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UNIVERSrrY OF TORONTO

by

Professor

Ralph G. Stanton

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SEGUNDA PARTE DA HISTORIA

DE S. DOMINGOS

PARTICULAR DO REINO E CONQUISTAS DE PORTUGAL POR FR. JLIJIS^ €A€£€}AS

DA MESMA ORDEM E PROVÍNCIA, E CHRONiSTA DELIA

REFORMADA EM ESTILO E ORDEM, E AMPLIFICADA EM SUCCESSOS, E PARTICULARIDADES

POR FR. LUÍS DE SOUSA

FILHO DO COxWENTO DE BEMFICA

TERCEIRA EDIÇÃO

VOLUME III

LISROA

TYP- DO PANORAMA— Rua do Arco do Banddra, 112.

M DCGC LXVI.

aBMS

OE m A. J. r. LOPES É EDITOR,

E SE VKNDKM

Na sua loja , RUA ÁUREA N.° 132 E 134

Panorama, semanário Ac inslruc- ção e lilleraluia, fundatlo em 1837. Uma eolleccilo de 15

vol, ; 22:000

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llluslraçào Luso-Krazileka, pe- riódico universal, collaborado por muitos eseriplores dislin- f tos. Tem e&mpltílíis3 vai ,em

papel 11:600

Encadernados 13:600

Historia dos festejos reaes por íiccasião dos deíposorios de S. M. el-rei o sr. D. Pedro t. Um

folheto com 10 gravuras 200

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Chronica da Rainha D. Maria ii. (completa) «^ vol. em folio... C:"t>0

1640 ou a restauração de Portu- gal, facto histórico em 4 actos 7 quadros e um prologo 30#

Minhas Lembranças, poesias 50O

LOPES MENDONÇA

Memorias de lilleratura contem- porânea, 1 vol. 8.' fr. 720

Lições para maridos, c. em 3 actos ívol. 8.Mr 40O

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Pocsvas, 4.' edição, correcta, t vol.8."fr....*.. COO

Dois casamentos de conveniên- cia, e. em 3 actos, 1 vol 36ft

Como se sobe ao poder, c. cm 3 aclos, 1 vol. 8." fr 400

O Sapateiro d'cscada, c. em 1 aclo, 1 vol. 8." 160

A Domadora de feras, c. em 1

acto, 1 vol 8"fr 160

A. CEZAR DE LACERDA

Um Visco. c. em 2 aclos 160

Scenas de familia, c. em 2 actos. 320

A Dúplice existência, c. em 4 actos 240'

A Probidade, c em 2 aclos c 1 prologo, 2.' Cd 30O

Os rilhos dos trabalhos, J.em

4 nm< 360»

SEGUNDA PARTE

DA

HISTORIA DE 8. DOMINGOS

SEGUNDA PARTE DA HISTORIA

DES. DOMINGOS

PARTICULAR DO REINO E CONQUISTAS DE PORTUdlL POR FR. L.UIÍS CACEC^AS

DA MESMA ORDEM E PROVÍNCIA, E CHRONISTA DELLA

REFORMADA EM ESTILO E ORDEM, E AMPLIFICADA EM SUCCESSOS E PARTICULARIDADES

POR FR. luís de SOUSA

FILHO DO CONVENTO DE BEMFICA

TERCEIRA EDIÇÃO

VOLUME III

LISBOA TYP. DO PAN0RA3ÍA—J\m do Arco do Bandeira, 112.

M DCCC LXVÍ,

A EAINHA NOSSA SENHORA

SENHORA

Esle, que lie o segundo volume na historia, he o primeiro na ven- tura. Hoje a logra na onzadia, de que eu hoje rne visto pêra o tributar á protecção de Vossa Magestade, em cujo amparo, e auspicio se não atre- verá, nem a esqui val-a a enveja, nem a mordel-a a calumnia. Livre elle, e seguro com este seguro real, daquella esquivança, e desta mordaci- dade, entra aos reaes pés de Vossa Magestade confiado, e sahe delles prezumido, crescerião suas presunções a soberbas, se este vicio não en- contrara, nem desmentira as virtudes religiosas que nelle se tratão, ain- da que com estilo elegante, em argumento humilde; pois he a humil- dade monástica, o apoi(í a toda a perfeição evangélica.

Não he. Senhora, a Vossa Magestade dadiva, he divida; e divida por muitos direitos, todos procedidos de seu assumpto. He elle a historia de S. Domingos, particular do Reino de Portugal: por ser da Ordem de S. Domingos, he todo, pois he ella toda de Vossa Magestade, porque sendo Gusmão este sanctissimo Patriarcha, está vinculado ao natural san- gue de Vossa Magestade com hum travado parentesco, em que se com- petem tantos titulos de Régio, quantos séculos de antigo. Por ser tam- bém historia particular do Reino de Portugal, he também todo de Vos- sa Magestade pollo Sceptro Portuguez que empunhou, meneado com liuma regência, acceitada com estranho valor, dimitida com singular des- apego, continuada com huma prudência, tanto como acertada, ditoza digo, por lograr nas perigozas batalhas que Vossa Magestade em- prendeo, tão gloriozas victorias, que fazendo pezares de tempo, e sem dar lugar ao descuido, as escreve a fama, mais que em mármores, em diamantes, mais que em diamantes, em iramortal idades: pollos feli- cissimos desposorios da Sereníssima Infante, Rainha da Grão Bretanha, por lograrem os ânimos n'aquelle Reino Catholicos, desafogo no trato das cousas concernentes á religião Catholica, com huma poita aberta a maiores esperanças. He finalmente este volume todo devido a Vossa Ma- gestade por ser a matéria, de que trata, hum trato espiritual de vidas

VI

santas, de que Vossa Majestade se paga tanto, qne nas tre^roas qno (^iz com as occupações do estado, tem por dilicias o retiro pêra se recrear nesta lição.

E assi pode servir este livro a Vossa Magesíade, ou de fiador á von- tade, ou de arrefens ao alivio, pois foi seu Author o Padre Fr. Luis de Sousa, tão dilicioso na penna, como austero na vida. Toda a gastou n'es- la Heiigiao; foi tão penitente, que o matou, mais do que o mortificou, porque pareceo sempre mais morto, que mortificado. Nunca o poderá (istar quem ler este livro, o qual no casto das palavras, no culto da lo- cução, no claro das sentenças (he a clareza ligitima cultura) no próprio do idioma, faz conliecer, e confessar na nossa Jingua Portugueza huma magestade eloquente, c huma eloquência magostosa, sem pedir lizonjas aos hyperboles, nem temeridades ás lizonjas. Nunca as fez, nem soube fíizer o Author doeste livro, nem eu as faço offerecendo ambos a Vossa Magestade, a quem peço humilhado a seus reaes pés, seja servida per-' niiltir, que nesta minha acção pêra que não fique meu atrevimento quei^ xoso, fique meu animo disculpado. Guarde Nosso Senhor a pessoa de Vossa Magestade por felicíssimos annos.

Fr. Anionio da Encarnação.

PROLOGO

E VIDA DO AUTHOR

ÍIc esta segunda parte da Historia de S. Domingos particular do Reino, e Conquistas de Portugal, parto posthumo do Padre Frei Luis de Sousa, sae â luz pêra dar satisfação aos desejos que mostravão todos, os que o conhecerão; e ainda os que somente tiverâo lição de suas obras, de verem estampadas as que faltavâo; e também por atalhar as queixas com que muitos ambiciosos deste thesouro escondido arguiao o descui- do com que se havia a Religião, em o ter tanto tempo sepultado, e qua- si esquecido; e certo que parece foi providencia particular, que como thesouro de grande preço fossem dar os originais da própria lettra do Author, no Mosteiro do Sacramento, como a porto seguro, aonde o acha- mos tão guardado, como estimado das Religiosas por sua hção, igual- mente devota, e deleitosa pêra não fazerem naufrágio, como fizerão ou- tras obras do mesmo Escritor.

E supposto sae á luz depois de sua morte, nos fica liberdade, e nos corre juntamente obrigação de darmos huma breve noticia de seu nascimento, vida, e morte: pois não se pôde negar que he divida de agra- decimento, divulgarmos pollo mundo as qualidades, e virtudes de hum sujeito, posto que com humilde estilo, que com tão nobre, e levantado methodo, á custa de tanto trabalho seu, honrou tanto a Religião, e seus íllhos com seus escritos. Alem de que como n'esta segunda parte se tra- ta do Convento de S. Domingos de Bemfica, e de seus filhos; e o P. Fr. Luis de Sousa he filho, na profissão do mesmo Convento, fica este lu- gar devido a seu nascimento, e virtudes. Ao nascimento, porque sendo este tão nobre como foi, fica realçando mais a resolução com que se re- tirou do mundo, e fugio pêra o sagrado da religião, em cuja immunida- de ficou livre de ser preso dos affectos d'elle, e dando lustre mui no- tável ás heróicas virtudes, que em sua vida obrou: que quando a no- breza vem a braços com a virtude, não se pode negar, que lhe commu- nica esmaltes tão vistosos, que muitos como envejosos se m.ovem, e re- solvem a seguil-a.

VIII

As virtudes, e das virtudes, porque sendo estas lição viva, e anima- da, dão nova alma, e tal vida á escritura, que quem a lé, fica com os olhos da alma abertos pêra ver que o acerto principal, e único da vida he guiar os passos pollo caminho da virtude. Da morte finalmente, por- que como foi plácida por ter sido acompanhada de boas confianças no Pai das misericórdias, fará enveja a muitos pêra escolherem antes viver na Religião com pobrezas, e trabalhos pêra ter felicidades na morte; que passar a vida no mundo com abundancias pêra morrerem pobres de merecimentos, e com sustos nas almas.

Começando pois pollo nascimento, o Padre Frei Luis de Sousa, no mundo chamou-se Manoel de Sousa Coutinho, foi filho de Loupo de Sou- sa Coutinho, e de Dona Maria de Noronha, foi seu pae mui celebrado entre fidalgos do seu tempo, por seu grande valor, juizo, gravidade da pessoa, prendas singulares, muita Philosophia em saber viver, e saber retirar-se; e sobre tudo por ser grande Christão. valor mostrou na índia, sendo Governador delia o grande Nuno da Cunha, nas heróicas obras que fez: mormente no cerco de Dio, em que se achou. O juizo, no governo com que foi capitão na Mina, e no provimento que levou e soube distribuir aos lugares de Africa por mandado d'el-Rei Dom Se- bastião. A presença, e gravidade da pessoa era tão digna de respeito, que obrigava a se comporem por si, todos os que o conversavão, e di- zem que até o mesmo Rei se compunha, quando fallava com elle, não era tanto artificio, quanto natural, tinha grandes obrigações á natureza, e por isso teve tão poucas á fortuna: que de ordinário não se compa- decem humas com outras; foi tão Philosopho, que llie chamarão o Ca- tão Uticense de seu tempo, e assi, sendo muito applaudido por ser a gala da conversação, grande Latino, humanista, bastante antiquário, e histórico, grande Poeta, como mostrarão as memorias que deixou do Cerco do Dio, e da perdição de Manuel de Sousa de Sepúlveda; huma, e outra cousa relatada em verso solto; e singular Matemático, como se vio em muitas obras suas. Sendo pois este, relirou-se a Santarém, aonde soube em vida ensinar seus filhos, e mostrar-se na morte bom Christão; morreo sem embaraços, porque em vida ajustou seu estado com suas i*endas: escolheo pêra seu jazigo a Capella mór do Salvador, Freguezln sua em Santarém.

Seu filho Manoel de Sousa Coutinho, se não herdou seu Morgado por ser o quinto filho na idade de seis que teve, foi herdeiro de suas preiw das, imitando como bom filho a tão bom pai. De pequeno foi logo mos* trando o que despois veio a ser ; que -de ordinário se mostra hum não sei que de bem n'aquclles, que Deos tem escolhido pêra si, que logo os a conhecer no modo, que nesta vida se permitte. Ajudou a boa cria- ção ao bom natural, foi crecendo na Latinidade, na Poesia, nas noticias de historias, nas antiguidades, e no conhecimento de todas as cousas, no trato, nos termos, na discrição, e na Philosophia Christãa, que pare-

IX

cia nosso Catão em poucos annos, desejado, bem visto, o aplaudido de todos, por judicioso, entendido, e singular na conversação.

Nâo lhe faltou valor pêra as armas : c assi levado d*este na prima- vera de seus annos entrou por Noviço na Religião de S. João do Hospi- tal em Malta, mas Deos, qee o tinha determinado pêra ontra, em que seus exercícios fossem muito differentes, e aventajados na perfeição, di- vertio-o d'esta, e deu-lhe muito differente em hum bom ensaio de so- frimento, e paciência, pêra ir aprendendo por experiência o que linha alcançado pola lição, nas mais desarrezoadas acções, e procedimentos in- justos : e foi que antes de professar, o cativarão os Turcos ; e devia de não ser conhecido por noviço d'aquella tão illustre, e valerosa Religião; porque se o conhecerão os Turcos, difficultosamente teria quartel, e com maior difficuldade resgate ; que assi o costumão usar, não com os Freires da Religião, mas ainda com os naturaes da Ilha de Malta, polo grande ódio que a todos tem, a respeito dos danos que recebem de seu valor, e braço nos recontros da guerra ; assi os tratão, quando os deixão vivos, com notável desprezo, tormento, e tyrania, como quem deseja que se acabem aquellas vidas brevemente em seu poder : e assi boa escola, e boas lições de máo tratamento, e de paciência teve nesta vida, o tem- po que lhe durou tão duro cativeiro, Manoel de Sousa Coutinho ; mas foi Deos servido que escapasse d'elle com resgate; não lhe foi possível continuar o noviciado por razões forçosas, veio-se pêra sua pátria ; que esta nunca esquece. Por vezes passou ás índias, Oriental, e Occidental, por causa de guerras, e de outros respeitos de honra, que a isso o mo- verão; mostrando sempre nas occasiões valor, e generosidade de nobre, e de Portuguez.

Po5to na pátria outra vez continuou seus exercidos costumados, ho- nestos sempre, o de utilidade, alé que veio a se casar com D. Magdale- na de Vilhena, viuva de poucos annos de D. João de Portugal, que ficou juntamente com seu pai D. Manoel de Portugal, filho de D. Francisco de Portugal, primeiro Conde do Vimiozo, na batalha de Alcácer em Afri- ca, servindo, e seguindo a el-Rei D. Sebastião. Com esta senhora esteve casado alguns annos, sem ter d'ella mais que huma filha que falleceo de pouca idade ; até que ambos de commum consentimento fizerão hum di- vorcio santo, e se meterão na Religião.

Sobre o motivo próximo que tiverão pêra huma resolução tão noía- vel, ouvimos fallar variamente ; porém tomando informação de pessoas que d'isso tinhão certa scíencia, achamos que foi o seguinte. Moravão na sua quinta de Almada, e succedeo, que estando ausente Manoel de Sousa Coutinho, visitou o Padre Fr. Jorge Coutinho seu irmão, hum dia sua cunhada D. Magdalena ; estando ambos praticando, lhe derão recado que lhe queria fallar hum peregrino que vinha de fora do Reino. E mandado vir á sua presença disse : Senhora, sou Portuguez, fui por devação vizi- tar os lugares santos de Jerusalém ; e querendo-me voltar pêra eslc

Reino me foi demandar liiim liomem Portiiguez, segundo se colliia de seu fallar, o qual depois de se informar de quem ou era, e como vinha pêra Portugal, me encommendoii que passasse por esta vilia ; e sendo vossa mercê viva lhe dissesse, que ainda por vivia quem se lembrava de vossa mercê. Isto he o que me trouxe aqui. Ficou D. Magdalena sus- pensa, ouvindo este recado ; e perguntou, que estatura de corpo, que feições, e que còr de rosto tinha o homem que dera aquelle recado? O peregrino foi descrevendo lodos os accid entes pessoaes assi como os ti- nha visto com os o11k)s ; e tudo quadrava ao vivo á pessoa de D. João de Portugal. Deu hum desmaio a D. Magdalena de Vilhena ; o que vendo o Mestre Fr. Jorge Coutinho levantou-se, e sahio com o peregrino pêra a salla de fora, aonde havia muitos quadros, entre os quaes estava tam- bém o retrato de D. João de Portugal ; e disse ao peregrino : Se virdes a imagem d^aquclle homem, que vos deu o recado em Jerusalém, co- nhecel-o-heis ? respondeo que sim : e correndo os olhos pelos quadros sem demora, apontou pêra o quadro de D. João de Portugal, dizendo, que o homem, que lhe faltara, todo se parecia com aquella imagem ; e com isto se despedio.

Este foi o motivo que houve pêra se apartar Manoel de Sousa Cou- tinho de D. Magdalena de Vilhena, depois de viverem tantos annos tão bem casados: porque chegando elle de fora, cila lhe relatou tudo o que tinha passado com o peregrino, e o mais que tinha visto seu irmão o M. Fr. Jorge : c assi que visse o que na matéria se devia fazer. Não se sus- pendeo, mas respondeo logo dizendo: Atégora, senhora, vivi em boa comvosco : c creo de vós que na mesma vivestes comigo : porque fio do vós que não casaríeis outra vez, se não tivéreis por certa a morte de vosso primeiro esposo D. João de Portugal ; porém se foi engano incul- ])avel, ou isto he ordem de Deos pêra escolhermos melhor vida, desde logo pcra sempre nos apartemos. Não daremos de nós boa conta a Deos, se he ordem sua ; que estas sempre tem por alvo o que he mais per- feição: e nem ainda ao mundo, se ficarmos n'elle apartados ; o que mais convém, he fugir pêra o sagrado da Religião. Não fugiremos de todo ao mundo, se fugirmos pêra onde possamos ver seus tratos, convém apar- tar d'elle de sorte, que nem nos veja mais, nem o vejamos. O caminho está franco ; pois hum peniior que tivemos foi Deos servido de o levar pêra si em tenros annos ; está no Ceo, assi o creo ; pêra nos chamão as saudades ; a idade nos desengana ; a vaidade do mundo a vozes clama ; a occasião presente nos obriga : o exemplo dos Condes do Vi- mioso, que com santo divorcio se retirarão, elle pêra o Convento de Remfica, ella pêra o do Sacramento, novo espelho de perfeição, exem- plar escondido de virtudes, cm tudo deleitoso jardim pêra o Ceo, nos convida, e anima juntamente o seguir seus passos poios mesmos cami- nhos: esta eleição parece necessária, este emprego julgo por melhor.

xMal tinha acalmado de fallar, com mais viva eloquência, quando D.

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Map^íblena se mostrou cm tudo mni conforme, som o minimo sinal de sentimento, porque lhe ditava o jnizo interiormente, e a vontade abra- çava tudo quanto estava ouvindo. Tinhão os Condes do Vimioso D. Luis de Portugal, e D. Joanna de Mendora fundado n'aquellc tempo o Mos- teiro do Sacramento, que ainda estava junto ao postigo do Arce))ispo, abaixo de S. Vicente de fora, aonde a Condessa professara ; e o Conde estava em S. Domingos de Bemlica ; seguirão ambos a mesma derrota, D. Magdalena tomou o liabito no Sacramento, e Manoel de Sousa Cou- tinho em S. Domingos de Bemfica ; e pola grande amizade que tinha com o Conde, até o nome de Manoel renunciou, e tomou o nome de Luis ; ella se chamou Soror Magdalena das Chagas; e em quanto viverão não se virão mais, nem se fallarão, nem ainda se tratarão por escrito.

N'esle successo tão estranho íizerão muitos juizo de huma supervi- vencia, em que fundarão grandes esperanças ; mas não me persuado nos podemos acomodar com este parecer, que não he crivei que pessoas de tal qualidade, juizo, e de tanta christandade como tinhão, notoriamente chegassem a celebrar segundo matrimonio sem a certeza da morte, que conforme a direito se requero : e assi somente se offerece, entre sus- pensão no caso, se seria o peregrino do recado algum Anjo, supposto que a resolução foi tão admirável que deixou hum raro exemplo ao mundo : o o i)em espiritual, que a ambos se seguio, pôde servir de es- pelho pêra todos, que não he novo no mundo servir hum hal»ito de pe- regrino de caçar caça de almas pêra Deos, pois lemos que em trajos do peregrino se mostrou Cliristo Senhor nosso pêra reduzir os dous quo pêra Emaus se retiravão, alheos do amor, por desconfiados.

Tomou pois o V. Fr. Luis o habito, e professou em dia do Nasci- mento da Senhora, 8 de Septembro de 1G14, nas mãos do P. M. Fr. João de Portugal que era Prior de líemíica, e Vigairo também do Mos- teiro do Sacramento: e a primeira cousa, que pôde causar espanto, lio que vindo tão tarde á Religião, não estranhou a gaiola da casa dos No- viços: assi se acomodou com os oíFicios de humildade, com os exercícios mortificação, o penitencia, com a continuação do Coro, e mais com- munidades, com a experiência das obediências no anno de approvação. e fmalmente com a companhia, e conversação dos noviços, differentes na idade, e alguns também na condição, como se lhe nascera a penugem neste modo de viver: nem se deve julgar esta sociedade fraternal por cousa de pouca consideração, porque nisto se mostra mais ao manifesto que as Religiões são cousas de Doos, porque ver o grande, e o peque- no, o nobre, e o humilde no mundo, o velíio, e o moço, todos juntos no mesmo coro, na mesma mesa, na mesma conversação, trato, oíTicios, e exercícios, he iiuma demonstração particular da divina Providencia, que está conservando com união tantos sujeitos tão differentes. Assi parece que o quiz mostrar Deos na sua igreja pelo profeta Isaias : Habitarão (diz o Profeta) juntamente o lobo, e o cordeiro, o leão com o novilho.

XII

animais, que por natureza tom opposiçao, sem que se offendam liuns aos outros, sendo pastoreados por hum moço de pouca idade: e nesta igual- dade de naturezas, oppostas entre si, vemos resplandecer a assistência com que Deos assiste a sua Igreja. O mesmo em seu modo vemos na Keligião, aonde o P. Fr. Luis, tão brioso no mundo em pontos de hon- ra, que chegou a ser Nero de sua própria casa, porque o não obrigas- sem a se tirar d'ella; tão sujeito, humilde na Religião, que sendo o mes- mo, mostrava bem em sua modéstia, composição, e em seu soffrimento, que não era o que tinha sido; e que aquella mudança fora verdadeira traça da mão de Deos.

E não he menor argumento de admiração a perseverança que sem- pre teve em tudo, do dia em que tomou o habito, até o fim de sua vida: a mesma pobreza, o mesmo rigor com sua pessoa, o mesmo finalmente em todas as virtudes, que não se pode negar que a perseverança sem alteração no trato, e no procedimento, he pedra de toque das virtudes: tinha huma tença grossa em vida; tanto que entrou na Rehgião, não sou- be, nem se quiz aproveitar delia pêra cousa alguma, nem admittiu nun- ca ter dinheiro em deposito da Communidade, cousa que he permittida: o habito que lhe dava a Religião, esse trazia em. quanto se podia remen- dar; na cella não havia em que por olhos, cama de sem cousa que a cobrisse, como erão também as túnicas que usava; hum tanho pêra se sentar, e nisto se resumião todas suas alfaias. Quiz seguir nisto o exem- plo do grande Mestre Fr. Luis de Sotomaior, que nunca admittio na sua cella outro assento, como também seguio o do Arcebispo Dom Fr. Ber- tholaméu dos Martyres, porque não se contentava com jejuar os sete me- zes, e outros jejuns da Ordem no restante do anno, mas além disto dei- xava sempre meia porção de tudo o que lhe davão no refeitório, pêra os pobres, porque não se dava por satisfeito com guardar as constitui- ções á risca, como sempre guardou em toda a idade; mas queria acre- centar de mais quanto podia. O mesmo era nas penitencias, nas discipli- nas, e no cilicio.

Fez continua guerra ao ócio, como quem entendia bem quantos ma- les nascem da ociosidade, e que na occupação continua consiste grande parte do livramento das tentações, conforme o conselho que S. Jerony- mo deu ao Monge Rústico. E assi em quanto não teve a seu cargo es- crever por ordem da obediência, encarregou-se do oííicio de enfermeiro, em que mostrou tal desprezo de sua pessoa, e tão rara humildade, que mettia em confusão, e edificava a quantos o vião, porque não tratava dos medicamentos, e todo o mais necessário, de concertar, e alimpar a cella, c cama aos doentes; mas também se empregava nos mais humil- des, e asquerosos ministérios. Assistia-lhes sempre aliviando-os com sua conversação, que sempre era ou com Deos ou de Deos, como a de N. V. S. Domingos, sem nunca se lhe ouvir palavra que pudesse oífender, nem que se pudesse julgar por ociosidade.

Xlll

Na sequella do Coro, e nas horas de oração era infallivel, mas nâo passava com a oração da Communidade ; sempre ficava mais tempo. E podemos dizer qae a sua oração era conlinua, não por andar sempre com jaculatórias na boca ; mas porque de tudo quanto via, e ouvia, sa- bia fazer escada pêra subir com o pensamento a Deos, vendo sempre as creaturas como meios pêra conhecer a Deos, e assi faltava de tudo como cousa de Deos; passarinhos de Deos, hervas de Deos, habito de Deos, tudo finalmente na sua boca era de Deos; porque não queria, nem en- tendia cousa sem Deos. De N. Senhora era devotíssimo, nunca faltava em rezar o Rosário, e outras devações; mas o que dizia fallando com a Senhora, visitando todos os dias seu altar, enternecia a quem estava jun- to delle, e o ouvia. A devação, que teve ao Santissimo Sacramento, foi notável: não deixou nunca de dizer Missa, por mais occupações, que ti- vesse; e dizia-a com tal pauza, e demonstrações de devação que edifica- va muito aos ouvintes. Finalmente em tudo o que fazia, e dizia, e com apparecer edificava, porque parecia hum retrato de penitencia.

Na obediência foi singular Rehgioso, porque, como dtsse Santo Tho- más a huns fidalgos Neapolitanos, que lhe notarão acceitar ir por com- panheiro de hum procurador que o levava atropelado, porque caminhava depressa e não sabia quem levava comsigo: Toda a Religião, disse o San- to, consiste na obediência com que hum homem se sujeita a outro por amor de Deos, assim como Deos se veio a sujeitar aos homens por amor dos mesmos homens. O P. Fr. Luis de Sousa não obedeceu em tudo, mas com toda a vontade, e sem replicas, e tal vez deixou de replicar sendo a matéria da obediência tal, que no parecer dos que o vião, tinha direito, e obrigação de replicar, mas parece que também tinha sujeito o juizo, que he a obediência mais custosa, e por isso de mais merecimen- to. Pelo que mal se lhe pôde notar acceitar elle o cargo de escrever, ainda cousas que não erão da Religião: que a hum Rei não se respon- de não; mais que nas matérias que são contra Deos: mormente quando seus mandados nos são encarregados poios Prelados. E se em quem ac- ceita com estas condições houvera culpa, com que se pode izentar delia quem a pretende? Disse Santo Thomás no Opúsculo da perfeição da cha- ridade, que se pôde acceitar hum Bispado, quando a necessidade da cha- ridade o pede: como poderá hum Religioso deixar de acceitar huma oc- cupação hcita, útil, e louvável, quando a obediência lho manda?

Não se pôde izentar de emulação culpável, quem notar ao P. Fr. Luis de acceitar escrever livros, quando elle foi não somente izento de honras, mas tão opposto a ellas, que não estudou Theologia na Ordem por não ser pregador, sendo que o fora muito insigne, pois tinha tão grandes partes da natureza, e da arte, juntas com seu espirito, e seu exemplo de vida; e por estas razoes não faltou quem lhe quiz pôr cul- pa, porque não tratou de o ser, que nesta vida não ha escapar de cen- suras. Spectaculum facH suvms mundo ek.y disse S. Paulo; mas oP. Fr.

XIV

Luís jogava lanços adiantados em matéria de humildado, e segurança; vio bem o que diz o mesmo S. Paulo, sendo S. Paulo, qm receava íi- car réprobo, quando pregava aos outros. Considerava também que se fos- se [jrégador, podião os Religiosos, ou os Prelados querer que fosse Pre- lado, e ver-se em perplexidades; e assim achou quo mais seguro cami- nho era, supposto veio tarde, deixar de ser Pregador. E quem cuida em não ser Pregador por nâo ter cargos, mal se lhe podem fazer cargos de acceitar a occupação de escrever historia, por obediência.

