effectLva de S. Carlos aftluiu ao Salitre n'essa recita, ao que me contam. Nas frisas e na superior, viam-se os terriveis da pla- téa do theatro lyrico, curiosos de vêr brilhar o talento doesta singular creatura que o encontra- ra primeiro nos pés, e o procurava agora na ca- beça!— o que provava ao menos não estar no caso do rifão, visto que tinha ambas as coisas 1

Ia descobrindo a todo o instante horison- tes novos, auxiliada por grande força de Yon- tade e pela attenção continua com que estu- dava.

N'isto appareceu-lhe o Assis.

A historia anecdotica do theatro, tem mostra- do mil vezes a importância do galan para os destinos do amor. Eu creio verdadeiramente que se não existissem galam, as mulheres teriam amado muito menos! Na peça de Psiché o co- mediante Baron, da companhia de Molière, re- presentava o papel do Amor I e dizem as noti- cias da época, que elle arrebatava todos os co- rações dos espectadores, conseguindo depois ser em particular tão bom actor com as senhoras, como com as damas de theatro. Era uma per- feita guerra de mulheres, a qual havia de o al- cançar primeiro. La Bruyòre conta-o bem claro :

«Roscius não pode ser vosso, Leha; tem do- no: c, mesmo que assim não fosse, está pe- dido : Claudia espera para o ter, que elle se far- te de Messalina!»

D. MAUIA 107

A amante de Molière, acabou por tomar a serio as phrases que Baron lhe dizia no palco, aprendidas de cor, mas recitadas com o encan- to e o calor da arte, que tantas vezes se confun- dem com a inspiração verdadeira, natural, e es- pontânea da alma !

E a amante de Molière, apaixonou-se por Ba- ron.

Cincoenta annos depois, pouco mais ou me- nos, Adrianna Lecouvreur, que passou a vi- da em amores, e fez papelotes dos madrigaes de Voltaire, olhou um dia para lord Peterborug, que era grande personagem, e para o galan Legrand, que não passava de um actor medio- cre ; ambos elles a requestavam, e ella resolveu gostar de ambos, mas de um primeiro que do outro, porque, são as memorias que o dizem, a grande actriz era inconstante, mas não era falsa.

E como era preciso principiar por um d'elles, Adrianna Lecouvreur principiou por Legrand!

No theatro do Salitre representava-se no tem- po a que nos temos referido, um grande nume- ro de peças sentimentaes. O pranto tinha todas as noites que pagar foro ás desventuras de um amante infeliz, a quem a barbaridade paterna separava do seu adorado bem.

O papel de amante era effectivo ao Assis.

A parte de adorado bem competia sempre á SoUer.

Uma vez, o amor, que é um traquina, met-

108 os THEATROS DE LISBOA

teu-se deveras n'isto, e a SoUer, querendo que a sua felicidade fosse tão auctorisada no mun- do como no palco, resolveu, de accordo com o Assis, principiarem por onde os dramas aca- bam,— pelo casamento!

E, como assim acontecesse, a SoUer come- çou a ser a Senhora Josepha SoUer de Assis.

Este Assis, António Maria de Assis, era um soffrivel actor de alta-comedia, e nascera dotado de quasi todas as condições que constituem o galã de theatro.

Era alto, elegante, extremamente sympathico de phisionomia, e com bons olhos.

Havia-se estrelado em theatros particulares, e em 1844 se arriscou a theatros pubhcos no drama em cinco actos, O infanticidio ou a pon- te de S. Cloud. Tinha vinte e dois annos então.

No theatro normal, o seu reportório foi sem- pre o mais escolhido e o mais litterario, e, de ordinário, capricho do acaso ou iniciativa dos auctores, teve este artista papeis em que fazia a cada passo declarações de amor... a sua mulher!

Garrett gostou muito d'elle no seu Fr. Luiz de Sousa, e este é decerto o maior louvor para a memoria do artista.

Comquanto a natureza fosse cruel para com a SoUer, baixinha, sem voz, sem olhar, sem ele- gância,— o trabalho, que é um segundo talento, valleu-lhc e elevou-a. Gliegou a ser notável, grande.

D. MARIA 109

Mas, a estrella da felicidade foi-se apagando para ella a pouco e pouco ; vieram as guerras e misérias dos bastidores ; a melancholia de se en- contrar preterida, o despeito de ver que lhe rou- bavam as flores da sua coroa, não poderia dei- xar de ter influencia no seu destino; deshabi- tuada do palco pelos longos intervallos em que se encontrou afastada d'elle, sempre que reap- parecia em scena, ia como que receiosa, indeci- sa, timida, hesitante, tremula! Tinha ainda alti- tudes, gestos, meneios de cabeça, admiráveis; quando representava com Emilia das Neves, ainda erguia a fronte soberbamente, como sa- cudindo o peso da oppressão que nos últimos tempos lha curvava! Havia thesouros de vin- gança a trahirem-se nas suas mãos que se en- crespavam, nos seus nervos que tremiam sob a immobilidade fria de uma resolução implacável !

Disse adeus difmitivo ás glorias de acordar o enthusiasmo; o pubhco insaciável e incons- tante nos seus prazeres, não se preoccupou se- quer um instante com a desgraça doesse antigo Ídolo. Sentia e impressionava- se quando decla- mava ! Não era uma vaidosa recitação mais ou menos modulada pelos lábios; era a voz que se quebra, as fibras que palpitam, um anno de vida gasto em dez minutos! era o ódio, o furor, a revolta, a aspiração á liberdade, as mais devoradoras paixões humanas concen- tradas n'um frágil corpo de mulher ! Se os au-

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os THEATROS DE LISBOA

ctores attendessem ao melhor género do seu ta- lento, se o theatro não a desconsiderasse afas- tando-a da scena, o publico haveria tido mais occasiões de applaudir senão a esbelta e alegre Ciganinha, ao menos a pallida e melancholica Luiza do Casal das giestas !

E o nosso

Ttaftift

D. MARIA

111

Onde havemos de coUocar o nosso Rosa, João Anastácio, que apparece hoje Ião raras vezes no tablado, e ora n um theatro, ora n'outro, sem se perceber bem se elle amda é do theatro de D. Maria, se é de qualquer theatro de Lis- boa ou Porto, ou se não é de theatro al- gum?

Rosa tem sido um artista importante, mexen- do um pouco em tudo, e dotado de uma quan- tidade de prendas, comparável á da menina do conto que o pae queria casar :

Isto canta, isto toca, isto dança, isto bor- da, isto faz doce!...

Assim, Rosa actor!

il2

os THEATROS DE LISBOA OOOO

Rosa pintor! Rosa esculptor!

*fe<'

D. MARIA

H3

Chega a parecer a ladainha:

Rosa mystica! Rosa ebúrnea I Rosa pulcra I

D'essa variedade de talentos tirou por muitas vezes os melhores segredos para a composição

do seu personagem. Ninguém se vestia melhor do que elle nas peças d'epocha, ninguém me-

8

Ii4

os THEATROS DE LISBOA

Ihor do que elle tirava partido das cores, da ele- gância das attitudes, da propriedade dos accio-

a.v-^

nados, das combinações engenliosas de caracte- risação.

Depois, como sabia sempre com perfeição os seus papeis, tornava-se completamente senhor da acção e verdadeiramente attingia por vezes as proporções de artista de primeira ordem.

A doença e a rabuge principiaram a querer moel-o. Elle tem-as moido a ellas. Ainda eu era pequeno elle voltava dos Pyreneos onde fora

D. MARIA

115

tratar-se. Desde então, tem tido artes de en-

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treter seus males e por ahi o vemos, com gran- de alegria nossa, ir passeando a sua enfermida- de e o seu mau humor.

Nâo haaffectaçâon'aquelle estado. Soffre effe- ctivamente com as alternativas do tempo, e duas ou três nuvens paradas no azul do ceu prejudi- cam-o mais do que se pode calcular.

Homem de talento. Excêntrico, teimoso, inna- turavel de espirito de systema, embrulhâo con-

116

os TIIEATROS DE LlSnOA

fuso uma vez ou outra, génio azedo de vez em

quando, e massador fora d'horas, mas homem de talento, de fé, que tem o fogo sagrado e a pro- funda convicção de que os deuses não acaba- ram ainda, e que elle é um.

Na vida, bom, excellente homem, mas ralhão. Dia em que acorde de mau humor, c ter cau- tella. Paliando de tudo, da arte, do municipio, dos caminhos de ferro, da litteratura, da tele-

D. MARIA

117

graphia, do exercito, da poesia, das florestas. . . Gostando de questionar; atirando ás vezes ao acaso, sem visar alguém ou alguma coisa, mas recreando-se com o ruido que faz, e não des- cançando sem gastar a pólvora toda. A malicia vivaz da sua phisionomia revela n'esse instante a ebriedade que moralmente se acha disfructan- do. Se lhe perguntarem, dalli a bocado, quaes são as posições que attacou ou defendeu, lhe não lembra.

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E' solemne até no Martinho.

118

os THEATROS DE LISBOA

Ao mesmo tempo familiar, risonho, engraça-

dissimo ás vezes, sabendo historias soberbas e contando-as bem, com espirito.

Correu mundo, andou por essas terras, lem- bra-sedemil casos, improvisa outros mil... e um.

Em tal epocha . . .

E ahi vae capitulo.

De uma vez o Samsão . . .

Cortaram-lhe o cabello?

Nâo é esse, homem ! O Samsão da Come- die française . . .

Ennuncia devagar, em tom de auctoridade, dando entre-acto ás palavras.

D. MARIA

119

Em elle fechando um pouco os olhos, e abai-

xando a voz, está a brincar.

E' apanhal-o então, e cavaquear uma hora.

Soberbo! Imaginozo. Todo phantasia. . . his- tórica.

Tem visto muita coisa; não é isso o que elle sabe, sabe o resto.

120

os THEATROS DE LISBOA

Tudo está dito acerca de:

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ESinilia, cias IVevés

Ha o artigo do sr. Castilho na Revista Con- temporânea, e toda a gente o leu. Que mais, de- pois d'elle?

E' o caso de fazermos como os jornaes : E' uma grande mulher, não fallcmos mais d'isso !

D. MARIA

121

Emília das Neves tem sido ha muitos annos a mais notável figura do theatro portuguez.

Deffeitos de dicção, incorrecções, tudo quan- to quizerem, mas a mais formosa creatura, a mais bella voz, e a organisação mais rica e in- trépida que temos visto nos nossos palcos.

Emilia das Neves é propriamente uma actriz de alto drama.

Quer-se com a

Lucrécia Borgia,

122

os THEATROS DE LISBOA

com o Gladiador de Ravenna

Precisa gritos, arrancos, soluços, delírios. Precisa paixão ; a paixão em toda a intensi- dade e em toda a sua expressão multiplice. Precisa das lagrimas que escaldam e abrem

D. MARIA

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123

sulcos no rosto; de apertar com anciã o peito como que a suffocar o sangue de ferida go- tejante.

São-lhe necessárias concepções amplas, gran-

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des lances, largos destinos.

Sabe subir as escadas de granito, que condu- zem aos vestibulos dos palácios.

E' a actriz dos grandes papeis, dos grandes casos, das grandes figuras ; a actriz da honra, da virtude, do respeito da pátria, da veneração, do heroismo.

