a Husrtnn. lm
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ENCADERNAÇÃO
52, H. de Alcântara. 52-A
Telf, 37 915-lisbôa
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POR
ARMANDO RIBEIRO
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A REVOLUÇÃO PORTUGUESA
SEGUNDA PARTE
EM PLENA REVOLUÇÃO
( Continuação)
XXI O AT^GèTJE IDAS BATERIAS
A retirada. — Dos altos da Penitenciaria ao Rocio
o determinar o engate das peças e á irisante si- tuação de uma derrota que os outros lhe pare- ciam impor, o capitão Henrique de Paiva Cou- ceiro, se não viu, desde logo, a ruína da monar- chia, teve o intuitivo reflexo de um mau fim da realeza de Portugal, e de que a elle iria ser aggregado. o lance da vinda de Cascaes a Sete Rios, e do combate da Penitenciaria, até ao terminar das hostilidades, toi o primeiro passo para a amargurada odysseia do official. D'elle deixou as impressões. Vejamol as, pelo próprio transmittidas : (*) «Henrique de Paiva Couceiro estava passando o verão em Cascaes, n'uma casa da Avenida Valbom, onde habita também
(♦) «O Correio da Manhã» de 2 de Novembro de Í910.
facto,
ARMANDO RIBEIRO
seu sogro, o sr. conde de Paraty, ha pouco ainda ministro de Portugal em Vienna de Áustria*
«Estava dormindo quando pelas quatro horas da madruga- da de 4 de Outubro um guarda fiscal foi bater á porta de sua casa para lhe communicar que de Queluz, pelo telephone, pe- diam a sua immediata comparência no quartel.
«O primeiro comboio para Lisboa era ás 5 horas e 4b mi- nutos. Paiva Couceiro tomou-o, e ao chegar a Paço d'Arcos apeou-se, seguindo a pé para Queluz.
«Pelo trajecto nada se passara de extraordinário. Dizia se apenas que se tinham dado acontecimentos anormaes em Lis» boa e que se não podia passar de Algés.
«Eram 9 horas da manha quando chegou a Queluz, ao quartel onde está instailada a bateria de artilharia de que fazia parte. Ahi toi informado de que toda a to-ça disponível, consti- tuindo uma bateria composta de 4 peças e de 4 carros, com as munições necessárias para 25o tiros — únicas existentes no paiol do quartel — sairá pelas 4 horas e 20 minutos da manhã com destino ao paço das Necessidades, sob o commando do ca- pitão Machado e levando como officiaes os tenentes Correia Ne- ves, Rocha, Gusmão, Pissarra e Valdez.
«Paiva Couceiro seguiu immediatamente, a cavallo, para as Necessidades, acompanhado de uma ordenança.
«Quando chegou ás portas da Ajuda viu que lhe era im- possível passar, porque a guarda fiscal retirara, deixando o portão fechado e amarrado com arames.
«Teve de dar então a volta pela Portella e no Alto da cal- çada da Ajuda encontrou os officiaes de cavallaria, os srs. Oli- veira e Ramos, seguidos por um carro de mantimentos para as tropas de cavallaria, que — informaram esses officiaes — deviam estar em caminho pela estrada de Bemfica, assim como a bate- ria do grupo a cavallo de Queluz.
«Pouco passava das 1 1 horas da manhã quando, finalmen- te, ahi pelas alturas de Sete Rios, Couceiro alcançou a bateria de que fazia parte. A columna estacionava ao longo da estrada.
« — Quem commanda aqui ? perguntou o valente official ao sr. capitão Vieira.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA
« — Coronel Albuquerque, respondeu o interpellado.
a — Onde está?
t — Lá mais para deante.
«Segundos depois estiva Paiva Couceiro junto do chefe da oolumna a quem, fazendo a continência, disse a phrase do es tylo :
« — Commandante do grupo a cavallo apresenta-se.
«E lego a seguir:
a — Que serviço tenho a fazer?
«Recebi a missão, disse-lhe então o coronel Albuquerque, de atacar o núcleo revoltoso que oceupa o quartel de artilharia I e Rotunda da Avenida.
« — Com que tropas? perguntou Couceiro.
« — Com a brigada de cavallaria, a bateria a cavallo e uma força de infantaria 2, respondeu o sr. coronel Alburquerque.
«Embora naturalmente estranhasse que, dispondo o quar- tel general de cinco regimentos de infantaria, de toda a guarda municipal e da engenharia e da guarda fiscal, destinasse para o ataque ao redueto único da revolta apenas uma fracção minima dos eflectivos, com a aggrava«ne ainda de a constituir na sua maior parte com a cavallaria, isto é, com a tropa menos própria para o assalto de muros ou barricadas, — Paiva Couceiro limi- tou-se a dizer:
« — N'esse caso temos de proceder primeiro á escolha da posição de artilharia.
«N'este sentido foi suggerida a pos ção do lado tie Rilha- folles, mas um oflkial de cavallaria que estava próximo infor- mou que de uma propriedade adjacente alguém lhe dissera po- der se attingir o objectivo que se tinha em vista, Uto é, fazer fogo, sobre a Rotunda.
« — Então vamos ao reconhecimento, disse Paiva Cou- ceiro.
«E tomando por uma azinhaga á direita, acompanhado por um tenente de cavallaria, cremos que de nome Menezes, o que nos não foi possivel averiguar, e entrando n'um portão de quin- ta, subiram por entre vinhas e olivaes em rampa suave, até um planalto onde, a curta distancia, se avistava á direita a Peniten-
ARMANDO RIBEIRO
ciaria e á esquerda a casa de habitação do sr. Henrique de Men- donça, o rico proprietário da ilha de S. Thomé.
«Era evidente que aquella posição servia. Voltando para junto da columna, os dois officiaes assim o communicaram ao sr. coronel Albuquerque, a quem Paiva Couceiro disse que pre- cisava de infantaria por quanto, attendendo á proximidade do quartel de artilharia i, tacil seria que as immediações da posi- ção estivessem occupadas pelos revoltosos.