Obrigado desta, começou a escrever, e fazer mais cruel guerra ao descanso; porque sendo o trabalho de revolver cartórios, e papeis velhos com os caracteres tão cegos, que cegão quem passa os olbos por elles; teve neste particular muito trabalho o P. Fr. Luis; e com tudo escrevia todos os dias ao menos três folhas de papel por sua própria mão, e cos- tumava a dizer como as acabava, que tinha feita a tarefo daquelle dia. Podemos dizer, que morreo com a penna na mão; porém não esquecido das obrigações de Religioso, porque, não obstante a obrigação, sempre seguio o Coro, e mais communidades; até lhe dar a ultima doença: não foi necessário desenganal-o que morria, porque em toda a vida, de- pois de Religioso, andou sempre acompanhado d'este desengano; e quem viveo considerando que o habito, que trazia, era huma mortalha, não ti- nha que temer horrores da morte, antes alegrar-se com ella, por ser meio pêra gozar da outra vida, que não se acaba. Aparelhou-se, pedlo, o recebeo todos os Sacramentos, pedindo mil perdões do máo exemplo que dera, dizendo á volta disto tantas cousas, c tão consideráveis, que era necessário fazer hum livro pêra as relatar. Falleceo em Maio de 1632, está sepultado no antecoro de Bemfica, junto aos degráos do Goro.

Deixou-nos o Padre Fr. Luis de Sousa huma memoria de sua Poe- sia na descripção da vida de nosso Patriarcha S. Domingos, nos versos tão polidos, devotos, e sentenciosos, que se vêem no claustro do Con- vento de Lisboa. Em proza compoz, nos últimos annos de sua vida, a historia de D. Frei Bertholameu dos Martyres, Arcebispo de Braga, Pri- maz das Ilespanhas, chamado de todos Arcebispo santo; esta se estam- pou, sendo ainda vivo, obra tão digna de seu Author, como louvada, e estimada de todo o mundo, particularmente dos Prelados da Igreja, que a lém como aranzel de seu governo, e de suas acções. Escreveo mais a Chronica de S. Domingos, particular do Reino, e Conquistas de Portu- gal, repartida em três partes; o ultimamente, por mando d"el-Rei Dom Filippe IV de Castella, no tempo em que governava este Reino, escre- veo a Glironica d'El-Rei D. João o III de Portugal em dous livros. Esta pedio á Ordem depois de sua morte, quem governava este Reino por mandado do mesmo Rei, pêra se dar ao prelo, deu-sedhe; mas não se imprimio, nem se pôde descobrir, por mais diligencias, que pêra isso se fizerão, depois da felicissima acclamação d'el'Rei D. João o IV, N. S. Da Chronica de S. Domingos somente a primeira parte se estampou em vida

XV

do Author: agora sao á luz esta segunda, que começa no anno de 139i, e prosegue a historia até o anno de 1513. No discurso deste tempo se fundarão nesta Província oito Conventos de frades, e quatro iMosteiros de freiras; a saber, o Convento de Bemfica, o de Ceita, que depois se mudou pêra Tangere; e o de Aveiro, Villa-Real, Azeitão, Abrantes, Pe- drógão, e o da serra de Almeirim. Os Mosteiros de freiras são, o do Salvador em Lisboa, o de Jesu em Aveiro, Santa Anna em Leiria, e o de N. S. da Saudação em Monte mór o Novo.

Fundarão-se os Conventos de Bemfica, Aveiro, Azeitão, Salvador, o Jesu de Aveiro, pêra recoletas, em que se guardassem as Constituições á risca, com observância mui exacta, governados por hum Vigairo geral, feito por eleição nos mesmos reformados; com sujeição porém em algu- mas cousas aos Provi nciaes da Província. Durou esta sujeição até os an- nos de 1468, mas d'ahi por diante forão isentos em tudo por Breve Apos- toUco, que pêra isso se impetrou; o a experiência mostrou, que perma- neceo a observância em todo o seu rigor, em quanto durou a separação. E como o Author nesta segunda parte encontrou logo com os rigores da reforma, cousa tanto de seu génio, por ser emprego de sua devação, e espirito, apurou mais o estilo; porque o movia o amor da observância, que quando o amor obriga a fallar, os c®lloquios deleitão, as razões con- vencem, e as doutrinas tem efficacia pêra mover, e assi se mostrou o Author nesta segunda parte Poeta em deleitar, Orador em persuadir, e Philosopho em obrigar a compor a vida; que são as três partes, em que se cifra a perfeição de hum historiador consummado. Não se excedeo a si mesmo; porque em tudo se dibuxou a si mesmo, porque tratou na Religião de dibuxar em si muito ao vivo tudo o que via, e lia dos ou- tros; e assi ficou sendo o exemplar de sua escritura em tudo o que es- creveo dos outros. Haverá por bem o benévolo, e pio Leitor, que se lhe não peça perdão das faltas d'esta obra, mas .antes ai viçaras de lhe offe- recer huma lisonja ao gosto d'alma, e hum manjar deleitoso pêra o espi- rito.

Yale.

LICENÇAS

DO reverendíssimo P. GEIUL

Nos Fr. Joannes Baptista de Marinis Sacríc Theologiae professor, Or- dinisque Fratrum Praedicatorum humilis Magister Generalis, et servas. Tenore prsesentium nostrique authoritate officii facimus licentiam P. Fr. António de Incarnatione nostra; Provinciíe Portugalliae, ut possit publicis typis mandare secundam, et tertiam partem Historiae Provinciae nostra) PortugallicC compósita} á R. P. Fr. Ludovico de Souza ejusdem Provin- ciíB, servatis servandis. Datum Romaí in Gonventu nostro Sanctae Marige super Minervam die á5 Junii. An. Domini 1050.

Fr. Joannes Baptista de Marinis Magister Ord.

Registada a foi. 19.

Fr. Bernardinus de Venetiis Magr. et socitis.

Approvação do M. R. P. Mestre Fr. Thomás Aranha,

De ordem, e commissâo do muito Reverendo Padre Fr. Bertholameu Ferreira Mestre em sancta Tlieologia, Prior Provincial da Ordem dos Pregadores n'estes Reinos de Portugal, Consultor, e Qualificador do Sancto Ofíicio, li com particular, e trasordinario empenho de cuidado, e applicação este livro, que se intitula Segunda parte da Historia de S. Domingos particular do Reino, e Conquistas de Portugal, composto pelo muito R. P. Fr. Luis de Souza.

E bem pude dizer com Séneca : Accepi librum tuum, qui tanta duU cedine me tenuit, et traxit, ut illum sine tilla delectatione perlcgerem (1). Mas assi como o hia passando, me achava com o juizo roubado, e dividido

(1) Seiíccii Epibt. Í6.

XVíl

a luim, por aml.ias as partes, bem sustentado problema : se era maior a recreação, e alivio, se o proveito, que (na esphera, e no tanto de minha frieza, e falta de espiíito) de semelhante lição recebia, e agasalhava? Que bem podia este nosso grande Chronista prometter também com Se- leca: Ego verá, quod etmihi, ettibipossit prodesse, ser ib am (í).E])Orquíò assi como nos frontispícios, e fachadas de sumptuosos edifícios se põe as armas, e emprezas de quem as fundou, e com custoza magnificência fabricou, também na ftice, e prólogos dos grandes livros, e insignes obras não lustram mal, nem como impróprias desdizem (antes as vemos mui uzadas, e bem recebidas) as noticias, e relações da vida, virtudes, e boas qualidades de seus compositores, e auíhores: pelo que mepare- ceo não conveniente, mas louvável, e meritório fazer huma breve men- ção no papel d'este meu sentimento, e censura, de algumas das excel- lentes virtudes, e prendas do Padre Frei Luis de Sousa: advirtindo, que se houver algum critico, que diga excedo eu n'isto as leis, e ordem de Revedor, e Qualificador do livro, não poderá negar-me farei hum mui grato obsequio á honra de minha sagrada Religião, e á obrigação, que todos temos a hum sugeito, que tanto nos honrou : e outro si á frater- nal charidade, e boa correspondência de animo, que eu sempre com ello tive com manifesta onzena de minhas melhoras, e dos sabidos interesses que do seu trato, e amizade me resultavão.

As obras posthumas costumão desenterrar o nome de seu author pêra a conservação da memoria (cuja falta, e perda no juizo, e cuidado dos vivos, he o primeiro dispêndio, e effeito, que a morte faz, e traz comsigo): mas este volume posthumo do Padre Frei Luis de Sousa, não podia dar nova vida á sua fama, se a considerássemos diminuída, ou sepultada ; senão que também está resuscitando suas virtudes pêra o exemplo ; maiormente nos que como irmãos seus lhe devemos emula, sancta, e proveitosa imitação. E se alguém discretamente disse que huma carta era retrato d'alma, claro está que mais copioso, e vivo o po- derá ser todo inteiro hum livro.

N'este temos primeiramente aquelle próprio, e grande valor, que sendo secular o Padre Frei Luis de Sousa sempre teve pêra todas as pontualidades, e gentilezas humanas, com as guardas mudadas ; e des- pois de entrar na Religião pêra todos os empregos, e luzimentos espiri- tuaes, apostando- se como verdadeiro, e essencial Religioso a desterrar da sua alma affectos humanos, e tudo o que cheirasse a respeitos de carne, e sangue ; como provou bem, deixando tantos annos de ir ver a sua querida prenda, a quem pola força do vinculo conjugal podia cha- mar: dimidiurn animoR suce (2); com mais razão do que teve o outro Poeia pêra por este nome ao amigo que navegava.

Na observância da pobreza religiosa, despois que solemnemente a votou, se fez tamanho lugar, e se abalizou tanto, que estou lembrado do

(!) Epist. 23. (2; Uoral. Otl d. do liv. I.

B

XVIII

como, indo eu ao Convento de Bemfica, e entrando na sua pobre cella, e vendo-a Ião limpa, desenfeitada, e despejada de todo o ornato, e con- certo (até dos que religiosamente sepermittem) lhe disse eu queassi co- mo o outro Cortesão galantemente sentira que a razão de serem os Poe- tas de ordinário mui pobres, era, porque punhão toda a prata, e ouro, e todos os diamantes, e pérolas nos seus versos, e assi os fazião, e tra- zião bem cheios de finíssima pedraria, ficando-se elles com as mãos de todo, e de tudo bem. vazias : Entendia eu, que todo o cabedal, qua- dros, brincos, e peças d'aquelle seu estreito (se desembaraçado) aposento tinha elle tresladado aos livros, e volumes, que havia composto : por onde me não espantava de não achar alli mais, que dous humildes as- sentos de tanho, que mais servião pêra acodir á precisa necessidade de não estar sempre em pé, que ao descanço, e authoridade de estar bem sentado ; occorrendo-me n'este passo, quam estremadamente disse o Sé- neca (1): «Si ad naturam vives, nunquam crispauper: siadopinioniSfftun- quam eris dines : exignum natura desiderato opinio mmensnm,

O seu incansável estudo, perpetua fadiga, anciãs, e desvelo em revol- ver papeis, desempoar, e examinar cartórios, e ler os livros, que lhe parecião necessários pêra a profissão da historia,, vence todo o encare- cimento ; e quadra-lhe ajustadamente aquillo de Horácio : Una fides optan- da labores; porque mal se podião crer tão aturadas porfias, e continua- do trabalho, não perdoando nem de dia, nem de noite a todas as horas, que do seu officio divino, e outras occupações mais importantes á sua alma, lhe restavão : e n'esta conformidade se queixava sempre da falta do tempo ; porque a verdade he que quem o sabe empregar bem, sabe sentir, e cliorar a falta d'elle: e huma vez me referio o dito d'aquel- le Doutor da Universidade de Coimbra, que achando hum estudante dis- cípulo seu encostado a huma das tendas dos livreiros d'Almedina cora buns livrinhos nas mãos, e perguntando-lhe que fazia, respondera-lhe o discípulo : Estou comprando estes livros pêra passar o tempo : e que o Doutor lhe tornara então : Vós senhor comprais livros pêra passar o tem- po, e eu de melhor vontade comprara tempo pêra passar livros : Faci^ lis jacliira sepulchri disse O Poeta, e está bem advertido, mas não assi, facilis jacfiira temporis ; antes como disse bem o Séneca : Turpissima jadura illiiisest, qiice pernegligentiam fd (2). E pouco importa faltar sepul- tura pêra a corrupção do corpo, e importa muito, e mais que muito, e em fim tudo, o não faltar tempo pêra a salvação da alma.

E he na verdade desordem bem digna de lagrimas o vermos que, sendo o tempo a cousa, que somente temos de nosso, e tudo o mais alheio : Tempus enim (diz o Séneca) tantum nostrum est ; omnia aliena simt; se hajão muitos bomens no perdel-o, e esperdiçal-o com tão lastimosa, e imprudente prodigalidade, sendo o de que com ser uni- camente nosso, maior pobreza, e falta padecemos. E bem mostrava o

(I) Séneca Epiel. IG. (2) EpÍ6l. 1.

XIX

nosso Chronista (chorando, e poupando o tempo) ter mui presente o pa- recer do Pliilosoplio: Unius temporis honesta estauaritia (I); com ser a ava- reza hum vicio, e peccado de sua natureza vil, e affrontoso, do tem- po podemos, e devemos ser prudente, honrada, e gloriosamente avaren- tos.

Mas parece fundamos a virtude de sua profunda humildade, posto que não pôde disculpar minha tardança, mas apoiar meu esquecimen- to (se n'elle cahira) o suppor, e doixar por bem provada esta sua virtude, somente com o titulo da sua primeira parte, que he o seguinte: Primei- ra parte da Historia de S. Domingos particular do Reino, e conquis- tas de Portugal, por Frei Luis Cacegas da mesma Ordem, e Província, e Clironista d'ella. E a mesma renunciação do trabalho próprio, e con- fissão do merecimento alheio faz o Padre Frei Luis de Sousa, larga, e generosa, confiada, e díscretissimamente no capitulo sétimo do quarto livro d'esta sua segunda parte, onde falia do muito Reverendo Padre Frei Luis Cacegas, a quem attribue, e encosta toda a substancia, traba- lho, e merecimentos d'esta ol)ra, sendo que não achou em suas mãos, fi poder mais, que huns desarrimados, e desarrumados fragmentos, c huns notados tão confusos, que seria igual trabalho o entendel-os, e pe- netral-os, e o dar-lhe a clássica disposição, predicamento, e ordem, que he o que pêra si toma o Padre Frei Luis de Sousa: sabendo, e ven- do nós, que de huns como informes embriões acrescentou, e poz tanto de sua casa, e de huns toscos, incultos, e remotos materiaes, que crão como, rudii inóKje.slaque moles^ e de huma narração tanto de berço, e tão criança nos formou, c deu huma tão crescida, o gigante Clironica, como a que vemos.

Ceder voluntariamente a outrem em matérias de entendimento, e de- fraudar-se a si próprio dos quilates, e applausos devidos a hum bom juizo, he fineza extrema de necessidade : porque assi a soberba, como a humildade não tem por objecto os bens alheios, senão as cousas que são, ou se imaginão individualmente próprias, porque nem o soberbo se esvaece, incha, e estira do collo, com as excellencias, que tem, e qua- lifica por de outrem; nem o humilde, por desprezar bens alheios, se pô- de adquirir merecimentos próprios. E isto nos ensinou nosso Mestre Sancto Thomas também, quando disse (2): Qnce per humilitatcm quilibet ho- mo secundam illad, quod suum est^ potest se suhjicere próximo. Secnndum illmiy quod suum est, no que tem de si, e de seu, e em quanto seu exer- cita o humilda esta virtude. E como nenhuma cousa seja tão propria- mente nossa, como he o nosso próprio entender, que por isso o nosso poeta Philosopho Francisco de Sa disse tanto á boca cheia: O entendi- mento, que he nosso, não nol-o querem deixar. Desfazer-se, e roubar-se a si próprio os louvores, e acciamaçôes dtí entendido, e sábio, e perfei- to historiador em favor, e graça do Padre Frei Luis Cacegas, foi pôr o

{!) m de boni vilae. (2) D Tliora. 2. ?. q. ICí. c. 1.

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XX

nosso Cbronista o risco o mais alto, e lançar a barra o mais longe que podia ser nos verdadeiros lanços da humildade.

Acreditava lambem esta com ser o mais frequente termo, que na sua boca se achava, o de senhor, tratando por esta lingoar^em até as pessoas de plebea, c menor condição, como se (pois ex ahundantia corais os loquitur) de lodos interiormente se reputasse escravo. Nos exercicios, e progressos humildes da Religião se esmerou, c estremou tanto, que se prezava de ga- nhar no jogo das mais abatidas, e aviltadas occupações da casa, não por ter melhores cartai, senão jogar sempre como de mão, sendo o primeiro, quo com alegria, e diligencia n'eilas se achava, trazendo-nos com isto á me- moria o que disse o outro do grande Pompeo, quando o vio esíar-se la- vando os pés a si próprio n'aquella náo, em que despois de vencido de Júlio César fugia d"ellepera o Egypto (como refere Plutarcho): Ogenerosis rjuám jtrcuclara sunt omnia, ou, (jiidm decent omnia (jcnerosos (l): caso, e senten- ça, que deverão trazer mui (hantc dos olhos todos os que, tendo san- gue illustre, se vem sugeitar ás humildades (antes á maior nobreza, e fi- dalguia) da Religião. Sentia muito o louvarem-no, e logo atalhava, e cor- tava o lio a todo género de adulação, mudando o propósito, e fallando em outras matérias. Gr«t'â/5 est humili Jaudari (disse divinamente Santo Ambrósio) quam superho viíuperari(^). Sancto Agostinho: Humilem esse, ei^t iioUe laudarii^). S. Bernardo: HumiUtas, est excellentm contemptxis (í). E o grande Padre S. Gregório: Humiíítasmnf/nn, acta hmdahiliter celat (ri). E assi bem creio eu, que a ser possível d'essa gloria), onde o conside- ramos com toda a infallibilidade de mortal, e christã certeza) me estaria estranhando, e reprehendendo estes meus discursos, posto que escassos, e estes tenros, e desmaiados âmagos, com que ao argumento de seus louvores, e elogios me abalanço.

De tudo o que n'este particular tenho praticado com scriosa, e a meu ver muito formal consequência, recolho, que se n"esto Reino se achar algum Chronista d'elle, que mais inadvertida, que madura, c fun- dan^ente pretenda arguir ao Padre Frei Luis de Sousa de pouco humil- de; digo que lambem lhe será fácil o in scirpo nodum quwrere, ouaccu- sar a Hercules, respondendo ao espanto, e pergunta de quem disse: Et quis H cr adem nccusaf! E verdadeiramente não sei como semelhante au- thor se possa livrar, e limar do achaque da enveja. que sempre foi mãi de njalissimos discursos, de mui frívolas, e desatadas consequências. E com todas as que faz, ou íizer contra o nosso Chronista, não avança- rá mais, que o fazer-nos confessar, que ainda que o Padre Fi'ei Luis de Sousa foi hum Alexandre no esforço, valentia, e liberalidade da historia: com tudo não teve de Alexandre (G) o ser maior, que toda a humana en- veja (como d'elle affirma Plutracho) pois he força, que o i-econheçamos com muita causa envejado, ao mesmo passo, que o vemos sem razão al- guma reprehendido, e censurado.

(1) Plulard). (2) S. Aug. (3) S. I?crn. (i) S. Rcnl. (lí) S. Gvo^. (0) ^Plularcb.

XXI

E SC o Psalmista disse : MeMiita cst iniqiiilas, bem podemos aqui di- zer, que mentita est inuidia sihi. Mui em discredito, e luzimento de sua p:rave pessoa discursou semelhante escriptor, fallando mal de hum morto, sem reparar em que tem tanto de facilidade, como de baixeza, e afronta, a Mouro morto dar grande lançada : salvo quando (como eu agora em mim vejo) obriga a necessidade de responder a huma grave, e evidente calumnia, que despois da morte do aggressor poderá ainda viver pêra prejuizo, e dano de alhea honra ; e de contraminar, e rebater hum tes- temunho tão falso, como se levantou á cortesia, comedimento, prudên- cia, e modéstia religiosa, com que o Padre Frei Luis de Sousa falia em todas as cousas, não se esquecendo d'aqueUe prudente conselho também de Séneca : Pnestat cum detrimento caiiscu, quam inhoneste dicere. Reser- vo pêra outra monsão mais capaz de n'ella se estender a penna, o sa- tisfazer aos fundamentos, com que se persuadio, e soltar in individuo as razoes, com que se embaraçou, e atou o Chronista, de quem me quei- xo ; e por certo que nos será mais fácil, que sohere Gordianum nodum.

O génio, e talento do nosso Chronista pêra a historia foi tão singu- lar, e admirável, que parece quiz o Ceo n'elle ajuntar, e epilogar to<las aquellas propriedades, e habihdades, que achamos repartidas, e dividi- das pelos antigos historiadores : e vem a ser aquella lisonja de Claudia- no diuisa per omites cum cumulo collecta tenes; porque no breve, e suc- cinto do relatar vemos n'elle outro Sallustio; no pezo, e grave das pon- derações outro Lívio ; no politico, e picante das sentenças, e aforismos outro Tácito; e na liberdade do dizer (posto que no nosso Chronista misturada, e temperada com hum cortesão retiro, ingénuo, e natural pe- jo) outro Suetonio.

E permitta-se-me também (e mais não me dou a cuidar, que n'isto me meto pelos arrabaldes da temeridade, ou de alguma precipitada van- gloria, e complacência) o comparal-o, e conferil-o com o grande João de Barros nosso Tito Livio Portuguez, Príncipe dos Chronistas, não de Portugal, mas de ííespanha toda ; porque entre ambos noto huma quasi parallela conveniência, e proporção (e se se admittir alguma antelação, será mui pouco avenfejada) pois fallando de aml)os, podemos dizer que João de Barros eripuit a Frei Luis de Sousa ne esset primus ; e Frei Luis de Sousa eripuit a João de Barros ne essct solus. E maravilhosamente convierão nos assumptos das conquistas, e descobrimento de índias; por- que, se João de Barros se empregou no da nossa índia temporal do Orien- te, Frei Luis de Sousa nos descobre, c manifesta riquezas, heroes, e illustres feitos d'esta índia espiritual d'este nosso Occidente, Província de Portugal. Foi este nosso Chronista muito visto, e versado nas que chamamos amoeniores litteras, ou foi hum consummado humanista (ter- mo de que outros usarião) : do que dão claro testemunho as muitas hu- manidades, que nos seus livros toca, e as varias fabulas de que, quan- do lhe vem a pelo, e a propósito, se aproveita.

XXII

A sua propriedadi}, e castidade nos termos do nosso idioma he pro- digiosa, sendo a sua maior cultura a das phrases, e proposições intei- ras, e nâo das particulares palavras, e vocábulos; nos quais fugio (quanto Uie foi possível) d'aquellas novas inventivas, e derivações, que em al- guns authores modernos vemos tão escuras, e tâo duras, que muitas ve- zes dao com o Leitor muito contra sua vontade in tenebras plusqiiám Cim- werias; e para formarmos, e alcançarmos o conceito, opus esl Deito na- (atore, e nos fazem dar vozes dizendo: Bauus siun, non ^cliptis. O ne- cessário no propor, e entabolar, a facilidade, agudeza, e circunspecção no conjecturar, a copia no discorrer, a segurança, e formalidade, a ver- dade no allegar, a moderação no advertir, e amoestar, a vehemencia e força no concluir, que observa n'esta sua segunda parte, he tudo tão ger- manamente parecido a tudo o da primeira, que largamente desmenlio o nosso Chronista, e emendou essa commua praga, e queixa, que cor- re contra os segundos partos, crendo-se, que as mais das vezes degene- rão muito da perfeição dos primeiros : e quem tiver visto a sua primei- ra parte, e passar os olhos por quatro, ou sinco regras d'esta segunda, logo conhecerá seu author melhor, do que Apelles conheceo a Protoge- nes pela sutileza das suas linhas.

Eu sempre avaliei por hum dos grandes louvores d'este nosso Chro- nista o costume que ha (segundo estou bem informado) em alguns Con- ventos da sagrada Rehgião da Companhia de Jesu (fertilissimo seminá- rio, e felicíssima mãi de tanta multidão de filhos tão pios, e tão doctos) de se mandar ler no refeitório por lição ordinário da mesa, o livro, que o nosso Chronista compoz de vida, e obras d'aquelle grande, e sancto nosso Arcebispo de Braga, Primaz das Hespanhas Dom Frei Berthola- meu dos Martyres ; obra em que o author se cxcedeo a si próprio, que he o mais gentil, e superior modo de encarecer semelhante livro, deixan- do-nos com isto em duvida estes tão sábios, como religiosos Padres, se os obrigão a este acordo, e veneração as boas obras, e os muitos, e grandes benefícios, que da mão d'aquelle excellente Prelado receberão, se a bondade, e peregrino estilo do livro, ou do seu historiador. Mul- tas, e grandes demonstrações de amor deve toda a Companhia ao nosso Sancto Arcebispo, e entre ellas o edifício d'aquelle seu Collegio de Bra- ga, que sertá sempre hum firme, e abonado fiador das ímmortais gra- ças, e eternas correspondências de alfecto, e devação, com que os filhos do grande Ignacio lhe não foliarão ; porém por outra parte, a elegância, metliodo, doutrina, e a todas as luzes absoluta, e acabada perfeição do livro, estão suspendendo o juízo, acerca de qual dos dous motivos he mais poderoso.

Renova-nos também o nosso Author com esta sua segunda parte não somente os desejos, mas as esperanças de certa restituição, que se nos deve da Chronica, que compoz do nosso grande Rei Dom João o III, de sabia memoria (por isso assi lh'o ordenarem imperiosamente de Castella)

XXUI

e a deixou tanto no fim, qne segundo ouvi a alguns Religiosos, que o sabiao, somente os dous últimos capítulos faltavâo. E nâo temos na Pro- víncia nem original, nem copia d'este volume, e presume-se estar na mâo de algum dos Grandes do Reino, de cuja fidalguia, e christandade quizeramos nós esperar, nos mande ao menos por sua morte entregar este thesouro, pois com semelhante furto, e retenção d'el!e se faz tão considerável dano assi á honra, como á utilidade temporal d'esta Provín- cia. Quero que sirva de remate a estas minhas considerações (com que lambem de alguma maneira se possa descontar, e aliviar o largo d'e.sía nossa censura) hum dístico, que fez hum Noviço no Convento de Bem- fica, começando a mostrar seu bom engenho, que no successo, e conti- nuação de seus estudos provou melhor: e podemos perdoar aos versi- nhos a aspereza, e o pouco suave, com que soão, pela muita alma, e su- bido hyperbolo do elogio, com que chamão ao Padre Frei Luis de Sou- sa, não menos que o segundo Athlante (não da Igreja Universal, como foi nosso Santíssimo Pai, e Patriarcha S. Domingos) (1), mas da nossa sa- grada Religião nos particulares templos de Portugal.

Et pate)\ et natus templum fulcivit vterque; Sustinct ille humero, sustinet liic calamo.

Ao muito Reverendo Padre Mestre Frei António da Encarnação, De- putado do Santo Officio, e Vigaíro das nossas muito religiosas Madres do Sacramento devemos não vulgar agradecimento pelo zelo, com que se tem ofterecido a correr com esta impressão ; sendo o emendar os er- ros d'ella, particularmente n'este Reino, hum não pequeno enfado, e mo- léstia; mas o muito Reverendo Padre Mestre Deputado se grangeará com este cuidado, e diligencia aquella gloria, e applausos, que no maneio de graves, e importantes negócios são devidos á execução das cousas; da qual execução podemos dizer, que assi comojie ultima, serve de coroa, 6 de hum como glorioso cpíphonema a tudo o que se tem composto, obrado, e trabalhado. Dos authores, que deixarão compostos, e acabados seus fivros, e tomos, sem chegarem aos imprimir, se pode dizer que souberão pelejar, e conseguir suas victorias, mas não souberão usar d'el- las; e he o que se disse de Annibal: Vincere seis Annibal; vidona vti ne seis.

Gloriosamente vencedor partio d'esta vida o Padre Frei Luis de Sou- sa, deixando-nos, como deixou, esta segunda, e terceira parte da sua Chronica ; mas pelo mesmo caso, que as não pode dar ao prelo, e es- tampa, não pode, nem soube usar bem de sua própria victoria : porém agora o fará felícissimamente o muito Reverendo Padre Mestre Deputado. E se hum livro, e volume, em quanto não sae a publica luz, e praça da

(1) Stiramus Pontifcx Innocentius 111. \idit colla bcnlera Lalcranensera Busilicam a S. Do- minico suiá huraeris sustinori.

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estampa, lie hum como cailaver da sciencia; a este corpo dará o fogo da vida (como outro Prometheo) com acção não digna de castigo, mas de mui justas graças.