Para esses heroismos e para esses lances, ti- nha ella d'antes um companheiro. Deve haver estremecido na hora em que elle lhe faltou . . *

124

os THEATROS DE LISBOA

Também elle era o homem dos lances difficeis, perigosos, fataes, mas elevados, grandes: o ho- mem das paixões desordenadas

Xasso

Tasso foi um heroe, foi um principe ; foi mo- da!.. .

Gonsiderou-se sempre o galan como o papel mais sublime, e d'ahi provém haver lai falia d'el-

D. MARIA 125

les, apesar de tantos pretenderem sel-o. E' o vulto sympathico o galan, é o favorito das damas, é o artista querido do publico.

Quando se fallava de Tasso, nos seus tempos, era como citar um empresário de paixões, um si- cário de Cupido; os corações estremeciam. Nem é difficil de explicar a grata impressão que es- te género de actores desperta nos ânimos : sâo sempre bons moços : victimas do capricho de um pae avaro, que recusa a filha para se esquivar ao dote, ou que por influencia de preconceitos receia empaUidecer o brilho do seu nome accei- tando por genro algum proletário bem fallante, os galans vivem em continuas afílições em cinco actos, ora inspirando ás platéas o sentimento de piedade por meio de monólogos sentimentaes, ora enternecendo os camarotes por occasião dos impreteriveis diálogos amorosos com a ingénua, que convém ser um de despedida, no fim do primeiro acto, ao partir para a guerra, para a Universidade, ou para algures onde se ganhe glo- ria; e outro quando menos se espera, alh pelo quarto ou quinto acto, justamente na occasião em que a familia da noiva estava para dispor d'ella em beneficio de segundo.

D'elles é sempre a ultima phrase da peça ; se não entoam O' felicita! como no coro final das operas, exprimem este pensamento por qualquer variante que torne bem notório ao publico que o galan convertido em marido, o que equivale a

126 os THEATROS DE LISBOA

dizer convertido em centro porque os maridos são sempre centros, excepto nas farças em que são . . . graciosos vae gozar no futuro todas as delicias da felicidade terrestre, de que Anna Ra- dcliffe e Perrea Aragão, em suas edificativas no- vellas faziam a synopse n'esta phrase: «casaram, e tiveram muitos filhos ! »

Ao galan se incumbem sempre as heroicida- des dramáticas. Se houver incêndio, é elle quem salva a dama, e o pae da dama e a familia da dama I

Se a desgraça vem pairar no lar em que a donzella passa seus dias, e a miséria se affigu- ra próxima, o galan embora não tenha aonde cair morto, logo trata de arranjar fortuna, vol- tando rico em breve, casando com a menina, e pagando aos credores do pae !

Se os cavallos que conduzem a carruagem em que vae a joven, tomam o freio nos dentes e ameaçam ruina total á menina e á traquitana, quem é que atira comsigo á frente da parelha e faz o milagre de suspender-lhe o curso? O ga- lan; por força: o galan!

Nos primeiros dois actos da peça dizem to- dos mal d'elle, para o seu triumpho ser mais completo na scena da reconciliação paterna, que

D. MARIA 12'

é O rmdô das comedias; uns consideram-o po- bre, outros altivo, algum descobre nódoa no seu nascimento, este afifiança que elle é jogador, e aquelle rouba qualquer coisa e accusa-o de la- drão !

Contra este homem conspiram todos os ele- mentos, que possam concorrer para a destruição de uma creatura, mas tão subido é seu valor, tão discretos seus instiiictos, que vae tratando de restabelecer o seu credito até se justificar com a maior clareza, confundindo a calumnia, perdoando ao calumniador, e exultando no rega- ço da victoria !

Todos o amam, todos o applaudem e lhe de- sejam o que mais for para bem. Elle é sempre o pagem, o principe, o poeta, o filho segundo, o infeliz, o martyr, o sympathico. A todos interes- sa, a todos commove ! Applausos com as mãos na platéa: applausos de nariz nos camarotes: palmas, e pranto! Vejam, por exemplo, o que aconteceu n'uma recita do Cego. Lembram-se ainda d'esse melodrama, que fez durante uns mezes a fortuna do theatro normal? Era a his- toria de uma familia dispersa pelo mundo, que, para jubilo da moral, se encontrava reunida no quinto acto, o que promovia um diluvio de re- conhecimentos: os pães abraçavam seus filhos, os irmãos gritavam pelas irmãs, os tios pelas tias, e causava estranhesa não apparecerem os vi-

128

os THEATROS DE LISBOA.

sinhos a inquirir a causa de similhante algazar- ra. Tasso era o protogonista, Tasso era o heroe,

Tasso era o cego. Todas as fatalidades, que ao ente humano podem succeder sobre a terra, agrupavam-se neste drama em redor de um in- feliz caixeiro, oppresso por toda a qualidade de precauço. Era roubado, tinha fogo em casa, e cegava de repente. A moral, n'esta composição pantafassuda, tão depressa estava pelos pés co- mo pela cabeça : o pae nobre reservava até ao

D. MARIA 129

quinto acto o bom conceito em que tinha a es- posa, que Deus levara para si, e, como an- dasse de quisilia com um filho que lhe sahira traquina, erguia as mãos ao céo ao encontrar uma carta da mulher, escripta a outro homem, dizendo-lhe c[ue o filho era d'elle : «Oh! felici- dade! exclamava pouco mais ou menos este pae nobre, o meu fillio é filho d'outro ! minha espo- sa enganou-me, cobriu-me de opprobrio e de ri- diculo ! Parabéns ! parabéns, não sou o pae de meu filho E então prestigio solemne do ab- surdo, que até na moral se faz applaudir! o publico estrebuchava de Cí-mmoção. Tasso era um desgraçado sublime! Kum dos lances mais dramáticos, uma mulher que estava nas varandas vendo o espectáculo, e que chorava como per- dida, recebendo todas as sensações porque pas- sava o Cego, exclamava, alta voz, entre soluços :

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Abençoado seja o pão, que aquelle homem ganha!

9

i30

os THEÀTROS DE LISBOA

Tasso contava sempre esta historia. Quando elle appareceu na arte, saudou-o a imprensa e saudaram-o as mulheres. Dizia-se sempre : Elegante como o Tasso 1 Formosisssimo como o Tasso !

Vestindo casaca como o Tasso!

A casaca tem sido cm lodos os tempos o pe- sadelo do portuguez. Ha quem prefira não ir a um baile ou a uma festa, ha até quem nâo se queira casar, para nâo ter de vestir casaca.

D. MARIA 131

Tasso, bonito homem, esbelto, de cara e pre- sença agradável, perna direita, grandes collari- nhos, e grandes ares, deitava-se á casaca por qualquer coisa, vivia de casaca, almoçava de ca- saca, dormia de casaca!

As mulheres pelavam-se por isso!

E' tão fino ! disiam ellas. Tâo fino !

EUe, excellente rapaz e nâo o houve nunca melhor habituou-se docemente á elegância e a deixar-se amar. Amavam-o destemperadamen- te. Chegou a ser horrivel, mas gloriosa, aquel- la massada !

Um compendio de victorias e conquistas!

Estava moço, esbelto, e solteiro; e era o na- morado, o amante, o fructo prohibido, em cada recita; podemos fazer idéa das rixas, mal- querenças, ciúmes, e prantos por seu respeito. Os galans costumam ser odiados pelas tias, o que denota n'elles o crime de celibatários por vocação, e astutos fugitivos ao recrutamento do hymineu. Que dihgencias as actrizes nâo fariam para o levarem para o bom principio! quantas vezes haviam de dizer-lhe que recusavam por causa d^elle propostas para casamento, de diver- sos, que lhes arrastavam a aza, todos elles do- tados de intenções honestas, mas que infehz- mente se viam obrigados a esperar pela morte, este do pae, aquelle da mãe, o outro da mulher, tudo parentes apopleticos, éticos, ou hydropicos, que estavam para pouca dura! Quem sabe se

132 os THE ATROS DE LISBOA

ellas lhe mostravam a elle mesmo as cartas com o fim de lhe accender ciúmes: mas, debal- de! todo o bom galan lem d'entro d'alma seis liwos sobre a arte d'amar, sem contarmos o d'Ovidio; levou por certo este homem fehz uma existência de principe de conto da carochinha, no centro do ruido, raivas, tempestades, inju- rias e folias da vida de palco, que tem também as suas horas de recordações alegres e cordeaes, da boa harmonia, das enchentes, e dos trium- phos!

Nenhuma das actrizes d'esse tempo era feia e todas mais ou menos tinham disposições para a arte; os que me estão lendo bem se lembram ainda d'ellas; hoje, gordas, velhas, coitadas! nâo ha forma de adivinhar em suas pessoas os bellos olhos d'outr'ora, a sedução, o chiste, o ar catita, a cintura de silpho, o cambrè. E depois, com actrizes portuguezas não pode viver- se bem sem lhes fazer a corte; são uma espé- cie de pasteis, de sentimento: o amor é o seu primeiro guia, assim que podem engatinhar fa- zendo firmeza nas mãos; aos seis annos na- moram e faliam d'isso; a actriz é extremosa em tudo: amisade ó uma palavra fabulosa, que devemos sem ceremonia substituir por «amor»!

E o mais é que lodo o mal vem d'alii ! . Ama-se de mais ! e estuda-se de menos ! ...

D. MARIA 133

A differença dos nossos theatros aos do es- trangeiro é que, por cá, ama-se com decência, com sinceridade, e sem escândalo; a venalidade não reside n'estes peitos lusitanos, e não ha exemplo d'estas santas raparigas arruinarem vi- v'alnia; apaixonam-se por escolha, discretamen^ te, conforme ao exemplo que receberam de seus pães, seteem d'isso. «Eu em me casando, lar- go o iheatro ! » dizem ellas; depois, casam com a condição de o não deixarem, porque quem vi- veu feliz no tablado não pode existir fora d'elle. As portuguezas são sensíveis, e a paixão respi- ra no palco, deita a cabeça pelo buraco do pon- to, e sorve-a a gente no fumo da rampa!

Em quasi todo o tempo da carreira de Tasso, as suas prendas artisticas deveram sem- pre tudo exclusivamente á natureza; nos últi- mos annos porem preoccupou-se muito, pro- fundamente, de ennobrecer no estudo o seu ta- lento. Mas, havia-se habituado a decoiar de le- ve, não estava nunca senhor da peça, sahia-lhe a phrase incerta, convulsa, de um andamento caprichoso conforme o auxilio que o ponto lhe prestasse.

Foi, no ultimo periodo da vida, artista de consciência, trabalhando incessantemente, en- grandecendo a sua reputação; a difficuldade tor- nou-se mais grave, por isso mesmo que, na ho- ra em que o futuro sorrira áquella juvenil voca- ção no despontar, haviam as distracções da mo-

134

os THEATROS DE LISBOA

cidade perturbado os voos de um talento que o prazer chamava para si.

Fez heroismos de paciência, mas tarde. Deu á memoria encargos com que ella não podia, e contra os quaes protestava. Depois, bem vêem, em um actor não sabendo o seu papel na per- feição não pode quasi nunca ser grande. Uma ou outra vez o foi, em scenas rápidas, lances exa- gerados, chorando, enlouquecendo, gritando: ca-

sos de jogo, de allucinação, de ciúme, de re- morso . . .