«Marchou portanto a bateria, levando na frente a pequena columna de infantaria 2, que, segundo parece, tinha menos de cem praças, seguindo o mesmo trajecto antes seguido pelos dois officiaes,
«Chegados ao bordo do planalto, a infantaria desenvolveu- se em atiradores avançando até ao muro que fechava a proprie- dade pelo lado da estrada da Circumvalação, emquanto a bate- ria, alguns metros atráz, seguia o movimento desenvolvida em linha.
«Na estrada e terras que a marginavam pelo sul, foram co- lhidos pelos atiradores e no entretanto a bateria mettia se em combate: — duas peças ao lado uma da outra, junto ao tapu- me que estava vedando um intervallo não murado, e uma ter- ceira em frente de uma cancella que mais para a esquerda abria sobre a estrada.
«A quarta peça ficara na rectaguarda por não haver mais aberturas no muro, nem permittir a sua altura atirarse-lhe por cima.
«Ao mesmo tempo, os officiaes procuravam pôr-se ao facto das posições defensivas dos revoltosos.
«No portão de entrada do quartel de artilharia 1 via-se uma peça; em frente da antiga casa de saúde de Entremuros, esta- vam collocadas duas ou três.
cPara essas peças se preparou o tiro, avaliando-se a distan- cia n'uns 600 a 700 metros.
« — Tapume abaixo! ordenou-se então.
cE as praças, rapidamente, derrubaram para o lado da es- trada o mal seguro taboado.
«Postas assim as peças a descoberto, ia-se principiar o togo,
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A REVOLUÇÃO PORTUGUESA
SEGUNDA PARTE
EM PLENA REVOLUÇÃO
( Continuação)
XXI
A retirada. — Dos altos da Penitenciaria ao Rocio
o determinar o engate das peças e á frisante si- tuação de uma derrota que os outros lhe pare- ciam impor, o capitão Henrique de Paiva Cou- ceiro, se não viu, desde logo, a ruína da monar- chia, teve o intuitivo reflexo de um mau fim da realeza de Portugal, e de que a elíe iria ser aggregado. facto, o lance da vinda de Cascaes a Sete Rios, e do combate da Penitenciaria, até ao terminar das hostilidades, toi o primeiro passo para a amargurada odysseia do official. D'elle deixou as impressões. Vejamol as, pelo próprio transmittidas : (*) «Henrique de Paiva Couceiro estava passando o verão em Cascaes, n'uma casa da Avenida Valbom, onde habita também
(#) «0 Correio da Manha» de 2 de Novembro de 1910. vol. jy
ARMANDO RIBEIRO
seu sogro, o sr. conde de Paraty, ha pouco ainda ministro de Portugal em Vienna de Áustria*
«Estava dormindo quando pelas quatro horas da madruga- da de 4 de Outubro um guarda fiscal foi bater á porra de sua casa para lhe communicar que de Queluz, pelo telephone, pe- diam a sua immediata comparência no quartel.
«O primeiro comboio para Lisboa era ás 5 horas e 45 mi- nutos. Paiva Couceiro tomou-o, e ao chegar a Paço d'Arcos apeou-se, seguindo a pé para Queluz.
«Pelo trajecto nada se passara de extraordinário. Dizia se apenas que se tinham dado acontecimentos anormaes em Lis- boa e que se não podia passar de Algés.
«Eram 9 horas da manhã quando chegou a Queluz, ao quartel onde está installada a bateria de artilharia de que fazia parte. Ahi toi informado de que toda a força disponível, consti- tuindo uma bateria composta de 4 peças e de 4 carros, com as munições necessárias para 25o tiros — únicas existentes no paiol do quartel — sairá pelas 4 horas e 20 minutos da manhã com destino ao paço das Necessidades, sob o commando do ca- pitão Machado e levando como officiaes os tenentes Correia Ne- ves, Rocha, Gusmão, Pissarra e Valdez.
«Paiva Couceiro seguiu immediatamente, a cavallo, para as Necessidades, acompanhado de uma ordenança.
tQuando chegou ás portas da Ajuda viu que lhe era im- possível passar, porque a guarda fiscal retirara, deixando o portão fechado e amarrado com arames.
«Teve de dar então a volta pela Portella e no Alto da cal- çada da Ajuda encontrou os officiaes de cavallaria, os srs. Oli- veira e Ramos, seguidos por um carro de mantimentos para as tropas de cavallaria, que — informaram esses officiaes — deviam estar em caminho pela estrada de Bemfica, assim como a bate- ria do grupo a cavallo de Queluz.
«Pouco passava das 1 1 horas da manha quando, finalmen- te, ahi pelas alturas de Sete Rios, Couceiro alcançou a bateria de que fazia parte. A columna estacionava ao longo da estrada.
« — Quem commanda aqui ? perguntou o valente official ao sr. capitão Vieira.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA
« — Coronel Albuquerque, respondeu o interpellado.
« — Onde está ?
t — Lá mais para deante.
«Segundos depois estava Paiva Couceiro junto do chefe da •columna a quem, fazendo a continência, disse a phrase do es tylo :
t — Commandante do grupo a cavallo apresenta-se.
«E lego a seguir:
a — Que serviço tenho a fazer?
t Recebi a missão, disse-lhe então o coronel Albuquerque, de atacar o núcleo revoltoso que oceupa o quartel de artilharia I e Rotunda da Avenida.
« — Com que tropas? perguntou Couceiro.
« — Com a brigada de cavallaria, a bateria a cavallo e uma força de infantaria 2, respondeu o sr. coronel Alburquerque.