Pelo que digo, como nâo achei n"este livro cousa alguma dissonante da nossa SanctaFé Catholica, dogmas, e doutrina dos sagrados Concílios, sanctos Padres da Igreja, e particularmente, do nosso Doutor Angélico Saneio Thomas, nem cousa, que repugne, e offenda á decência, suavida- de, e armonia dos bons costumes dos Fieis, nem á honra, e esplendor de nossa sagrada Rehgião, que he o que principalmente, conforme nos- sas sagradas constituições, e actas de Capítulos geraes, devemos alten- der, e respeitar na impressão de nossos livros ; sou de parecer, que não se lhe conceda a licença, que pede, mas se lhe mande, sendo neces- sário, com preceito formal, que não desista de semelhante occupação, e empreza. Sic sentio, sic censeo. N'este Convento de S. Domingos de Lisboa, 12 de Janeiro de 1C62.

Frei Thomas Aranha Maguter.

Âpprovação do 31. Reverendo Padre Mestre Frei Domingos de Sancto Thomds, Regente, e Lente de Prima da Universidade de S. Domingos de Lisboa, e Pregador de Sua Magestade.

O Padre Frei Luís de Sousa, Author d'este volume, o foi de ou- tros dous, que rubricados de seu nome sahirão a luz, e a derão immor- talizada á vida do Sancto, e Primaz Arcebispo de Braga o senhor Dom Frei Bartholameu dos Martyres, e ás vidas de muitos Religiosos, que n'esta Província de Portugal na Ordem dos Pregadores florecerão em le- tras abalizadas, fructificarão em virtudes heróicas. O espanto, o applau- SC, o gosto com que forão recebidos esses dou? volumes primeiros, serve agora mais, que de censura, de elogio a este volume, no numero o ter- ceiro, e na historia o segundo. He elle a segunda parte d'ella, mas ho o primeiro no puro da elegância, e no apparo da penna ; escreve a de seu escritor aqui tão apparada, tão apurada, tão fina, e tão ditoza, que pelo argumento convida á piedade dos devotos, e pela locução desafia a curiosidade dos discretos. Nenhum haverá que noticiado da impressão d'este livro o não busque, o não frequente, o não admire, por ver que cor- re n'elle o estilo corrente (^chama-lhe estilo médio a Rhetorica) tão desafoga- .do, tão próprio, e tão terso, que não presume competências, mas logra victorias de grandíloquo. Não corre o estilo aqui ou rápido, ou violento; lento corre, e socegado, sem quebrar hyperbatos, sem forjar onomatho- peias, se uzadas sempre, sempre ou filhas da ignorância, ou acredoras da puerilidade. Disse bem Séneca, Epistola 75, que falia podre quem for- ceja pêra fallar elegante: Quis enim accurate loquitur, nisi qm vult pn-

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tide loqui? São he, e casto o phrazeado (Feste livro, pois fallando ele- gante sem força, e corrente sem violência, não lhe impede correr sereno o ser elevado ; outra vez disse Séneca, Epistola 100, do estilo de Fahia- no, o que eu digo do doeste livro: Electa verba sunt, non captata, nec hujiis sceculi more contra naluram suam posita, et inversa ; splendida ta- men, quamuis sumantur e médio: f>ensus honestos^ ctmagnificos habent; non coactos in sententiam, scd aliius duetos. São as palavras selectas, não for- çadas, nem transpostas ao costume do polimento d'estas Eras ; e de qualquer sorte que se tomem, e se pesem, sempre são luzidas, sempre signiíicadoras de conceitos agudos, e sentidos magníficos ; não se cons- trangem estes no sentencioso, antes se deduzem do sobrelevado. Assi o disse Séneca d'aquelle livro ; e sem mudar nem virgula o dissera, se lera este tomo. Acha-se aqui huma propriedade varia, huma variedade scientifica, huma sciencia encyclopedica. Acha-se aqui entre muitos de- senganos hum engano ; engana fazendo cuidar que forão, ou borra- dores d'esta penna, ou ensaios doesta lima, os Livios, os Cursios, os Tá- citos, os Paterculos. Eu achei aqui tudo o que aqui se acha; e pêra o achar, li este tomo duas vezes, mandando-me que o lesse huma, o nosso muito Reverendo Padre Provincial ; mas quiz eu estender a obediência, por estender a doçura com que esta lição engoda, e lisongea. Julguei quando o li, e despois de o haver lido, julgo que não sy não tropeça contra as verdades de nossa Fé, nem contra a pureza dos bons costu- mes, antes vai tão moldado, e anivelado com elia, e com elles, que abre apoios firmes, e inflamma ardimentos nobres á virtude com innumera- veis exemplos, e retratos virtuosos. Julgo finalmente que logo, logo, se lhe passe a licença de estampar-se, porque o tardar, ou faltar a estam- pa, será roubar hum thesouro de preciosidades, e impedir hnm theatro de virtudes. Isto me parece. Em S. Domingos de Lisboa, 25 de Janeiro 4602.

Fr. Domingos de S. Thomás.

Frei Bertholameu Ferreira, Mestre em sancta Theologia, Consultor do Santo Ofíicio, e Prior Provincial Apostólico da Ordem dos Pregado- res nestes Reinos de Portugal, etc. Vistas as informações dos Padres Mestres, a quem commetti o exame da segunda parte da Historia do nos- so Padre S. Domingos da Província de Portugal, composta pelo Padre Frei Luís de Sousa; dou licença ao Padre Mestre Frei António da Encar- nação, Deputado do Santo Officio, e Vigairo do Mosteiro do Sacramento, pêra que a possa imprimir, sendo approvada pelo Santo Officio, e pela Mesa do Paço. Lisboa, no Convento de S. Domingos, em í^O de Janeira de 1602.

Fr. Bertholameu Ferreira, Prior Provincial.

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DO SANTO OFFICIO

Approvação do M. R. P. Doutor Fr. Francisco Brandão

Vi esta segunda parte da Historia da Sagrada Religião Dominicana, particular doeste Reino de Portugal, reformada em estilo pelo Reveren- do Padre Frei Luis de Sousa, e me pareceo mais reformada, e polida que a primeira, e tâo provida de documentos exemplares, que sem en- contrar cousa, que oífenda a nossa santa Fé, e bons costumes, servirá de incitamento pêra que em tudo se reformem, e affervorem. Em Nossa Senhora do Desterro, 8 de Junho de 1G62.

Fr, Francisco Brandão Chronista mar,

Approvação do M. R. P. P. Fr. Felippe da Rocha

Vi por mandado de V. S. a segunda parte da Historia de S. Domin- gos, Aullior o Padre Frei Luis de Sousa: nella nâo achei cousa contra nossa santa Fé, e bons costumes, antes repito o que Séneca Epist. 45, disse: Indulgentm seio isttid esse donum jiuUcij. Que 0 remetter-se-me porV. S. esta Chronica, foi mais favor pêra que eu a lesse, que neces- sidade de juizo meu, pêra que a approvasse. V. S. lhe pode dar licença pêra que saia a luz. Lisboa, em o Convento da Santíssima Trindade, em 3 de Julho de 1GG2. Sub censura.

O Presentado Fr. Filippe da Rocha.

Vistas as informações, pode-se imprimir este livro, cujo titulo he se- gunda parte da Historia deS. Domingos, Author o Padre Fr. Luis de Sou- sa: e impressa tornará ao Conselho para se conferir com o original, e se dar licença pêra correr, c sem ella nâo correrá. Lisboa, 7 de Julho de 1662.

Pacheco. Sousa. Bocha, Aharo Soares de Castro. Magalhães de Menezes.

DO ORDINÁRIO

Pode-se imprimi]'. Lisboa, 17 de Julho de 1662.

F. Bispo de Targa.

XX vir

DO DESEMBARGO DO PAÇO

Approvação do Doutor Ayres Falcão Pereira, Guarda mór da Torre do Tombo.

SENHOn

Por mandado de V. Magestade vi esta segunda parte da Historia de S. Domingos, particular deste Reino, e suas Conquistas; e nelia não achei cousa, por onde se possa negar a licença que se pede pêra se imprimir; antes me parece obra muito pêra sair a luz: porque de mais das noti- cias, que n'ella se achão dos princípios, e fundações de muitos Conven- tos, 6 Mosteiros desta sagrada Religião, contém hum exemplar de gran- des virtudes de muitos Religiosos, e Religiosas, que nelles florecerão, de cujo exemplo, e vida, e religião, he justo que se não perca a memo- ria para serem imitados. Lisboa, 20 de Outubro de 662.

Ayres Falcão Pereira.

Póde-se imprimir, vistas as licenças do Ordinário, e Santo Oííicio: e impresso tornará á Mesa pêra se taixar ; e sem isso não correrá. Lis- boa, 26 de Outubro de 662.

Moura T. P. Monteiro. Sousa. Silva.

Está conforme com o original, que revi a primeira vez, e agora conferi. Em N. S. do Desterro, 12 de Fevereiro de 664.

O Dr. Fr. Francisco Brandão^ chronista mór.

Pôde correr este livro. Lisboa 12 de Fevereiro de 1664.

Pacheco. Sousa. Fr. Pedro de Magalhães. Rocha. Álvaro Soares de Castro. Manael de Magalhães de Menezes.

Taxão este livro em 740 réis em papel. Lisboa 15 de Fevereiro de 1664.

D. R* M. P. Velho. Silva. Magalhães de Menzes.

PROTESTO

Supposto que o Santíssimo Padre Urbano VIII, Papa, fez hum de- creto com conselho da sagrada Congregação do Santo OíTicio em 13 de Março de 1G25, e o confirmou em 5 de Julho de 1634, em que prohi- bio que se não pudessem imprimir livros alguns de homens, que passa- rão doesta vida mortal celebres em santidade, ou com fama de martyres; nem outrosi que contenhão feitos, milagres, revelações, ou mercês algu- mas, como recebidas de Deos por intercessão dos taes varões insignes, sem preceder conhecimento, e approvações do Ordinário: comtudo, em 5 de Julho de iO^ii declarou o mesmo Pontifice que se não imprimis- sem elogios de Santo, ou Beato absolutamente que caem sobre a pessoa, porém que se podião imprimir as cousas concernentes a seus costumes, e á opinião que d'elles houve, com protesto de que as taes cousas não tem authoridade alguma da Igreja Romana, mas somente a do Author, que o relatar. Por tanto protesto em nome do Author d'esla Segunda parte da Chronica da Ordem de S. Domingos, particular da Província de Portu- gal, composta pelo Padre Frei Luis de Sousa, da mesma Ordem, que tudo, quanto nella se contém, somente se relata com authoridade huma- na, conforme a mente, e declaração do Summo Pontífice, para edifica- ção dos Fieis que a lerem, não como cousas approvadas por authoridade da Santa Igreja Romana, ou da Apostólica. Em S. Domingos de Lis- boa, o primeiro de Outubro de IGGi.

Fr. António da Encarnação.

SEGUNDA PAKTE

DA

HISTORIA DE S. DOMINGOS

PARTICULAR 00 REINO, E CONQUISTAS DE PORTUGAL LIVRO PRIUEIRO

CAPITULO I

Do estado em que se achava a Religião de S, Domingos no lieino de Portugal.

Entra com boa eslrea de nome, e successos no primeiro lugar d'esta segunda parte de nossa historia hum Mosteiro de Rehgiosas, illustre por mysteriosas, por antiguidades, e pelo titulo que tem do Salvador. Valha- nos sua divina graça, pêra que a possamos levar ao cabo com o que resta da Província. Corria o anno de 139i. Reinava em Portugal el-Rei Dom Mo o primeiro deste nome; e seguindo animosamente o curso de suas victorias, hia por huma parte reduzindo por amor, ou conquis- tando por armas, os lugares, que ainda sustentavão a voz de seus con- trários : e por outra mandava correr com diligencia a grande maquina que em seu animo tinha concebido da casa de Deos, e que procedia no lugar da Batalha, como deixamos conlado no livro sexto, e ultimo da primeira parte d'esta Historia. Assi succedia prosperamente o nego- cio da guerra; porque hia de mistura com taes cuidados: que pêra se- rem de mais merecimento, nâo paravao na fabrica começada por voto ; mas passavão a outros lugares, e outras obras, todas de augmento do Culto Divino, e honra do mesmo Senhor. Das que tocão á Religião de S. Domingos, e a nosso intento; lie primeira em tempo, a que propuze- mos do Mosteiro do Salvador, casa notável por seus principies, e por

VOL, III T

2 LlVnO I DA IIISTOIUA DE S. DOMINGOS

casos admiráveis dos annos adiante : que, por serem tais, derâo occasiao a se fazer livro d'ella, e de tão boa escritura, que nos pudera forrar o trabalho d'esta; senão correra por conta nossa darmos-lhc tam!)em me- moria. Mas antes de entrarmos na relação d'ella, parece que será con- veniente, pêra clareza do que se disser, como isto he Historia da Pro- vincia, darmos noticia do estado, que em tal tempo tinha a mesma Pro- víncia no governo temporal, e espiritual, e será brevemente (I).

Começando polo temporal. Durava na Igreja Catholica a grande per- turbação, e Cisma, que por tempo de quarenta annos aílligio a Christan- dade com lastimosas calamidades. Começara no anno de 1378 por morto do Papa Gregório Undécimo. Succedera a Gregório com legitima, e ver- dadeira eleição Urbano Sexto : e a Urbano, Bonifácio Nono. Vivia Boni- fácio correndo o anno de 1392. Anno que tomamos por fundamento, c principio do que temos pêra escrever n'esta segunda parte, proseguindo na ordem, que começamos na primeira, e era reconhecido, e obedecido por legitimo successor de S. Pedro, em Itália, e por toda Alemanha, e Ungria, e Inglaterra : e a estas Províncias acompanhava, e seguia o Rei- no de Portugal. Todos os mais Reinos, e Reis de Espanhas, que então erão três ; de Castella, Aragão, e Navarra, como de França davão obe- diência ao Antipapa Clemente, que em França residia. A mesma divisão em que estava a Igreja, corria também na Ordem de S. Domingos, e isto aconteceo a todas as mais Religiões. Tínhamos hum Mestre Geral em Itália, que acompanhava o verdadeií^b Pontífice. Era o grande Mestro Frei Raimundo de Capua, que os Escritores d'aquclla idade nos dão a conhecer polo ofílcio, que hum tempo fez de confessor da nossa Sera- phica Sancta Catherina de Sena. Tanto poder tem a verdadeira virtude, que deu nome ao confessor a confessada. Havia outro Geral em compa- nhia do Antipapa Clemente, seguido, e obedecido dos Frades de França c de todos os mais Reinos de Espanha, que tinhão a voz de Clemente. Seguião os membros, como he costume, a suas cabeças. A mesma divi- são, que havia de Pontiíices na Igreja, e de Geraes nas Ordens, se achava nas províncias d'ellas entre os Frades. A de Castella, que comprehendia então os Conventos de Portugal, como seu Rei era de parte do intruzo Pontífice, hia-se também traz elle, com seu Provincial, que os Escritores Castelhanos não dão noticia quem por este tempo fosse, que he falta no- tável. Mas os Religiosos Portuguezes, que com todo o Reino, e seu Rei

(1) MatlrcSor Maria do Baplisla, bist. do Salvador,

PAimCULAR DO UKLNO DE POUTUGAL 3

reconliocião por verdadeiro Papa a Urbano, e a seu siiccessor Bonifácio levantarão a obediência ao Provincial de Castella, nâo havendo por Pre- lado, quem desconhecia ao que o era legitimo da Igreja. E por não fica- rem sem í\astor, que os governasse, introduzirão hum novo género de governo. Elegerão entre si huma cabeça, com titulo de Vigaiio Geral, immediato ao Mestre Geral da Ordem, que acompanhava a Urbano, e despois a Bonifácio, verdadeiros Pastores da Igreja Romana. E esta foi a primeira origem da separação, que pouco despois fizerão, constituindo-se em Província por si. I'ara o que também deu occasião a divisão de ani^ mos, que a guerra tinlia criado entre os Reis, e vassallos de hum, e outro Reino, como ao diante se dirá. D'onde nasceo, que por este tem- po, em espaço quasi de trinta annos, não achamos memoria de nenhum Provincial, que visitasse, ou juntasse capitulo em Conventos de Portu- gal, ha\endo muitas escrituras, e lembranças, que fozem menção de Vi- gários Gerais, que governavão a Religião, e religiosos d'este Reino. Es- tes achamos, que se intitulavão Vigários Geraes de Portugal, e alguns estendião mais o titulo, e chamavão-se Vigários Gerais de Espanha. Co- mo foi Frei Lopo de Lisboa, que se assina em huma, que vimos, Prior de S. Domingos de Lisboa, e Vigário Geral da Província de Espanha. Fazia conta a meu ver, que, como elle em todos os Conventos de Espanha, por meio do Geral, que residia em Itaha, seguia o verdadeiro Pastor da Igreja Catholica, com os religiosos, que em Portugal tinha a seu cargo : polo mesmo caso ficava também sendo n'ella verdadeiro, e supremo Prelado da Ordem, com mais rezão, e milhor titulo, que os que obedecião ao intruzo, e Cismático, e tal era então o governo tem- poral de nossa Religião n'este Reino.

Quanto ao Espiritual, reinava em toda, e por todas as mais Religiões, o feio monstro da Claustra. E como he ordinário, que a erva cresce, e arreiga, e se faz senhora do campo, com o mesmo tempo, que pêra as boas he contrario, assi com as discórdias da Igreja, e dos Reis, e Reinos crescia este Monstro, e assombrava a terra com liberdades, e devassidão. Dera-lhe principio huma grande peste, (e não he de espan- tar, que de tal mãi nascessse tal filho), que poios annos cio Senhor de i348 correo toda a redondeza da terra, com tanta fúria, e rigor, que affirmão os Escritores (1), matou de dez partes dos viventes, -as nove. Assi

(1) Sufato Castcl franco Chron. da Ordom f. 73. e 7í. Fr. Anton de Sena Cliron. da Ord. foi. ^185. Leand. 1. i. c. 23. Custilho p. '1. 1. i, c. 3. 9. e 1. 2. c. 12. llhcscas IJiít. pout. p. 2.

4 LlVnO I DA HISTORIA Di: S. DOMINGOS

houve lugares inteiros assolados, gerações acabadas de lodo, infinitas fazendas, e herdades desertas, e sem dono. E quanto ás Religiijes, suc- cedeo em muitos Conventos não ficar nem lium frade com vida. Acom- panhou-se a peste de apertadas esterilidades de lodos os fruitos da ter- ra, causadas parte de grandes, e continuadas invernadas, que nâo da- vâo lugar a se fazerem as sementeiras : parte da falta, e doenças dos que as havião de fazer. Ajudando-se assi as calamidades humas ás ou- tras, como a porfia. Seguio-as outra tempestade geral de misérias nos povos, que escaparão com vida : c foi hum tão grande medo da morte, que todo o cuidado, e emprego de todos era buscar meios de boa vida, alegre, e folgada, entregando-se a mimos, delicias, e passatempos. E como acontece a convalecente de longa, e perigosa enfermidade, que tudo o enfastia, de tudo se offende, tão mimoso fica, tão descontenladisso, e máo de servir, como se tornara aos annos da idade pueril: assi fu- gião todos a tudo o que era trabalho corporal, ou cuidado do espirito. De filhos de tal gente, e de tal criação, começando-se a povoar de novo os Conventos, encherão-se da mesma froxidão, e preguiça. Qualquer piqueno accidente fazia renovar a memoria do m:d antigo, e o medo delle obrigava os bons espíritos, que nunca faltarão alguns em tanta pobreza, e cm condecender com a fraqueza, e miséria dos pusillanimes : e por muito que desejavão acudir ao desemparo espiritual, não se atrevião a usar da força, quevião ser necessária, humas vezes desconfiando dos su- jeitos vidrentos, e pêra pouco: outras com medo de lhes líiltar quem aturasse nos Mosteiros, que esta vão ermos. Assi se perdeo o rigor, e entrou em seu logar vida descançada, solta, e livre. Chamarão-lhe os que a consideravão, Claustra. Nome a meu parecer inventado da sulileza cortezã, pola figura, que os Rhetoricos chamão Anliírasis, que he signi- ficar a causa por seu contrario : visto como a palavra Claustra, de sua natureza está significando encerramento, fecho, e aperto : que he o mes- mo, que então faltava, ajudado do pouco valor, que em todo estado ha- via: e tal era a vida, e o espirito no geral das religiões d'esta idade. E com tudo ao Pai d"ellas, Heos immortal, immorlais graças devemos. Porque em tamanho desemparo, nunca deixarão de ler grande estima diante dos Príncipes seculares, e Ecclesiasticos. Quem persuadirá isto hoje aos que se prezão de mal contentes, e agudos calumniadores d'elles? quando, sequizermos fazer comparação de tempos a tempos, estão n'esla era jardins frcsquissimos, e bem guardados, os que de secos, e abertos

PAimCULAR DO REINO DE PORTUGAL 5

naquella antiga se pcrdiâo; erâo Príncipes sanctos, o prudentes, e erâo Pais. Por sanctos olhavâo os defeitos liumanos sem malícia : fazião-lhe lastima, não raiva, e acliavao em seus ânimos piedade, nâo perdão. E assi nâo podião acabar consigo deixar de prezar, e amar as casas de Deos, 6 aos moradores d'ellas. Por prudentes, notavâo, que entre essas plantas, ou mal crescidas, por fraqueza, ou murchas, e desmaiadas por falta de espirito, produzia o Senhor algumas tao frescas, tâo verdes, e copadas, que erâo em fermosura Cedros do Líbano (1), em riqueza de fruito fertiles Oliveiras, quero dizer. Santos abalizados que assombravão o mundo com virtudes, como logo iremos apontando : e pudéramos ajun- tar bom numero das Províncias de fora, senão fora de obrigação alheia. Em fim como Pais consideravâo, que todas tornariâo em si, como lhes nâo faltasse mâo amiga de bom agricultor.

Estes dous princípios cheios de charídade cluistã, que forâo amor das religiões em geral, e hum dezejo vivo de as ver adiantadas em es- pirito, e sanctidade, tinhâo no peito de el Rei Dom João, primeiro dos que entre nós reinarão d'este nome, altos fundamentos lançados. De maneira, que a elle podemos referir todas as boas venturas, que em vida, e morte logrou : as quais forâo tantas, que se aventajou n'ellas a lodos os Príncipes de seu tempo, e quasi a todos seus antecessores, e suc- cessores. D'estes princípios procedeo a magnificência, e liberalidade, com que levantou, e enriqueceu *o famoso Convento da Batalha, que nos deu remate a primeira parle doesta Historia: e dos mesmos nasceo pro- curar, em quanto vida teve, qiie por todo seu Ueino se edificassem mui- tos outros Sanctuarios, ora animando, e favorecendo os devotos; ora ajudando, e despendendo largamente da fazenda Real ; dos quais iremos apontando os que pertencerem á Ordem de S. Domingos, cuja he esta escritura; segundo a conta, e conjunção dos annos, em que cada hum começou. Pêra o que de presente temos entre mãos, do Mosteiro de Freiras do Saluador deu El Rei o Padroado da mesma Igreja, que era da Coroa Real, e ajuntou outras graças, e favores pêra bem da obra, com que o fundador, que foi Dom João Estevens Bispo de Porto, que pouco despois subio a Arcebispo de Lisboa, e Cardeal de Roma, lhe veio dar principio no anno de 1392 poios meios, e modo que na se- guinte capitulo veremos.

(1] Psalm.

6 LIVRO I DA HISTORIA DK S. DOMLNT.OS

CAPITULO

Da origem, e antiguidade da Igreja do Salvador da Cidade de Lisboa,' e do primeiro Recolhimento, que nclln lioiioe de mulheres virtuo- sas.

Temos n'esla igreja iiiima fermosa, e dcvotissima antignalha. Histo- ria certa, e autentica, e igualmente deleitosa pêra todo bom espirito. E porque não ha duvida, que foi causa originaria do primeiro edifício da igre- ja, e do segundo do Mosteiro, parece que será rezão começarmos porella: pêra que toda a narração leve a ordem, e clareza devida. Despois que o famoso Rei Dom Alíonso Henriques ganhou Lisboa aos Mouros, to- mando-a por assalto, em fim de largo, e porfiado cerco : succedeo, pas- sados alguns annos, (não consta precisamente quantos), que sahindo á ca- ça, hum fidalgo principal dos que n'ella ficarão, entrou polo valle, em que agora vemos a Igreja, que n'aquelle tempo era todo huma mata ser- rada de arvoredo silvestre, entresachado de groça, e descomposta pene- dia, e foi sua boa ventura, que rompendo, e passando ao mais espesso (.fel lo chegou a dar com huma fermosa palmeira, do da qual se le- vantava huma grande Cruz arrimada ao tronco d"eHa. No meio da Cruz hum bem proporcionado vulto de corpo humano: pés, e mãos encrava- dos, rosto defunto, e caído, a cabeça coroada de hum lescido de mui- tos espinhos. Bem he de crer, que faria terror a vista súbita, e o lugar solitário. Mas Irocou-se logo em devação, fazendo lembrança no peito christão, aquella postura lastimosa, da causa, porque assi se dei- xou, e quiz tratar, quem era Senhor da terra, e Ceo. Cresceo com a devação a confiança, pêra chegar, e considerar o que via. Parecia-llie tal representação digna de estar collocada sobre um rico altar, quando nota com espanto, que não faltara em lh'o dar a natureza. Tinha-lhe com- })Osto como serva humilde, que acode a reconhecer a seu Autor, com o que pôde, e como pode, huma estendida mcza de favos de mel, quo rodeavão com perfeita arquitectura de altar o da Cruz, e palmeira, obra ao parecer mais do Ceo, quo da terra, sendo o ministério de Abe- lhas, que, como se forão criaturas racionais, assi o proseguião deligentes, instando, e continuando, a qual mais podia. Rico caçador com tal achado, efeito em seu pensamento outro Samsão(l}, quis ver se oíTerecia o eslra-

(l)Jud. c.

PARTICULAR DO RKIXO DE PORTUGAL 7

nho sitio mais, que notar. Começava com suas mãos a desmontar alj^u- ma parte do mato em sinal de veneração, que era o mais, que então podia fazer ; senão quando apparece novo tliesouro. Descobre huma Ima- gem da sagrada Virgem Mãi, pejados suavemente os braços com outra do Menino Jesus. Costuma o Ceo revelar semelhantes secretos a espíri- tos indignos d'elles. Assi he de crer, que saberia o bom fidalgo festejar este, dando-se mil parabéns em sua alma por tão ditosa caça. Escondeu- nos ludo a antiguidade, ou o descuido dos homens, e juntamente seu nome, que he mais de sentir. nos consta, que deu volta apressada- mente pêra a Cidade, não pondo em parábolas o achado, mas enchendo-a de alvoroço, e alegria com a relação d^elle. Não tardou o povo devoto em se juntar todo no lugar (1), e agasalhar em breves dias as sanctas Ima- gens. Quebrarão penedos, cortarão arvores, roçou-se o mato: e ficando a pahneira por memoria levantarão-lhe huma Ermida pequena em cor- po, e fabrica, segundo a pobreza d"aquelle tempo: e derão-lhe vocação de S. Salvador da Mata. Seguirão logo milagres famosos, e muitos en- sinou a devação, e a necessidade levar por casa dos enfermos, ora a co- roa dos espinhos, ora a terra da cova, em que estivera cravado o da Cruz. Era tal o beneficio, que todos sentirão, que acrescentando a de- vação da Cidade, chamou com a fama romagens, e concurso de fora. E o Bispo levado de sancto zelo, houve que fazia aggravo á sua Catredal em consentir estar fora d'ella tal riqueza : e determinou passar o Cruci- fixo á Sé; e sem duvida o fizera, senão interviera caso milagroso, que o tolheo, e passou assi. Aprazado o dia pêra a tresladação, juntou-se o povo, desceu-se a Cruz do Altar, guiarão pêra a porta da ermida os que a levavão. Ao sair não houve modo, nem arte pêra a passarem : não que se tornasse immovel, ou demasiado pesada, senão por meio mais estra- nho, que foi vencendo sempre a porta, e as traças dos que a pretendião passar : com quanto não deixarão nenhuma por tentar. Obrigado o Pre- lado da estranheza do successo, houve-o por manifestação da vontade Divina. E não desistio da pretenção, mas procurou acrescentar, e hon- rar a Ermida ; e como crescia o povo, e visinhança, deu-lhe o titulo de Freguezia. Continuarão no mesmo animo os successores. Levantarão-na em Priorado, applicando-llie pêra sustentação de Prior, e Beneficiados, os dous terço dos dizimos da Igreja de Nossa Senhora do Emparo do lugar de Bemfica, e alargarão-n'a em edificio, inda que não falta quem (i)JuJ. c.