D. MARIA

135

Era um actor de raça. Ninguém nunca fez

mais, sabendo tão pouco. Tinha coração, tinha alma: era um homem.

Gomo aqaelles grandes vir- taoses, que percorrem com igual poder e com igual facilidade to- da a gamma musical, assim a maleabilidade do talento de las- so se prestava ás manifesta- ções mais variadas da idéa thea- tral.

Engraçado sem esforço n'a- quelle rápido acto do Amo em quinze minutos,

136

os THEATROS DE LISBOA

dislincto e garboso sem ser presumido nos

Fidalgos de Bois Doré,

peça admirável, como composição e como csly- lo, da grande George Sand.

Drama» que saliiu completamente da tisana iheatral, que se impinge por ahi ha trinta an- nos a íio em lodos os theatros mais como sua- doiro que como divertimento.

D. MARIA

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Terrífico no velho da

Vida de um rapaz pobre,

Tasso sabia ser allernaclamenle a mocidade des- cuidosa e risonha: a edade viiil, com a frieza e por vezes a crueldade que os annos trazem, e a velhice descarnada e tremula: agitada, ainda em cima, pelos remorsos, e pelos terrores.

Os seus amigos extranhavam-o nos últimos tempos. Triste, enfastiado das coisas; descon- fiado da saúde e da vida, queixava-se de se sen- tir fatigado e doeute.

Não seja apprehensivo, Tasso! Vossê vende saúde. Basta vel-o !

138 os THEATROS DE LISBOA

EUe sorria-se.

A pouco e pouco foi-lhe esquecendo sorrir, quando lhe diziam isso. N'uma noite de verão queixou-se no theatro da Trindade de haver ti- do que parar dez vezes para poder subir a cal- çada do Duque.

: Sentias calor, como toda a gente, respon- deram-lhe.

Sentia mais do que isso; retrocou elle.

No dia seguinte procurou uin medico, fez-sc examinar, e recolheu -se a casa.

O medico encontrára-lhe uma angina pecto- ris, o que quer que seja da familia das lezões de coração e mandou-lhc que puzesse um cáustico. Na noite immediata, mais triste^ mais abatido, mais desconsolado do que nunca, disse a um amigo na occasião de se deitar :

não me torno a levantar d'aqui ! .

Alta noite, tocaram a fogo os sinos. Elle con- tou as badaladas ... O fogo era á Graça; as ba- daladas eram treze, o numero fatal.

Treze! disse.

Momentos depois pediu a mão á mulher, deu- Ihe um beijo, e disse-lhe que ia descançar.

Descançou. O cegador que ceifa, ao sol, des- de o romper da manhã, chega a hora em que precisa descançar também. Elle trabalhara desde os primeiros annos da vida, incessantemente, fe- brilmente, vivendo do coração, e fazendo-se ap-

D. MARIA

•oooo

139

plauilir á custa d'elle: o coração cançou-se d'is- so, e matou-o !

Tem tido poucos galans o theatro de D. Ma- ria, mas, em compensação tem tido grande nu- mero de graciosos.

Citemos a passagem por aquelle palco do actor

IMax^colino

O chistoso e original Marcolino, um espirito que a doença atrophiou, e que a morte veiu apagar na flor da vida: e o actor

Carvalho

140

os THEATROS DE LISBOA

de faculdades inferiores áquelle, mas agra- dável por sua jovialidade, pela facécia bur-

gueza.

Marcolino era o Scapin, Carvalho era o Re-

bolo.

- Era um o espirito, outro a graçola.

Ambos elles tinham merecimento, mas Mar- colino era uns poucos de homens e Carvalho era um homem só.

Os grandes heroes do riso n'este thealro, os generaes da gargalhada, teem sido principal- mente :

D. MARIA

141

Sargcdas.

Theodorico,

14t

os THEATROS DE LISBOA

y -^ -^ ^ s-

Ccsar

Anlonio Pedro,

D. MABIA

143

Vamos primeiro que todos ao

Sargedas

Nenhum liomcm se chama cl'es1a ou d'aquella forma para nos dislrahir o animo ao ouvir-lhe o nome, senão nas comedias ou novelas antigas do género burlesco ; Manuel Mendes é uma far- ça, e Bertholdo uma farçola em feitio de conlo. Perante a pia baptismal, nâo ha hoje pae que diga ao sacerdote que lhe chame Pancracio ao filho. Os nomes de farça acabaram cora os en- tremezes. Quando um homem se chama Chiis- pim nâo tem obrigação de ser criado de come- dia, como no reportório antigo; mas quando se chama Chrispiniano, a historia tem mais que sondar . . . E quando fôr Chrispiniano Pantaleão. não padece duvida que haja contos largos a re- ferir do caso ! E' o que succede d'esta vez.

Sargedas, era filho de Manoel António Sar-

144

os THEATROS DE LISBOA

gedas. negociante de cabedal e mestre examina- do no oflicio de sapateiro.

Existindo, n'aquelle tempo, as bandeiras de

oíTicios, e a Casa dos Vinte e quatro que era o Desembargo do Paço dos homens officiaes, não havia para os mestres de qualquer officio honra que mais lhes alegrasse o olho; ora, sendo, o pae do pequenito Sargedas solicito na educa- ção de seus filhos, e engrandecimento de sua familia, se pode suppór que o acompanhas- sem grandes ambições.

Fez promessa de que o primeiro filho que lhe nascesse, logo que fosse juiz, teria o nome de um dos santos da bandeira 1

Este pouco!

Fizeram-sc as eleições, como de costume, no

D. MARIA 145

fim do anno de 1812; em julho de 1813 nas- ceu o desejado menino.

O pae, fiel á promessa feita, hesitou em lhe chamar Chrispiniano, creio que por ser mais comprido e, como o santo do dia (27 de ju- lho) era S. Pantaleâo, deu-se ao pequeno o no- me de Chrispiniano Pantaleâo, nome que sem- pre mais ou menos lhe offendeu a vaidade, mas que parecia talhado para um actor cómico, por ser tão gracioso como a profissão.

De mais a mais, a figura d'elle dizia engraça-

damente com a profissão e com o nome! . . .

Bem devem de recordar-se ainda d'esse ori- ginalissimo maganão, verdadeira figura de fino

10

i46

os THEATROS DE LISBOA

gracioso de comedia; pequeno e magro; ama-

relito, mas risonho ; phisionomia que se presta- va a toda a caracterisação, por mais variada, por mais opposta, e lhe permittia representar com egual habihdade, com egual graça, com egual correcção, um pequeno de doze annos, e ... um

ifi-.

velho de setental

Fechara o theatro do Salitre, e a maior parte dos artistas formaram uma companhia

D. MARIA 147

de que ficou sendo ensaiador o francez Emí- lio Doux no iheatro da rua dos Condes.

O Epiphanio occupou o lugar de primeiro actor n'esta companhia. Emilio Doux era um mau actor que appareceu em Portugal vindo com a primei- ra companhia franceza que representou em Lis- boa, a companhia de Paul e de mad. Charton. Diz-se que nunca conseguia representar papel em que a pateada lhe nâo desse naufrágio. En- carregado de partes de importância secundaria, era ainda assim sacrificado ao desagrado pu- blico.

Este actor insuíficiente, este actor pateado, era todavia um conhecedor dos segredos da sce- na e um esmerado cultor da arte ! Este actor in- capaz, que nâo sabia representar, era um bom mestre que sabia ensinar! . . .

Sargedas, que tivera, desde pequeno, gos- to irresistível pelo theatro, vivia a ler comedias e a pensar nellas.

Os theatros particulares da rua de S. Félix, Escolas Geraes, rua da Arrábida e Gascão, en- tonteciam-lhe a ideia; parava no meio da rua pa- ra declamar, andava a fallar só, não se recrea- va senão em solilóquios dramáticos, parecia nâo estar, como diz o outrOj muito bom de cabeçal E n essa occasiâo, logo n'essa occasiâo I ap- pareceu um annuncio de Emilio Doux para quem quizesse matricular-se na escola de declamação: como a hora era das sete ás nove, e ás nove é

148

os THEATROS DE LISBOA

que elle entrava para um escriptorio, onde o pae o empregara, correu a malricular-se em compa-

nhia de dois sócios seus, Vannez e Meirelles.

Costuma diser-se Não ha nada melhor que ser pequeno! e effectivamente a estatura breve tem como vantagens gastar um homem menos panno para o fato, escon- der-se facilmente, e pas- sar por creança quando for preciso; ao Sargedas, porem, deu-lhe sempre que fazer, o tamanho de que Deus o dotara. O próprio Emilio Doux, de- pois de o matricular, sor- riu-se na despedida, e dis- se-lhe desdenhosamente: Au rcvoir, petit !

D. MARIA

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O peor do caso, é que Emilio Doux, do que precisava era de galans, e nem o nosso homem nem Meirelles eram prendados de grande belle- za para papeis de seductor; Vannez era a ílôr do triumvirato, é seria provavelmente o que mais devia cair em graça.

Chegou o dia, foi o Sargedas para o theatro

-ZHJ^,

como um rapaz para a confissão, sem pinga de sangue! Declamou um papel, a que o ensaiador mesmo dava as deixas phrase final da falia que precede e o esmorecimento que o oppri- mia trocou-se em alegria á proporção que via rir o Doux, que no fim lhe disse Bon, rapaz! bon! Distribuiram-se-lhe outros papeis, e uma vez,

ISO os THEATROS DE LISBOA

acabada a lição, foi detido pelo ensaiador, para repetir diante de

A.liiiei<la< Gí-arrett

então inspector dos theatros.

O génio esplendido que restaurou o theatro portuguez, não pelos seus dramas, mas pelo impulso que deu á litteratura dramática nacio- nal, era o verdadeiro pae dos artistas e ninguém conseguiu melhor fazer-se comprehender por el- les, tanta era a amenidade de maneiras e a gra- ça affavel de .expressão com que acolhia todos. Verdadeiro apostolo das artes, fcz acreditar a Sargedas n'um futuro artístico mais serio, mais honroso, mais lucralivo, do que até então a vi- da da scena proporcionara!

Em maio de 1837, debutou no papel de Jo- sé Maria do Amivenario, com Theodorico ve-

D. MARIA 151

lho, Florinda e Maria da Luz, alcançando ap- plausos, e o que era ainda mais, um abra- ço de Garrett !

Emilio Doux para lhe aproveitar a figura, deu- Ihe os papeis de Galucho, Prospero e Vicente,

Gaiato de Lisboa,

Theofilo, André Rei de França, etc. E por todo este serviço recebeu o pobre artista no fim de um anno completo um quarto de beneficio, que de- duzidas as despezas, lhe rendeu trinta mil réis! . Diacho ! E' certo que a gloria deve pagar por si mesma ; mas ella na nossa terra ... é tão ca- loteira!

O pobre moço teve de consolar-se com a ar- te, e com a amisade de Garrett.