«Embora naturalmente estranhasse que, dispondo o quar- tel general de cinco regimentos de infantaria, de toda a guarda municipal e da engenharia e da guarda fiscal, destinasse para o ataque ao redueto único da revolta apenas uma fracção minima dos eflectivos, com a aggravante ainda de a constituir na sua maior parte com a cavallaria, isto é, com a tropa menos própria para o assalto de muros ou barricadas, — Paiva Couceiro limi- tou-se a dizer:
« — N'esse caso temos de proceder primeiro á escolha da posição de artilharia,
«N'este sentido foi suggerida a pos ção do lado \ç Rilha- folles, mas um official de cavallaria que estava próximo infor- mou que de uma propriedade adjacente alguém Ibe dissera po- der se attingir o objectivo que se tinha em vista, isto é, fazer fogo, sobre a Rotunda.
« — Então vamos ao reconhecimento, disse Paiva Cou* ceiro.
«E tomando por uma azinhaga á direita, acompanhado por um tenente de cavallaria, cremos que de nome Menezes, o que nos não foi possivel averiguar, e entrando n'um portão de quin- ta, subiram por entre vinhas e olivaes em rampa suave, até um planalto onde, a curta distancia, se avistava á direita a Peniten-
ARMANDO RIBEIRO
ciaria e á esquerda a casa de habitação do sr. Henrique de Men- donça, o rico proprietário da ilha de S. Thomé.
«Era evidente que aquella posição servia. Voltando para junto da columna, os dois officiaes assim o communicaram ao sr. coronel Albuquerque, a quem Paiva Couceiro disse que pre- cisava de infantaria por quanto, attendendo á proximidade do quartel de artilharia i, fácil seria que as immediações da posi- ção estivessem occupadas pelos revoltosos.
«Marchou portanto a bateria, levando na frente a pequena columna de infantaria 2, que, segundo parece, tinha menos de cem praças, seguindo o mesmo trajecto antes seguido pelos dois officiaes.
«Chegados ao bordo do planalto, a infantaria desenvolveu- se em atiradores avançando até ao muro que fechava a proprie- dade pelo lado da estrada da Circumvalação, emquanto a bate- ria, alguns metros atráz, seguia o movimento desenvolvida em linha.
«Na estrada e terras que a marginavam pelo sul, foram co- lhidos pelos atiradores e no entretanto a bateria mettia se em combate: — duas peças ao lado uma da outra, junto ao tapu- me que estava vedando um intervallo não murado, e uma ter- ceira em frente de uma cancella que mais para a esquerda abria sobre a estrada.
«A quarta peça ficara na rectaguarda por não haver mais aberturas no muro, nem permittir a sua altura atirarse-lhe por cima.
«Ao mesmo tempo, os officiaes procuravam pôr-se ao facto das posições defensivas dos revoltosos.
«No portão de entrada do quartel de artilharia 1 via-se uma peça; em frente da antiga casa de saúde de Entremuros, esta- vam collocadas duas ou três.
«Para essas peças se preparou o tiro, avaliando-se a distan- cia n'uns 600 a 700 metros.
« — Tapume abaixo! ordenou^se então.
«E as praças, rapidamente, derrubaram para o lado da es- trada o mal seguro taboado.
«Postas assim as peças a descoberto, ia-se principiar o fogo,
A REVOLUÇÃO POKTUGUEZA
quando sobre as peças rebentaram três granadas dos revoltosos. Ficaram íeridos logo o capitão Vieira, o cabo ordenança e va- rias praças. Caíram mortas algumas muares, tresmalharam-se os cavallos e as parelhas dos armões que ainda não tinham se- guido para logar abrigado.
«Conjuntamente deuse também a fuga de uma parte, talvez metade, da torça de infantaria e de algumas praças da bateria.
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PAIVA COUCEIRO
«Deve dizer se como relativa justificação ou attenuante d'es- te ultimo lamentável acontecimento, que esses soldados, no que diz respeito ao grupo de artilharia — pois no que respeita a in- fantaria não pudemos averigual-o — eram simples recrutas de io mezes, porquanto as praças que estavam no segundo anno de serviço tinham sido licenceadas em setembro, depois das elei- ções, o que provavelmente também suecedera com infantaria 2.
vol. iv — n. 2
10 ARMANDO RIBEIRO
«Comtudo haviam ficado firmes no seu posto os officiaes e sargentos da bateria e alguns dos serventes, o que permittiu que immediatamente se rompesse o fogo de resposta.
«Ao mesmo tempo, parte dos officiaes e sargentos tratavam de reparar os effeitos da desordem do primeiro momento, apa- nhando os cavallos que se haviam tresmalhado, conduzindo os armões para posição desenfiada, fazendo entrar as praças nos seus logares e conduzindo os feridos para a enfermaria que o dr. Bogalho, medico da bateria de Queluz, improvisara nas ha- bitações existentes á entrada da quinta.
«Alguns soldados de infantaria 2, deitados em cima de uns telheiros adjacentes á parte interna do muro, sustentavam tiro- teio com a gente armada que de diâerentes pontos procurava attingir as forças ríeis. As granadas provenientes, umas, das pe- ças que se avistavam em frente do quartel de artilharia, e outras, de peças que se não distinguiam, continuavam estalando sobre a columna, não produzindo grande parte quaesquer avarias por estalarem do lado de fora do muro, mas causando algumas del- ias varias baixas entre as tropas.
«Depois de cerca de três quartos de hora de togo, parecen- do desamparadas as peças que se viam junto do quartel, Paiva Couceiro mandou sair a infantaria pela cancella, e a ordem foi cumprida, saindo o tenente de infantaria Vianna — cremos que c esse o seu nome, mas havemos de averigual-o porque é justo que fique registado, pois procedeu como um bravo — á frente de trinta e tantas praças que, atravessando a estrada, se esten- deram em atiradores sobre o terreno livre da banda cpposta.
«Poucos minutos depois recolhiam com algumas baixas.
«A bateria continuava o seu serviço e meia hora ou três quartos de hora depois, parecendo abrandar o fogo dos revolto- sos, novamente Paiva Couceiro mandou sair a infantaria.
«Convém observar n'esta altura que, depois da debandada parcial que se dera aos primeiros tiros, ninguém, ao que pare- ce, tratara de fazer voltar aos seus logares os fugitivos.