8 LIVRO I DA IIISTOniA DE S. DOMINGOS

aíTirmo qiio esto a r.gmento do pedra, c cal, pobre todavia, e humildo foi de mandado, e despesa Real.

Esta foi a origem da fabrica da igreja do Salvador, e a occasiâo do nom3, na qual nâo ha que disputar, nem armar duvidas. Porque de to- das nos tira o que sabemos de muitas Imagens antigas, em varias par- tes achadas, despois da perdição de Espanha, assi como as terras se hião livrando do jugo dos Mouros. Em Portugal temos muitas da Vir- gem Dondilissima; varias em nome, e successos de como forao achadas. Todas grandes em milagres, e misericórdias pêra com os homens. Hii- ma junto a Peniche com titulo de Nazareth, que foi deposito do mesmo Rei Rodrigo, ultimo dos Godos. Outra em terras de Viseu, que chamâo da Lapa (1). Duas mais vozinhas, e quasi entre nós, com titulo da Luz, e do Cabo. Celebre he junto á Cidade do Porto por antiguidade, e mila- gres o devotíssimo Crucifixo de Bouces: e o de Burgos nas montanhas. Mui famosas em Castella a Senhora de Guadalupe, e a de Penha de França : e em Catalunha a de Monsarrate. Entravao os Bárbaros conquis- tando as terras, e assolando com raiva do mesmo Mafomede, tiido o que era sagrado. O povo catholico, que nem entre os peccados da prospe- ridade, nem no meio das misérias, que de presente o cercavão tinha perdido a fé, não se atrevia a largar de si as sagradas Imagens, que venerava: huns pêra as guardarem pêra milhor tempo, se Deos o desse: ou pêra morrerem abraçados com ellas, se dos inimigos fossem alcan- çados. Outros cheios de boa esperança, que se lembraria de sua mise- ricórdia o mesmo Senhor, que por então vião justamente irado, ou as escondi3o nas entranhas da terra : ou as fiavão das matas, e cavernas dos montes, e rochedos : entregando-as assi á Divina providencia, quo as guardasse, como fez a estas de Lisboa. Sabido este principio, agora diremos qual foi o do Mosteiro,

Com o primeiro titulo, que a Ermida teve de Freguesia pêra gasa- l!iado da vezinhança, e arrebalde, que a devaçâo começou a juntar no valle, nâo faltarão ânimos pios, que julgando por obra saneia dar algum género de recolhimonto aos muitos peregrinos, que acudião de longe a \isitar as saneias Imagens, levantarão junto á Igreja, pêra os agasalhar, huns aposentinhos térreos, que não sendo em seus principies mais, que humas pequenas cellns, forão pouco despois morada de algumas boas mulheres, que guiadas de grande espirito, souberão inventar ermo no

(D Fr. Bera. de Hiito. .lio», tus.

PAUTIGCLAP. DO REINO DE POP.TLT.AL \f

meio do povoado, entaipando-se na estreiteza d*ellas, á imitação de hu- ma Polagia em Jerusalém: despedidas pêra sempre de todo consorcio da gente, fizerão conta de viver pêra Deos. e pêra si. Nâo deixarão em cada huma mais, que tíuma estreita fresta, ou seteira, que lhes ser- vião de luz, e ar, e de tomar o necessário pêra a vida corporal, e espi- ritual. Fez espanto a determinarão, deu-lhes reputação a constância: jun- tou-lhes companheiras huma, e outra cousa. Mas como de ohra, que teve fracos priíicipios, nâo ficou memoria dos nomes, nem calidade das pessoas, que n'ella entrarão, nem dos annos, em que a começarão. por conveniências podemos ir rastejando o tempo; e faço conta, que devia ser o mesmo, em que começou em Santarém semelhante vida a nassa Elvira Duranda, de quem escrevemos na primeira parte d'esta irtstoria(I): ou incitando-a, ou sendo incitadas d'ella, poios annos do Se- nhor de 1240, em vida do Santo Frei Gil. Correndo os tempos vierão a se conformar também com as reclusas de Santarém. O que me confirma mais na conjectura, que faço da primeira imitação, e do tempo, em que dmo o principio a tal vida; porque se juntarão, como ellas, em com- munidade. Mas não foi esta mudança parte, pêra remittirem nada do primeiro rigor, em todos os mais pontos da vida. Antes com o exem- plo, e a vista humas das outras se espcrtavão, e aíli3rvoravão mais na virtude. Achamos nas lembranças antigas, que não era a vida, que fozião menos estreita, que aquellas, com que nos espantão os Escritores dos Anachoretas da Scithia. Porque vivendo juntas, tal era o silencio, que guardavão, tanta a separação de conversação, e trato, que quasi não diffiria de quando cada huma estava reclusa por si. Estando entre gente, na Cidade, assi depcndião da Providencia Divina, como se morarão no coração do deserto. Porque nem pedião, nem buscavão o necessário pêra a sustentação da vida, nem por si, nem por interposta pessoa. Do que a charidade dos fieis trazia por esmola a huma pequena roda, que pêra isso servia, tomavão o que bastava pcra aquelle dia temperadamente. O que parecia sobejo, ou o não aceitavão, ou o repartião logo entre os pobres de fora. Por maneira que por nenhum caso havião de guardar, nem grangear nada de hum dia pêra outro, armando-se sanctamente de viva fé, ou pêra esperarem de Deos a sustentação, como as aves do ar, e animais do monte; ou pêra padecerem mais, se assi fosse seu serviço. O ves- tido era hum pouco de saco, ou burel por fóra, e o mesmo a raiz das car- il j P. 1. l. 2. c. 22. e c. O.C. 20.

iO LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

nes. Pêra cama não havia na saúde mais, que cortiças nuas; na doença era mimo huma pouca de carqueja. Pêra cabiceiras, parece, que arriscamos o credito da Historia, se dissermos o que nos referem as memorias, d'onde tiramos esta (tem grande a singeleza, e a verdade dos Antigos) aflir- mão, que erâo pedras. Assi nao fará maraviliia tudo o que sobre tais fundamentos se disser. Que se verdade, como he, que engorda, e en- riquece o espiritu das faltas, e pobrezas do corpo, bem se deixa ver qual seria o fervor das almas, onde a carne andava tão tiranizada em cama, mesa, e vestido, que são as cousas, em que o mundo faz mais em- pregos de mimo, e favor. Seguramente podíão dizer com S. Paulo. Con- uersatio noslra m ccelis eH{{). Na terra vivemos, mas o nosso trato todo lie no Ceo. Deu o Senhor alguns sinais de as ter n'esta conta, com suc- cessos, em que quiz mostrar, quanto vigião seus Divinos olhos sobre a pobreza virtuosa. Crescião em numero, e começavão a viver apertadas. Dezejavão alargar o sitio, porque também havia novas ro^juerentes pêra entrarem na clausura. Mas espantava-as a copia, e grossura dos pene- dos, de que todo o sitio estava empachado. Que até aos oíTiciais de al- venaria metia medo o que gastaria tempo, e trabalho, desfazer, e gastar os que bastassem pêra estender hum pouco mais o sancto Reco- lhimento. Andando n'este cuidado, aconteceo, que levanlando-se huma manhã, acharão repentinamente limpa, e despejada de toda a penedia, tanta parte do sitio, que com ellas partia, quanto pêra sua determina- ção tinhão dezenhado, e era suíílciente. Por maneira, que podemos di- zer, que forão Anjos, os que aprainarão os caminhos, e compuserão, como gastadores, a praça, que havia de occupar o Mosteiro do Salvador, e, porque não pareça a ninguém, que foi obra de pouca sustancia, hc de saber, que ainda hoje na clausura presente estão vivos, e inteiros alguns penedos, que dão assaz pejo, hum no choro debaixo, outro na casa do Hospício. Cercou-se logo o lugar com alegria, e benções juntas com espanto do povo. Receberão mais companheiras, e entre ellas, consta, que forão algumas de calidade. Mas nem ainda com isso, nem com a estranheza do caso referido, houve quem nos deixasse mais clareza d'el- las, que o nome de huma, que chamão Dona Catherina, e dizem, que era de sangue Real.

Faz muito ao caso pêra manter a virtude em seu ponto o favor, e bafo dos Reis. Moveo também o Ceo o animo de huma Rainha antiga

(1) Ad rhilip. cap. 3.

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL il

d'cste Reino, pêra se dar remédio, e emparo das emparedadas. Que este nome ]hes ficou desd'a primeira reclusão, e lhes durou até que o favor d'ella lli'o foi trocando em outro. Chamava-ihe a Rainha, as suas Beatas. Suas polo amor que lhes tinha: Beatas, pola muita virtude, que seguião; e porque as Rainhas, que foiâo succedendo, continuarão em lhes fazer bem, e mercês, continuou o povo cm as nomear por Beatas da Rainha.

CAPITULO líl

Do principio, e rezão, que houve pêra se fundar neala Igreja Mosteiro da Ordem de S. Domingos : e quem foi o fundador.

A Devação das sanctas Imagens, o augmento da Ermida, e o bom nome das Beatas obrigou a hum valido d'el-Rei Dom Fernando único d'este nome em Portugal, escolher sepultura entre ellas. Chamava-se João Esteves ; foi Alcaide mór de Lisboa, cargo, que sempre andou em pessoas de grande calidade : e com el-Rei Dom Fernando teve tanto lugar, que veio a perder o nome da pia, no povo, e nâo era conhecido por outro senão, polo da valia : chamavão-ihe o Privado. Mas não era menos sizu- do, que privado : porque nâo perdeo a memoria do Ceo, pola valia do mundo. Quando mais viva estava a gloria da privança, lembrou-se da sepultura, e levantou n'esta casa huma bem ornada, mas moderada Ca- pella. Digo moderada: porque sendo-lhe fácil então, (como tudo obedece aos validos), tomar pêra si a Capella mór, e fabrical-a a seu modo, sa- tisfez-se com ficar em lugar menos principal : e este dotou de toda sua fazenda, que pêra os tempos dii então era muita, e boa. Por sua morte succedeo na posse da Capella, e na continuação do edificio d'ella, (porque a povoou primeiro, que a acabasse), AíTonso Esteves seu irmão, en'ella ja- zem ambos. De AíTonso Esteves foi filho João Esteves, este sendo moço, e criando-se com o Mestre de Avis, que despois succedeo no Reino a el-Hei Dom Fernando seu irmão, continuou em seu serviço, companheiro fiel em todos os trabalhos, e transes da guerra, que nuiitos annos durou n'este Reino. Mas passadas as alterações, e dando Deos paz, determinou-se em seguir o caminho da Igreja, e das letras, que hum tempo estudara. Po- rém não consentio el-Rei Dom João, como conhecia seu valor, que vi- vesse ocioso. Dando-lhe alguns bens, e dignidades Ecclesiasticas, empre- gou-o em negócios seus particulares, e do Reino. E achamos, que foi

J2 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

duas vezes a Roma, por esta conla. Do que el-Rei se houve por tâo servido d'elle, que tornando, lhe deu o Bispado do Porto, e despois o passou a cousas maiores. No meio das occupaçôes, e serviço Real, tra- zia o bom l^relado diante dos olhos a liora da morte, e hia traçando em seu pensamento, como honraria o lugar, que, fazia conta, havia de pos- suir n'ella, com seu Pai, e tio na Igreja do Salvador. E julgando, que por nenhum meio lhe poderia dar mais lustre, que fundando huma casa de religião: pêra o que achava meio caminho andado, ou quasi tudo feito, no recolhimento das Beatas: deu conta de seus dezenhos a el-Rei. E achou n'elle nâo gosto da obra, como quem todas as do Culto Di- vino sobre maneira estimava, mas favor, e ajuda. Porque d'esde logo lhe fez mercê do Padroado da Igreja, que era da Coroa. E pêra que não houvesse contradição da parte do Prelado do Catredral de Lisboa, fez- Ihe manifestação de sua vontade Real, o que foi bastante pêra que libe- ralmente cedesse logo de todo o direito, que podia ter, ou pretender n'ella. No mesmo tempo, e a passo igual hia o Bispo Dom João Esteves negociando em Roma, por seus agentes, o que cumpria pêra o eíTeito da fundação do Mosteiro. E em Portugal fazia o mesmo pessoalmente. com o Pontífice, e Geral da Ordem : com el Rei. O que se nas datas dos Breves, e provisões em huma, e outra Corte despachadas : das quais juntaremos alguns pedaços, quanto bastem pêra certeza, e teste- munho do tempo, e faculdades, e favores, com que o Mosteiro teve prin- cipio. Do Summo Pontífice Bonifácio Nono alcançou licença amplíssima pêra o fundar na regra, e constituições da Ordem dos Pregadores : e pêra lhe annexar todas as rendas do Prior, e Beneficiados da Igreja ; assi como fossem vagando por morte de cada hum. O nosso Geral, que era, como temos dito, o Mestre Frei Raimundo de Capua, e assistia em Roma com o mesmo Pontífice Bonifácio, dunnido a força da Cisma, acei- tou o Mosteii'o, e deu sua commissão pêra os Prelados da Ordem em Portugal o admittirem em seu governo, e juntamente consentirem no ponto, que o Bispo pedia, e de poder ajuntar alguns Estatutos de sua pia tenção, aos que a regra professa. As palavras da Provisão, que el- Rei passou sobre o Padroado são as seguintes.

E nós vendo o qnr nos ossi dizia, e pedia Dom João Bispo do Porto, de nosso Consclíw, e considerando os muilos estremados serviços, que nós a estes Beinos recebemos do dito Bispo, c especialmente, como duas vczes^

PAUTICULAU DO UEiNO Dt: POaTLCAL 13

pondo seu corpo em a ventura, foi por nosso Embaixador d Coite de Roma, aderensar nossos feitos, e negócios, que nos muito cumprião: e os aderen- sou, segundo a nos fazião mister; e outro si dei entendemos receber ao diante. E querendo lhe nos conhecer, e galardoar com mercês: o que cada hum Rei he tendo de fazer áquelles que bem seriem : temos por bem, e de nosso próprio movimento, e certa sciencia^ poder absoluto, lhe damos, e doamos, e lhe fazemos livre^ e pura doação entre vivos valedotira, doeste dia perà todo sempre, pêra el, e pêra todos seus herdeiros, e pcra aquel, ou aquellas, a que o el der, ou leixar, como suso dito he, do padroado da dita nossa igreja de S. Salcador da dita Cidade de Lisboa.

Esta provisão mostra ser feita, e assinada cm Leiria ao primeiro de Julho da era de César, (que ainda nâo era de todo acabado o costume de contar por ella), de 1429 que respondo ao Anno de Nosso Senhor Jesu Christo de 1391.

O Breve foi expedido em Roma aos 27 de Fevereiro do mesmo an- no de 1391. Porque declara que se passou no segundo de seu Pontiíi- cado, que polo que sabemos do tempo de sua eleição, vem a ser este ao justo. Comera. Ad ea qum Diuini cultiis augmenlum, ele. As clausu- las, que servem a nosso propósito são as seguintes.

Nos igitur, qni Diuinum cultnm temporibus nostris augere inlensis de- siderijs a/fectamus, Iiujusmodi svpplicalionibus inclinati, fraternitati tuw authoritatem noslram, parocliialis Ecclesia; Sancti Saluatoris Vlisbonensis erigendi in Monasterium : et postquam erectum fuerit, Priorissum, et con~ decentem Monialium numerum ordinandi, et institiiendi. Qu(jb qnidem Vrio- rissa, et moniales sub cura, el secundam instituía Fratram Ordinis Prm- dicatorum viuere debeant. Ac etiam porliones prcedictas, cum omnibus ju- ribus, et pertinentijs suis, eidem Monasterio, postquam erectum fuerit, ut pnefertar^ vniendi, incorporandi, et annectendi, Ita qiiod cedentibas^ vel decendentibus Rectore, et porllonarijs prcedictis, aut Ecclesiam, et por- tiones easdem, aliás quo modo libet dimittcntibus, Uceat Priorissw, et con- uentui ejusdem Monanterij Ecclesiam, et porliones prwdictas, et earum cor- poralem possessionem libere appreliendere, ac licite retinere, dia^cesani loci, vel cujuslibet allerius licentia minime requisita. Et quce circa prcemissa opportuna, seu necessária fuerint, facieudi, slatuendi, ac ordinandi pie- nam, et liberam tcnore prcesentium liccatiam clargiiniir.

i4 Í^IVIIO I DA IIISTOHIA DE S. DOMINGOS

Níío damos a tradurão d'estas clausulas, porque deixamos atrás especificada a substancia d'ellas. Cerra o Breve com liuma particulari- dade essencial, que lie remeter-se na concessão ao beneplácito, e con- sentimento d'el-Uei, dizendo. Dummodo ad id iicgis accedat osseimis.

CAPITULO IV

o Bispo Dom João Esteves principio â fundação do Mosteiro. Aceita- se poios Religiosos de S. Domingos pêra a Ordem ; recebem as Beatas o habito da mão do Prior de Lisboa.

Achamos nas memorias antigas, que tanto que o Bispo teve negocia- do, e juntos todos os papeis, e licenças, e mais cousas que apontamos, foi em pessoa ao Recolhimento: e propôs ás Beatas com huma larga, e devota pratica toda sua determinação, e o que pêra bom eíTeito d'eHa tinha procurado, e alcançado no Ecclesiaslico, e secular, mas eu não me persuado, nem be rezão, que se crea, que matéria de tanto peso, e tratada nas Cortes de Roma, e Portugal, com tanta diíTerença de pessoas, como temos visto, podia ser secreta, nem ainda preceder, nem come- çar-se, sem ser primeiro muito particularmente communicada, a quem havia ser a parte mais essencial n'ella, que erão as Beatas, e precedendo seu consentimento: confirma-se este discurso, com sabermos, que foi grande parte pêra conclusão da obra, e das particularidades, que n'ella concorrerão, a diligencia, e agencia do Mestre Frei Vicente de Lisboa Provincial, e Inquisidor de toda Espanha: como ao diante o veremos em sua vida, quando chegarmos com a íiistoria ao Convento de Bemfica. O que se deve entender he, que o Bispo fez com formalidade, e toda pu- blicidade agora, o que d'antes estava tratado, e concertado em particu- lar. De qualquer maneira, que o negocio passasse, excede todo o enca- recimento o alvoroço, e alegria, com que se escreve, que as sanctas fê- meas receberão a nova, ou estimando-a, como comprimento do que es- peravão, e andava em pratica ; ou fesíejando-a como bem repentino, e não cuidado, que costuma dar mais gosto. Erão por todas vinte, e hu- ma: governava-as huma, cujo nome era Margaida Annes, ou Dona Mar- gaida João, como lhe chama outra memoria. Prostão-se todas por terra em sinal que o fazião aos pés do Bispo, pêra Ih'os beijar ; não havia lin- goas, que declarassem bastantemcnte o gozo das almas, trocão-se as vo-

PARTICULAR DO REIXO DE PORTUGAL 15

zes em lagrimas, e com tanta abundância, que obrigarão ao Bispo, e os que o acompanhavâo a seguil-as com muitas. Foi a resolução ficar dia aprazado, pêra receberem o habito.

Despedio-se o Bispo pêra sua casa cheio de consolação, e alegria, e ellas com a mesma caminharão em communidade pêra diante do santo Crucifixo; dando-lhe graças pola grande misericórdia, que usava com suas servas, em querer, e ordenar com divina traça, que o fossem por voto, as que o erão por determinação, e vontade : e na companhia de tão sancto, e bemaventurado avogado, padroeiro, e Pai, como era o grande Patriarcha S. Domingos : servidão de verdadeira hberdade, cár- cere, e cadeas ditosas pêra meio de reinar. Por tal julgavão, e com tais nomes engrandecião o estado oííerecido. E por remate convocavão to- dos os choros dos Anjos, todos os Santos, e almas bemaventuradas, quo as ajudassem a dar dignos louvores a quem tanto queria honrar indi- gnas criaturas. Esta era sua principal, e continua occupação, em quanto tardava o dia, que o Bispo sinalara. E o Bispo entre tanto mandou le- vantar algumas oíficinas no Becolhimento, e fazer compor outras cousas, pêra ficar o Mosteiro com toda dessencia, e perfeição.

Chegado o prazo, que foi huma quarta feira, vespora de Santo An- dré, vinte, e nove de Novembro, anno de ÍÍI92 achou-se o Bispo na Igreja acompanhado de muitos fidalgos, parentes, e amigos seus, e de- votos da Ordem: e juntamente do Padre Frei Lopo de Lisboa, Prior de S. Domingos da Cidade, que governava os Conventos du Ordem em Portugal, e porque seguia o Geral Frei Raimundo de Capua, que estava com o verdadeiro Pontifico em Roma, (como atrás tocamos), se nomea- va Vigairo Geral de Espanha, Erão mais presentes o Kíestre Frei Vicente de Lisboa, Pregador, e Confessor d'el-Rei Dom João, que fora Provincial, e Inquisidor de toda Espanha, antes da guerra dos Reis. E com elles os Padres Frei Vasco, e Frei Affonso, que as memorias chamão Doutores ; e o Padre Frei Bertolameu da Azambuja, e outros. Acudio grande parte da nobreza, e o povo da Cidade, obrigado da novidade. Apparecerão logo na grade do choro, corrida huma cortina, as futuras noviças, cheias de religiosa modéstia, e devação, e o Bispo pondo os olhos nos Religio- sos, começou assi. A rezão, que todos temos de venerar, e honrar as sagradas memorias, que este Sanctuario, em que estamos, encerra em si, como he geral pêra os mais, assi fica sendo pêra mim dobrada polo deposito, que n'elle tenho de hum pai, e tio ; pessoas de tão grandes

iC Liviio I DA niSTor.iA Di: s. domingos

partes, e merecimentos, como todos sabem. Esta me tem otjiigado de muitos tempos atraz, a dezejar acrescental-o, e ennobrecel-o a todo meu poder. A traça pêra o fazer, me descubrio o exemplo, e provai da vir- tude d'eslas irmãs. A ellas confesso, que a devo ; traça he em que to* dos os presentes ficamos de ganlio. Ellas com a consolação, que tanto ha procurarão, como he boa testemunha vossa Reverencia Padre Frei Vicente, de servirem a Deos em verdadeira Religião. Eu em as ter por mercieiras acrescentando o Culto Divino ; que he a obrigação em que nos põem o estado, que Deos nos tem dado de Príncipes de sua Igreja ; e tais são todos os Bispos. E a Ordem de S. Domingos, em governar hum Mosteiro, começado por gente tão religiosa, que será sem duvida outro S. Xisto de Roma: pêra resuscitar com elle n'este Reifto, enfesta Ordem, aqueUa antiga observância, que as guerras de Espanha, e a-s perturbações da santa Igreja, n^estes cançados tempos, tmzem tão aba- tida. A este fim tenho trabalbado muito, e alcançado o necessário. Res- ta só pêra perfeição de tudo saber de V. R. Padre Vigairo GeraK se hc contente de aceitar o governo d'este Mosteiro pêra sua Ordem, na con- formidade dos despachos, que lhe tenho mostrado do Reverendíssimo Geral. Parou o Bispo, esperando a reposta ; e respondendo o Yigain», que de boa vontade recebia o Mosteiro á obediência, e união Ordem, polas mesmas rezões, que sua Senhoria apontara, e polo gosto, que mos- trava d'elle, acrescentou o Bispo, que lhe fazia a saber, que polo Breve do Pontífice tinha faculdade, pêra ajuntar alguns Estatutos pailiculares de sua devação, aos da Regra de S. Domingos, pêra se guardarem n'a- quelle Mosteiro. Mas que fiasse d'elle, não serião pesados, nem mãos de levar. E dando noticia de alguns, disse, que os não declarava logo todos; porque queria, que o discurso dos annos lhe fosse descubrindo, se serião tanto a propósito, e pêra conservação da Religião, como dese- java, e imaginava. E por tanto , queria que lhe ficasse inteira, e salva, a authoridade, que lhe davão as letras Apostólicas, pêra serem recebidos, e obedecidos, a todo o tempo, que os propuzesse. Tinha o Bispo dado tantos penhores de v erdadeiro amigo da Ordem, e de Varão prudente, e Religioso, que o Vigairo Geral, e Padres, que o acompanhavão, não fizerão duvida em nada.

Mandou logo ler em alta voz o Breve do Papa, que continha as li- cenças, que atraz referimos. Leo-se a Provisão d"el-Rei, em que lhe dava o Padroado da Igreja, pêra o mesmo eíleito. E apoz ellas as letras do

t>At\tICULAU DO REINO DE PORTUGAL 17

coníAcntimento do Bispo de Lisboa; e sendo tudo lido, e entendido, le- vantou a voz, e disse, que polo direito, e authoridade, que os tais des- pachos lhe davão, elle Dom João Esteves Bispo da Cidade do Porto fa- -zia doação perpetua á Ordem de S. Domingos da Igreja do Salvador, pêra effeito de ser Mosteiro seu, e lhe applicava, unia, e encorporava pêra sua sustentação todas as rendas d'ella, e as da Igreja de Nossa Senhora do Emparo do lugar de Bemíica sua annexa, no termo da Cidade: assi como as fossem largando por morte, ou cessão voluntária, o Prior, e Beneficiados que de presente as possuião, com declaração, que o que faltasse pêra côngrua sustentação da communidade, elle o supriria de sua casa. E mandou de tudo fazer hum assento em publica forma, que he o seguinte.

Anno Dominí millessimo, tercentesimo, nonagésimo secundo, Dominus loannes Episcopus Portuensis, authoritate Apostólica, et ex consensu Do- mini loannis, Dei gratia, Regis Fortngallice, et Algarbiorum, erexit Ec- clesiam parocliialeni Sancti Sakmtoris civitatis Vlixbonensis, in Monasterium sororum Ordinis Prmdicatorum.

A traducção he, Dom João Bispo do Porto levantou em Mosteiro de Freiras da Ordem dos Pregadores, a Igreja, e Freguesia de S. Salvador da Cidade de Lisboa^ por authoridade, que pêra isso teve da Apos- tólica, e consentimento d'el-Rei Dom João por graça de Deos, Rei de Portugal.

Passado este auto, começou o Vigairo Geral, como Prior, que era de S. Domingos de Lisboa, a entender no que estava á sua conta. Pri- meiramente foi especificando por extenso a todas as noviças em commum os rigores da Ordem de S. Domingos, o peixe por mantimento quoti- diano, e continuo de toda a vida, o jejum de sete mezes : as vigias na hora, que mais quebranlão, que he a da meia noite : choro, e oração perpetua : Iam desamoravel, e seca em cama, e vestido, e até a raiz das carnes; com desterro perpetuo de todo género de linho, ou outro lenço. E o que pesa mais que tudo, sogeição do entendimento, e quebranta- mento da vontade, em clausura sem termo, e sem esperança de nunca mais tornar ao mundo. Tudo contradições da natureza, sacrifício perpe- tuo, sempre contrario á vida, ao gosto, á saúde, e sem outro limite mais que o da morte. Ajuntou em resolução o Yigairo, que visse bem voL. ni 2

\S LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

cada huma, com que animo apparecia n'aquelle acto : se vinhâo voluntá- rias, ou constrangidas, se traziâo bem medidas suas forças com o tra- balho a que se offerecião : com tempo se declarassem, e nâo tomassem peso, que fosse occasião de maior dano : visto como tanto he mais pe^ rigosa a queda, quanto he mais alto, e mais perfeito o lugar, d'onde se cae. Estava todo o secular encolhido, e mudo, e ao parecer cheio de me- do com a relação das austeridades polo Vigairo referidas. Mas era mui differente o animo das reclusas. Tamanha alegria se enxergava no rosto, e olhos de todas, com a representação temerosa das asperezas, e diíli- culdades, que nem a podia encobrir a modéstia natural, nem acquirida pola Religião: e tanto mostravão estimal-as, como se descubrirão n elias huns principies da celestial gloria. Do que foi bom testemunho, que quando começou a fazer perguntas a cada huma em particular, que foi logo apoz esta pratica, segundo ordenão as constituições, não houve ne- nhuma, que deixasse de responder com grande viveza, que por mercê grande, e misericórdia do Ceo tinhão, viver, e morrer no habito do glo- rioso S. Domingos. Arrematou o Prior com pedir a Deos, desse pros- pero, e sancto fim ao que sanctamente tinha sua Divina Magestade co- meçado : e dando de sua mão o habito á Regente Margaida Annes, man- dou-lhe, que ella fosse vestindo as súbditas. E os frades entre tanto fo- rão entoando o Hymno. Veni Sancte Spiritus, etc. que sendo por si de- votissimo, quando n'este passo se canta, não ha peito tão de ferro, que senão sinta aballar, e compungir, e tornar de cera. Assi foi acompanha- do de lagrimas gerais de todo o auditório, em quanto durou: notando cada hum os vários eííeitos, que obrava nas noviças ; porque humas se abraça vão com aquelle pano grosseiro, e áspero, que era pouco menos, que saco : outras o punhão sobre os olhos, e sobre a cabeça, como se az ao que muito se preza : todas se davão pressa a se ver vestidas n"elle. Nomeou-lhes o Prior por Prelada a mesma, que até então as governara: e por confessor, e Mestre na nova vida o Padre Frei Rodrigo de Setu- val, pessoa abalizada em virtude, e qual convinha pêra tal escola, e o Bispo encarregou logo de algumas obras de pedra, e cal, que mais que- ria fazer pêra inteira commodidade das Religiosas.