Muitas vezes o auctor do Auto de Gil Vicente lhe prognosticou largo futuro artistico e o acon- selhou a fugir da opera, que o conde de Farrobo estabelecera, dizendo-lhe que preferisse o dra- ma e a comedia, visto Deus não o chamar para a musica!

do2

os THEATROS DE LISBOA

Sou escriplurado, respondia ellel Que re- médio senão obedecer?!

Em compensação dos conselhos que lhe de- veu, servia-lhe como o criado ao Mohère; Gar-

rett ia-lhe lendo as suas obras scenicas, a pou- co e pouco, todas as manhãs, e substituía ou cortava, ouvindo-o. Foi n'este tempo que, de- pois de ter escripto o drama tentou a comedia e a farça, começando pela Sobrinha do Marquez e Prophecias^do Bandarra, aproveitando para al- gumas falias do primeiro acto d*esta as historias do pae sapateiro, que Sargedas lhe contava e que elle se recreava em ouvir !

Durante annos Sargedas foi moda : a peior das coisas que pode succedcr a um homem.

Ser moda c sempre mau, para um escriptor ou para um actor ; para um artista, emfim.

D. MARIA 153

Convém duvidar sempre, nos elogios da im- prensa ou nos favores do publico, do :

Pulchre

Bem

Rede!...

Em quanto se exaltam as prendas que agra- dam por mania, deixa- se de fazer reparo nas qualidades solidas : depois passa a moda, e en- volve-se de um dia para o outro no mesmo es- quecimento as qualidades e os defeitos de um talento.

Não ha estima séria senão a que vae di- reita ao que oíTerece duração por entre o que não faz senão bulha.

Quando elle não conseguiu esquivar-se um dia ás amarguras que vão sempre de mescla com a gloria, voltou as costas a Lisboa e quiz ir tra- balhar e divertir-se na província.

Correu Sécca e Mécca.

Trabalhou pouco e divertiu-se muito.

Que de historias contava, na volta, e coma as contava bem !

Lembra-me ainda do que eu ri, quando elle narrava, por exemplo, a sua entrada em Villa Real de Santo António.

Onde é aqui a estalagem, senhor? pergun- tou a um homem do sitio.

Na cadeia I respondeu o interrogado.

154 os THEATROS DE LISBOA

Na cadeia! replicou Sargedas, assustado.

Na cadeia, porque?

Não ha aqui estalagem : responderam-lhe. O carcereiro é que costuma acceitar hospedes, mesmo na cadeia, porque não ha presos.

Não ha presos! Moralisada terra em que não ha malvados !

Mas, temendo sempre os direitos do chaveiro, pareceu-lhe melhor requestar o agazalho de um padeiro, que lhe proporcionasse um vão de es- cada com um colxão em cima do lagedo.

Outra historia boa era a chegada d'elle a Faro.

D. MARIA

U- ■^ N/- N^-— ~v

155

Então isto é que é Faro? diz para o arrieiro. Sim senhor: está o coliegio I

Qual coUegio?

O triatol

Apeou-se, atravessou um grande corredor e en- controu um amigo que o apresentou á maior parte dos sócios, que n'essa occasião estava no theatro.

O sr. Sargedas ! disse o amigo apresen- tando-o.

Ah ! este senhor também é Sargedas . . . !

iÕ6 os THEÀTROS DE LISBOA

replicou um dos sócios, perguntando-lhe depois com a melhor boa : Então o que é feito do sr. seu pae? Quando se resolve elle a vir até cá?

Sargedas ia a responder-lhe «Já morreu!» quando o amigo atalhou:

O homem que nós esperamos é este. este é que é o Sargedas actor, que eu conheço !

Quando ao cabo de uns poucos de annos re- gressou a Lisboa, entrou no theatro de D. Maria.

Foi escripturado no dia 6 de outubro de 1852, amiversario da contra-r evolução do du- que de Saldanha, que lhe rendeu uma celebre pateada por causa do hymno, pateada memo- rável.

Assignou a escriptura no dia 10 d'esse mez, anniversario da sahida das tropas de D. Pedro, em 1833 das linhas de Lisboa, em que deveu a ser pequeno não ficar estirado ao do palá- cio das Larangeiras com uma bala que lhe levou alguns cabellos, que com o medo se lhe tinham posto em ; recebeu o primeiro papel em 26 de Outubro; n'este dia teve sua mâc um ataque de paralisia; foi apresentado ao director do theatro para coUocação de scena, n uma sexta- feira 14 de novembro, em que houve um tremor de terra ; e teve o primeiro ensaio de apuro, marcado na tabeliã, a 15 de novembro, dia da morte da rainha !

Elle tirava com graça a prova a todos estes

MARIA 157

acontecimentos, que lhe representavam cifras I e realmente dir-se-hia que todas essas coinci- dências foram presagios das contrariedades, que o esperavam na época que depois atravessou!

A escola dos theatros de provincia havia pre- judicado, até certo ponto, a forma correcta e fi- na da interpretação que costumava dar aos pa- peis: na occasião em que regressou a Lisboa, aquelle talento fulgurante' de espirito e de chiste parecia haver perdido a melhor parte da sua ori- ginalidade, e não poder aspirar a viver no animo do publico senão pela lembrança dos triumphos que alcançara I

Uma secreta tristesa lhe opprimiu o cora- ção, ao julgar perdidas para si as glorias conso- ladoras da scena; e todo o estudo a que se en- tregou desde esse período, consistiu em emen- dar os defeitos de escola, que a provincia im- primira no caracter do seu talento!

ímproba tarefa ! O actor que ao entrar da vi- da, no momento em que a sua vocação desa- brocha ardente e juvenil, vence n'um breve pe- ríodo, auxiliado pela vehemencia dos instinctos, a distancia que a arte costuma proporcionar ao estudo e ao tempo, não commette decerto a me- tade do heroismo que um actor consegue, quan- do, um momento alheadas as tendências do seu talento no que elle possa ter de mais pronuncia- do e especial, de novo emprehende o estudo que não tem por fim, como outr'ora, descobrir- s

158

os THEATROS DE LISBOA

lhe horisontes que mal presentia, mas destruir os defeitos e os vicios que uma escola estranha á arte havia, com o tempo, infli- gido na sua Índole.

Elle intristeceu então, o pobre Sargedas, e per- deu por uns tempos a amável alegria com que esmaltava na vida tudo quanto fazia e dizia.

Pela rua até, de mais a mais, não havia ami- -^^--^ go tolo que o nâo incommodasse:

Estás velho, Sargedas 1

Estou, resmungava elle. Outro ia abraçal-o para lhe dizer: Estás mudado 1 muito mudado 1

D. MARIA

159

Bem linha rasâo a copla da peça em que elle se estreara outr'ora:

Quem tem mazella ...

O boato de estar velho e gasto, prejudicou-o por todos os modos. Os authores e os traducto- res fugiam de lhe dar papeis, ou se lh'os conce- diam eram differentes do seu género ; na escri- ptura d'elle não havia como nas dos seus colle- ga§ a condição de representar j^nmárasj^ar- tes, e elle então conheceu os encargos d'essa falta. Concorreu tudo para a sua queda. O com- missario do theatro, no fim da primeira época de escriptura offerecia-lhe duas terças partes do or- denado que então tinha, para o escripturar de novo ! Uma carta de

XS.o<li:*ig;o da, Fonseca, Miag-alliaes

160 os THEATROS DE LISBQA

ao commissario, dizendo-lhe:

Amigo

O actor Sargedas ficou em Lisboa a ins- tancias minhas, e eu prometti-lhe para o fu- turo as mais vantajosas condições, por tan- to,, , etc.

fez com que se mudasse de resolução, mas nâo impediu que se continuasse a dizer por toda a parte:

O Sargedas parece outro !

O Sargedas está perdido I

E quando o viram no Dote de Suzana, no Roubo etc, peças que n'esta época se repeti- ram, applaudiam-o, mas iam dizendo sem- pre:

O Sargedas está perdido I

Ah ! é uma coisa difficil, a gloria! Nâo se conhece bonito que custe mais caro, e que se quebre tão facilmente I

O único que tem conseguido fazel-a durar com vida e saúde e ir mugindo-a com toda a pa-

D. MARIA

161

chorra como quem muge uma vacca, é o nosso

Tlieodorico

Senle-se em Theodorico a força, a vida, a ini- ciativa, a individualidade que caracterisam os actores da ve- lha guarda. EUe está velho, um pouco affastado da sce- na e das auras populares, fo- ra dos reclames e do incen* so quotidiano com que os traductores officiosos recom- /?//) mendam nas folhas publicas 'i^^ o desempenho pyramidal das ^^J peças de que elles recebem 11

463

os THEATROS DE LISBOA

direitos de receita; são restos, talvez, mas valem ainda hoje mais aquelles restos do que as esté- reis premicias de muita novidade, que a toda a ho- ra por ahi assalta a gloria, como quem lhe rouba o lenço.

E' alegre, é vivaz, é forte: impõe o riso, tor- na communicativa a sua galhofa, nâo se pode

estar serio em o vendo n'uma peça jovial; em vez

D. MARIA 163

de tirar, como succede a alguns, a graça ás co-

medias— aiigmenta-lha. E' o pimpão da ale- gria!

Demorômo-nos a examinar por um momento a sua historia.

Havendo-se estreado em 1836 n'um theatro particular, alcançou tanta aura popular que lo- go em 1837 o convocaram como escripturado para o theatro do Salitre, onde representou no drama O Serralheiro HoUandez.

Estava o Salitre irregularissimo n'essa época; e, movido pelo desgosto que devia causar-lhe o estado em que o theatro se incontrava, acceitou em 1838 uma escriptura para o theatro da rua dos Condes, conservando-se ahi até 1840, encar- regado apenas de papeis de importância medíocre

164 08 THEATROS DE LISBOA

a que seria difficil attribuir género, e em que a ín- dole do artista custosamente poderia revelar as tendências que devessem leval-o a alguma preferi- da escola. Desde 1840 até 1843 fez parte da com- panhia doesse theatro, sendo empresário o con- de de Farrobo, e tornou-se estimado do publi- co pelo acertado desempenho de papeis nas pe- ças Os chapéus sediciosos, As órfãs de Lisboa, Amazampo ou a descoberta da China, etc.

N'esta época, subiu á scena a traducçâo do drama, ou «mysterio» para irmos d^accordo com a classificação do auctor, Don Jiian de Mara- na, de Dumas. O elemento do bem e do mal, symbolisados n'um anjo propicio e n um anjo adverso, formam o fundo d'esta composição dra- mática que requer uma execução esmerada e completa para se fazer tolerar. O actor Roza, en- carregado do papel de Anjo mau, adoeceu no dia immediato á primeira representação: Theo- dorico, incumbido de o substituir para a recita seguinte,' estudou o papel em doze horas e con- seguiu fazer-se applaudir no desempenho d'esta parte que se lhe conservou em todas as outras representações.

Em 1843 foi convocado para sócio, e classi- ficado primeiro artista por um jury, nomeado pe- lo governo, de que faziam parte os srs. Cascaes, Felner, etc. O velho Achard do Capitão Paulo, o traidor António na Dama de San Tropez, e o escravo na Pobre das ruinas, do sr. Mendes

U. MARIA

165

Leal, foram os seus papeis de mais notável e festejada execução até 1846, época em que en- trou para o theatro de D. Maria II como socie- tário, em virtude do decreto de 30 de janeiro do mesmo anno; sendo, durante o tempo da asso- ciação, que durou de 1846 a 1853, eleito pelos seus coUegas para o lugar de director, cargo que exerceu até ao fim da sociedade, assim como o de thesoureiro a que foi eleito em 4 de maio de 1848.