«Assim a infantaria ficara definitivamente reduzida a uma pequeníssima parte que, salvo erro, não ultrapassava em nume- ro uns 5o homens.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 11
«O coronel Bessa, o major Rocha e um outro official, ma- jor ou capitão — não pudemos averiguai o, — permaneciam junto do muro e abrigados por elle, sem se intrometterem nc com- inando activo dos soldados.
«Estes, por sua parte, excepção leita de uns 8 ou 10 que valorosamente collaboraram sempre na linha de fogo, abriga- vam-se sentados no sopé interno do muro, bastante alheios ás phases da luta. E ahi se deixaram ficar, quando pela segunda vez Paiva Couceiro mandou que a infantaria saisse.
«Paiva Couceiro apeou-se então e invectivou os em ter- mos. . . pouco parlamentares, aos quaes cederam por fim cerca de vinte praças, que sairam com Paiva Couceiro e o tenente de infantaria Vianna, já acima citado, e cujas qualidades de brio, e de coragem merecem menção especial.
«Era o momento psychologico de prenunciar o assalto ao quartel de artilharia. Assim o julgou Paiva Couceiro, mas re- presentaria falta militar grave o tental-o com pouco mais de duas dezenas de homens, que um só tiro de peça do lado op« posto destroçaria sem duvida.
«Resolveu então Paiva Couceiro fazer constar ao cominan- do da Divisão que com três companhias de infantaria, das quaes uma da municipal, podia proceder-se a esse ataque. E a com- municação foi feita.
«Meia hora depois chegava á linha de fogo o capitão Mar- tins de Lima, acompanhado pelos tenentes Estevão Wanzeller e Ramos vindos do quartel general.
retiramo-nos, acompanhados até á porta por Paiva Couceiro que ao despedir se, nos disse:
« — Devo dizer-lhts que aquillo que de menos agradável, n8 narração que fizeram e na entrevista que tiveram e que aca- bam de me lêr, possa suppôr se a respeito do procedimento e da passividade de alguns dos officiaes a quem n'ellas fazem referen- cias, explico o eu como um resultado natural e lógico do estado d'alma, de indifirerença, de aborrecimento e de desconsolo, que o curso dos negócios públicos nos últimos tempos vinha crean-. do no espirito publico em geral e dos officiaes em particular
12 ARMANDO RIBEIRO
Aquelles mesmos, que ali cruzaram os braços, cumpriram brio- samente o seu dever em outras circumstancias. . . É* essa a mi- nha convicção*
A retirada íez-se portanto.
Era o complemento da debandada, por vontade própria.
Resolveraa alem, impulsionandoa, o general commandan- te da brigada de cavallaria, António de Carvalhal da Silveira Telles de Carvalho.
Este, poucas horas antes chegara ao quartel do iargo de S. Domingos como tardio conhecedor da revolução.
O coronel Alfredo de Albuquerque, informa assim esse ac- to de comparência e de ignorância dos successos : (*)
«General António Carvalhal. — Morava na Avenida Duque de Loulé, mas não parece ter sentido os tiros da artilharia que atroaram Lisboa durante toda a noite. Só teve conhecimento «official» da revolução (declaração do próprio, no jornal o a Dia» de g de Novembro de ioio) por volta das 7 horas da manhã, e diz que foi «oficialmente», por que antes — «já sabia do que se tratava porque fui prevenido por pessoa de íamilia que cos- tumava ir aos banhos a Algés e que regressara n'essa manhã a casa, por não poder passar para a Rotunda.»
«Só compareceu no Quartel General quando «officialmen- tc» foi chamado.»
Chegando, o general António Carvalhal ao corrente foi pos- to de todos os planos ordenados.
A columna já seguira a caminho do seu destino ignoto
Como encargo recebia apenas o de vigilar sobre a interce- pção, ao povo, dos locaes próximos do commando supre- mo.
O governo foi apparecendo e ao avançar das horas, resalta- vam as perguntas.
(*) Os Cem Dias Funestos», por Joaquim Leitão. — Pagioa 334.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 13
Não se sabia ali da columna que sahindo das Necessidades devia procurar attingir a Rotunda
De discussão em discussão, de perspectiva em perspectiva, valeu o ministério que, se perturbado se mostrara no con- selho civil, junto aos militares ganhou ânimos e concei- tos.
Era a influencia do local.
Houve assim opiniões certas, embora melindrosas.
Do governo, presente, alguém, approvado o ataque extra- nhou que eile não tivesse o commando d'um general, existindo ali trez, Manuel Raphael Gorjao, António Júlio de Sousa Ma- chado, António Carvalhal.
Dirigiu-se mesmo ao general António Carvalhal, que, em- bora tivesse ali occssião de auxiliar a democracia, não julgou conveniente seguir com as torças, onde entravam lanceiros 2, dados como fieis á causa monarchica.
Allegando só cumprir as ordens do commandante da divi- são, teve por este a casual acquiescencia aos seus desejos, pela determinação de que o seu serviço era no quartel para o substi- tuir, em caso de necessidade e proceder á vigilância sobre a to- madia das emboccaduras das ruas.
Não era de fatigar, esse trabalho de táctica do official gene- ral e a divisão, se bem que inconsciente e guiada, ciemos, pelo fatalismo das coisas, não collocando á frente das tropas fieis esse vulto de encoberto revoltado, deu aso á sua attitude de franca adhesão á revolta.
A uma directa responsabilidade corresponde uma restricta linha de conducta inherenre a essa responsabilidade;
Parece, todavia, que a esse primitivo declinar de comman- do presidiu um pouco de ma! estar enfermiço do commando su- perior, não lhe deixando precisar attitudes nem factos.
Divergências houve pois sobre o momento em que a missão foi incumbida ao general Carvalhal.
Assim, disse este (-), apoz a affirmativa do conhecimento da marcha da columna do coronel Albuquerque:
(#) -O Dia- de 10 de Novembro de 1910.