PARTICULAR DO RELNO DE PORTUGAL 19

CAPITULO V

Professão as Noviças. Elegem Preladas, e officiaes das portas adentro. Recebem-se algumas donzellas ao habito. Dá-se conta da estreiteza da vida, que faz ião.

Desfez-se a junta com benções do povo. E era o contentamento de todos presentes tal, que faziâo duvidar quais erâo os que n'elle tinhâo maior parte. Alegra va-se o povo de ver tamanho valor em filhas de sua Cidade, que animosamente se obrigassem, como a cárcere perpetuo; quando as mais Religiosas do Reino viviâo com liberdade de andar polas casas dos pais, e parentes. Os frades porque abominavâo a claustra, o então procuravão ardentemente reduzir a observância antiga, nâo so fartavão de dar graças a Deos, por verem começar este bem em Portu- gal, pola Ordem de S. Domingos. O Bispo estimava ver com seus olhos concluída huma obra verdadeiramente heróica, e que muito dezejara. Mas o certo he, que as noviças se aventajavâo a todos. Porque seu go- zo era fundado em certeza de bens soberanos, e próprios, e nas pro- messas de hum Deos, que nenhuma obra boa, nem huma lagrima, nem hum suspiro deixou nunca semsua paga, e grande paga. Mostrarão logo esta verdade no fervor com que entrarão polo anno do noviciado, e com que o acabarão, que foi hum excesso grande em todas as partes de sua obri- gação. Parecia quererem com a oração, com as vigias, com os jejuns, e mais rigores fazer força ao anno, que abreviasse o curso ordinário, e as chegasse ao ponto de se verem professas. Porque pêra o que devião ao estado de Noviças, era assaz o que fazião antes de entrarem n'elle. Com tão boa provação, chegado o fim do anno, professarão todas nas mãos do Prior Frei Lopo de Lisboa, com os extremos da devação, e alegria espiritual, que facilmente se podem julgar do que fica contado. Espe- rou-se pêra este auto, e pêra boa estrea d'elle o dia do glorioso Nasci- mento de Nosso Redemptor, que foi fim do anno de 1393 pêra se rece- berem no mesmo dia sinco Noviças ao habito, numero formoso, e pro- nostico sancto, á honra das Chagas preciosas do mesmo Senhor primeiro Padroeiro, e Autor da casa. Ordenou-lhes logo, que pêra tudo correr poios termos da Religião fizessem entre si livre eleição de Prioressa. Sa- hio eleita a Madre Sor Margaida Annes, ou Dona Margaida João, que era a mesma, que ficou presidindo ás Noviças, e primeiro fora Regente,

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inda que as memorias o não dizem declaradamente. Sendo confirmada nomeou em Suprioressa a Madre Sor Margaida Domingues, de cujas par- les faremos ao diante maior menção. E o Prior a confirmou logo. Se- guio-se provizão dos cargos, e das officiaes, que he costume da Ordem haver das portas a dentro pêra bom serviço, e concerto de tudo.

Apoz este concerto, começou a correr o da Religião com toda a pon- tualidade de hum bem apontado relógio» Grandes cousas se contão d'a- quelles sanctos princípios : em que nos não podemos deter, polo muito, que temos, que escrever de toda a Provinda: e porque na mór parte dos rigores da Ordem acha vão estas Madres menos difllculdades, que n'aquelles, em que se linhão criado» Costumavão antigamente os Mestres de dançar pêra criarem ligeireza, e agilidade nos dicipulos, solar-lhe os çapatos de pranchas de chumbo. Adestrados com o peso, era grande o despejo, e soltura, com que despois corrião, e saltavão livres d'elle. Po- demos afíirmar, que aconteceo o mesmo ás nossas Madres. Não somente as não cansava o jejum aturado da Ordem; polo costume, que tinhão de grandes abstinências: antes se escreve, que havia algumas, que es- tendião a nossa quaresma de sete mezes, a anno inteiro: e outras, que a fazião continua de sinco annos, e o que mais faz pasmar, que o íim de huma era principio de outra, ajuntando muitos dias de pão, e agoa entre anno. Da pobreza não mudarão nada, uzando do mesmo extremo, que atrás dissemos de não deixar das portas adentro cousa de susten- tação de hum dia pêra outro. Todas de sua pobre pitança havião de ter infallivelmente por convidado hum pobre da porta : e, se este acertava de faltar, não faltava guarda inviolável do que deixavão, pêra se dar no dia seguinte, como deposito de fazenda, que em seu animo era alheia. Grandes louvores davão a Deos, quando virão as camas da Ordem, que o Bispo mandou. Polas cortiças nuas, e pedras das cabeceiras, acharão-se com xergôes de palha, honrados com mantas de Alentejo, que se bem erão desabrigadas, e leves, ficavão sendo na comparação da pobreza pas- sada, mimo notável. As túnicas de estamenha, inda que basta, e seca, acha vão por dehcia, porque as livra vão do burel, a que esta vão acostu- madas. Assi lhes parecia, que, por muito, que trabalhassem, a mais as, obrigava, quem tão bom trato, ,e tanto favor lhes fazia. Os toucados erão pano de linho grosso. Nos pés não havia cortiça, nem pêra saúde, nem pêra suprir defeitos da natureza. Com seculares nenhum trato. Na ora- ção, nas vigias, nas mortificações do silencio, e disciplinas, não havião,

PAÍITICULAR DO REINO DE PORTUGAL 21

que satisfaziâo, com o que manda a Regra. No choro havia tanto cui- dado, que acudir era sempre antes das horas, e do sinal do sino. O assistir huma modéstia, e quietação do Ceo: d igual o espirito, a pausa, e a deleitação no cantar os louvores Divinos. He constante tradição na casa, que nunca entrarão as Noviças, que não achassem candeas ace- sas, livros abertos, e registados, candieiro posto. E d'esta procedeo ou- tra ; que foi dizer-se, que vinhão as almas sanctas das defunctas, ou cantar primeiro, ou ajudar suas irmãs vivas: ou que erão Anjos, que descião do Ceo ao mesmo eííeito. E bem se pode cuidar, fazendo con- jectura de alguns casos, que d'este, e d'outros Mosteiros ao diante con- taremos, que não podião faltar Anjos, onde tudo era santidade. Que se lemos de S. Raimundo Frade nosso, que lhe acontecia muitas vezes es- pertal-o o seu Anjo da guarda, pêra cantar os louvores do Senhor: e se o Apostolo encomenda ás mulheres composição de trajos nas Igrejas, respeito dos Anjos, que alli assistem : que duvida pôde haver, de acu- direm a acompanhar nos louvores Divinos almas cheias de composição de virtudes? A nenhuma, que tivesse officio, izentava o trabalho d'elle das horas do choro, por mais cançado, que fosse, e todos o erão de muito trabalho. Porque da clausura pêra dentro não havia n'aquelles principies servidoras. Todas o erão de si mesmas, e da Communidade, e com tanto gosto, e humildade, que as mais velhas lançavão mão do ser- viço mais abatido, sem dar dispensação aos annos, nem á authoridade. E tal foi o principio da vida d'este Mosteiro, em que muitos annos per- severou com pouca differença, E tal o achava a sancta Rainha Inglesa Dona Felipa, que o Duque de Lencastro seu pai trouxe a este Reino pêra mulher d'el-Rei Dom João Primeiro. Casamento felicíssimo, que enchea este Reino de sanctos, e valerosos Príncipes. Achamos escrito d'ella, que visitava como sancta estas Madres com particular gosto : e festejava a simplicidade, e pobreza, com que a recebião, fazendo-lhe e&trado Real de hum de seus enxergões, cuberto de huma manta, que aenhuma dif- ferença tinha das do dormitório, mais que em ser das menos uzadas. Mas he mui fraca a disposição das molheres, por robusta, que em algumas se ache, pêra levar a Regra Dominica em todo. seu rigor, quan- to mais sendo acrescentada com novas cargas. A cabo de poucos annos forão opprimidas de vários géneros de infirmidades ; de sorte, que hu- mas acabarão depressa a vida. Outras a impossibillitarão dando em etíli- cas, e andavão poucas em pé. Os médicos, que a tudo querem achar

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causas naturais, davão a culpa ao peixe continnado, á complexão femi- nina muito contrario : e também a calidade do sitio da casa, valle fundo, e por estremo húmido. Mas a verdade era, que os exercícios sanctos atu- rados com gosto, e devaçao, enganavão os espíritos, sem se entender o mal, senão despois de incapazes de remédio. Desejarão os Prelados dar algum meio, pêra se nâo perder obra tâo bem começada. Porém he mal antigo, acudir-se devagar a faltas commuas, por grandes, que sejâo. Des- ])0is do quarenta annos, reinando el-Rei Dom Duarte, se tratou dous meios, que derão algum alivio. Foi o primeiro moderar a reza, que além de ser muita em cantidade, e continuação, era o espirito d'aquelle bom tempo tâo aíTervorado, que todas as horas, e até as das ferias se canta- vâo : do que dão testemunho, além da tradição, os livros do choro anti- gos, e manuaes das cantoras, em que se achão apontadas em solfa as Antífonas, e Responsorios feriaes, como os dos dias maiores. D'esta mo- deração consta que foi Autor o Mestre Frei João de S. Estevão, confes- sor da Rainha Dona Leonor, molher d'el-Rei Dom Duarte, eVlgairo Ge- ral, que então era da Observância. O segundo remédio esteve em se in- troduzir comerem alguns dias da semana carne. Suplicou-se ao Pontífice em Roma, e impetrou-se a dlspensação, por diligencia do dito Padre. E ainda que nos princípios houve grande resistência de parte da commu- nldade, que não queria consentir se trocasse o rigor, em que a casa fora fundada, começou-se a executar, e ficou em costume. E com tudo em alguns dias de festas, e devaçôes particulares, não se pode acabar com as Madres, que admittissem tal comida. E resistindo n'elles constante- mente, succedeo logo hum caso, que as confirmou em sua determina-, ção ; caso bem de notar, e digno de se escrever. De tempo immemorial se faz nesta casa solemne festa á honra das Chagas preciosas do Redemp- lor, na primeira sesta feira, despois das oitavas de sua gloriosa Ascen- ção : e por Breve Apostólico particular se canta Ofíicio, e Missa das Cha- gas. E pêra mais solemnidade honra-se a vesporá com abstinência. Ne- nhuma Freira come carne em tal dia. Succedeo hum anno, que por sor quinta feira, dia dispensado na nova licença, e ultimo do Oltavario do tão grande solemnidade : e também, porque andavão fracas algumas Re- ligiosas, mandou a Prioressa, (ficou em memoria que se chamava a Madre Breites Annes), que se desse carne : e proveo que se trouxesse á quarta feira. Pos-se no fogo á quinta feira. Começando a cozer, notou huma Madre, que tinha a cargo entender com a cozinha, que vinha a onda da fervura

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envolta com humas cousas feias, que tinhão feição de bichos. Não o po- dendo crer tentou-a com liuma colher, e vio que erão verdadeiros bi- chos. Chamou outras Freiras, porque senão fiava de seus olhos ; nenhu- ma duvidou de o serem. E fez mais pasmo, que tirados por muitas ve- zes liuns traz outros de novo : e era tanto o numero d'elles, que fazia persuadir, que não havia na panella outra cousa, e claramente se via não ser a cousa natural pêra molheres bem criadas, e não nascidas nos mon- tes, hum bastara pêra fugirem de tal comida, quanto mais pêra as enfastiar. Forão-se attonitas á Prelada, e consideradas todas as particu- laridades, que se podião ponderar no caso, julgavão por permissão Di- vina, e aviso certo, de que agradava no Geo o bom costume, e que d'esta casa senão esquecia o Senhor d'ella. Mas isto são cousas menos antigas: e convém tornarmos com a Historia, ás que são mais chegadas aos annos primeiros da casa, em que acharemos outras, que com evidencia desco- brem favor, e amor do Ceo pêra com ella.

CAPITULO VI

De duas mysleriosas visões que houve neste Mosteiro despois de dado d Ordem. Dá-se conta das rendas, que o Bispo lhe deixou^ e dos su/fragios que nelle ordenou.

Poucos annos erão passados despois de assentado o Mosteiro, quan- do levantando-se huma noite algumas d'aquellas sanctas, e primeiras Ma- dres, antes das horas de Matinas, segundo era costume de muitas; assi pêra as anticiparem com aparelho de espirito ; como também pêra que estivessem os livros, e tudo o mais aponto, quando soasse a meia noite, eis que achão tudo feito, quanto vinhão fazer, candieiro posto, livros abertos, e, o que foi mais, vôl-as não acesas, mas de maneira ardidas, que mostravão haver muito espaço, que ardião. Notarão com espanto tudo, e como não acharão outra nenhuma Freira no choro, pareceo-lhes novidade mysteriosa. Mas não sendo fácil a gente sancta em cuidar mi- lagres, mostrou o dia seguinte cousa, que as obrigou a crer, que o hou- vera. E foi assi, que espertando na mesma noite huma pobre molher, vezinha da Igreja, vio tanta luz nas portas, que se persuadio ser manhã: levantou-se á pressa, tomou seu cântaro pêra hir á fonte. Eis que pondo os pés na rua, aberta a Igreja ; sente dentro musica, e ve luzes. Con-

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vidada da occasião, quiz fazer oração, e achou, que se cantava luima Wissa, officiada com toda solemnidade do vozes, e festa. Assistindo a ella até se acabar, vio que por remate saliião os Sacerdotes acompanha- dos de muita gente, em huma comprida procissão, na qual notava varie- dade de trajos, e cores : huns que vestiâo branco, ontros carmesi, outros verde, e todos levavao círios acesos : e dando volta á Igreja hião sina- lando cruzes poios cantos d'ella. Seguio a procissão hum espaço. Mas lembrada do serviço, que tinha pêra fazer, tornava pêra a Igreja embusca do cântaro, eom que entrara ; senão quando, como se fora cousa de so- nho, desaparece a procissão, a Igreja fechada, acha-se sem o seu cân- taro, e sem mais luz, que a da lun, que por muita, e clara, a fizera le- vantar, e sair de casa, antes de tempo ; este testemunho por ser demo- llier simpres, e de boa vida; e se achar pola manham o cântaro dentro da Igreja, visto da muito povo, acrescentou a presunção de ser cousa sobrenatural o que as Freiras tinhão visto na mesma noite no seu choro. Juntava-se a distinção das cores, que a simplicidade da vozinha reconta- va, sem atinar na significação, e pessoas, que as vestião, que mostravão serem Virgens, Martyres, e Confessores, segundo o costume, que a Igreja sagrada, allumiada polo Espirito Sancto, guarda em se ataviar em suas festas. Este successo, e visão devia dar principio a duas tradições rece- bidas nesta casa por todas as moradoras d'el!a, e authorizada com anti- guidade de muitos annos : huma, que atraz dissemos, de virem os Anjos assistir, e cantar n'aquelle choro ; a outra, que foi sagrada a Igreja não por mysterio de homens, senão de Anjos.

Mas não faltão outros fundamentos do maior certeza ; dos quais hc mui provado hum, que se vio na sancta Relíquia, que estas madres tem do verdadeiro Lenho da Cruz de Christo. Foi dadiva com que o Bispo, que tudo o que era de preço, buscava, e queria pêra ellas, enriqueceo o ]^,íosteiro : guardava-se entre aquellas Madres, pobres de tudo, senão de devação, e espirito, em hum Almario da Sancristia, bem fechado : mas na verdade, com menos dessencia da que se devia a tal thesouro. Eis que huma noite, levantando-se a communidade a suas matinas, e cami- nhando pêra o coro, fere nos olhos de todas huma grande claridade, que sahia da porta da Sancristia com raios tão ardentes, e espantosos, que parecia se abrasava em fogo. Aberta a porta virão que procedião do Al- mario da sancta relíquia : e houve algumas madres, que affirmarão ouvi- rem vozes de celestial harmonia, prostradas por terra em graças, e lou'

PARTICULAR DO RKIXO DE PORTUGAL 25

vores (la grande mercê, que recebião n'aque]la approvação, que o Senhor- dava á sua sancta relíquia, derão-se por obrigadas, nâo amoestadas a buscarem modo, pêra a terem com mais veneração, senão fosse com toda a que devião. Ordenarão hum Altar no Choro, e nelle hum Sacrário, em que a recolherão. E arde diante, desde então, huma alampada perpetua: e até pêra a chave do Sacrário fizerão caixa, em que se guarda com cui- dado, e curiosidade.

Junto com o alimento de devação, e espirito, acudio o Bispo com o corporal, dezejando, que estivessem as Freiras, nesta parte, tão bem pro- vidas, que nenhum outro cuidado tivessem mais, que o do Ceo, e da salvação. Fora senhor da villa de Salvaterra de Magos em Riba-Tejo, Af- íonso Esteves pai do Bispo, e de tudo o que a Coroa Real possohia na Igreja de S. Paulo da mesma villa, que era a quarta parte dos dizimos grossos, e meudos, a ella pertencentes. Por morie de Affonso Esteves fez el-Rei D. João primeiro mercê ao Bispo d'esta renda, tomando pêra a Coroa o senhorio do lugar; e d'ella lhe mandou passar huma mui am- pla, e honrada Doação. Esta transferio o Bispo no Mosteiro pêra sua sus- tentação, assi como a houve d'El-Rei : e poz obrigação por ella ás Reli- giosas, porque se veja o valor, e agradecido animo d'este Varão, de can- tarem em todas as festas, que a Igreja celebra de Nossa Senhora, no dia antes de cada huma, huma Missa solemne da mesma festa, pola vida dos Reis D. João, e Dona Felipa, e de seus filhos : a qual despois de suas mortes ficasse por suas almas ; juntando então mais hum ofilcio de de- functos ás vésperas, e matinas. E porque não ficasse sem algum suffra- gio quem lhes fora meio de tão boa renda, ordenou que despois de seu fallecimenlo lhe rezassem no dia d'elle, hum Anniversario perpetuo, e outro pola alma de seu Pai no dia em que fallecera. Assentadas estas cousas, como era letrado, e queria firmeza em tudo, alcançou d'el-Rei, que lhe ratificasse a doação, não na pessoa d'elle Bispo, mas também em favor do Mosteiro: e assi o declara a Carta, que el-Rei lhe mandou passar. Mas isto foi nos princípios da Casa. Passados poucos annos lhe dobrou a renda ; o que he bem, fique desde logo declarado pêra não tornarmos a esta matéria. Subio o Bispo da Igreja do Porto á de Coim- bra ; e como em sua pessoa cabia toda a cousa grande, passou pouco despois á Metropolitana de Lisboa. Possuindo esta, juntou hum dia Ca- bido, que foi aos 5 de Outubro do Anno de N. S. Jesu Ghristo de 1405, e propoz, não o gosto, que tinha do que era obra de suas mãos ; senão

26 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

a pura verdade da grande perfeição, com que se vivia no seu Mosteiro do Salvador. E porque sendo esta favorecida, cresceria mais, e seria me- lhor servido aquelle Senhor, a quem todos serviao, tinha em pensamen- to, e estimaria, que se conformassem com elle, largar ás Freiras o que a possuhia nas Igrejas, em que tinhâo grande parte. Foi-lhes logo trazendo á memoria, o que atraz temos tocado, que por Breves Apostó- licos, e licenças Reais, e do mesmo Cabido em tempos atraz tinha pêra ellas alcançado : assi na mesma Igreja do Salvador, e em sua annexa do ugar de Bemfica ; como na de S. Paulo de Salvaterra : e ajuntou, que seria obra gloriosa, e digna de tão illustre Cabido, obrigar aquellas Ma- dres a serem perpetuas mercieiras de cada hum d'elles, e d'aquella sancta Sé, com lhes largar a terça Pontifical, que tinhão na Igreja do Salvador, e de Nossa Senhora do Emparo do lugar de Bemfica : e a quarta parte da de S. Paulo de Salvaterra. Concederão todos sem faltar nenhum, co- mo em obra do Espirito Sancto. Passarão-se letras, confirmou-as o Pon- tifico Alexandre Quinto estando em Bolonha, no primeiro anno de seu Pontificado, e no do Senhor de 1409 por Fevereiro. As causas, que o Breve traz pêra a confirmação, são as mesmas, com que o Cabido se obrigou ao consentimento, ouvindo-as de boca do Arcebispo. E porque a todos devia ser notória a verdade d'ellas, não será rezão ficarem fora d'esta escritura. Diz assi o latim. £t guia 3íonasterij jam dicti fama, ac vitcB odor Angclicoíy in miUtis hujus Itegni partibns fnit, et est mirabiliter circmfusus, etc. Como dizendo, que fazia a graça pola fama, que corria do Mosteiro, e polo cheiro da vida Angélica, que nelle se fazia, que era tal, que pola mór parte do Reino se tinha com espanto derramado, etc. Mas não ha negocio tam bem fundado, que o engenho da malícia hu- mana não contramine. Ficando o Mosteiro com as duas quartas partes dos dizimes de Salvaterra, de seu se estava, que por muitas Igrejas, que de novo houvesse na villa, em todas havia de gozar das mesmas duas quartas partes, polo primeiro direito, que nas Freiras tinhão transferido el-Rei, e o Cabido da Sé. Assi passados muitos annos, e succedendo edi- ficar-se de novo na villa a Igreja de S. António, acudirão logo as Madres a pedir as partes, que sem nenhuma duvida lhe tocavão nella, e junta- mente o Padroado, que também lhes pertencia. Porém acharão dura con- tradição ; parte em hum fidalgo poderoso, que correndo os tempos, veio a ser senhor da villa, o parte nos Ministros do Arcebispo, e Cabido. E com tudo a força da justiça lhes deu duas sentenças contra tão fortes

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 27

adversários, a hum Mosteiro de molheres fracas, e desemparadas. Foi a primeira neste Reino, e a segunda em Roma. Passarão-se longos annos, e n'elles grandes debates ; até que no anno de 1550, sendo Arcebispo Dom Fernando de Vasconcellos, e senhor da villa Dom Fradique Manoel, que a vendia, (como vendeo), ao Infante Dom Luis, se vierão a compor com as Freiras, em que, ficando com ellas ametade da terça Pontificai da Igreja da contenda, cedessem todo o mais direito, que pretendiSo. Era Prioressa a Madre Dona Margaida de Mello. Aceitou o que lhe quizerâo dar, por não arriscar a justiça certa, litigando longe da casa, ecom dous Príncipes; hum da Igreja, que era o Arcebispo; outro secular, que era o Infante Dom Luis, que pola compra da villa succedia no direito de Dom Fradique. Celebrou-se a Escritura em oito dias do mez de Outubro do mesmo anno. Foi Escrivão Manoel Faleiro Notário Apostólico.

CAPITULO VII

Dos Estatutos^ que o Bispo ajuntou aos da Ordem, e de algumas obrigações que mais poz.

A traz contamos, como no dia, que as Madres professarão, lhes de- darou o Bispo, como tinha authoridade do Summo Pontifico pêra acres- centar alguns Estatutos, que convenientes lhe parecessem aos da Regra de S. Domingos; e logo promeleo, que não serião muito pezados, nem fora dos limites da prudência : e por tanto reservava a faculdade, que as letras Apostólicas lhe davão, pêra quando fosse tempo de se de- clarar. Passados quatro annos, se veio a resolver. Em outro tal dia, como o em que as Madres forão recebidas ao sancto habito, que foi huma vés- pera de S. André, (devia de ser devoto d'este Santo), do anno de 1396 veio á Igreja, e em presença do Prior, e Vigairo Geral Frei Lopo de Lisboa, e do Mestre Frei Vicente, e do Padre Frei Martinho Vigairo do Mosteiro, que as memorias chamão Prior, (titulo que então usa vão os que agora chamamos Vigairos), e chamadas as Madres todas, mandou ler hum papel, que trazia escrito em lingua Latina, no qual havia mui- tos capitules. E lido cada hum, elle o declarava. São as palavras hum retrato do animo, e entendimento de quem as diz: mas nenhum he mais vivo, que as que se dizem per escrito. Porque a voz, que sae repentina, como he do primeiro movimento, não traz muitas vezes o peso, q sub-

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stancia, com que a consideração as digere» quando com a pena se vão no papel assentando. Tão acertados erão, e tanto em favor da Religião, que não forão aceitados dos Frades, e Freiras, mas por todos, e to- das louvados. Não lie possivei especificarmos todos; vista a brevidade, que vamos procurando. Mas por honra do Autor d'elles, e do valor das que os aceitarão, pêra os manter, e cumprir, daremos noticia de alguns. Foi hum, que em nenhum tempo se comeria carne na Communidade : e quando houvesse necessidade precisa de doença forçosa, se comesse em particular com o resguardo, e polo modo, que a Regra concede. Ou- tro foi, que não usarião nunca linho em túnicas, nem em leitos. Mas não posso deixar de reíirir as mesmas palavras do Bispo em outros dous, cuja substancia he, não possuir cousa própria, e não ter trato com secu- lares; são as palavras do primeiro gravíssimas, e temerosas, e que em todas as Religiões havião de ser lidas, .e executadas, e dizem assi. Sta- tuentes, vt qiicecunque soror reperta [uerit aliquid appropriare você, vel opere j á cceteris sicut excommunicata vitelur: nec in morte inter alias, sed extra coemiterium sepeliatur: et ad perditionem cum Saphyra, et Ananict vadat. Quasí dizendo, que qualquer Freira, que for achada possuindo alguma cousa como própria, não em realidade, mas ainda que não seja mais, que de palavra, polo mesmo caso, como escomungada, seja evitada em vida, do trato, e comercio das outras : e na morte não te- nha com ellas sepultura, mas fique fora do Cemitério commum ; e sua alma condenada com as de Safira, e Annanias. No segundo ponto, despois de dar licença, que possão entrar na Clausura os Reis, e Infan- tes seus filhos, ajunta, que sejão filhos legítimos: e despois acrescenta. Priorissa, et qucelibel Soror velata facie loquatar prcedictis Dominis. Quer dizer. A estes Senliores, a Prioressa, e qualquer outra Freira falle com o rosto cuberto. Entendido fica o que disporia com gente de menos por- te, quem assi se acautelava com pessoas Reais. Muitos louvores devemos a estas Madres; porque aceitando com facilidade tais encargos, sabiãa não estarem fundados com menos obrigação, e pena que huma excom- munhão Papal.

Succederão a estes outros muito bem assombrados, e cheios de pie- dade. Que em nenhum tempo deixarião a Regra, nem o habito de S. Domingos. Que não passasse nunca o numero das Religiosas de quarenta professas, e dez Noviças, prevenindo sabiamente, não se impossibilitar a sustentação, com gente demasiada, que hoje trabalho em muitos

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 29

Mosteiros. Que seriâo obrigadas d'esd'as vésperas da Primeira Dominga da Quaresma, até o sabbado da somana Sancta a rezar o officio das an- gustias da Virgem Nossa Senhora, que fí^i composto polo Papa João Yi- gessimo Segundo, com titulo: de Cowpassione Vinjinis: e na primeira sesta feira despois da Páscoa lhe farião festa com Missa solemne, e pre- gação; e a reza de sua Consolação, c prazeres: c lodos os mais dias, até o sabbado despois de Pentecoste, lhe rezarião o mesmo officio. Mas porque lhe pareceo a carga grande, aliviou-lhes o trabalho por duas ma- neiras. Primeira, libertando-as por estes dias da obrigação do officio pequeno da Virgem, que he ordinário da Regra: segunda, sinallando-lhes em premio, como pêra collação, ou merenda d'aquelles dias, cento, e smcoenta livras em dinheiro, as quais manda que se entreguem á Prio- ressa, e Freiras: com esta palavra, pro vino coUatlonis. A força da si- gnificação he, pêra vinho da collação. E porque fallou em vinho, e aquel- la contia de livras lhe pagava sua mãi, por rezão de certa vinha, e as- senhas, que possuhia em vida, c por sua morte havião de tornar ao Morgado, e Capella: ajunta, e manda, que o Administrador, quando esta fazenda lhe vier, de ao Mosteiro em lugar das livras sincoenta, c dous almudes de vinho.