N'esta época mais do que em nenhuma ou- tra, foi o talento d'este actor prestavel ao thea- tro. Principalmente no

Alcaide de Faro revelou na execução do papel de protogonista uma-

166 os TIIEATROS DE LISBOA

decidida superioridade. Era o vulto do alcaide em toda a elevação, dignidade, e grandeza, que o auctor lhe attribuira, sem que os hábitos de de- clamação melodramática atraiçoassem d'essa vez os esforços que fizera para os esquecer, e a mestria com que o conseguira.

E todavia, cruel zombaria do talento huma- no ! o actor que nos impressionara e commo- vera pela interpretação grandiosa que soubera dar ao papel do Alcaide, quiz incontrar recur- sos na sua veia dramática para vir apagar a im- pressão da véspera, e apresentou-se-nos no Dia- bo a quatro, de rosto bezuntado e mãos sujas, n'um ignóbil papel de sapateiro bêbado, para obrigar a rir as platéas que o seu talento li- nha conseguido, i^elo Alcaide, fazer chorar!

Ah!

Não sejamos ingratos...

Esse homem foi por muitos annos o artista por excellencia da galhofíi nacional. Decoravam- se os seus ditos, repetiam-se os seus chistes, imitavam-se os seus tregeitos...

Percorria a gamma dos sentimentos.

Das oito ás onze fazia chorar as creanças, mettia medo ás mães, inquietava o auditório, as- sustado e medroso ao vcl-o c ouvil-o.

A meia noite estalava a gente de riso, tão de- pressa elle apparecia na farça e cantarolava por exemplo

D. MAIUA

Se vens ao casamento Com esse easacào...

O Duende! Onde ficas tu na historia do theatro...! E entretanto quem nos dera agora rir como então riamos!...

Ghamaram-lhe exagerado.

Nenhum dos actores dramáticos, que teem atravessado o periodo decorrido de mil oitocen- tos e cincoenta até hoje, se conserva isento dos defeitos qne o género de obras que teem repre- sentado necessariamente havia de imprimir no seu caracter artistico. Se em Theodorico foram mais sahentes estes resultados, é porque o género dos seus papeis, mais do que o de todos os outros, conduz o actor a esses mesmos descaminhos.

Se absolvemos, em attençâo ao género das peças, os galãs e os centros que exageram; como havemos de condemnar o traidor por cair n'es-

168 os THEATROS DE LISBOA

ses defeitos !? O traidor é o mais absolvivel de todos, porque no traidor se cifra o melodrama; dizer melodrama, ou dizer traidor, é a mesma cousa. E se Theodorico exagera, é para dar aos sombrios vultos de que costuma encarregar-se, todo o horror, toda a difformidade que esta ordem de papeis possa pedir. N'uma peça. Fé, Esperança, e Caridade, lembra-me que elle representava por tal forma possuido do ca- racter do personagem, que chegou a revoltar-se o publico contra o typo e a patear o actor, como único desafogo que podia ter para com um ty- ranno cuja preversidade o incommodava como se fossem cousas reaes tudo que se estava pas- sando da caixa do ponto para !

Os papeis de traidor nos melodramas são co- mo as primeiras composições de Verdi, que não exigiam methodo, correcção e gosto, mós largos pulmões para cobrir com a voz a opulência de uma instrumentação ruidosa. Quando durante al- gum tempo Theodorico exagerava, era por- que o author havia exagerado também na vehe- mencia das apostrophes, na invenção de perso- nagens monstruosos, nas explosões de uma ora- tória grutesca e hyperbolica !

Mas, infelizmente, esses defeitos haviam de perpetuar-se, e por mais diligencias que o ar- tista fizesse para corrigir-se d'elles nas peças de diversa Índole, transpareciam forçosamente atra- vés dos esforços com que procurasse occultal-os.

D. MARIA 169

E' O que succedeu.

Em muitas occasiões o habito, essa segunda natureza, atraiçoa-o: insensivelmente vae er- guendo a voz, abrindo os braços, recuando para depois avançar, e cae ás vezes nos defeitos que conseguiu evitar na véspera se acaso foi recita que lhe merecesse entregar-se a esforços atura- dos e constantes.

O que ha mais especial e pronunciado na feição artistica d'este actor, é que elle parece realisar o qni-pro-qiio chistoso de Prospero e Vi- cente: é dois actores, dois caracteres, dois artis- tas, dois Theodoricos n um só, conforme o pu- blico que diante de si !

Se lhe derem um auditório illustrado, se ao entrar em scenavirnos primeiros bancos da pla- téa algumas das illustrações litterarias do nosso paiz, representará o seu papel dando provas da alta comprehensão que o distingue, de gran- de conhecimento de scena, e de bom methodo na declamação. Trata-se, porém, de uma repre- sentação em beneficio, c consta-lhe que caiu n aquella noite em pezo sobre a platéa todo o bairro d'Alcantara por ser beneficio de alguém que more para a Pampulha, vereis que é outro! Tem outra voz, outros gestos, outro jogo de phisionomia, accentuação diversa nas phra- ses, e uma interpretação totalmente diíTerente da que na recita anterior havia dado ao papel!

E ninguém se lembra n'essas noites de que

Í70

os THEATROS DE LISBOA

elle é também o velho escravo da Cora, ou o pae

da lorette no Porteiro da casa ??." 15, ancião exercitado nas lides da choradeira e da garga- lhada, do terror e da risota; emulo dos Epifa- nios, dos Tassos, dos Victorinos, nos triumphos da vingança, da dôr, e do soluço: e rival dos Sargedas, dos Lisboas, na pilhéria: superior n'is- so mesmo, talvez a clles, superior até á própria

Ba.x*l>aira.

MARIA

171

que era uma velha gorda, muito esperta, muito engraçada, muito mal feitona, que teve durante annos o privilegio de produzir cólicas de riso ao publico de Lisboa, e que era realmente impagá- vel de graça e de ratice na parteira do Trapei- ro, e na Madame Pipelet dos Mysterios de Pa- ris: montanhosa, disforme, grutesca, um boi vestido de mulher!...

António Pedro

Grandemente e sinceramente modesto; nem a affectação hypocrita dos vaidosos sem cora- gem, nem a baixeza comprimenteira das nulli- dades: simplicidade natural, o modo expontâneo

172

os THEATROS DE LISBOA

de um homem que nem se ares de charlatão,

nem ares de humilde. O seu mundo é o thealro. Vive para elle, para elle trata de si. Em d'aUi saindo é um patusco que se perde

na onda, que se confunde na turba.

D. MARIA

■OxOOO

173

Exactamente como os escriptores notáveis desdenham ás vezes brilhar nas conversações, costumados como andam a brilhar para o pu- blico, quando, em vez de fallarem com três pes- soas, faliam a quinze mil do alto de um artigo ou de um livro, assim elle não se preoccupa com a rua nem com a praça : a sua praça e a sua rua, é o tablado.

fora passa na sombra como um homem

qualquer, que gosta de um petisquinho á noite n'uma tasca aceiada, sabe onde se frege o lin- guado com mais amor, e onde a azeitona é mais bem temperada.

No tablado é o personagem.

174

os TIIEATROS DK Í.ISBOA

-ml il

O judeu do Juiz,

O janota dos Solteirões.

D. MARIA

Í70

f:^--^

O Communista do Rahagas. O moleiro do Pe- dro Ruivo,

O famoso Paralytico, que parecia estrear al- guma curiosa trilogia de parodia ás enfermida- des, e ir continuar pelo Anemico, e pelo Hydro-

176

os THEATROS DE LISBOA

OOCXD

pico, mas que surprehendeu toda a gente por ser triste, lúgubre, e desempenhar-se elle do seu papel com correcção.

Descuidoso das coisas pequenas, conforme c dado ao pretor de minimis non curat. caracte- risa-se nos camarins dós outros artistas, com o vermelhão alheio, e a cortiça de outrem. Vae no .entreacto fazer essas visitas de ao da porta,

e diz ora a um ora a outro :

Então como vae isso?

Bem.

Vae bem, esta noite?

Gomo sempre.

Graças a Deus! Sempre assim digas. Dei- xa-me ver. . .

Alingua?

D. MARIA

177

Não. me disseste que estás bom, é quanto me basta para meu socego. Deixa-me ver ... o vermelhão ?

Queres vel-o ? !

Quero. E' dar-lhe as boas noites . . .

E zaz; ahi se chega ao espelho, ah\ faz as faces, e ahi arranja os olhos.

Depois, com a maior placidez :

Até sempre!

E vae para a scena.

Nâo ha o direito de perguntar a um homem se elle estuda e quando estuda, desde que se observa que são evidentes os seus progressos. Se António Pedro estuda nos livros, não sei ; sei que o seu talento se tem desenvolvido consi- deravelmente, e que, de dia para dia, em suc- cessivas manifestações de aptidão, se vae reve- lando o engrandecimento das suas faculdades e a riqueza das suas posses artisticàs.

12

178 os THEATROS DE LISBOA

-oooo

Nâo me proponho citar todas as peças notá- veis, nas quaes os differentes actores de que trato n'este volume affirmassem a sua aptidão e os seus direitos á celebridade. Demorar-me-liia aliás a registar todo o movimento litterario que o visconde de Almeida Garrett, de quem o sr. Carlos Bento disse, n'uma phrase admirável de elegância e de conceito, « que não era um lit- terato mas uma litteratura», imprimiu ao theatro portuguez; e fallaria detidamente de muitos ou- tros. Gomes de Amorim, por exemplo, que, pelo Ghigi, Cedro Vermelho, e Ódio de Raça, mere- ceu durante annos o enthusiasmo e a dedicação das platéas, está reservado para quando, a pro- pósito dos Herdeiros do millionario, tenhamos de fazer sentir a maleabilidade do seu talento de escriptor de theatro, que soube primar nos lances da poesia dramática, e nas graças da co- media nova.

Comquanto a companhia do theatro de D. Ma- ria não seja hoje o que conseguiu chegar a ser, no tempo em que ali se achavam todos os artistas novos importantes e aquelles que ainda duravam da antiga e única geração de actores que tivemos, apresenta todavia um pessoal abun- dante.

N'outro volume (jue vamos empreender e que hade intitular-se Os theatros secundários te- rão de entrar muitos yrtistas de que não se tra- ta especialmente agora, por isso que elles ganha-

1

D. MARIA 179

ram o seu nome, fizeram a sua principal carrei- ra, e de algum modo se prendeu para sempre a lembrança que se lhes consagra á scena em que se criaram, ouáquella em que mais se distingui- ram. Por isso, se nâo tratamos agora, por exem- plo, de Gesar, o alegre e intelligente

César

franco e aberto de indole como artista e como homem, é porque o reservámos, con amore, como uma das principaes figuras d^outro livro.