14 ARMANDO RIBEIRO
«O tempo decorria, as granaJas iam rebentando, os minis- tros vinham apparecendo, e um d'elles extranhou que o ataque não fosse commandado por um general. Como esse ministro se dirigiu directamente a mim, rtspondi-lhe então:
«Só cumpro as ordens do commandante da divisão e este determinou-me que não me afiastasse do quaitel general, para o substituir, se assim fosse necessário, estando eu encarregado de verificar se as diflerentes embocaduras das ruas estão conve- nientemente guarnecidas.»
De contrario aspecto apresenta (*) a investidura no encargo o coronel José Joaquim de Castro, chefe do estado maior:
« A iniciativa do general pela oflensiva sobre a Rotunda, foi logo adoptada, e fixou-se qu* o destacamento para essa acção seria composto por infantaria 16, que estava fiel, uns cento e vinte homens, cavallaria 2 e a bateria de Queluz, tudo sob o commando do coronel Albuquerque, de lanceiros 2. Todavia, pela consideração de maior importância qut deveria dar-se a esse destacamento, foi o sr. general Carvalhal convidado a assu- mir o seu commando, tendo também sido pedida a cooperação do tenente coronel Garcia Guerreiro, como official do serviço de estado maior.»
Com razão foi evidenciado (»*) pelo conselheiro Teixeira de Sousa, esse equivoco do coronel José Joaquim de Castro, pe- lo qual se poderia deduzir que o commando da columna desde o inicio da marcha confiado estivera ao general Carvalhal.
A fazer-se fé por esse definir de casos, occorreria interro- gar que razões influiriam para o detrimento da intenção, não con- summada logo á chegada do official e até apresentandose como de diverso thema o serviço confiado?
E' certo que á assistência do commandante da brigada de cavallaria correspondeu a ordem de retirada, mas esta fe^se ante um descripto fracasso e uma apregoada impossibilidade de pro- seguir a acção.
(*) Notas ao «Diário dos Vencidos» por Joaquim Leitão. — Pagina 325 (**) Teixeira de Sousa -«Para a historia da Revolução» — 2.° volume Pagina 359
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA - 15
Nao teve a analyse que as circumstancias exigiam, mas dif - ficil era ambicionar serenidade n'esse quasi geral período de desorientação.
Facto é, todavia, e authenticando o desnorteamento causa- dor de tanta controvérsia, que o commandante da brigada de cavallaria, apenas teve a incumbência da marcha até Sete Rios, "depois da i hora da tarde, ás extranhezas do governo eá escassez de noticias, trazendo até vislumbres de reproducção da scena passada de madrugada, em Alcântara, com convallaria 4.
N'um inútil aguardar de informes, haviam passado as ho- ras.
A essa ignorância, perturbante, do que se teria passado com o troço destinado a exercer pressão sobre a Rotunda, correspon- deu o formular da singularidade de não se haver organisado uma columna forte que envolvesse, a sério, o acampamento re- belde, forçando-o a render-se. Era cerca da 1 hora da tarde.
Pensou se então em auxiliar o núcleo que deveria estar ope- rando nos altos da Penitenciaria.
Proposto foi assim que um dos generaes presentes seguisse, para com as tropas necessárias, coadjuvar a acção da columna presumida dà chefia exclusiva do coronel Alfredo de Albuquer- que.
Lembrado o general Carvalhal, commettia se-lhe o encargo de, com praças de cavallaria, ir ao encontro da columna.
O official, embora mais propenso á democracia, não quiz toiavia arcar com qualquer attribuida responsabilidade de al- gum lance contrario á realeza e procurando rodear-se de ele- mentos fieis á causa monarchica, suscitava ao commando da divisão, a conveniência de, visto tratar-se de ataque, ser acom- panhado pelo tenente-coroneí António José Garcia Guerreiro, que desempenharia as funcçÕes de chefe de estado maior.
O escolhido de confiança era, como official ás ordens de D. Manuel II.
Não valeu o entrave de se encontrará paisana e sem armas, em notável anomalia com as circumstancias, desde a madruga- da conhecidas.
16 ARMANDO RIBEIRO
E' tacto que se quiz depois attenuar esse aspecto pacifista, com as allegaçoes demonstrativas de não pertencer Garcia Guer- reiro ao estado maior de divisão nem aos serviços do quartel general, e apenas exercer o cargo de lente da Escola do Exercito.
Era porem militar e combatente e isso bastava para que as prerogativas especiaes, se derruíssem, mercê das contingên- cias graves de uma revolta, em progressivo avança.
Garcia Guerreiro, não se aflastou todavia do campo onde foi chamado, e, mesmo á paisana, se dispôz a partir com a co- lumna.
Recebendo do general Carvalhal, um revolver, o tenente co- ronel Guerreiro dava-se por apto a seguir, como substituto do chete do estado maior de cavallaria, ausente em Cintra, o major João Pereira Bastos.
Este, talvez de momento não servisse a Carvalhal, por de- mocrata convicto e tanto que a Republica, á sua victoria, lhe confiaria a chefia do estado maior da i.a divisão militar, coiro primeiro degrau para a ascensão á cadeira de ministro da guerra.
Esses prémios malsinados foram pela falta de acção no mo- vimento de Outubro, mas colheria melhores bases de acceita- ção se, vistas retropectivas o não indicassem como elemento alto junto do almirante Cândido do? Reis, que, por instancias junto do então ministro Sebastião Custodio de Sousa Telles, o fizera recolocar em Lisboa, apoz uma transferencia motivada no citar do seu nome como chete do estado maior na tentativa revolu- cionaria de 28 de Janeiro de 1908.
O general Carvalhal, teve pois por bem escolhido o ciliciai ás ordens do rei.
Resolvido foi a opção por um caminho que, sem passar pela Avenida fosse dar á Penitenciaria, para o encontro com o tro- ço de Alfredo de Albuquerque, que pelas ordens ali deveria estar.
Achado esse trajecto, ante attentc estudo do mappa de Lis- boa, e a postos os que deviam partir, dava-se a ordem de mar- cha, cerca das 2 horas da tarde.