Mas como estas obrigações erão de portas adentro» e ficavão quasi em segredo, não quiz que faltasse, onde tanto bem tinha feito, hum re- conhecimento pubhco, que pêra seus successores fosse de honra, e pêra elle servisse de memoria ; e ordenou, e obrigou a Communidade, que no primeiro Domingo de cada mez, lhe mandasse huma pitança inteira de tudo o que em tal dia se desse no refeitório por jantar a cada Reli- giosa, fazendo conta, que o tinhão por seu convidado. Este estilo guar- dassem polo tempo em diante, com quem despois de seus dias lhe suc- cesse no Padroado da Casa. E assi dura até agora, sem nunca se perder. Mas porque a experiência nos ensina, que todos os Estados, que os ho- mens buscão de perpetuar sua fama, são menos firmes, que os dos li- vros, rezão será ficar n'este viva a memoria de quem a soube merecer a Deos, e á Ordem de S. Domi^igos : fal-o-hemos brevemente no seguinte Capitulo.

30 UVBO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

CAPITULO VIII

Dá-se conta da vida, e morte de Dom João Esteves, e dos cargos, e digni- dades porque passou até alcançar a de Cardeal da Sancta Igreja de Roma.

João, e Affonso Esteves forâo irmãos, e criados ambos em casa dos Reis Dom Pedro, e Dom Fernando Pai, e Filho, ambos únicos d'esle no- me em Portugal, e n'ella merecerão por suas boas partes, e calidades, as honras, e mercês, que d'elles el-Rei Dom João seu successor no Rei- no alcançarão. O primeiro a Alcaidaria mór de Lisboa, como atrás toca- mos, com muita, e boa fazenda. O segundo o Senhorio de Salvaterra de Magos. E ainda que o valor pessoal devia ser muita parte pêra lhes gran- gear estes bens, de crer he, que não seria sem fundamento de clareza de sangue. O que se colhe do testamento, que fez Dom João Esteves, quando se partia terceira vez a Roma, despois do arcebispo de Lisboa, que tivemos em nossa mão : no qual encomendando a el-Rei os parentes, que deixava no Reino, lhe faz lembrança, que seus maiores havião sido do serviço d'el-Rei Dom Dinis, que então era boa antiguidade. O lu- gar de seu nascimento não duvidamos, que foi a villa da Azambuja. Por- que no mesmo testamento ordena Dom João, que se faça na Igreja d'ella hum arco, e sepultura, em que se recolhão as ossadas de parentes, que alli nomea; e que tenhão memoria, e suíTragios perpétuos: d'onde fica claro, que teve occasião o apellido, com que alguns o nomeão de Azam- buja. Dos dous irmãos falleceo o primeiro, que era Alcaide mór de Lisboa, sem geração ; e succedeo em sua herança dos bens patrimoniais o segun- do, que era Affonso Esteves senhor de Salvaterra. De Affonso Esteves foi filho João Esteves, que he o Bispo do Porto Dom João Esteves, de que tratamos, herdeiro, e successor por seu pai, da Capella, e Morgado, que o tio fundara no Salvador, como deixamos contado. Do Bispo tinha el-Rei Dom João tanla satisfação, que tudo lhe parecia pouco pêra elle. Vagando o Bispado de Coimbra, e pouco despois o Arcebispado de Lis- boa, successivamente lhe foi dando ambas as Igrejas. E foi o segundo Arcebispo que Lisboa teve. Succedeo despois convocar Concilio o Papa Gregório Duodécimo pêra a Cidade de Pisa cm Itália (1), com dezejo de achar remédio algum pêra o mal do Scisma, que durava. Foi a elle o

(1) Platina de vilis PonliCcuia.

PAUTICULAn DO REINO DE PORTUGAL 31

Arcebispo Dom João Esteves por dous títulos ; hum como Prelado Metro- politano, e que seguia, e obedecia ao verdadeiro successor de S. Pedro; com todo o Reino de Portugal: outro como Embaixador de seu Rei, que lambem reconhecia o Pontífice ; c esta foi a terceira jornada que fez a terras de Itália com tâo bom successo em hida, e estada, e com tais obras, que honrou a si, e a sua Pátria. Despois de assistir no Concilio, que foi no anno de 1409, e tendo recebido o Gapello de Cardeal, que o Pontífice João Vigessimo Tercio lhe deu á instancia d'el-Rei dom João, como nos constou por hum assento do livro dos Anníversarios da sancta de Évora, que diz assí. E a preces do Senhor Rei o Papa JoanneXXIIl o fez Cardeal de Lisboa, e teve o Arcebispado, e encomenda ; c foi feito Cardeal a três dias de Junho da era de M CCGCXLIX, responde-lhe o anno de Christo 1411, caminhou pêra Jerusalém visitar os lugares san- ctos, memorias de nossa Redempção ; tanto mais pio, e mais devoto, quanto mais honrado. Concluída prosperamente a sancta Romaria, voltou a Itália, e antes de sair d'ella deixou levantadas duas memorias, dignas de hum Príncipe, huma em Rolonha, em veneração de nosso Patriarca S. Domingos: de que os Antigos nos deixarão noticia com hum termo escuro, e confuso, (não devia ser quererem encubril-a) dizendo, que so- lemnizou a sepultura do Sancto. Pôde ser que foi, como se prezava de seu devoto, ornar sua capella, e sepultura, com novos Mármores, e fa- brica melhorada, e mais rica : visto, como todo outro feitio era menos digno da tal dignidade. A outra foi em Roma, onde edificou hum convento de Monges de S. Jerónimo. Devia ser obrigado da devação, que lhe faria sua memoria, quando se achou no Portal de Delem, de que o Sancto se fez perpetuo morador, trocando por aquella humilde pobreza as delicias, e grandezas de Roma. De Itália pêra se tornar ao Reino tentou hum grande rodeio, atravessando muitas terras ; e passando a Fraudes. O que cremos, que seria por visitar a Duqueza Dona Isabel, filha d'el-Reí Dom João, casada com o Duque Felipe de Borgonha, e também por se desviar de terras de Espanha. Começava a descançar de tão longas jornadas, e peregrinação, na vílla de Burges da Província, e Condado de Fraudes, fazendo conta, que estava como á vista das praias, e ares de Lisboa. Aqui foi salteado de forte doença, que ajudada dos trabalhos passados, e da idade crescida, o enterrou brevemente, em 23 de Janeiro de 1415 segundo Onuphrío (1).

(1) Onufrió Panuino no I. i. dos Cardeais.

52 LIVRO 1 DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

Tinha o Arcebispo, como tíío prudente, feito soíeffine testamento ao tempo que partio do Reino. N'elie, como adevinhando qne não ha- via de tornar, declara a determinação, que levava de passar à Terra Saneia : e particulariza o que queria se fizesse em suas exéquias, e na trazida de seu corpo a Portugal. Nomeando por testamenteiro o Dayão da de Coimbra ; ordena-lhe, que sepulte seus ossos na Ca- pella de seu tio, e em sinal, que não queria mais, que sepultura raza, aponta em huma campa^ que em tempos atraz tinha mandado trazer de Frandes. Notável humildade, que podendo, como Metropoli- tano, e tão grande bemfeitor tomar a Igreja toda, (que nenhuma con- tradição achara então), não quis mais que hum canto d'ella, e ainda abi furtou o corpo aos faustos de mármores, e moimentos levantados, que o mundo estima. Da administração do Padroado, e Morgado, porque não tinha herdeiro forçado, dispõem com o mesmo juizo. E manda, que suc- ceda n'elle hum sobrinho seu por nome Álvaro, filho de Pedro Francisco de Távora, pondo-lhe obrigação^ que seja morador em terras de Estre- madura. Fazia conta como discreto, que as Casas nobres, se vivem longe da Corte, facilmente se apagão, ou escurecem; e logo chama outro, em caso, que o Álvaro não viva na Provinda apontada. Ultimamente fez hu- ma clausula de grande honra pêra o Mosteiro, e segurança pacifica da conservação de sua memoria. Porque declara, que succedendo em algum tempo faltar-lhe direito, e legitimo successor, a Prioressa, que fòr no Mosteiro do Salvador, nomeie n'elle hum parente da linha de seu Tio, ou de seu Pai, qual milhor lhe parecer. E esse tal o haja, e possua.

Yierão os ossos de Frandes : e como estava tão fresca a memoria dos beneficies recebidos, não hou verão as Madres, que correspondião a sua obrigação, se os deixassem no sitio, que o testamento aponta. Acontece no mundo haver homens, que nem a morte basta pêra lhes trocar os estilos da vida. Peregrinou muito vivendo: não acabarão de socegar seus ossos morrendo. Navegarão de Burges pêra Lisboa. Em Lisboa forão re- cebidos na Igreja do Salvador. Da Igreja passarão ao Choro, e n'elle an- darão alguns annos em deposito, e em fim tornarão pêra a Igreja, onde forão collocados na Capella mór cm sitio alto, e decente na parede, á parte do Evangelho com a letra seguinte.

Aqui jaz o muito honrado Senhor Dom João Esteves Arcebispo de Lis- feeio, t Cardeal de Roma, Varão sabedor, e irirtuoso. Em Bolonha solem-

PARTICULAR DO RELNO DE PORTUGAL . 2Z

nizou a sepuiíura de S. Domingos. Em Roma fundou o Mosteiro de S. Jerónimo: e em Lisboa este, em que se mandou se imitar.

Mas ainda aqui nâo tiverão repouzo. Correrão os annos, que em tu- do causão mudanças; acabarão aquellas Religiosas antigas, que tiníião tratado, e conhecido o Cardeal, e gozado de sua iiberalidadí?, e provi- dencia, como deoutro Josepii osEgypcios(l). Entrou luima Prelada zelosa, ou de melhorar sua igreja, ou de que cumprisse a ultima vontade do defuncto, no enterro, que em sua vida escolhera, e declarara. Requereo em juízo o cumprimento do testamento, e despejo da Capeíía mór. So- l)ejava justiça ás Madres no que era puro direito, e riguroso das leis es- critas: fallava-lhes, ou nâo tinhão nenhuma (pêra inquietarem tâo hon- rado defimcto) em outro direito, que não anda escrito: lie seu nome Equidade, Rezão, e Cortezia: porque se bem faltava a presença de quem lhes fora fundador da Casa, e Autor da vida, e sustentação: viviao, e erão presentes aos olhos todos seus benefícios : e sua successão não es- tava diminuída da primeira nobreza; mas antes acrescentada ; porqno havia muitos annos, que tinha entrado, e se contentava em lu.im ramo do apellido de Noronhas: Apelíido, que tem por Autores dous Reis. Hum Dom Henrique de Castella; e outro Dom Fernando de Portugal, dos quais foi filÍH), e genro hum Conde de Gigion, Senhor de Noruenha, autor d'ei- le, 6 de grandes Casas n>ste Reino (2). Correo a causa, prevaleceo o direito dos livros. Sentenciou-se, que os ossos peregrinassem de novo, e largas- sem o posto de quasí duzentos annos possuído : era isto no Aimo de 1008 possuindo o Padroado, e oMoi^gado Dom Marcos de Noronha. Mas então descobrirão as Madres a verdade, e singeleza'cle auimo, que as obrigava ao letigio. Porque posto de parte o rigor da sentença, touiarao hum meio iligno de sua muita Religião, e nobreza. Que foi, libertando a sua Capella mór, tresladarem o corpo do Cardeal pêra o Choro alto; o que se fez com toda a pompa, e apparato a tal titulo devido. Porque se levantou hum tumulo no meio da igreja sobre hum estrado alto com stMis degráos, acompanhado de muita cera em tocheiras, e castiçais de prata: e sobre o tumulo se assentou o caixão qire eslava na Capella mór, cubcrío de hum pano de brocado; e a Comunidade de nosso Convento de Lisboa, qiie f()i chamada, lhe cantou hum officio solemme. O quni acabado, levarão o caixão cm procissão á Portaria, onde o receberão to-

(l) (ícn. 12; Gaiibay.

VOL. Ill 3?

3i ' LIVRO I DA ÍIÍSTORIA DE S. DO^ÍI^•GOíí

(hs as Religiosas juntas; e o poserão no choro. O lugar,, que aqui icm o Cardeal, ho na parede da paiLe do Evangelho sohre todas as cadeiras, cm huma caixa forrada de setini carmesi, encerrada cm outra de bom mármore, e assentada sobre dous leões do mesmo: e por sima hum ])aine], em que se hum Cardeal pintado a olco debaixo áa hum docei. Dizem as madres, que se acharão no caixão velho duas ossadas inteiras, e dislinctas, cmidas cada luima em seu pano de Unho grosso, e quê huma d'eHas tinha hum cheiro suave, como de barro novo. N5o se po- dendo alcançar, qual era o do Cardeal, forão ambas envoltas, e cozidas (le novo em toalhas do Olanda, e encerradas separadamente no caixão novo» O que julgamos he que juntaria o testamenteiro com os ossos do Cardeal os de seu Tio João Esteves, visto como merecia por instituidoí' íla Capelia, e morgado a mesma honra, que o Cardeal por Fundador, e Padroeiro. Ficarão mostrando as Heligiosas n*este» ofíicios de piedade ao Cardeal amor, e ao successor respeito. Porque, se lhe tirarão o lugar mais nobre, e não seu, também ihe derão outro quasi igual, e não con- sentirão, que ficasse no mais lumiilde, e próprio. Assi o declara liuni letreiro, ({ue fica sobre a g{'ade baixa do choro da banda de fora, com pouca diíTerença do que deixamos referido da Capelia mór. N'elle advirto íío Leitor, que o Anrio .de sua morte foi o de 1415, como aponta Onu- frioPanuinoVeronense, no livro dosCardeaes(l); e consta por memorias da Sancta de Lisboa, que n'este Anno era Yigairo Geral polo Cardeal, llafaeí Pere:5trello, Yigairo de S. Marinho. E advirto mais, que o appel- lido, que lhe dá, chamando-lhe Dom João Esteves Privado, he cousa, que em nenhuma escritura antiga se acha ; nem o Arcebispo uzou em nenhum tempo: porque tal nome dão alguns Chronistas antigos somente ao Tio João Esteves, pêra o darem a conhecer pola valia, que teve com os líeis Dom Pedro, eDom Fernando (2), Mas he tempo de tornarmos á nossa principal obrigação, de que nos divertio o agradecimento.

CAPITULO IX

Da reformação que houve no edifício do Mo.^leiro, c Inveja, K como ae deu Capelia fiardcvlar ao saneio Crucifixo: e do que òucccdeo em duas treslodaçõts (jue d'eUe se fizerâo.

Merecia este Mosteiro hum sitio muito estendido, c grande, p^^ra in-

(Ij Onupli. Tftn. ver. (2) Cbrou. il'el-nei D. Pedro c. 12. c 2".

PAUTIGULAR DO BFJNO DE PORTUGAL 3*)

tcira dessencia, e veneração das sanctas Imagens, de que he Custodia. Mas temos visto como foi obra do mesmo Deos, que o não desempa- rassem por estreito, nem por pobre. Assi se contentarão as madres pri- meiras, e suas successoras do aperto d"elle, ainda que muito á custa de sua vida, e saúde; dando-lhe composição, e largueza quanto o higar, os tempos sofrião. Foi primeiro principio desbaratar a estreiteza das ce!- linhas das antigas emparedadas, estendel-as em ofíicinas, e lançar-lhe por sima seu Dormitório, por fugu' â liumidade do baixo. Rodeavão as ani- mosas reclusas todo o pateo, que hoje he Crasta, com seus aposenlinhos, como grutas, ou covis, e tinlião entre si a Pahneira, que fora arrimtn e guarda do sancto Crucifixo, como successoras das que antigamente coni o oflicio de seus favos lhe mantinhão Altar, e com o natural susurro lhe canta vão louvores. E dura inda hoje a memoria, que foi passando por tradição das velhas, do lugar d"ellas, e dos nomes de algumas d".a- quellas Ix^maventuradas, que as habitavão. Aponta-se em hum. canto, a que foi morada de huma Maria de Teive, e outra defronte do Refeitório, cuja morada, dizem, que a deixou por testamento a huma sobrinha sua. O testamento se guarda no Cartório, e parece feito na era de 1303 que responde ao Anuo do Redemptor de 126o. A Palmeira se conservou lon- gos annos. Engrossou, e subio a grande altura, até que de velhice veio a abrir huma grande fenda do alto abaixo. E porque no combate dos ventos mostrava fraqueza, e se temeo que poderia cair com dano do Dormitório, foi cortada polo pé, no Anno de 1004. Mas não quis o Se- nhor, que se perdesse a memoria do sitio, e arvore, que tantos annos dera agasalhado, e sombra a sua sancta Imagem. Estava o d'ella no mesmo lugar, tronco seco, e sem proveito : e nunca acabado de arrancar. Porque de tempos muito atrazados o cercavão azulejos, ou pê- ra cuberta das raizes, que estas arvores costumão lançar muito á flor da terra, ou pêra ornato da Claustra, em que estava. Veio a ser Prioressa poios annos de ÍC17 huma Madre de bom entendimento, e cuidadosa do bem da Religião: fez vir de fora o anno seguinte outra palmeira no- va, e mandou-a despor no mesmo circuito, que abraçao os azulejos, ar- rimada ao tronco velho. Foi confiança sancta, e pensamento tão acertado, que pareceo dado do Ceo: assi porque prendeo logo, sendo prantada (|uasi no Ar, e quasi sem terra; como porque no mesmo dia, e hora, e no mesmo lugar se vio cousa, que muito o callificou, que adiante conta- remos. A nova pranta vai em sele annos, quando isto escrevemos, q"ie

36 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

cresce fresca, e verde, e faz crescer consigo a memoria da passada, e das maravilhas, que acompanlioii, e juntamente o nome de quem por este modo a soube renovar, nome que fica sabido, pois apontamos annos.

Crescendo o Mosteiro (I), foi grande o cuidado com que as Madres vi- viâo da veneração, e devaçâo das sanctas Imagens, como as tinhão por primeiras, e originais fundadoras d'elle. Na primeira reformação de im- ])ortancia, que se fez na Igreja que segundo parece, polo que logo vere- mos, foi no Anno de i405 ju!gou-se que acrescentaria reverencia ao san- cto Crucifixo, ficar hum pouco afastado do trato, e olhos da gente: e foi subido ao alto do cruzeiro, sobre o arco da Capella mór, mas sem mais concerto, que arrimado á parede sobre huma taboa. Ficou a Coroa na sacristia das Madres recolhida, pêra commodidade de quando era pedi- da dos enfermos; como atrás dissemos. Passados largos annos, fez a de- vnçao outro discurso. Pareceo, que o estar assi desacompanhado, e po- bre de ornato, intibiava o aífecto, e criava descuido, e pouca estima! tratou-se, que estivesse com mais authoridade. Veio a executar-se o pen- samento no Anno de 1590. Fizerão os devotos lavrar hum nicho de fina pedraria vermelha no mesmo sitio; mas forâo tão pouco advertidos os oíficiais no tomar das medidas, (como he fácil de enganar a perspectiva nas distancias, e lugares altos), que ao tempo da collocação acharão, que ficara estreito, e curto. E foi tal a confusão do erro, que os fez cahir em outro peor, que o primeiro; porque julgarão por menos mal cortar pola madeira da Cruz, que alargar o nicho com poucas pedras. Cortarão-se do da Cruz mais de três palmos; e de cada braço mais de palmo, e meio; grande desacordo! grande inadvertência! Descubrio a vista de perto cousas, que muito espantarão, e juntamente edificarão. Edificou o feitio da Cruz. Porque mostrava antiguidade mui alta em duas cou- sas : Huma em estar o corpo pregado, como está, com quatro cravos ; outra em rematarem todas as quatro pontas da Cruz, em forma de flor de lys : que era o costumo, que a primitiva Igreja tinha em todas as que se lavravão, ou pinlavão(íá). Chamão-se as Cruzes d'este lavor, floridas, ou ílorenciadas. Causou espanto huma consideração, fundada na matéria do corpo do Crucifixo. Porque se vio ser vazio, e occo por dentro, e composto de huma junta de pannos, armados sobre forma, e cubertos

(1) Sor Maria do Bííiilisla Autora do livro que anda da fnadaçío d'esta Casa. {ij Oassameus de gh. iiiup.di p. i. Coiicl. 75. í. 3U.

PAttTlCmAR DO UÊINO Bí: PORlLT.AL 37

|)or mâo, e olficio de Pintor de gesso, e tintas: e sendo huma cousa, e outra sujeita a corrupção; mormente passando de quatro centos annos, que estava exposta a todas as injurias do tempo, quando foi achado, (que muitos mais secontão da primeira entrada dos Mouros em Espanha, que succedeo no Anno de 713 até a restituição de Lisboa feita por el-Rei Dom Affonso ílenriíjues no Anno de 1148). Não parecia poder ser sem mysterio a fortaleza do pano, que era muita, e a frescura das tintas, e cores, que nenhum dano representas ão, nem quasi diílerença da piimeira mão. Mas toda a admiração vence o que agora diremos. Foi esta luia- gem tirada da cruz duas vexes, huma, quando se passou pêra o niclio, í|ue acabamos de contar; outra, quando foi collocada na Capella em que hoje está, e de ambas foi recolhida em as Madi'es por alguns iiiezes : He cousa sabida, que se juntarão seis homens, pêra a levarem deníro; e mm ser da compostura, que temos dito, aííirmarão todos, tinlia tão ex- cessivo peso, que não sintirão maior, se fora de hum grande corpo hu- mano, d"aquella hora defuncto. E porque em tudo houvesse maravilha, acliou-se a madeira da Cruz ao serrar dura, e ferrenha, e juntameníe tão verde, ((pie faz contradição) como se n'aque[la hora fora cortada do mato. Fez devação a medida do corpo, que ao justo respondia á do San- cto Sudário, que anda pola Christandade.

Na primeira doestas duas tresladações, houve hum novo achado de muita estima, que foi liuma boceta de madeira, que estava ao do Cru- cifixo, e dentre tinha hum envoltório de pano de linho, cozido com li- nhas: e sobre elle huma letra, que formalmente continha o seguinte.

Estas relíquias se puzerão aqui na era de Nosso Senhor Jesu Chrísto de 1405 no mez de Maio. E lie de saber, que o pano eslava tão alvo, e novo, como se do dia atras fora ali poslo: e as linhas rijas, que de novas não fazião diíTerença ; sendo assi, que por boa conta, huma, e outra cousa tinha de residência n'aqueile lugar cento, e noventa aiinos. Aberto o envoltório, acliou-se cada relíquia em seu papel dobrado, e com seu rotulo, que declarava o que era. Dos nomes, e qualidades, não ficou memoria. Do anno em que se puzerão fica entendido, que se de- vião pôr n"este sitio no tempo em que n'elle se collocou o sancto Cru- cifixo. E que tudo íbi obra da devação do Arcebispo.

Despois de cousas tão raras, vistas, e i)alpadas, não parecerá dema- sia contar outra, que anda em tradição entre as Religiosas, havida d'ellas, por tão certa, e provada, como as que mais o são, fundando-se em a

38 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

receberem de algumas velhas sanctas, e tão antigas em annos, que giiasi forâo testemunhas de vista. Porque he certo, que não ha muitos havia uo Mosteiro algumas de cem, e cento e quinze annos de idade, com per- feito juízo, e inteira memoria. Tanto poder tem o tempo bem occupado, o entregue a cuidados sanctos? A do que dissermos fique com suas Authoras, que eu, se as escrevo, he por não faltar em nenhuma das cousas mysteriosas da Casa; e porque a damos com titulo de tradicção humana, que não obriga a ninguém, por muita força, que tenha. O caso fai, que estando liuma tarde no choro em oração huma Rehgiosa, e com os olhos no Crucifixo, que estava no cruzeiro, sobre o arco da Capella inór, appareceo na Igreja hum homem por representação, de idade, dis- ])Osíção, e trajo, muito venerável: barba branca, e crescida, rosto bera afigurado, grande calva, roupas largas, pés descalços : e com os joelhos i*m terra, e olhos na santa Imagem batia devotamente nos peitos com luima pedra, e com voz clara, e intelhgivel, dizia as palavras segintes. Bem te vio quem te lavrou. E passado algum espaço, e bom, voltou pêra o choro, e disse como respondendo ao dezejo de quem o escutava, que ostava claro não ser outro, senão de saber quem era ; eu sou huma das testemunhas, que hão de vir em serviço d'este Senhor no dia do grande Juízo. Bemaventuradas sois as que gozais do fruito d'esta arvore ; e o serão as que vos succederem, se conservarem a innocencia, que possuis, i^rão horas, que a Igreja estava cerrada: e se a entrada foi milagrosa, ]tor entrar a portas fechadas, não o foi menos a sabida; porque fazendo l\ama profunda inclinação ao Santíssimo Sacramente desappareceo. Caso ora pêra fazer terror por suas circumstancias. Mas a gente d*aquelle tempo de nada se espantava. Era gente sanla; e ordinaiío he não temer, quem não deve.

 segunda, e ultima tresladação se fez no Anno de 1G04. Achava-se a Communidade com poder, o largueza, e com Prelada devota, e curiosa; determinou fabricar de novo a Igreja, e logo tratou de emendar os des- cuidos passados, no que tocava ao saneio Crucifixo : e edificou-lhe nova, o particular Capella com perfeita, e bem entendida architectura: e n'eila o recolheo, pondo-o no lugar, onde priineii'o eslivei'a hum painel da Ascenção.

PARTICULAU DO REINO DE POUTUGAL 30

CAPITULO X

Dá-se conta do sitio ^ e lugar, em que estão as outras Juas Imagens. Contão-se huns estranhos successos, que nellas se virão.

Das duas Imagens da Seriliora, e do Miiiino se fez divisão em tem- pos muito alraz. Com a da Mãi se honrou a Capella dos Padroeiros, qiie com nome impróprio, mas não sem fundamento, se chama, muitos an- nos ha, do Cardeal. A do Minino recolherão as Rehgiosas entre si, e cha- mão-lhe o Rei Salvador. Tem-n'o posto no choro em hum nicho de pe- draria ricamente lavrado, com sua alampada diante, que sempre arde. Aqui he venerado de todas com particular devacão ; porque não ha ne- nhuma, que se lhe não confesse ohrigada, por muitos benefícios.

De ambas estas Imagens, se contão casos extraordinários, e mui lo averiguados, e certos, e todos de mysterlo, e devacão, pêra ânimos pios, U Minino se leva aos enfermos de casa, e de íora : e tem-se notado, que aquelles» a quem o Senhor he servido de dar saúde, logo alivião, e me- lliorão com sua vista, e visita, com sinais notáveis : e aos que hão do morrer se abrevia o prazo, pêra sahirem da pena, recebendo favor, huns, e outros. Mas faz grande maravilha, que sendo esta Imagem tão antiga, que passa de oito centos annos, que foi fabricada; como se prova de líaver mais de quatro centos, quo foi achada polo caçador, e outros 4(H) fjue esteve ao sol, e á chuva na mata, onde se achou, (como atraz mos- tramos), até hoje não descorou o polimento da primeira mão, nem des- botarão as tintas, nem a madeii'a sente dano da antiguidade, como ve- mos em outras, que por muito, que estejão resguardadas, como são de madeira, dentro em si crião quem as come, e acaba. E qualquer pin- tura, só com o discurso do tempo, sem serem necessárias inclemências do Ceo, perde o lustre, e a fineza das cores se deslava. Porém toda a íídmiração cessa á vista de caso maior, que agora diremos. Sucoedeo cahir-lhe hum dia sobre hum huma cousa pesada, por descuido de quem a tinha na mão, pêra serviço da mesma Imagem. Assi se magoou, e sentio o lugar, como se tivera vida, e alma. Porque logo se cubrio de huma nódoa vermelha, e fez sinal de manifesta inchação, e assi foi visto, 6 notado de todo o Convento.