I Citemos porém um moço, dotado de finas

qualidades, sagaz, gracioso, sabendo dizer com malicia, sem pôr em itálico as intenções:

■Í8Í)

os THEATROS DE LISBOA

IMCello

O corpo não lhe hade crescer já; mas vale a pena dar-lhe papeis, por ser o seu espirito sus- ceptível de progredir; no ihealro de D. Maria se estreou, n'este theatro se deve registar o seu no- me, como o de uma vocação delicada que não vae nas piugadas d'este ou aquelle, nem entorta o passo atraz dalguem.

A.111C1ÍCL VieiíTt

D. MARIA 181

A actriz sahia das Variedades, conhecidas ge- ralmente por theatro do Salitre : o nome creou-o no theatro de D. Maria, mercê dos seus esfor- ços: não c portanto áquelle modesto theatro que pertence ab origine esta gentil artista, mas ao theatro normal.

Seria abrir uma lacuna, ou offuscar a histo- ria de um theatro, ir attribuir á de outro a glo- ria de qualquer artista que não poude conquis- tar n um certo palco os triumphos, que, mais tar- de— porque o género de peças ou os seus esfor- ços e a lição de outro ensaiador o auxiharam, veiu a alcançar definitivamente ; e também ha, não raras vezes, exemplo de um ou outro artis- ta, que fora notável n'um tablado, merecidamen- te distincto e estimado, perder o pé, como os na- dadores, ao passar para outro palco de indolo alheia áquella a que estava habituado, e em que estranha tudo desde as peças até os coUegas, desde os coUegas até o publico.

E' esta a explicação de não se encontrarem n este volume senão citados de relance,, e alguns nem isso, artistas que hão de ter, no livro de ou- tros theatros, os seus fastos e a sua historia.

Depois, eu guardo ás vezes reminiscências de um artista da epocha em que pela primeira vez o vi, da quadra em que elle me pareceu digno

182

os THEATROS DE LISBOA

de attenção, ou d'aquella em que me impressio- nou, — sem poder abstrair, para tratar d'elle, das circumstancias que nesse tempo o rodea- vam, do meio em que vivia, de tudo que de algum modo me parecia completal-o, ou fazel-o sobresair, uma de duas; por exemplo:

Virgínia

que eu vi no theatro do Principe Real, nos Sol- teirões, em que a admirámos todos como se ad- mira unicamente alguém em quem se adivinhe talento; Virgínia, que é uma originalidade no nos- so theatro moderno, uma especialidade, nâo a tristeza trágica, mas o sorriso, a malicia, a es- pertesa da comedia, um pouco também a melan- cholia do drama; não Ophelia, não Julieta, não

D. MARIA \S3

Margarida; não fazendo talvez renascer a Lyra n'umà epocha em que até esse nome anda esque- cido; mas podendo os cysnes novos chamar-lhe Deidania: viva intelligencia, graça gaiata; e de- pois olhos magnificos, voz encantadora, sombra assedada das peslanas, fartura de cabellos . . . Paliaremos d'isso tudo.

E, por essa occasião, de outra actriz do Prín- cipe Real,

A sr.

DFalco

grrrande dama, como dizem os francezes, três grrrande damè de comedia, esbelta, brilhante appareceu-nos uma noite na Harpa de Deus.

Alto!

Esta Harpa toca mais longe.

184

os THEATROS DE LISBOA

Guardêmol-a; e ao seu auctor

César cie Lacercia

homem de talento, auctor de grande numero de obras dramáticas; fugitivo, que depois dos

iJois mundos, da Lltima carta, do Cynismo, da Aristocracia e dinheiro, dos Homens do mar, passou ao Brazil, aos Brazis, de onde voltou

D. MARIA i8o

com duas obras novas... em coUaboraçâo com sua mulher, a actriz Falco, dois meninos.

Aqui temos, porem, uma artista que se es- treou no theatro de D. Maria e n'elle se tem conservado:

A sr.^

Gí-ertmdes

O seu nome andou de certo modo ligado á litteratura, mais do que como actriz, como in- spiradora. Isso se perde na névoa do tempo e na poeirada dos boatos de bastidor.

E' uma intelligencia sagaz; compreliende os papeis, e, sem se dar ares de salvar o drama, a tragedia, a comedia, a farça, passa por tudo isto com muito aceio.

Depois, é mulher agradável, de apparencia sa- dia, o que os nossos pães chamavam desenxo- valhada e interessante.

Não será de um calor de paixão por ahi além; não terá o coração á bocca; não será preciso to- car a fogo quando ella declama: mas deixa-nos descançar das berrarias alheias, e, ao passo que

186

os THEATROS DE LISBOA

O ouvido lh'o agradece, também ás vezes lh'o agradecem o espirito e a razão.

Fechemos este theatro. mais dois nomes: a celebridade de hoje, e a estrella de hon- tem...

O drama famihar e intimo parecia estar es- quecido definitivamente, e os escriptores mais notáveis do paiz haviam renunciado ao género por faha de interpretes. Cahira em desuso o melhor reportório e representava-se quasi sem- pre para os bancos da platéa, quando appare- ceu subitamente uma actriz que ninguém sabia

D. MARIA

187

d'onde viera, que não havia estado em nenhum Conservatório, e que, com grande pasmo a prin- cipio, e geral applauso logo depois, representou muitos papeis diíEceis e importantes.

Escrevia quasi exclusivamente para ella n es- se tempo um auctor moço, querido das platéas, e cuja fertiUdade como dramaturgo a imprensa registrara com louvor; o sr.

Ernesto Biester

Em successivas composições doeste escriptor.

1H8 os THEATROS DE LISBOA

inlencionalmenle moldadas para a Índole ardente, sincera, temperadamente melancholica da actriz, soube Emilia Adelaide dar vida a muitas heroinas essencialmente modernas. Foram os seus trium- phos quasi sempre legitimose sem protesto con- trario da parte da opinião. . Não é actriz trágica ; não lhe iria, bem nos hombros voluptuosos, mais próprios, para se de- cotarem nos bailes, o manto grego ; nem reali- saria as castas e heróicas figuras da tragedia antiga. Mas ninguém diz com maior verdade as phrases do estylo actual, nem interpreta de modo mais harmonioso, firme e sem violência, as con- cepções dos escriptores dramáticos d'este tempo, assim da França como da nossa terra.

Miamiela, Rey

A hora melhor da vida é aquella em que a crealura, depois de haver interrogado os seus destinos, chega a descobrir o rumo (jue deve se- guir e» de que. nunca mais se hade apartar., Avis-

D. MARIA 189

ta eiitâo a estrada toda, e conhece que a terra obediente a irá levando ao fim . . .

Manuela Rey chegara até essa hora.

Greança infeliz, ganhando o seu pâo desde o berço, arrastando-se de terra em terra com uma companhia ambulante que veiu parar a Lisboa, uma Ínfima companhia hespanhola que deu re- presentações no Sahtre, a pobre Manuelita ap- parecêra entre nós n'uma peça El hijo dei ciego.

Depois das mil incertezas que a desgraça traz, depois de mil revezes ignorados, lucta ob- scura com a miséria e com as tentações, appa- receu no tablado de D. Maria, mulher, mas em todo o viço e frescor da vida, esta rara e en- cantadora actriz.

Era bonita, seductôramente loira, meiga, sim- pathica, graciosa como mais ninguém. Pela rua, ao ir para os ensaios, via-a a gente vestida com uma singeleza que tocava um pouco o desleixo, penteada como dizem os francezes à la diable ; mas respirava em toda ella uma elegância na- tiva, um aroma de juventude, de poesia, e de bondade.

No olhar vivissimo, no leve encrespar da fronte, nobre, intelligente, na prega eloquente dos cantos da bôcca, no ar ora triste ora inno- centemente alegre, sentia-se a vontade e a força d'aquelle talento peregrino.

Era uma aurora.

Principiara a sua carreira sem nome e sem

190

os THEATROS DE LISBOA

fortuna, e em poucos dias ia a sorrir-lhe terna- mente a felicidade e a gloria.

Gloria passageira e ephemera; felicidade de relâmpago... Grande génio, supremo; e supre- ma desventura.

A vida de artista tem a sua rega como as flo- res: precisa de soffrer e amar; lagrimas, e ca- lor. EUa teve a onda, faltou-lhe o sol.

por nos dar o braço :

ODos temos ouvi- do dizer quando se falia de certos homens que por ahi se encontram no Chiado, que nos faliam, que nos oíierecem de- pois um bom cha- ruto, e acabam

192

os THEATROS DE LISBOA

^ N^' ^•— ^N/^~N_

Não se pode saber de que vive esle ho- meml

Um dia morre o homem, de quem toda a genle desconfiou, e deixa dois contos de réis de renda.

Então se do que vivia; vivia d'isso.

Com o theatro da Trindade deu-se a mesma cousa. Que um ratão qualquer, que ninguém co- nheça, que ninguém saiba de onde vem e onde quer ir, um patrasana anonymo, se lembre de fazer um theatro, e toda a gente achará muito natural que o consiga, á medida dos nossos de- sejos, tanto pelo que respeita a engenho como a despezas.

Mas que Francisco Palha, homem intelligente e activo, de accordo com uma companlíia de ac- cionistas — que são simplesmente os primeiros

TRINDADE 193

negociantes do paiz, á excepção de um que o nâo é, mas que me dizem nâo ser completamente desprovido de posses, o sr. duque de Palmella lograssem edificar um theatro, com pedra, cnl, ma- deira, e outras exuberancias, não se podia acre- ditar que similhante cousa conseguisse ir por diante...

Ora, boa noite 1 Isso, são historias !

Entretanto, até hoje nâo se sabe como e nunca poderá saber-se, mas a verdade obriga-nos a confessar que o theatro se aguenta como uma verdadeira novidade para Portugal, um theatro á franceza, uma bonbonnière,q\ie alcançou, graças ao balcão, que emfim se podesse admirar no theatro o vestuário das senhoras; e, como se o fim da saia ás. que estão na segunda filia, di- minuiram muito nos últimos annos os pés feios

ou mal calçados.

De aspecto geral, vistoso, elegante, conhece- is

194

os THEATROS DE LISBOA

se que se pensou em tudo, e até as cadeiras são de assento movediço, e chegaram a ter o que quer que fosse para segurar o chapéu, innova- çâo adorável, porque, de todas as pequenas mi- sérias que podem levar um homem de bem ao suicidio, não consta de outra mais irritante do que o embaraço que produz durante uma recita

inteira este zabumbinha, que uma pessoa ora põe

'^^^^

ao peito, ora em cima dos joelhos, ora para bai-

TRINDADE

195

xo dos pés, e que apesar de todas as cautellas

sae sempre do iheatro amolgado,

acochichado,

arripiado!...

Para que nada escapasse, até fizeram umas frizas com rotula h maneira das de Paris. A ro-

196 os TlIEATftOS PE LISBOA

lula porém passou pelo desapontamento de estar sempre aljerta...

Lisboa ê uma terra virtuosa epatriarchal, em que tudo se sabe, em que tudo se conta, em que tudo se vê:., ainda que haja rotula.

Lisboa podia ser o derradeiro refugio do mun- do, mas infelizmente nem sequer é dado a al- guém ser senhor de se esconder aqui.

Algum negociante infehz, alguma familia em- pobrecida por transtornos da sorte, riâo conse- guem em Lisboa evitar as vistas de ou desdém das pessoas que em tempos lhes invejaram o faus- to e o luxo.