Agg'cgado já então havia sido, mais outro elemento afiecto ao regimen; o capitão Alfredo Pedreira Martins de Lima.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 17
A elle entregue foi o commando de 40 soldados de caval- laria 4, que, com o 2.0 esquadrão da guarda municipal, antes confiado ao capitão Júlio César dos Santos Segurado> formavam o núcleo enviado ao encontro das forças atacantes da Rotunda.
De diminuta confiança era o esquadrão de cavallaria 4, no- tável já pelo destroço em Alcântara e a célere cavalgada d'aii ao Paço da Rainha, sob o commando do coronel Jesuino Gre- gório Pessoa de Amorim, fazendo depois o tropel d'ali até ao quartel general.
Assignala-lhe os passos uma manifesta contrariedade á cau- sa monarchica ;
«Cavallaria 4, em Alcântara, ao que me consta, não deu um tiro, sendo o regimento posto em debandada pelo elemento civil d'esse heróico bairro, que contra elle lançou algumas bom- bas; os soldados republicanisados por uma activa propaganda, aproveitaram a occasião e tugiram.
«O tenente Carvalho, com o seu esquadrão, depois de ter marchado e contra-marchado, sem nos hostilisar, foi se-me apre- sentar á Rotunda na manhã de 5, prestando óptimos serviços de exploração, quando foi do alarme do avanço de artilharia 3 com dois regimentos de infantaria sobre Lisboa » (*)
O official mencionado era o tenente João Ferreira Nunes de Carvalho, promovido depois a capitão para a guarda republica- na, sendo-lhe mais tarde ( 1 9 1 3) confiado o commando do 1 ° esquadrão d'aquelle corpo militar.
Para que a inacção o não tolhesse, e para maior solemnida- de imprimir á segunda força sahida do quartel general, encor- porado foi portanto o resto de cavallaria 4 no regimento de An tonio Carvalhal.
O assaz modesto contingente procurou attingir o seu fim, to mando pela calçada de Sant'Anna, Escola do Exercito, Estepha
(#J Relatório de Machado Santos.— Pagina 141. vol. iv — fl. 3
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nia, Campo Pequeno, onde registava o travar longiquo de com- bate em Sete Rios. !S$sSS
Entre Bemfica e Campolide deparava o general Carvalhal,, com a força do coronel Altredo de Albuquerque, que, a uma nova debandada da infantaria, e á chegada d'esta até á frente dos lanceiros} fizera evolução á esquerda, retrocedendo por Sete Rios.
Albuquerque procurou pelo telephone do Jardim Zoológico, participar o que se passava ao quartel general.
Não o poude fazer.
Voltou ao posto.
Foi n'essa altura que chegou o general António Carvalhal.
O commandante de cavailaria 2, informava o enviado do quartel general dos críticos resultados do ataque ao acampa- mento sedicioso.
Descreveu o lance que ás baterias trouxera feridos, a deban- dada de infantaria 2, com o seu resto semi-desíallecido pela fo- me; o meio desamparo do grupo de Queluz.
Os núcleos revolucionários estavam todavia ali representa- dos, virtualmente, pelo official superior recem-vindo.
E' certo que allegou, — quando já o reivindicado lance lhe podia assegurar um rasgado caminho de convenções, — um absoluto desconhecimento dos tramas.
Comtudo, ao natural declinar, pelo general Gorjão, do con- vite para permanência no cargo de chefe da divisão, Telles de Carvalho era desde logo investido no posto, acto irreflectido se o official contado não fosse no numero dos de confiança para a causa republicana.
N'essas horas, semiindecisas, integiar no logar direccio- nal das tropaSj um dedicado á realeza que podesse operar uma reviravolta em seu favor, constituiria um erro.
Carvalhal, tinha prestigio como militar e supremacia pela alta cathegoria, ornando-lhe também o peito a insígnia de gran» de official da ordem militar de S. Bento de Aviz, ordem que tinha o rei como presidente do seu alto conselho.
Mas, a ganha victoria não teve contra-prova apoz a posse do novo commandante.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 19
A manutenção da bandeira verde-rubra içada no quartel superior na manhã de 5, exprime, pois, que bem justa loi e a bem da democracia, a escolha para chefe da i .a divisão do general de brigada Carvalhal.
Avaliou elle portanto, de relance, a situação e sem que o sue- cinto relatório do coronel Alfredo de Albuquerque lhe desse o sobresalto d'uma dolorosa surpreza.
Convinha & retirada para que a Rotunda socegasse e des- cuidasse d'esses verdadeiros inimigos.
Carvalhal, porem, revolucionário se não por anterior adhe- são, por convicção própria, não quiz assumira responsabilidade do retrocesso e se o commando superior monarchico, sendo -lhe pedida infantaria como elemento próprio para o assalto, envia- ra cavallaria inútil para o projecto, o general, intimamente de- votado á democracia, auxiiiava-a.
Assim, ordenou sob a apparencia de uma consulta, acceite todavia pelos officiaes existentes, o coronel Albuquerque, tenente coronel Garcia Guerreiro e capitão Martins de Lima:
« — Com estes homens já se não pode aqui fazer nada ! Vamos embora, não acham?
E para o coronel Albuquerque:
— Dê ordem á artilharia para retirar.
Quizse attribuir essa determinação ao commandante de lanceiros, mas este, mais tarde, definia assim a sua atti- tude:
«Por mim não dei a menor indicação sobre a conveniência ou inconveniência de retirar a columna. A iniciativa de ficar ou abandonar a posição pertencia única e exclusivamente ao ge- neral Carvalhal; elle que vinha do quartel general é que, com certeza, ahi teria recebido quaesquer ordens, e roais pormeno- risadamente devia conhecer a situação geral; é que era o único competente para saber o que se devia fazer.»