Mas porque não pasmemos de tal acontecimento, e entendamos, que todas estas três Imagens são milagrosas, e amadas do Ceo, e de quem

40 LIVRO I DA IIISTOniA DK S. DOMINGOS

iVellas se nos quiz representar: qiiasi o mesmo se vio, não ha muitos annos, na Imagem da Senhora por diíTerente termo, e com diílerente instrumento; e passou assi. Festejava-se na Igreja o sancto dia da Pu- rificação, puzerão-lhe na mão huma vela acesa. Foi continuando a Missa, <3 pregação, e acabou sem haver quem se lembrasse de tirar, ou apagai* a vela. Gastou-se até o fogo chegar á mão. Então parou, e se apagou por si: notarão-se duas cousas, e ambas de assaz mysterio, poios que despois acudirão, inda que acudirão tarde: primeira, não se abrasar a Imagem; e por ella o altar, e retabolo, (por ser tudo madeira seca, e velha), e também a Igreja, como pudera succeder : segunda achar-se a mão da Senhora, não assombrada do fogo, mas empolada, e notavel- mente inchada, como se fora humana, e viva. Que foi verdadeiro teste- munlio, de ser tudo obra do Ceo, e dever-se áquelia mão, não passar o fogo adiante. Era este caso antigo : mas perseveravão os sinais, com cordial consolação dos que os virão, e sabião a causa. Entrando o Anno de 1568 houve huns devotos, que quizerão mudar a postura da Imagem, e mudando-a foi tão indiscreta a devação, que cubrirão, o compuzerâo por mão de pintor, o que assi descomposto, e sinalado do fogo, tinha graça, e mysterio, e fazia devação. Não ha palavras, que encareção bas- tantemente o sentimento, e lagrimas, que custou áquellas madres a inad- vertência : tal foi a dôr, que perdendo-se os sinais do fogo, com a pin- tura, fez que ficassem de novo esculpidos nos corações de todos por memoria, como de antes estavão por devação.

Não he cousa nova mostrar o Senhor semelhantes maravilhas em imagens suas, e dos seus Sanctos. He hum meio de avivar, e animar a fé, e de consolar os que vivemos d'ella ; e juntamente mostrar-nos, que se serve, e agrada de o venerarmos nas sanctas. Imagens, pêra a confu- zão dos Hereges, que n'este ponto fazem miseráveis desatinos. Ehi Es- panha sabemos de muitas. Apontaremos duas muito averiguadas, e certas. Iluraa em Castella de tempos antigos ; outra n'este Reino, e n'esta Cidade, succedida de fresco, e quasi entre nossas mãos. A de Castella he na Cathedral da Cidade de Osma. lia n'ella hum Crucifixo de grande antiguidade, e veneração do povo. Succedeo cair-lhe sobre a cabeça huma pedra, que o sacristão desacordadamente tirava a hum gallo, que se ti- nha posto na Cruz. Assi lhe abrio ferida, e assi correo sangue d'ella, como se dera na cabeça do mesmo sacristão, que bem o merecia polo desacato de tirar pedra com tal risco. Foi tanto o sangue, que chegou

PARTICULAR DO UFJNO DE PORTUGAL 41

a banhar a toalha, com que o corpo estava singido. Publicoii-sc o caso, fez terror, e íicou tomado por de escrivão. Aponta-se que aconteceo em 21 de Dezembro do Anno de 1272. O de Lisboa foi no Anno de 1023. He Mosteiro de Freiras de S. Francisco no arrabahle da Cidade, hum que chamão da Esperança, insigne j)or virtude, e nobreza dos su- jeitos, que n'e]le servem a Deos : oí)ra ; e memoria da Rainha Dona Ca- therina, mulher d'el-Rei Dom João líl. Tem as madres consigo da clau- sura pêra dentro huma Imagem da sagrada Virgem Mãi, que venerão com o titulo de sua limpissima Conceição : e havida por milagrosa, por vários casos, e muitos benefícios, que por sua intercessão recebem do Senhor, e a ella referem. Huma >sesta feira, vinte, e seis de Maio, despois de véspera, passando por ella huma Religiosa moça, e muito nobre, e que de ordinário he enferma, ao tempo, que lhe poz os olhos, pêra com elles, e com sua inclinação lhe fazer a devida reverencia, de- visou, que tinha a testa aijofarada, e crespa de humas gotas grossas, como de orvalho sobre rosas, ou açucenas: e parando hum pouco, vio que se soltavão ; e descião polo rosto abaixo. Attonita com tal vista bus- cou as parentas, deu-lhes conta. Acudirão ellas, e chamarão outras IMa- dres, e juntas notarão, que assi como se desfazião humas gotas, hião brotando outras, e crescendo, e despedindo tanta agoa, que alguma hia em fio até o chão : outra se embebia, (he a Imagem vestida), em hum gorjal de volante, que tinha posto. Juntou-se a Communidade fazendo a estranheza do que os olhos tão pubhcamente vião, vários eíTeitos nos ânimos : em huns, medo, porque lhes parecia certo sinal de aíílicção, e angustia de quem rogava com eílicacia, e não alcançava : em outros pie- dade, e compaixão. E era voz de todas, muitas vezes repetida. Miseri- córdia, Misericórdia : acompanhando aquella agoa mysteriosa, com outra natural, que dos corações estillava poios olhos. Durou esta maravilha sem cessar, tanto tempo, que o houve pêra se dar aviso ao Padre Guardião do Convento de S. Francisco, e ao Padre Ministro, que n'elle se achava. Vierâo, e trouxerão consigo outros Padres, e hum Notário Apostólico, que a caso encontrarão, e forão todos tão boas testemunhas, que houve hum Padre, que vendo o gorjal todo banhado, e com o peso da agoa que em si tinha, inclinado, e cabido, chegou a apertal-o com as mãos, e recolheo, espremendo-o, quantidade d'aquelle humor em hum lenço. C(Misiderou-se, que durou o effeito boas três horas : e fez novo pavor, ficar o rosto todo trocado, e o lugar, d'onde nasciâo as gotas, notável-

42 LIVUO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

mente descorado, e pallido. Também se notou, que não podia ser obra natural da tinta, e óleos, que com a quentura do tempo costumão cor- rer. Porque, ainda que era fim de Ai aio, corria o tempo fresco, e sem calma, e foi o verão tão frio, e chuvoso, que fez deter as novidades mais do ordinário. De outro semelhante suor ouvimos dizer, que foi visto no vulto de pedra da Rainha Dona Isabel, que por excellencia, e por lhe ser devido, por suas virtudes, chamamos a Rainha Sancta, e hoje o he. Cubria este vulto sua sepultura no Mosteiro de S. Clara de Coim- bra. Foi a conjunção, a perda d'el-Rei Dom Sebastião. em Africa, perda pêra todas as idades, digna de lagrimas. E esta lembrança fez o pre- sente mais temeroso, em quem de hum, e outro teve noticia. Mas tor- nemos á nossa historia, e á Imagem da nossa Igreja, que ainda nos dará occasião de não menos espanto.

Tinha tomado posse da Imagem da Senhora o Altar, e Capella do Pai, e Tio do Cardeal : posse tão assentada com annos, e costume, que quando era nomeada no povo, e entre as Madres, não se ouvia outro titulo, senão Nossa Senhora do Cardeal. Mas alguns annos despois se vio cousa, que lhe deu novo nome. Havia no Mosteiro huina Religiosa de muito espirito, e oração, que era continua em lhe fazer particulares- devações. Estando hum dia no choro, e encomcndando-se a ella com fervor, tanto se engolfou na oração, que chegou a estado de lhe parecer, que de cançáda se vencia do sono, e aesle ponto via, que a mesma Se- nhora a espertava, pêra que proseguisse em sua devação, e lhe dizia (podemos crer, que era paga do fervor, com que a devota arava), meu nome não he o que vós outras me dais do Cardeal, senão dos Remediais, dize-o assi. Levantou-se cheia de espiritual alegria, fundando em tal avi- so favorável despacho a suas petições, e remédio geral da terra. Pois quem tal titulo publicava claramente se ficava penhorando, e obrigando a acudir a todos. Deu conta á Prelada, publicou-se a nova invocação acreditada com a virtude da messageira. Ficou-lhe desde então, e não á Imagem, mas também á Capella, que d'antes e em sua primeira fundação, era do Espirito Saneio.

PAUTICULAR DO KELNO DE PORTUGAL 4,1

CAPITULO XI

De huma Imag^m^ que de novo foi achada no nvesmo sitio do Mosteiro, e de outra que lhe veio de fora, com algumas particularidades de consi- deração.

Repartidas assi as sanctas Imagens, parecia, que fica vão as Religia- sas defraudadas em parte do direito, que n'ellas tinlião, pois possuindo o lugar, em que forão achadas, carecião da posse de duas d^ellas: e po- (lião dizer, que erão mais do povo, que suas. Acudio a Divina Bondade a consolar suas servas n'este ponto, por hum modo suavíssimo, e muito seu. E foi assi, que abrindo-se huns alicesses, pêra alargar a casa, logo despois de dada a ordem, se achou huma imagem da Senliora, cuja traça lie, estar assentada em huma tripessa, dando o peito ao Minino Jesu. . O feitio bem proporcionado, o geito, quanto pode ser devoto, o tama- nho pouco mais de dous palmos, e meio. E, porque senão duvide de de ter igual antiguidade com o sancto Crucifixo, he composta dos mes- mos materiaes de pano, e pintura, que d'elle dissemos. Tem-na as Re- ligiosas no dormitório com sua alampada, e luz perpetua, e ás vezes com três, e quatro. A devação com que a venerão, a servem, he de grande extremo. Porque a huma voz affirmâo, que em todas suas peti- ções lhes alcança bom despacho, em todos os trabalhos consolação ; e (*bntão n'este argumento alguns successos milagrosos. Ao que se ajunta jiíiirmarem muitas, que todas as vezes, que a buscão, e lhe oíTerec^m iicus Rosados, enxergão n'ella, que troca o sembrante; segundo a qua- lidade dos Mysterios, que á sua vista vão considerando: sereno, e ri- zoií^io, nos alegres: cabido, e magoado nos tristes. Não teve atégora jíarticular vocação; inda que lhe fazem festa no dia dos Prazeres. Porém no mesmo dia, mez, e anno,. em que isto> que vamos escrevendo, aos 14 de Março de lGii4 se \'íO' tal successo^ que bem a pudemos chamar por Cile, Nossa Senhora do Milagre, e foi, que pegando-se fogo no Al- tar, em que está, tão súbito, e pouco sentido, que ardeo tudo o que h;»via n'elle d'esd o ffonlal, toalhas, e cortinas, até o manto, que a Se- nhora cobria, e huma toalhinha, que tinha na cabeça, e ficando as pa- i'edes feiamente tisnadas- da força da labareda, e fumaça: com tudo a Imagem não padeceo nenhum dano ; nem ficou n'ella sinal de fogo, sendo da matéria, que temos dito, mui prompta pêra se abrasar,, â res-

44 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

peito da compostura, e antiguidade, e do óleo das tintas, que a cobrem. Mas não foi menor a piedade com que o Senhor foi servido reme- diar a falta, que também f)odião sentir da vezinhanca antiga do saneio Crucifixo. E esta quiz guardar pêra a idade presente, com indicio cerlo, que não está diminuida no Mosteiro a Religião, e sanctidade antiga. He caso muito de notar polas circumstancias, e particularidades, que n'elle concorrerão. E era por Maio do Anno de KilS. Entendia a Prelada em fazer de novo o Refeitório. Dezejava alguma cousa que assentasse bem, com o remate, sobre o portal, que a merecia por bem lavrado, e boa pedraria. Eis que entrando a ver a obra, no mesmo dia, e hora, que íicabava de assistir com a Communidade ao dispor da Palmeira nova, que atraz dissemos, huma sesta feii'a, trinta de Maio : chega-se bum dos oííiciaes, e oíferece-lhe hum pedaço de mármore, em que estava enta- lhado hum Crucifixo, alegando, que por obra prima, e perfeita escultu- tura, podia honrar a cella de huma Prelada. Não fazia sinal de o aceitar a Prioressa; mas hum pintor, que era presente, considerado o feitio, lembrou-lhe, que o não largasse: e se o não quizesse pêra a cella, fos- se pêra authorisar com elle o portal. O dito do pintor, como de homeiíi entendido na arte, e a necessidade do remate, obrigarão a Prelada a olhar com curiosidade a Escultura: e ella, e todas as que chegarão a vel-a, forão advertindo, que n'aquella obra meuda linha grande seme- lhança com o sancto Crucifixo da Igreja. Affeiçoadas ao que vião, e não pouco admiradas, passarão a inquirir, quem fora o Escultor. E não admirou menos o que simplesmente contou o oíTicial. Dizia, que traba- lhando dous annos atraz, em certa obra de cantaria junto a S. Clara, com outros companheiros, se chegara a elles hum homem pobre, om habito, e sembrante estrangeiro, e pedira que lhe dessem, que fazer; logo tomara entre mãos huma pedra tosca, e aparelhando-a brevemente, esculpira n'ella o Crucifixo, que vião, no qual além do bom lavor, no- tara duas cousas, que ambas, e cada huma d'tíllas o deixarão então as- sombrado. Primeira, acabar dentro de Ires horas de trabalho, huma obra, que pêra a perfeição cm que estava, e lustre que linha, requeria e«paço de hum mez. Segunda, lavral-a com ferramentas grossas ; por- que não tinhão á mão outras: sendo assi, que pêra a miudeza do feitio convinha as mais delicadas, e sulis, que a arte uza. Ouvirão as Religio- sas tudo com grande attenção : e considerando mysterio na pedra, pola conjunção, e hora em que Deos a trazia, que era a mesma em que

PARTICULAE DO REINO DE PORTUGAL 45

a Palmeira se despunba, alegremente, e com devaçâo a receberão, e fi- zerão acommodar sobre o portal : no qual assentada, fica á vista, e de- fronte da nova pranta. He a pedra do tamanho de bum grande ladrilho, e ' quasi quadrada. O Crucifixo está lavrado de meio relevo, e não he maior, que hum palmo. Por este modo tiverão no mesmo dia, e quasi liO mesmo lugar principio de mysteriosa renovação, assi a antiguidade do Crucifixo da Igreja, como a da Ptilmeira, que tantos annos lhe fizera sombra, e companhia.

CAPITULO XII

Âpofítào-se aJijnmns pnrticuInndadeSf que descobrem a reputação, em que e>itava o Mosteiro diante do Rei, e do povo, e dá-se conta do muito, que algumas vezes padecerão as Religiosas por não largar a obediência, e sujeição da Ordem.

I\ías he tempo de passarmos a cousas de outro género, e nâo menos antigas ; de que também resulta credito, e honra doesta Casa. Sendo fal- leeido o Cardeal, e não cíiegando as rendas do Mosteiro a se poderem fazer todas as ohras de pedra, e cal, que convinbão pêra bom gasalhado <las Freiras, que crescião em numero : a Uainha D. Leonor, molher d'el- llei Dom Duarte, Princesa de altas virtudes, pola aíTeição que tinha á Ordem, como íilha, e neta de Heis Aragoneses, (era seu t^ai Dom Fer- nando Primeiro), que todos se presarão de devotos- d'ella ; tomou â sua conta edificar tudo o que dentro faltava, e á custa de suas rendas poz a casa em perfeição. Daqui nasceo, que a Infante Dona Catherina sua íilha, sendo morto Dom Carlos Príncipe de Navarra, com quem a tinha despo- sada el-Rei D. Affonso Quinto seu irmão, tratou de se recolher n'este Mosteiro, como em casa, senão feita, ao menos aperfeiçoada por sua mãi. Assi foi n'ella moradora muitos annos : e estando segunda vez concerta- da pêra cazar em Inglaterra com el-Rei Duarte Quarto, d"este nome, adoeceo, e passou a melhores vodas morrendo: e foi enterrada naCrasta junto ao Refeitório, e a Imma capellinha de S. Anna, onde se líie poz hum fermoso mármore por canipa, com huma j^equena pedra vermelha na cabeceira, entalhada de letras, que declaravão seu nome, das casas em que morreo vivendo, e do sitio, que oceupou na morte. Dura a me- mf>ria por tradição nas Freiras, diamando-se ainda hoje, as casas o Pa- ço : e conhècendò-se o lugar da sepultura polo que cubria a campa, que

46 , "L1\T\0 1 DA HISTOniÀ DE S. DOinNGOS

nao havia outra em toda a Crasta, e n'ella durou muitos annos. Ha des- cuido ordinário na nossa Religião em conservar as memorias antigas, j(ilga-se por ambição, o vangloria, o procural-as, he herança dos Padres antigos, de que muitas vezes me tenho queixado. Culpa lhe chamo, iiãí.) descuido ; que por ventura he causa 4e ficarem enterradas, a sem luz muitas cousas, que nos puderão honrar niuito esta escritura, e todo o lleino. D^aqui nasceo, que, quando no Annx) de 1530 se fez o refeitori«j, que então chamarão novo, e se ladrilharão as crastas, se lançou fora a pedra vermelha, que em si tintia o letreiro, e conservava o nome. Pa- rece, que não dizia bem com o lavor do ladrilho, e despois no de 159.S tornando-se a ladrilhar de novo, lançarão taml)em fora a campa. E o pior he, que andando na Sacristia hum caiix de tão boa obra, que era cha- mado o Cálix rico, e fora dadiva da mesma Princesa, que nos fazia lem- brança cVella com huma letra no pé, e três targetas de sua devação, c armas, (erao as armas as do Reino, em huma, e nas duas, a figura de S. João Evangelista, em huma, e na outra a de S. Luis Bispo com seus nomes, e insígnias), também este foi traz a pedra, e campa, desfazendo- se tudo com pouca advertência, ou muita ignorância. Comtudo inda hoje vivem religiosas, que se lembrão entrar n'esta clausura a Infanto Dona Maria, ultima filha d'el-Rei Dom Manoel, e única da Rainha Dona Leonor, que despois o foi de França, deter-se em re^.ar sobre a sepultura, e dar- Ihes noticia da pouca ventura, que tivera (juem n'ella jazia. Polo que, inda que o tempo vai acabando tantos testemunhos : e faz nova confusão vermos em S. Eloy Capella, e tumulo em nome d^esta Senhora levanta- do, o certo he, que aqui viveo, e morreo, e nunca seus ossos desampa- rarão a terra doeste Mosteiro, que huma vez a cubrio. Dom Jorge da Costa, Arcebispo de Lisboa, e Cardeal, como varão generoso, e agrade- cido â- criação, que em sua casa recebera, e também, como testamentei- ro lhe levantou o tumulo, e fizera a trcsladação, se lh'o nâo tolherão eiicontros, e successos, que o levarão do Reino pêra Roma, com mais pressa do que cuidou. Não lhe tirarão estes, conservar toda a vida sua memoria, e nome, trazendo por empreza sobre suas armas huma roda de S. Catherina,

Segue a esta antiguidade, outra que não he de menos honra pêra esta Casa : vindo de Berbéria as relíquias do santo Infante Dom Fernan- do, como escrevemos na primeira parte d'esta Historia : e sendo recebi- das em Lisboa por el-Rei Dom AíTonso Quinto, e por toda a Cidade com

PAnTIClJLAn DO IIEINO DE PORTUGAL 47

l(Xio O clero, e Religiosos (Fella, veio a procissão parar n"esle Mosteiro, t3 rrella ficarão depositadas, até que se passarão pêra o seu moimento do Gonvenlo Real da Batalha. Havendo tantos Sanctuarios na Cidade, ne- nhum pai'eceo mais digno de agasaliiar hum Sancto, que o que era de Sanctas povoado. Bom sinal, de que o entendia el-Rei assi.

Mas temos outros muitos de Provizôes, e Cartas de privilégios, gra- lhas, e izenções, que lodos os Reis forão passando a esta Casa, e a seus vservidores, e familiares: nas quais o prologo, e causa principal de as concederem he a grande religião, com que n'ella se vivia : e por essa rezão querião, (jue fosse respeitada até nas pessoas dos criados, e pro- curadores. Fora cousa mui larga se as houvera-mos de apontar todas : e por desnecessárias peia a Historia, as escusamos. Pola mesma causa •deixamos também hum Breve, em que o Papa Bonifácio Nono a honrou: no qual contedc ás Religiosas tcKlos os privilégios, immunidades, liber- •dades, graças, e indultos, até então concedidos pola Apostólica, a to- das, e quaesquer casas da Ordem. Kste foi passado dous annos despois do Mosteiro fundado, e aceitado pola Ordem no de 1394. no quinto de í^eu Pontificado. Começa. Sacrw mslvm rpligionis, sub qua deuotum, et seduhim exhibetis Domino famuiatum, promeretiir lione^ias, etc.

Sobre todas estas cousas, nenhuma tem grangeado mais credito, e honra, a estas Madres, que huma fineza de constância, com que se man- liverão no rigor da observância regular, que huma vez professarão : sen- do não convidadas, pêra a deixarem, e viverem na liberdade daClaus- tra, que n^aquelles tempos era mais costume, que vicio. Mas padecendo poh sustentar bravos combates de Prelados seculares, Prelados ricos, nobres, ambiciosos, e muito poderosos, e favorecidos dos Reis, e do po- vo. Diremos dous somente: pois dous testemunhos em toda matéria, fa- zem bastante prova. Foi o primeiro em tempo d'el-Rei Dom AíTonso Quinto, e intentado por hum Arcebispo de Lisboa, o nome D. AíTonso. Este Prelado, julgando, que seria credito, honra sua governar gente tão reformada, uzou de todos os meios de brandura, rogos, e grange- ria, em geral, e particular com as religiosas. Despois que experimentou, que lhe não \'»lião ; converteo a brandura, em ira ; os rogos, em força; e armando-se de secreto com hum Breve em todo sQbrepticio do Papa Pio H. deu bataria ao Mosteiro á vista de toda a cidade : e porque fal- tava atrevimento aos que levava consigo, temendo, e tremendo os secu- lares, elle mesmo se fes ministro da violência» Puzerão as mãos sagradas,

48 LlVaO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

ferro, e mnchailos nas portas sanctas, abre, fende, rompe, arromba, e penetra a sancta clausura : e não sendo menos destemperado de pala- vras, que de obra, traz vozes indignas, e feias, que soltou, fulminou te- merosas censuras. Estavão as pobres Religiosas deseraparadas de todo o favor da terra: porque os Frades não tinhão animo contra tamanho po- der. Mos o do Geo foi tanto por ellas, que soportando com valor a tem- pestade, o mesmo Pontífice lhes acudio no sexto Anno de seu Pontifi- cado, que veio a cahir no de Christo de 14G3 com hum }3reve, que re- voga o que tinha dado ao Arcebispo, e com palavras sanctas, e dignas de Príncipe, confessa, que fora enganado, e que sempre o serão todos os Príncipes, que em matérias de peso se fiarem de enformações, que não forem mui fundadas, e certas : são muito dignas de andarem n'estes es- critos, e muito mais na memoria dos Reis, e Senhores, que olhão, e se governão ordinariamente por ocolos de entendimentos alheios : dizem assi : Romanus Pontifex IiisliticB prcecipaus conservator, et atithor^ cum tiaturam sortiaínr humanam, quandoque figmentis fallitar, et imporUinita- tihus peientinm concedit, aliás denerjanda qiue poslea veriíaíe compelia, etiam suadente iustitia ad debitam statum reducil. E mais abaixo reconta as descomposturas, que apontamos, dizendo, Tamen ipse Archiepiscopua ad horam vesperarum, personaliter, non sine hominum strepitu, ipsis li- feris, eisdem Monialibus per eum debite nom insinuatis, ad dictum Monas- íerium accessit, illius clausuram violenta potentia, cmn fradione iíllus portw, ad qaam manus próprias apposiiít, iiiírauit: qnnsdam ex eisdcm mo- malibus injurijs affecit, et quibusdam vim, et certis ulijs ex eis carceiuni minas intiilit, et in illarum bono propósito lurbavU, claves, quas abunde receperat, cuidam personw laicos consignnuit, etc.

Ficarão livres por então, mas não lhes valeo pêra escuzarem outra tão forte, ou maior perseguição, nos annos adiante: na qual se bem fal- tou violência de mãos, sobejou- toda a que podia haver de agencia, e negociação. Era o Arcebispo Do«i Martim Vaz da Gosta, irmão do Gar- deal D. Jorge da Gosta, como homem sagaz, e muito activo ; levou o negocio por termos ordinários de justiça, pretendendo sugeital-as ao or- dinário, e tomar pêra si toda a jurisdição, e superioridade, que a Or- dem de S. Domingos tinha no Mosteiro ; e porqne teve- huma sentença contra si no Reino, pronunciada polo Gliantre da de Évora, Juiz de- putado na causa polo Summo Pontífice, fez com manha, e poder, avocar as autos a Roma, havendo, que a grandeza do gasto, espantaria a6 Ue-

PARTICULAR DO REIXO DE PORTUGAL 49

ligiosas de maneira, que deseinparassem a cansa. Porém adiou n'elias tanto brio, e constância, que liti^^^arão n'aquella Corte três annos, e al- cançarão contra elle três sentenças conformes, huma traz outra, e foi a ultima no Anno de 1514 que foi segundo do Pontificado de Leão Deci- mo.

CAPITULO XIII

Em que seapontão os nomes das Relifjiosns, que derão principio ao Mosteiro: conta-se hum estranho easoj que a huma d^ellas succedeo.

Nenhuma Republica do mundo subio nunca a hum grande grtáo de reputação, ou fosse em valor de animo, e braço na guerra, ou em glo- ria de bom governo na paz, que não criasse particulares homens insi- gnes nas mesmas virtudes. Aquelia junta de Cidadôes unidos, e confor-' mes em procurar huma felice, e alegre vivenda na terra, que tem por l)atria, (que esta he a ventura das bem governadas Communidades, e o íim dos bons governadores), mal pikle de si brotar tais eíTeitos, se nos })ar{iculares houver falta de prudência, esforço, e brio, e das mais vir- tudes, que d^elles são produzidoras. Não he necessário pedirmos sem- pre exemplos a Roma, e Lacedemonia, que largamente nos pôde confir- mar este Discurso, no tempo, que forão crescendo, e despois se man- ti verão contra poderosos inimigos. Em casa os temos. Que mal pudera el-Rei Dom Àlíonso Henriques primeiro Rei de Portugal estender, e le- vantar em Reino o pequeno torrão, que tinha herdado do Conde D. Hen- rique seu Pai, se o esforço de valerosos vassallos o não fizera vencedor de muitos Reis Mouros, pêra lhes ganhar o que injustamente d'esta ten-a possuião muitos annos havia, e despois lhe não sustentara o nome, e Coroa Heal, apezar de grandes inimigos, e contra seu próprio ansangue. Em tempos mais perigosos manteve no Reino a el-Rei Dom João Pri- meiro o braço, e conselho de poucos, mas animosos companheiros ; cuja cabeça foi aquelle Raio de guerra Dom Nuno Alvares Pereira^, E aos netos doeste se deve a conquista do Oriente, as armadas vencidas de JMouros, e Mamelucos, as fortalezas defendidas contra o poder do Oram Turco, e de muitos Reis conjurados. Assi estou vendo, que a suavidade, e fragrância do bom cheiro da fama, e virtudes, que sahia d'este Mos- teiro, e se derramava por todo o Reino, e chegava até Homa, procedendo

unido daquelle sancto ajuntamento tinha sua origem, e principio em ca- voL. m 4

SO LlVnO I DA HISTORIA DK S. DOMINGOS

da huma das moradoras d^ello, como lium caudaloso Rio, que se com- põe de varias fontes. D'estas fontes será bem, que inquiramos, e apon- temos a virtude particular de cada huma, quero dizer, tudo o que pu»- dermos alcançar das em que cada Imm dos sugeitos, que povoarão este Giesteiro, se ílzerâo insignes, e estimadas. Mas he magoa sem remédio, e dòr sem consolação, de que n'outra parte nos temos queixado; que parece íizerâo conjuração os que tinlião obrigação de escrever, com a gente sancta d'aque}le tempo, que quanto fosse n'ella a virtude mais crescida, tanto fosse n'elles maior o silencio. Erão nossos maiores do animo grande : tudo o que boje nos espanta tinhão por pouco. D"aqui vem, que ficando doeste Convento no Geral, huma grande voz clara, o sonorosa dos estremos com que se esmerava no serviço de Deos, as particularidades estão quasi acabadas, e se algumas ficarão inteiras, são como liumas cifras. Porém tais cifras, que })era com bons juizos devem fazer bastante prova das cousas maiores, que em suas trevas nos enter- rou a envejosa antiguidade, que tudo desbarata, e acaba. Algumas ire- mos descubrindo, e acompanliando-as com as modernas de que lia mais noticia.