Lisboa acompanha-os, acotovela-os, cerca-os, encurrala-os:

Em Lisboa um homem que seja um pouco co- nhecido, nâo pode dar um passo sem que a ci- dade toda o fique sabendo.

Rotula, em iheatro de uma terra d'estas!

Rotulai

Mas isso era o mesmo que dizer rotulo!

Isto é :

Em vez de não verem, reparem maisl Vão

TRINDADE

197

esperar-nos á sabida, que nós não havemos de ficar dentro 1...

Pelo género de peças que alli se representam e era occasião de empregar uma malícia, e attribuir o caso também um pouco ao tempera- mento dos accionistas, quem sabe? otheatro da Trindade tem sido entre nós o mais pareci- do com o que se chama por fora theatro de mulheres. Actrizes bonitas, e comparsas que não sejam inferiores ás actrizes; tal é o programma, que, n'um paiz como este em que as formosuras escaceiam, não pôde, talvez, ser levado completa- mente a efleito.

E depois, para que?

198 os THEATROS DE LISBOA

' A mulher de theatro em Portugal não tem prestigio.

É boa rapariga, e isso a deita a perder.

As grandes tentadoras devem ser más, peri- gosas, frias, calculistas, devastadoras. Aliás, não são, não chegam a ser; é o que acontece ás nos- sas, que entre outras ratices têem, ás vezes, a da virtude. Com pequenos ordenados, rapidamente consumidos n\ima toilette mais caprichosa que alguma peça lhes exija, ganham strictamente, suadamente, o necessário para pôr a panella ao lume. Ainda isso ia bem, se os homens reme- deiassem, pela sua dedicação e brios amorosos, o que possa faltar para aquella verba que os ignorantes chamam supérfluo e que é na vida elegante, na vida de theatro, o necessário e in- dispensável para que a voga e a attenção publi- ca vivam presas a uma actriz.

O meu amigo leitor gosta de cnthusiasmo ?

Também ellas gostam. Mas o maganão cuida ás vezes ou finge cuidar que do que ellas gos- tam é do meu amigo, simplesmente, sem mais nadai

Oxalá!

Mas, não pode ser assim.

Os admiradores de actrizes, em terras de gen- te, dão-lhes jóias, magnificos anneis e brincos, esmeraldas, diamantes, coroas de folhas de ouro ; os amantes dão-lhes carruagens, casas de campo, papeis de credito, et coetera.

TRINDADE 199

Isso de ter actrizes a sêcco, é uma velleidaJe portugueza, que serve unicamente para as sec- car a ellas. São boas, muito boas, desinteressa- das, generosas, nobres, sinceras ; mas tudo tem limites, é necessário também não as fazer Mar- garidas do «Fausto»; querer que ellas tenham em tal grau a ignorância do luxo, é quasi que exigir-lhes, além da ignorância de Eva, o igno- rarem também Adão!

Quando a Trindade alguma nova magica, vé-se de súbito um viveiro de raparigas^ actrizes, coristas, comparsas.

As comparsas e as coristas creio que não são más. São boas as actrizes ?

Os jornaes dizem que sim, e esse é o caso

Os jornaes têem ás vezes entre nós grande diííi- culdade para a apreciação das cousas theatraes : muitos jornalistas que escrevem acerca dos espec- táculos, traduzem peças para ostheatros,e ficam por esse facto na necessidade de louvar irmã- mente actores e actrizes. Mas, Deus lhes acuda ! Iras e vaidades de gente de theatro são de tre- mer !

Dizia um homem que nunca se deve cha- mar o dono da casa de pasto para lhe fazer

200

os THEATROS DE LISBOA

queixa dos creados ; porque elle, para contentar

o freguez, ralha com o moço, e o nk)ço põe-se muito humilde e pede desculpa: mas, depois, em trazendo a uma pessoa o prato que se lhe

encommendou, vem a cuspir-lhe dentro pelo cor- redor adiante.

TRINDADE

201

O único meio é comer ovos na casca ; e com o theatro nem esse meio ha :

Em um tradactor fazendo queixa no jornal, ao publico, que é o verdadeiro dono d'aquella casa, de que os cómicos lhe deitaram a obra a perder, está morto : se apparecer outra vez no palco, não cuspirão n'um prato, mas são capazes de lhe ^cuspir na cara, para maior pratinho!

E medonho.

Na sua quahdade de theatro de accionistas, a Trindade podia tirar d'esta circumstancia uma

■' j£.

espécie de claque permanente, tanto mais valio- sa que pagava em vez de ser paga. Mas o accio- nista é, por via de regra, um original : gosta de ir de graça ao seu theatro, e alugar camarotes nos theatros dos outros. Porque? Che lo sà? Quem entendeu jamais o accionista?

Bem sei que isto de claque em Portugal por emquanto é novo. Os cavalheiros do lustre não

á02

os THEATROS DE LISBOA

se acoitam ainda bem n'este paiz sincero ; e ha poucos annos ainda os artistas entravam em scena e sabiam sem perceberem que coisa era claque. A civili sacão teve de metter n'isto a sua vara magica, e o progresso emprestou uma lam- parina para allumiar os espiritos n'este dédalo.

São precisos cavalheiros do lustre ? per- guntou o progresso.

São !

Quantos cavalheiros do lustre ?

Muitos!

Para sustentarem a empreza, dando o pri- meiro impulso de applausos aos bons artistas ?

Para se sustentarem a si, applaudindo ape- nas os que lhe pagarem ! . . .

Está dito! retrucou o progresso. Façam- se cavalheiros do lustre para dignidade do paiz e da civilisação !

E cavalheiros do lustre foram feitos.

TRINDADE 203

A missão d'estes conspiradores, é cheia de subtilezas. Começa por se fazerem pagar... para estarem silenciosos. Continua por se fazerem pa- gar... para não palearem. Termina por se faze- rem pagar... para applaudirem! . . .

N'outros paizes teem um cognome pelo qual são igualmente conhecidos: romanos, em re- ferencia aos villões de Roma que ganhavam a sua vida pelos applausos com que accolhiam Nero, o qual tinha a pequice de cantar peior que o diabo e querer mais gloria que um che- rubim ! . . .

E depois, os nossos daqiieurs, não se achan- do ainda devidamente enthronisados, precisam mais uma condição do que os de fora, que é estylo! Estylo não para applaudir, mas até,

mas sobretudo estylo. . . para escrever ! . . . Por- que, na difficuldade de organisarem um bom Guia, dirigem fogosas epistolas aos artistas es- trangeiros que vem escripturados para S. Car- los, ostentam largas deduções lógicas e certo ta- lento mathematico nos ajustes, expõem as suas condições de empreiteiros. . . do grande edifício

204 os THEATROS DE LISBOA

.í--""^^'— ~S/^ N^ V.

dos triumphos, e não se airevem a. ir pactuar com os compatriotas.

Sendo as palmas de estalo o género que tem mais sabida no mercado theatral, um cavalheiro

de lustre que possua braço vigoroso e boa cha-

ve de mão, poderá pelo estrondo ganhar hones- tamente o pâo para a sua familia, no dia em que se resolver a estabelecer os seus direitos com mais independência e soberania do que pechin- char relesmente um bilhete de entrada todas as noites e achar tudo bom, pela commodidade de se sentar de graça.

As zarzuelas, ás vezes, na Trindade, esfriam por falta de bravo ! bravo I bravo I .., Quanto peior se canta, mais numerosos são os applau- sos: é como nas salas, quando a menina do Dr.

TRINDADE

205

Ramiro canta a ária da Favorita, ou a Sombra ligeira da Dinorah, ou qualquer coisa que lhe lembre pelo mais funesto dos successos. Ou rom-

per em palmas, ou torcer-se uma pessoa a rir. Não é dizer que na Trindade se canta mal, e até considero pasmoso que artistas que nunca haviam cultivado os seus dotes vocaes possam desempenhar-se de tantas e tantas operetas, zar- zuelas, operas-comicas. Elles não cantam mal, remedeiam. Fazem-me lembrar o leite que a gente bebe a bordo dos vapores inglezes. E um arranjo de agua com farinha, e algum leite, creio eu. Quando se diz ao moço:

206 os THEATROS DE LISBOA

Isto nâo é leite, homem !

No. But it is a very fine substitute ! Assim é isto. Nâo é propriamente cantar bem, mas é uma muito boa substituição ! . . .

A sargenta-mór do catitismo da Trindade é sem questão a sr.*

Roísa I>ama»ceiio

TRINDADE

207

Vivaz, engraçada, com um pique de ma- licia.

N'outro género, serena, grave, sympathica, e grandemente prendada de recursos vocaes, uma mulher formosa e esbelta, a sr.*

Florindla

auxilia a parte lyrica do reportório da Trindade cantando, todas as noites que Deus manda ao mundo, árias, romanzas, canções, sigadilhas, umas que estão no spartito, outras que os en- saiadores do theatro, directores de orchestra, compõem expressamente para aquella garganta bonita... por dentro... e por fora.

os THEATROS DE LISBOA

Si

A.iiiia. iPereira

0 sentimento da ironia, que é ás vezes o se- gredo de grandes talentos, dá-se vagamente em Portugal, em qualquer das diversíssimas mani- festações do engenho.

Tudo, porém, obedece a lei das harmonias, e é talvez um bem para os que exercem en- tre nós a profissão de ter graça, o não terem a ironia: o publico nâo lh*a acceitaria facilmente; nâo lh'a apreciaria nunca, e não lhes ofTereceria, mercê d'ella, o tributo da sua admiração.

A ironia é o riso intimo.

TRINDADE 209

Tinha-a Voltaire no grau mais elevado: teve-a Heine, teve-a Méry.

Era o condão supremo de Carlos Dickens.

Foi em questões serias uma das forças de Proudhon.

D'ella viveu Marianno Larra em artigos admi- ráveis.

Em Portugal, Castilho, Camillo Castello Bran- co, Teixeira de Vasconcellos; em proporções mais ligeiras, mais subtis, Ricardo Guimarães.

Porque motivo conserva a memoria tantas ve- zes ingrata e infiel dos leitores o nome e a data dos escriptores grosseiros, de preferencia aos dos talentos mais finos e mais distinctos, senão por nunca entenderem bem estes, e encontrarem aquelles ao nivel da sua comprehensão, dos seus instinctos, e da sua maneira de ver e de julgar?

As graças pesadas, grossas como prédios, de José Agostinho de Macedo, representam ainda hoje o ideial chistoso do dizer portuguez. No theatro as tiradas mediocres, inchadas, ridicula- mente pomposas, logram sempre das platéas a estima e o applauso que as ideias subidas, as intenções, a malícia, os conceitos, dificilmente alcançam ou não conseguem obter.

No jornahsmo, onde a ironia tinha tão largos horisontés para se inspirar, não a encontramos nunca. Latino Coelho, nos tempos agitados do Pharol, sentiu-a e amou-a; Bernardino Martins, no antigo Supplemento burlesco ao Patriota, ain-

14

210 os THEATROS DE LISBOA

da que em condições menos litterarias, fel-a va- ler por vezes. Lopes de Mendonça fez d'ella uma harpa, e, ora nas Recordações de Itália sorrindo, ora udiS Memorias de um doido chorando, ora nos folhetins punindo, vibrou-lhe Iodas as cordas, ti- rou d'ella todos os sons.