E ainda :
« — De maneira que é cathegorico: a ordem de retirada foi dada pelo general Carvalhal?
t — O que ha de mais cathegorico. Teixeira de Sousa diz; «Entretanto resolveu-se, por indicação do coronel Albuquerque,
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marchar sobre o largo da Luz.» E' redondamente falso! Não fui sequer consultado, sobre esse assumpto.» (*)
De facto, o general Carvalhal, apenas cita (*•) o coronel Garcia Guerreiro, como o consultado e unicamente sobre o retrocesso da artilharia:
«Quando chegamos ao cruzamento da estrada de Bemfica com a de Campolide, encontrámos o regimento de lanceiros 2, tendo muito perto o coronel Albuquerque, que me communicou que infantaria 2, que appoiava a bateria a cavallo, tinha disper- sado apoz o rebentamento das primeiras granadas, e que até já tinha fugido tudo. Disse me que a bateria se achava completa- mente desamparada, isto é, desprovida de qualquer appoio e em risco, portanto, de cahir todo o material em poder dos revol- tosos. Desde que tomei conhecimento da situação, que era real- mente critica para a artilharia, dei immediatamente ordem, de accordo com o tenentecoronel Garcia Guerreiro, que desempe- nhava as funcçoesdechefedo estado maior, para que a artilharia retirasse.»
Todavia, deve notar-se que, embora o enviado do qusrtel general fosse o proponente da ideia, não consta que contrario parecer, de longe sequer esboçado tosse por parte dos officiaes presentes.
Eram elles, alem de Carvalhal, o coronel Alfredo de Albu- querque, o tenentecoronel António José Garcia Guerreiro e o capitão Alfredo Pedreira Martins de Lima. (**♦)
O tenente Estevão Wanzeller chegou, quando resolvido es- tava já a volta para Lisboa, restando simplesmente transmittir a intenção ao commandante das forças de Queluz.
Assumida foi assim uma mutua responsabilidade.
Mais tarde, apenas, o commandante de lanceiros, -collocaria em evidencia, o incidente de o commandante da brigada de cavallaria não ter ido verificar a exactidão do relatório verbal feito na estrada de Sete Rios
(#) «Os Cem Dias Funestos» — Por Joaquim Leitão -Pagina 252. (**) «O Dia» de 10 de Novembro de 1910.
(***) Regista a assistência d'este o «Diário dos Vencidos» a paginas 220.
A REVOLUÇÃO POHTUGUEZA
Para que essa lembrança, no próprio momento não tivesse surgido, imperou decerto o convencimento, justo, de que o ge- neral procedera por fé na feita exposição dos tactos.
A base disciplinar, fazendo recusar objecções a superiores, estava a destazer-se a cada passo) e vimos (*) já o tenente Estevão Wanzeller, oflerecendo um tiro a um capitão de infan- taria 2, ante o espectáculo de um evolar do local onde se com- batia, ccmo annotaremos o capitão Martins de Lima, expressan- do no commando da divisão o voto de clausura para o governo onde estava o conselheiro José Nicolau Raposo Botelho, o supe- rior supremo, embora de momento, pelo cargo transitório de ministro da guerra, mas com a alta patente, também, de gene- ral de brigada.
Por seu turno, do immediatamente inferior, embora nivel- lado quasi como chefe, primitivo, da columna, dir-se-hia resal- tar um vislumbre de immolação, de indifferente acceitar de to- das as contingências, fossem ellas quaes fossem:
«A iniciativa de ficar ou abandonar a posição pertencia única e exclusivamente ao general Carvalhal; elle que vinha do quartel general é que, com certeza, ahi teria recebido quaesquer ordens, e mais pormenorisadamente devia conhecer a situação geral, é que era o único competente para saber o que se devia fazer.»
Resta como elemento certo, o fatalismo manobrando para que tudo bem sorrisse á revolta, como recompensa á sua tena- cidade e para castigo a quantos, sob o coroado regimen, d'elle tanto malsinavam.
Por fallado voto de uns e silenciosa acquiescencia de outros fixou-se a retirada.
Ao capitão Martins de Lima, dava o coronel Albuquerque a missão de transmittir a Paiva Couceiro o que se havia resol- vido, mas chegando, o tenente Estevão Wanzeller, evocava a sua qualidade de subordinado regimental do coronel, para se desempenhar do encargo.
Não quiz Martins de Lima deixar de lhe fazer companhia até ao local perigoso onde as granadas explodiam.
(*) Vide pagina 900 do3.« volume d'esta obra.
22 ARMANDO RIBEIRO
Acceite, ainda com elles seguiu, por vontade própria, o te- nente Silveira Ramos, egualmente intrépido.
Foram os três oâficiaes, pois, ao alto onde Paiva Couceiro se encontrava e onde lhe participaram a resolução de cessar togo.
Entretanto e julgando útil evitar explicações, o pela revolu- ção escolhido commandante da i.a divisão militar, mettía espo- ras ao cavallo e endireitava para a Luz, como estipulado ponto para bivaque, sob o aspecto de que oflerecia condições de segu- rança para deteza e facilidade de communicações telephoni- cas.
O regresso tez-se abrindo caminho o grupo de cavaliaria 4, seguindo-se-lhe a municipal e depois os destroços de infanta- ria 2.
No ca^ipo ficavam os mortos, para não pesar a marcha.
Ao ver a retirada que na Rotunda se assignalou ser pelas 4 horas da tarde, um popular cheio de enthusiasmo poz-se a dan- çar no campo desabrigado do acampamento.
Fora de tempo íoi essa alegria.
Uma bala o fazia cahir, para na") mais se erguer.
Foi esse o único morto da Rotunda, no inicial combate con- tra as baterias e deuse o caso ccmo desespero de uma da? dedicadas praças de infantaria, pela retirada apoz tanto ei- forço.
Mas, para compensação á trágica desforra e para que a to- dos os rebeldes fosse o echo d'essa ganha victoria, pois isso si- gnificava a retirada da tropa do alto da Penitenciaria, em- quanto avisos pessoaes iam á Avenida do animado successo, os telephones de Bemfica, postos ao serviço da sedição, á imprensa affecta, como a «Capital», levavam a noticia, pouco depois das 4 horas da tarde.