Mas demos primeiro lugar áquellas vinte, e buma Noviças, que to- mando todas juntamente o habito, e juntamente professando, derão glo- rioso principio a este mosteiro. D'ellas, e de seu modo de vida, antes, e despois de professas, temos dito tanto em geral, que ainda, que diga- mos nada em particular, ficão bastantemente habilitadas, pêra entrarem no numero das mui insignes Religiosas d'esta Província, e de toda a Ordem. E pola mesma rezão julgo, que devemos contar com ellas as sinco, que juntas começarão ser noviças no mesmo dia, que as 21 pro- fessarão: do que as faz dignas, a santidade da escolta, e o animo com ífue a buscarão. Porque assi como na Milicia temporal he grande honra de hum soldado poder dizer, que o foi de hum capitão famoso ; ou quo se achou em huma batalha insigne ou cerco arriscado, sem sabermos d'elle maiores feitos: da mesma maneira n'esta espiritual devemos dar grande lugar de fama, e nome ás disci{)ulas, que com tais mestras ves- tirão, e exercitarão as primeiras armas da Religião. Contadas todas jus- tas fazem numero de vinte e seis ; das quais não achamos nomeadas mais que dezanove no assento, que o Rispb mandou fazer, quando lhes deu os Estatutos novos, que foi quatro annos despois, no de 1396. D'esta8 diremos os nomes, sentindo faltarem-nos n'este Hvro os outros, pequena

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 5!

falta pêra ellns, pois mo devem faltar no Celestial, e da vida. Nomes são todos, riâo pouco ambiciosos em titulo, mas mui populares, e Immildes, pêra estimarmos mais o alto gráo, que terão diante (raquelic Senhor, que com o mais fraco da terra sabe confundir o mais forte (l'ella. São os seguintes. Margaida Annes Prioressa, que em buma me- moria anda nomeada Dona Margaida João; mas erradamente, porque seguio quem a escreveo, a latinidade do assento, no qual o Notário Ibo por certa loa de senhora, que a memoria faz titulo de Dona. E o de João, pola respondencia verdadeira do Annes portuguez. A segunda he Margaida Domingues, Suprioressa, cujo nome também anda errado em algumas memorias modernas, que llie chamão Margaida Dias, sendo o que achamos nos originais Domingues. As outras são Inês Martins, Ca- Iherina Vicente, Inês Annes, Inês Vasques, Inês Lourenço, Gracia Vas- ques, Anna Fernandes, Breitis Annes, Margaida Martins a Moça, Anna- Pires, Barbora Rodrigues, Anna Vicente, e Anna Pirez a Moça, Leanor Loureniço, Breylis Lourenço, Florença, AíTonso, e Breites Annes de S. Thomé.

A Madre Prioressa Margaida Annes tem por si a prerogativa de não quererem as súbditas perder seu governo, nem em tempo de Beatas, nem despois, que ella, e todas erão iguais no Estado de noviças, nem ultimamente, quando despois de professas a fizerão sua Prioressa com eleição Canónica. Grandes merecimentos devião concorrer em tal sujeito, pois em tanta diversidade de votos, e tempos, sempre pareceo merece- dora do primeiro lugar.

Da Prelada menor temos hum caso tal, que parecia bastante pêra a canonizar por sancta. Os rigores da Ordem em que trabalhava por se adiantar, e dar exemplo a todas, (verdadeiro exemplo de quem preside) juntos com muita idade, vierão a lhe causar humas vertigens, ou vaga- dos, que passavão a mal caduco. Porque a derribavão, e privavão de todos os sentidos. Succedeo hum dia, que sendo vista sobre tarde na crasta arrimada ao bocal do posso com seu Rosário na mão rezando : quando foi noite, e hora de se recolherem as Religiosas era seus leitos: faltou ella de toda a Communidade. Deu cuidado a tardança, por ser de quem ganhava a todas em acudir ás obrigações da Religião: foi bus- cada, revolveu-se o Mosteiro, parou o negocio em pranto, e desconso- lação geral: porque ninguém podia fazer juizo, que não fosse em dis- credito da pessoa, e aíTronta da Casa. Passada assi a noite; eis que ama-

5^ LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

nhecendo, começa a soar liuma voz de grande alvoroço, que era appa- recida a Suprioressa. Junta-se o Convento. Era a Madre Gatherina Arraiz a que o aífirmava, dizendo, que estava no posso da Crasta, e que lhe íallara debaixo, chegando ella a tirar agoa. Mal se faz de crer, o que se não cuida, nem espei'a. Com tudo não houve nenhuma, que não corresse a certiíicar-se com os olhos, do que não crião aos ouvidos. Vem a po- bre velha, e ouvem que fóllava, e pedia, (lue a hvrassem d^aquelle lago, affirmando, que estava sam, e sem danuo; fez-se dilligencia, foi tirada, e posta em salvo. E espantou, não por livre do perigo da agoa, co- mo outro Daniel dos dentes, e unhas dos Leões: mas pola verem tão sem lezão, que nem sinal trazia da agoa, em que a virão, e estivera" huma noite inteira. Assi trazia a roupa enxuta, e os soccos, que então uzavão, seccos, como se no dormitório com suas irmãs a passara. Preguntada polo desastre, contava, que estando sobre o bocal do posso, lhe dera o seu vagado, "e quando tornara em si, se achara na agoa, sem saber como; mas que tudo fora hum, espertar com o golpe da queda, e ver Junto de si huma Senhora mais bella, que as estrellas, vestida de hum lino azul, côr dp Céo : hum Minino bellissímo nos braços: a qual até aquella hora a acompanhara, e lhe dissera, que quem a livrara do peri- go da queda, e da agoa, também a pudera pôr íóra delia, e do posso; mas que o não fazia, porque seria mais gloria de Deos, e de suas ma- ravilhas, ser achada no estado em que estava. Falleceo esta Religiosa no Anno de 1450 em idade de mais de 80 annos.

CAPITULO XIV

De outras Religiosas, que por vnrios caminhos alcançarão nome e reputação de sanctas.

Comêssemos por duas súbditas, e companheiras da Madre Catherina Domingues, ambas semelhantes a ella nos nomes, e na devação : seja a pi'imeira, a que o foi em alegrar a Casa, quando deu novas, que fallava no posso. Digo a iMadre Sor Catlierina Arraiz; esta Religiosa, sobre as. mais virtudes, que em geral temos apontado de todas, tinha-se entregue a hum particular cuidado, e devação de fazer bem polas Almas do Pur- gatório. Dizem que não teve nunca cama pêra poder descançar, e oíle- recendo a Deos esta penitencia, e aíllicção por ellas. Do tudo o que co-

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 53

mia deixava sempre alguma parte, pêra dar com a mesma tenção aos pobres ; e íicou em lembrai.ça, que pedio lium dia por grande favor au lYovincial, que visitava a casa, lhe desse licença, pêra que, succedendo não vir á porta quem lhe levasse o que guardava da mesa; pudesse sem escrúpulo reserval-o, pêra o dar no dia seguinte. Tanto a ouro, e fio se pesava n'aquella bendita idade o ponto de não possuir nada. Havendo tudo por pouco ; e dezejando fazer mais por aqnellas Almas sanctas, e lambem pola sua, ensinou-llie a cliaridade, que seria merecimento, tirar todas as manhãs tanta agoa posso da crasta, que bastasse pêra o gasto da casa aquelle dia. Assi o cumprio em quanto teve forças, sem faltar dia. E daqui nasceo ser ella a primeira, (pie vio no posso a Su- prioressa. como atraz fica contado. Não encurtão, antes esteridem a vida os exercidos sanctos, por custosos que sejão. Viveo longos annos, veio a faltar-lhe com elles o vigor da natureza. Cahio em cama tolhida de pés,. e mãos. N'este estado mantinha a vida, quando hum dia estando toda a Communidade m Refeitório á mesa primeira, soarão altas vozes polo dormitório, repetindo apressadamente, Credo, Credo, costume he santo de nossa Ordem, quando se entende, que entra em artigo de morte qual- quer Religioso, convocarem-se os sãos com este sinal huns aos outros, pêra acudirem com orações ao necessitado. Fez medo o sinal, como he de crer : mas espantarão mais as vozes. Porque estando ali todo o Mos- teiro junto, não podião entender, quem as dava. Acudirão todas as mais, que de passo ao tom que ouvirão : e forão dar com a sancta Velha, que estava entrada em hum accidente mortal : e aliviada com a vista, e con- solação de suas irmãs, teve lugar pêra receber o maior dos Sacramen- tos, e hir-se pêra o Ceo em paz ; que foi no anuo de Í4V5, sinco annos primeiro, que a sua Suprioressa, a qual lhe aníepuzemos por Prelada. E advirto, que foi vicio da impressão o anuo, que lhe o livrinho, que anda doesta Casa. Não houve Religiosa, que duvidasse, que as Almas sanctas, por quem tanto fizera, em quanto pode trabalhar lhe acudirão no ultimo aperto, com as vozes, que dissemos. Permissão Divina pêra paga de chandade, espertamento d ella, e bom exemplo de nossa frieza. Por diíferente maneira achou o mesmo agradecimento nas Almas fieis a Madre Sor Catherina Ribeira. Tudo (pianto fazia de virtude, e quanto ^ orava, applicava por ellas ; e fazia, e orava muito em particular, não passava dia, que não tivessem delia hum officio de nove lições, rezado diante do Sanctissimo Sacramento : e sempre andava pedindo orações

54 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

pêra eílas. E era lingoagem sua ordinária, que as Almas sanctas, des ]>ois de livres de pena, não podiâo esquecer-se de quem lhes fizesse bem : porque não lia sanctidade sem agradecimento : e eu, acrescentava, não quero mais das que tanto sirvo, senão que me acompanhem na ho- la da morte. Continuando nesta occupação, veio adoecer de huma enfer- midade ordinária, e ao parecer muito leve. Confessou-se logo, e com- rnungou no principio d*elia; como he costume da Religião: mas passava .^em fazer caso do mal. Eis que hum dia no meio d'este descuido, sa- líindo a Communidade do choro, foi sentido hum roido, como susurro de abelhas, tão crescido, e extraordinário, que enchia tudo de rumor, e juntamente de espanto. Forão seguindo as Religiosas humas traz outras, pêra onde soava mais, e levou-as o som á enformaria : onde entrando acharão a Madre Gatherina Ribeira era seu leito, cuberta de suores de morte ; sinais, que pedião apressado soccorro : e virão juntamente iodo o ar, e o alto d^ casa cuberto de nuvens de abelhas, tantas, tão juntas, è apinhoadas, como se forão muitos enxames juntos. Começarão logo o oílicio da agonia, e as abeliias sempre crescendo, e engrossando em nu- mero. x\cabarão o officio ; mas pareceo, que não acabava a vida. Toma- rão eníão o Cautico de Abacuch. Domine audiui, etc. (costume das ve- liias antigas, que ainda hoje não he perdido, se a vida dura despois do oííicio) procedendo n'e[íe, quando chegarão ao verso, Operuit ccelos glo- ria ejus, etc, abrio a Madre os olhos; e tudo foi hum, espirar ella. e desaparecerem as abelhas. São estes animais aquelles, em cuja vida, e ofiicio, e governo mostra a Providencia Divina maiores mysterios, que em nenhum outro do campo. Assi foi o[)inlão das Religiosas, que n'a- «juelle extraordinário concurso quis significar o cuidado, que as Almas lieis terião d"aquelia, que toda a vida se empregara em lhes priícnrar aiivio de penas, e refrigoiio do fogo. E desde então, (corria o anno de 1514, e era l^rion^ssa a Madre Dona Leonor de Albuijuerque), ficou em costume re/.ai-eni-se cada dia humas nove lições j)olas Ainjas. diante dr> SanctissiíiK) Sacramento, E por não havei' confusão, eslorvando-so humas b;)ras com outras, mandão-se rezar por duas noviças, em quanto a Com- munidade canta Prima.

A dons espíritos i\o tanta dcvação, e com effeitos tão peregrinos, boa junta faria hinna extraordinária limnildade, e mortificação com successos íambem raros, e (juasi da mesma era. KMii tenros na Madre Sor Joanna da Conceição. Vivia no mundo, entrada em dias, com nume de Dona

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 55

Jonnna de Figueiredo, cercada de tudo o que n'elle se canoniza, (diga- mol-o assi), por boa ventura, muita riqueza, marido illustre, e do me- lhor do Keino, e huma mesa rodeada de filhos. Vida ao parecer cheia de gostos ; mas não pêra hum entendimento, que sabia penetrar o cen- tro das cousas. E com ajuda da graça do Ceo, conhecia, que tudo o me- lhor da terra, era não vaidade (I), mas também aíílicção de espirito, era ouro falso, e alquimiado, luz de crepúsculo, sol, que trasmonla, sem ter mais de bem, que huma pomposa apparencia, lustrosa de fora, mas acompanhada por dentro de milhares de misérias, E como disse bum Antigo: Gloria mixta mnlis, etc^à) A contas também lançadas, succedeo lirar-lhe Deos e marido : tinha neste tempo huma filha recolhida peja Freira no Mosteiro de Jesu de Setuval. Fez logo conta de se bir pêra ella. Acudirão os parentes do marido, ganíe de authoridade, e poderosa, estranliando-lhe a determinação : dizião, que em nenhum tempo tivera mais obrigação de estar no mundo. Porque, se então fizera obrigação,' e oQlcio de mãi, agora convinha fazel-o de mãi, e mais de pai : trabalho dobrado ; mas dobrado merecimento, e maior sacrificio. Deu mostras, que se convencia. Porem no mesmo tempo se contratou em segredo, com o Salvador : e quando os parentes menos cuidarão, eslava vestida no habito de S. Domingos. Aqui crescerão de novo as queixas : humas de filhos maiores, que tinha, que com serem homens, não querião ])erder o governo de tal mãi. Outras dos pequenos, que com lagrimas, íí desconsolação, mostravão havião inda mister criação, e bafo maternal. Mas não houve força, que a dol)rasse: antes resistio a tudo com tal cons- tância, que succedendo no íim do anno de provação, chegar hum dos fi- lhos a estado de se lhe temer sentença de morte em hum caso, polo qual estava em apertada prisão ; e juntando-se os parentes a pedir-ihe qui- zes«e acudir á causa, com apparecer diante d'ebRei ; que isso seria meio certo de salvação pêra o prezo : respondeo varonilmente, que não entrara no Mosteiro, pêra saliir mais d'elle, por nenhum acontecimento: í>e seu filbo tinha culpa, também seria serviço de Deos, que a pagasse. De tal resolução, bom jiiizo se pode fazer, qual seria a vida. Foi o pri- meiro fundamento hum profundo alicesse de'humildade, escolhendo sem- pre, e lançando mão dos mais abatidos ministérios da Casa. O segundo, foi armar-se com grande animo pêra hum estranho peso de penitencias. Pêra poder conseguir estes fins mais dezembargadamente, não quiz pas-

(1] Ecclcs. l2) Siatius lib. 6. Tbibavd.

56 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

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sar do estado de humilde conversa. E n'elle começou a proceder de ma- neira, que os rigores ordinai-ios da Casa, com serem grandes, lhe íica- vão, como em passatempo, lie tormento novo pêra o Inferno, e seus mo- i'adores, huma conversão resohita, e verdadeira : como pêra os Anjos occasião defesta(l). Vio-se istoemSor Joanna; porque no dia que seguio ao de sua profissão, a horas, que as Religiosas se vestião pêra matinas, forão ouvidas de toda Communidade, junto de seu leito, humas vo7,es medonhas de pranto formado, que nos eccos, e confusão, accusavão ma- nifestamente autores infernais. Mas parece, que foLhum modo desecon- rocarem contra ella todos os espíritos malignos. Porque se vio, que dcs- je aquella hora, começou a padecer huma cruel guerra de tentações, Foi a pi'imeira huma estranha iilusão, com que o pai da falsidade pro- curou enganal-a, acom[)anhando-a a toda a hora com huma luz, que ella via. Pagens tivera de tocha, e fora servida, agora que não queria mais que servir, vendo diante de si o que por Deos engcitara, conheceo d'ond6 nascia o mimo, não fazia caso d"elle. Vio-se o inimigo descuherto, mu- dou estylo. Armou-se de toucas, e composição de Freira honrada, e fa- zendo-se respeitar por pessoa de credito, começa a pôr em pratica des- atinos nunca" vistos, nem ouvidos, que applicava a diííerentes Madres da mesma Casa, e fazendo-se molher de segredo, affirmava-os com jura- mento. Logo acrescentava, que tudo o que alli via de oração, de morti- ficação, e penitencias, erão hiocos de virtude falsa. E que onde assi se vivia, tempo perdido era seguir beatarias, e singularidades. O certo era descançar lambem, e levar boa vida. Não cria nada a nova professa, mas desconsolava-se muito, e desviando-se quanto podia, de quem assi falla- va, da casa em que vivia, sem saber com quem o havia, offerecia-se a pagar por todas com muitas disciplinas, que a essa conta tomava, e mui- tos jejuns de pão, e agoa. Mas parecendo-lhe, que nestas obras arbitra- rias andava emparelhada com ellas a vontade própria, que as governava; e por isso serião menos meritórias, buscou huma amiga fiel, e em ho- ras a propósito entravão em huma casa da enfermaria : alli se fazia alar a huma columna, que em meio delia estava, e ficando nua até a sinta, se mandava disciplinar sem piedade, até correr o sangue. F] por remato lançava sobre as chagas huma túnica de burel, que nunca d'outras uzou. O que na verdade era segunda disciplina, mais cruel, e cheia de senti- mento, que a primeira dos açoutes. Despois de composta, sem tomar

(Ij fllatth.

PARTICrLAR DO IIEINO DE PORTUGAL 57

hora repouso, camiíihava pêra o choro, e passava em oração até ma- tinas. Assombra-se o Demónio com as penitencias, e vigias saneias dos fieis, como o dizia S. Antão no Ermo a seus discipulos: assi se vaha Sor Joanna contra elle nas noites : gastando despois os dias inteiros em ser- vir as enfermas, que foi oílicio, que miytos annos, e com grande chai'i- ' dade exercitou. Mas logo o Inimigo hia mudando figuras, e uzando de novas siladas. Perseguio-a muitos dias com medos vãos, humas vezes, rodeando-Uie o leito com esquadrões de demónios, em habito do minis- tros de justiça, varas, chuças, alabardas, como que a querião prender, e levar do Mosteiro : outras vezes por outros modos. Porem vendo, que em quanto fazia, se bem lhe dava muito que sentir, erão maiores os ga- nhos, que tinha de merecimento, tirou a mascara, começa guerra descu- l)erta. Poem-se-lhe hum dia visivelmente diante, começa a interreirar hum monte de blasfémias, primeiro com graças, e chocarrices sobre o nome, que tomara da Conceição ; logo com argumentos, e consequências, atrevendo-se o maldito a armar duvidas na pureza celestial da Mãi Sa- grada de Deos. Era a bataria penosissima, fazia-a mais penosa a vista, o despejo de Lúcifer. Chegava a gritar de afíhgida, e em vozes altas por argumento de fé, dizer-lhe, que mentia como falso, e enganador. Acudia despois a seu confessor, dava-llie conta de tudo ; valia-se dos Divinos Sa- cramentos : mas a batalha não cessava. Foi conselho do medico Espiri- tual, que se valesse contra as blasfémias, do meio, e favor da mesma Senhora, em cuja oííença erão, e contra os medos, do sancto Apostolo Bertholameu.

Em cabo de muitos dias, foi o Senhor servido de apiedar de sua serva. Continuava na devação aconselhada, e nos sanctos exercícios que lemos dito. Eis que huma noite soa hum desacostumado estrondo, e sente com elle fechar-se huma porta, e correr o ferrolho. E logo ouve huma voz, que dizia. não sahireis mais d'aqui ; parece, que foi mandamento divino contra es infernais perseguidores. Porque desde aquelle ponto fi- cou gozando de huma paz perpetua d'alma, e livre totalmente delles. Bemaventurado o trabalho, que sendo temporal, não rende menos, que huma eternidade de gloria. Tinha-a Sor Joanna quasi á vista, porque a longa idade, e o bom serviço lhe promettião, que estava perto : mas dava-lhe pena huma neta, que consigo tinha : pola qual, ou que tivesse conceito, que não perseveraria na Religião; ou que seu pai, morrendo ella, lhe trocaria o estado, fazia oração continua pedindo a Deos lhe desse

S8 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

O esposo, que bum Sancto antigo, (foi S. Ilylario) alcançou pêra huma filha, que amava. Era a moça filha natural de hum dos filhos, que dei- xara no mundo ; recolhera-a consigo havia alguns annos, o sangue, a criação, e a companhia fizerão amor. Foi ouvida sua petição. Adoeceo ella, adoece a neta. Aggravou-sô»o mal em ambas, e a passos iguais, e vierão a acabar em hum mesmo dia, e quasi na mesma hora, sem haver mais, que duas horas de diííerença. A neta primeiro, e ella despois. He cousa muito antiga, não ficou em memoria o anno ; ficou recebido de mão, em mão, por cousa muito sabida e certa, que na noite antes appa- receo sobre o Mosteiro huma tão grande claridade, que sendo vista dos moradores da porta do Sol, sitio que fica a cavaleiro do Convento, jul- garão, que não podia ser menos, que a reverberação de algum grande fogo, que andasse ateado dentro. E huma vezisiha da mesma porta, que era lavandoií-a das Freiras, vendo, e ouvindo o mesmo, foi a todo correr á Portaria, bateo, e chamou, e gritou, dando novas do que vira, e de seu medo.

CAíTrULO XV

Das Madres, Sor Jeronyma de Cairos, Sor Luisa Bautista; e Sor Margaida de Mello.

Como quem foge das ondas do Miuido, pêra o sossego, o paz segura da lieligião, nenhum outro fim deve ter diante dos olhos, senão a possí* d'aquellas eternas moradas, que o Senhor promete a quem o busca : Obrigado fica por rezão, e entendimento, empregar todo o cabedal dt^ suas forças por chegar a tamanho bem. Levadas doeste pensamento as Religiosas d'este Mosteiro, achavão, que importaria muito pêra segurança (la jornada, e do partido, arrematar a vida com huma morte dilatada, e conhecida, ainda que penosa, e cançada: em que o conhecimento ren- desse verdadeira contrição de culpas: a pena ficasse por satisfação, e parte de purgatório. Isto nos consta, que foi pedido por muitas a Deos, e alcançado com orações. E ficou tão assentado entre ellas o dezejo, e petição de tal género de morte, que se tinha por favor, e merco do Céo, (juando se alcançava. E ainda hoje se tem por cousa mui nova, fíillarem lío Mosteiro as doenças, que o causão, que são, tisica, e etiguidade. Ar- dendo estava em febres desta qualidade a Madre Sor Jeronyma de Cal- vos, extinuada, e consumida d'ellas. Tinha o que padira, quanto á doen-

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 59

ça, e sofria-a com grande animo : esporava polo fim pêra inteiro cum- primento da petição. Entrou hum dia o medico, declarou-lhe que era chegado. Assi se alvoraçou, e alegrou, como pudera fazer no mundo com certeza de vida, quem muito a dezejara. Mas custou-lhe esta ale- gria huma grande perturbação. Porque o inimigo commum de nosso 1 em, envejoso de tal espirito, tanto que entrou em artigos de moilB, procurou vingar-se d'ella a todo seu poder. E tentando-a variamente, ultimamente descuhrio sua figura, e tomou por occasião de nova mali- cia, ver junto da enferma dous Crucifixos, hum que era do seu Orató- rio, e outro que a Gommrmidade trouxera ao receber da Saiicta Unção. E começou-lbe a propor com boca infernal, que acertadamente estavão alii aquellas duas Imagens, porque dous erão os Deoses, que por ella jiavião padecido na Cruz. Entendou-se a blasfémia pola eííicacia dos me- neios, que fazia, e polo que dizia, respondendo com vehemencia, de. aíflicção, pcra onde estavão os Crucifixos. Erão as palavras: Creio, e confesso, Unkum Dominum Dominum nostnitn JesnmC''rislum. Foi bata- liia pêra maior coroa ; porque tirado hum dos Crucifixos, acudio-lhe o Senlior com huma tão grande consolação, que tresbordava polo rosto, com extraordinários sinais de alegria. Obrigadas as Religiosas do que vião, não puderáo deixar de preguntar-lhe pola causa. E ella respondia, «orno me não hei de alegrar, Madres, se vejo diante de mim aquella Senliora, que he alegria do Céo, e da terra. E logo chamando por huma amiga sua, que estava presente, Sor Leanor, dizia, agora lie tempo: pe- di, pedi. Era o caso, que esta Ucligiosa polo discurso da eníir'midade, lhe fazia inslaíicias, que se lembrasse delia, quando se visse diante da Yirgem Soberana. Acudio Sor Leanor, pregunlando-Ihe a que parte es- tava, e ella respondia, que estava encostada á Madre Sor ínes da Con- ceição. Prostrúrão-se então todas por terra, entoando o verso: Maria mater gratia;, mater misericórdias: tn nos ab hoste protege, e hora mor- tis suscipe. Repetirão-no multas vezes, até que a bendita alma, desem- pnrado o corpo, se foi traz quem a viera buscar: poios annos, do Se- nhor de 1540. Afíirmava despois Sor Leanor, que alcançara, o que alli pedira, ajudada das orações da defuncta.

Com semelhante favor honrou a mesma Senhora 12 annos adiante, r.a de 1552 outra Religiosa d^esta Casa. Estava penando em [)aroxismo$ de morte a Madre Sor Luisa Bautista, conhecida por grande, e particu- lar devota sua. Senão quando se troca subitamente a sombra da moríe,

60 UVI\0 l DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

qwe lhe ciibria o rosto, em júbilos de prazer, e gozo, e levantando a voz, Madres, dizia, foção lugar, que vem a Rainlia dos Céos. Debruoa- vão-se todas até o chão com a devida reverencia, quando a doente tor- nando-se a assombrar de nova tristeza, desconsoladamente afíirmava, que a Senhora se fora, pola vinda de duas xMadres, que então en travão. Era o §iso, que vinhão desgostadas huma com outra, e fallando alto, e com paixão, e assi entrarão. Não assiste a Mãi da Caridade, onde acha desa- vença, e espirito de ira. Cahirão na conta as desavindas, abraçarão-se, e pedirão-se perdão huma a outra, e todas juntas á Virgem Sagrada. Alegra-se de novo a enferma: e dando com a boa sombra occasião de ser perguntada aíTirmava, que a Senhora tornara a entrar, acompanhada da gloriosa Magdalena, e de muitas Virgens sanctas, todas ricamente ata- viadas, e de varias cores. Estendia-se a devação a querer saber mais. Atalhou a enferma, dizendo, que a não detivessem com perguntas: que convinha seguir aquella sancta companhia, que tinha que fazer em outra parte : e espirou logo. Pareceo a todas, que era isto irem buscar alguma alma, que devia estar de partida. E estando com cuidado de quem se- ria, soube-se logo, que na mesma hora fallecera em casa de Jeronymo Pires Cotão, nobre, e virtuoso vezinho do Mosteiro, hmn mancebo, que no ponto, que se hia despedindo da vida, acompanhado da mulher do mesmo Jeronymo Pires, e de outras pessoas, lhes pedira, que íizessem agasalhado a huma senhora de Real presença, que o vinha visitar, acom- panhada de huma Freira Dominica. Chamava-se o defuncto Bernardo de Grasto. Criara-o Jeronymo Pires, como a filho, e tal era a criação d'aquelle tempo, que andando no meio do trafego da cidade, e da Corte, e na força da idade verde, conservava tanta pureza de alma, que mereceo a celestial visita : e pêra que fosse crida ordenou o Senhor, que assi sabe honrar os seus, que lhe precedesse o testemunho do Mosteiro. Mas pêra que espante menos, he de saber, que o mancebo servia actualmente o Infante D. Luiz; cuja casa era academia dos sábios, e corte de virtu- des, e elle gloria dos Príncipes de seu tempo. Alcançamos esta informa- ção na parte em que falia o livrinho, que anda impresso da fundação do Mosteiro de hum sobrinho do mesmo Jeronymo Pires, que nos altirmou ouvil-a referir aos que forão presentes. Chamava-se Francisco Pires Co- tão, pessoa de grande credito, o virlude, que por tal mori'eo occupado no serviço del-Rei, em oíTicio de muita confiança.

Quasl polo mesmo modo quiz o Pai das misericórdias galardoar com

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 61

públicos favores o bom serviço, e longos annos da Madre Sor Margaida de Mello, sendo n^esta Casa terceira vez Prioressa. Era illtistre em san- gue, mas muito mais em virtudes. Estas erâo causa de ser buscada pêra Prelada, todas as vezes que lhe cabia. Adoeceo gravemente, e foi o re- mate da doença, e da vida hum purgatório, que muito espantou, e en- cheo de medo as Religiosas. Sinco dias continuos esteve