Mais tarde vieram os jornaes sem jornalistas; o Peneireiro e o Asmodeu; a injuria começou a ser graça. Injuria sem indignação, sem fôlego de ira, sem o despeito melanchoUco que inspira a veia dos Juvenaes: injuria baixa e estúpida, gi-a- ça desenxabida, rasteira, tediosa.

A ironia fechou as azas, para as abrir alguma vez nas conversações do mundo. Hoje, quem quer encontral-a vae procurar Thomaz de Carvalho, ou Carlos Bento.

No tablado annunciou-se um momento : che-, gamos a vêl-a, ágil, esperta, picante, audaz; ver- dadeira de umas vezes, brilhando da sua luz e da sua originalidade, de outras um pouco indeci- sa, com as feições um pouco mais graves, a voz um pouco mais pesada, e servindo-se das azas... para andar, como as perdizes. Chama-se Anna Pereira.

As outras teem talento, podem ler talento três ou quatro o teem decerto, mas não teem ma- lícia, não teem a veia do riso, do gracejo, da ou- sadia, não teem a doçura na galhofa, as lagrimas risonhas, a solemnidade na chacota, o gracejar eloquente, a ironia ! . . .

TRINDADE

Sil

Anna Pereira é fadada para as scenas de ca- pricho, de gracejo, e de phanlasia. É a actriz do reportório de Offenbacli ; são suas aquellas mu- sas modernas de chapeusinhos com guizos e ves- tidos que envolvem o mundo nas pregas da cau- da; todas aromas e gargalhadas!

O grande sestro da caturreira. lusitana tem feito gritar por muitas vezes contra o escândalo de estar a sr/^

X>elpliiua,

n'um theatro de tao pouco ambicioso reportório. Francamente, a mim sempre me pareceu que em a sr.'^ Delphina divertindo o publico, quer fosse no Rocio quer na Trindade, estava cumprida a

álí

os THEATROS DE LISBOA

sua missão. A arte, a arte, a arte! diz o povo ao lon-

ge. Bem sei. A arte é o que ella faz na Trindade,

quando tem papel; a arte para cila é a oschola do

TRINDADE

213

bom senso; tem graça, extrema naturalidade, e grande experiência do tablado. Se a tivessem n'ou- tro theatro, seria no reportório moderno de Dumas filho, de Augier, que ella havia de applicar o seu ta- lento? De certo nâo,por falta de papeis do caracter que lhe é próprio. A sr.* Delphina vae no fim d'uma

carreira gloriosa, e tem conseguido atravessal-a sem dissabores com a imprensa. Por muitas vezes se tem questionado o talento da sr.^Emilia das Neves; o da sr."" Delphina não se poz nunca em duvida. Diga-se também a inteira verdade: o quanto uma artista po- de ser irreprehensivel na esphera e condições do género que escolheu, tem-o sido sempre esta.

Ha na Trindade um actor notavelmente per- spicaz :

os THEATUOS DE LISBOA

Leoni

Tem phisionomia de íinancciro mais do que de artista; não se adivinha ao vel-o que seja homem

de theatro; mas ninguém diz com mais acferto as

TRINDADE

21o

graças c os chistes de um pa- pel cómico j sem descair nunca

^-^.

em grosseria, sem se deixar tentar pelo chavão.

n

âi6

os THEATROS DE LISBOA

O chavão seductor por excellencia em tudo nos nossos dias, nas lettras, na politica, nas artes...

De uma occasião a fada que visita no berço os meninos, perguntou a

ilLug^ufSto

TRINDADE

•oooo

217

ainda envolto nas faxas infantis:

O menino, tu hasde gostar da virtude?

Nhã..., guinchou o pequeno.

E do heroismo? E do amor da pátria? E do ciúme á bruta, o ciúme de Othello, de dar cabo da fêmea em tendo ferro amoroso ?

Nhã!...

E da moral pacata, a dos pais nobres, dos maridos dignos, dos anciãos venerandos ?

Nhã!...

É boa! disse a fada. De nada d'istotepa-

318

os THEATROS de LISBOA

rece que hasde vir a gostar! E da patuscada? da brincadeira ? da reinação ?

Him!... berrou com gosto o innocente.

Ah! D'isso sim, hem? Da alegria, da. mo- cidade, de tudo que respire a folia ?

Him!...

Nada então de drama nem de tragedia ?

Nhã!...

Ah ! Tudo comedia. Comedia e farca. O grande divertimento.

TRINDADK

Dançar,

nr,

'^t^^^

cantar,

folgar?

220

os THEATROS DE LISBOA

Him!...

Ter graça, emfim, que é o caso. vejo que não queres ser um semsaborão, um triste, um centro, um assassino...

Nhãl...

Queres ser um rapaz catita, engraçado, sympathico sem affectaçâo nem pieguice, mais homem do que galã, um pimpão bem parecido, a quem o publico queira bem e que em certos papeis seja o mais estimável...

Him!...

Pois é o que has de ser Eé.

TRINDADE

Joã.o ]Rosa

Poderia dizer-se-lhe: Tão novo, e filho de seu pai ! Actor fino, actor inteUigente, estudioso, grandemente e since-

222 os THEATROS DE LISBOA

ramenle applicado ; aclor em quem se sentem os progressos, a diligencia de ir a melhor, o esfor-

ço intelligente para o conseguir, e muitas ve- zes o resultado feliz de o alcançar.

Os galas de tlieatro teem concorrido para des- encantar as senhoras do amor e da seclucção, e teem sido vivo testemunho de que nem sempre ha bom vinlio onde está ramo á porta. Ao lado d'elles ás vezes, está em scena algum qiio não tem officio de gala e que ó mais inspirador, mais attrahenle que elles.

Sáo excepção a esta penúria de ares tenta- dores:

TRINDADE

223

A.iig^iisto Rosa

Braza,o

O primeiro é um adolescente; uma aurora; a primeira carta (f amores,

224

os THEATROS DE LISBOA

O primeiro sorriso á vida,

o primeiro de- vaneio da mo- cidade, o bal- buciar da pai- xão, a creança >^' que principia a / ser liomem, o '

^5^

namoro dos dezeseis annos, o cadete.

TRINDADE

O csludanle, o pagem O segundo è a

Cheriibim !

vida airada, a travessura, a gaiaíice, o reinadio, o catita, o pimpão de cslreia,

51

226

os THEATROS DE LISBOA

O namorista esbelto,

a malicia amorosa, o bragante que traz o sen- tido nas moças, a inconstância agradável, o en-

%y^'

contro da primeira ruga com as primeiras folias,

TRINDADE

-oooo-

227

a paixonêta fácil, o lidar no nada,

a alegria do acaso, a vida de aventura, o amor pelas bellas e pelo bilhar,

D. João de quinzena !

Citemos

258

os TIIEATROS DE LISDOÂ

<o>^z>o>:z>

Rilt>eii-o

Quando tratarmos da Rua dos Condes, leremos de demorar-nos com este artista notável ; c com outro

Queiroz

THINDADK

2Í9

Que tem sido merecidamente um dos susten- táculos da Trindade, mas que foi por si du- rante annos na Rua dos Condes a columna do templo.

Costumam os jornaes, quando morre ou se ausenta de nós algum luminar dos que andam na voga, d'esses de quem nunca se cita o nome a propósito de qualquer coisa sem o acompa- nhar de algum dos melhores epithelos, esclare- cido, festejado, illustre, iníelligencia robusta, nosso honrado amigo, etc. etc, romper em gran- des phrases commemorando a sua falia.

Assim também, e por seguirmos tão nobre exemplo, devemos diligenciar o encontrar esse dizer pomposo ao referirmo-nos a

Ouulia ]>£ouiaB

230

os THEATROS DE LISBOA

que foi ensaiador da Trindade, e muilo bom cn

saiador, culto, intelligente, activo, alegre,

TRINDADE

231

Se nós disséssemos, vamos a ver se sáe bom esle ensaio do eslylo altisono: que a Trindade se acha aclualmenle viuva de um dos seus mais gloriosos filhos, o digno ensaiador. . .

Mau ! Viuva ... de um filho ! Não presta. E' o perigo do estylo pomposo. Deixemo-nos d'is- so. Basta dizer que Cunha Moniz não perten-

ce ao theatro da Trindade.

No modo de dizer está talvez o principal se- gredo da finura de

os TIlEATttOtJ DE LISBOA

ITi-ancisco Fallia

Tem a habilidade de fazer passar a lingua por uma lillracão. Conseguiu a pouco e pouco essa operação mysteriosa; aslinguastransformam-se ás

TUINDADE 233

vezes pelos annos e pelos homens, pela multidão e pelos lilteratos, pelos acontecimentos e pelos li- vros, pelo^ costumes e pelas ideias: mas um ho- mem só, arniar a lingua porlugueza, douta, po- sitiva, e grave, em lingua leve e jovial, dando- Ihe tom chistoso e gaiato, próprio de sainetCy tem mais que se lhe diga !

A lingua porlugueza é cxcellente; ninguém diz o contrario, escusam de estar a franzir

mfi% 4^

O sobrolho para esta pagina. E' uma lingua que anda bem a pó, direita ao séii fim, magestosa e campanuda, com seu pennacho de methaforas, girando com largueza em redor da ideia como aquelles carros puxados a oito que apparecem a dar a volta no Circo Price; mas elle fal-a elás- tica, fácil de atar e desatar, á mercê da brin- cadeira; e encontrou-lhe mil expressões risonhas, que estavam no fundo natural d'ella sem a gente haver dado por isso.

A traducção do Barba-azid, sem irmos ago-

23 i os THEATROS DE LISBOA

ra á Fabia, que fica longe é um primor de pilhéria, graciosa malicia, chistes piltorescos, em que o riso a poder de espontaneidade chega por algum modo a dar-se bem com a poesia. Ergue-se o panno para o l."" acto, e o pastor diz logo para explicar que está a amanhecer:

«Já vem a aurora a deitar a cabecinha de fora 1 »

Esta c a primeira phrase ; pela peça adiante o mesmo estylo sempre, o mesmo sabor, a mes- ma graça característica.

Depois, Francisco Palha é um homem de let- tras; nâo passou toda a sua vida na caixa dos

TRINDADE

235

iheatros; estudou uns poucos de annos, apren-

deu nos livros e nas escolas, e foi durante al- gum tempo poeta delicado, escriptor de boa no- ta. Ha quem lhe não perdoe haver feito a Fabia e a Morte de Catimbau; os que se quei- xam d'isso, estranham provavelmente que elles com as suas obras sizudas nunca houvessem conseguido que ellas lhes rendessem ao menos um pataco por cada abrimento de boca de quem as ou as ouve, e que elle com essas ra- tices e com as do Andador das almas se haja regalado de ganhar dinheiro. Teem talvez razão; o ter graça, vale pouco: mas não deixa assim mesmo de ser uma prenda de estimação, quan-

i:)G

os TIIEÀTROS DE LISBOA

do a gente pensa que é a única coisa que os semsaboroes nâo podem ter ! . . .

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PN Machado, Júlio César 2796 Os theatros de Lisboa L5M25

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