Reproduzida era assim, com antecedentes pormenores de haverem as baterias tido 3o baixas, retirando sem munições e com algumas peças encravadas:
«Pela tarde travou-se rijo combate entre artilharia í e in- fantaria 16, os dois regimentos que adheriram ao movimento, e infantaria 2. Este ficou completamente destroçado, desappare- cendo os officiaes. Dos soldados sobreviventes uns lugiram, e ou-
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 23
tros completamente desorientados, d-clararam que iam juntar- se a artilharia i.
«Ao hospital do Rego foram transportados 4 soldados mor- tos, e 8 feridos que ali receberam curativo.
«No C8mpo ficaram numerosos mortos.
Por seu turno, a phantasia, auxiliando ainda mais o quadro de falsas cores, do numérico morticínio, citava ainda que as for- ças de lanceiros 2 e infantaria 2, se encontravam em Sete Rios não podendo seguir para Lisboa, ante as barricadas formidáveis erguidas pelos revoltosos.
Para adormecimento dos entravantes á marcha da insurrei- ção, ia, por seu turno, o falso boato de que «a artilharia revolta- da, deixava a Rotunda, recuando até ao Campo Grande, onde soffrera desaire por 400 praças da guarda fiscal.»
Esse cahos traria, como lógico resultado, a perda do exacto conhecimento da situação.
A esse tempo já a columna seguia sem outros impedimen- tos, além do seu desorganisado aspecto.
A marcha, desnorteada, deu em resultado uma ligeira di- vergência do caminho a seguir para o largo da Luz.
O coronel Alfredo de Albuquerque, tomava com as baterias e o troço de infantaria, a linha de marcha até á estação do ca- minho de ferro de Bemfica, apoz o que se reconhecia a falta do general Carvalhal e da cavallaria.
Um reconhecimento assignalava porém que esse núcleo, en- veredara pela Azinhaga da Fonte.
De facto, o enviado do quartel general, fora até ao jardim Zoológico, d'onde, a conselho do coronel Garcia Guerreiro, fez telephonar para o commando da divisão, participando o regres- so e pedindolhe fossem transmittidas ordens par3 a Luz.
N'um novo equivoco, o chefe do estado maior, coronel José Joaquim de Castro, regista ter «recebido unicamente
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do Collegio Militar noticia da retirada da bateria para Lis- boa.» (*)
Afirma (**) porem o local do primeiro aviso, o general Carvalhal.
«A artilharia retirou e seguimos pela estrada de Bemfica em direcção á Luz. Quando chegámos á altura do Jardim Zoo- lógico, lembrou o coronel Garcia Guerreiro que devia haver ali telephone, dizendo-lhe eu então que tentasse participar ao ge- neral de divisão as circumstancias em que nos encontrávamos e que aguardávamos ordens da Luz, para onde marchávamos e que poderiamos receber ordens pelo telephone do Collegio Mi- litar.»
A verdadeira tensão espiritual do momento contribuiu tal- vez para que se julgasse a palestra travada já pela linha do Col- legio Militar, tanto mais que a resposta foi immediata.
O coronel José Joaquim de Castro, dava como preterida a entrada breve em Lisboa, com trajecto por Arroyos, para o Ro- cio.
Carvalhal, propunha retroceder por S. Sebastião da Pe- dreira.
Do commando superior davam como imprudente a passa- gem perto do baluarte em revolta, a Rotunda, assentandose assim no primitivo plano. O general, com a cavallaria, endireitou pois ao largo da Luz onde estourava em seguida uma granada despedida do Alto da Avenida.
Fora indicado o local por alguns populares sabedores da marcha da columna, mas nenhum prejuizo fez.
Em avançada havia marchado o capitão Martins de Li- ma.
Deu-se então um incidente.
Emquanto os soldados devoravam uma pequena Facão de pão, os officiaes mantiveram o seu jejum forçado, que Martins de Lima procurou fazer esquecer numa visita ao Collegio Mili- tar, onde achava inactivo, sem explicação plausivel, o alferes do
(*) Notas ao «Diário dos Vencidos», pagina 326. (##) «O Dia» de 10 de Novembro de 19lO.
A REVOLUÇÃO PORTUOUEZA 25
2.° esquadrão da guarda municipal, João Justino de Moraes Teixeira, que do superior escutava algumas phrases disciplinares.
Dirigia-selhe o capitão inquirindo d'elle as razões do tacto anormal, e obtinha como resposta consistirem na dispersão da respectiva força, a do capitão Segurado.
Vinha elle todavia com Martins de Lima e este, fazia desde logo integrar o alferes no seu posto.
Narrado appareceu assim (♦) o incidente pelo capitão Martins de Lima :
«Entrando no largo da Luz, vi, entre os officiaes que esta- vam á porta do Coilegio Militar, um que não tinha distinctivos de patente nem quaesquer outros. Pergunteilhe se era official, a que unidade pertencia e como é que se encontrava ali.
«Respondeu*me com voz sumida, que era alferes, pertencia a um esquadrão da guarda municipal, que tinha sido dispersa e quasi anniquilada. Então espere ahi um boccadinho, disse-lhe eu. D'ahi a pouco, desembocava no Largo da Luz, e eu pergun- tei ao dito alferes: «Conhece-o?» «Conheço, conheço!. . . » res- pondeu muito encolhido. E assim que o commandante do es- quadrão se approximou, perguntei-lhe se o esquadrão tinha sof- frido baixas. Gomo me respondesse negativamente, voltei me para o tal official e intimei-o a ir immediatamente equipar-se, tirar o seu cavailo da cavallariça do Coilegio Militar e tomar o seu logar no esquadrão, avisando o de que o fuzilaria se elle pensasse em fugir outra vez. Esse valente official estava escon- dido no Coilegio Militar desde pela manhã. E outros, e ou- tros! ...»
Ainda Martins de Lima, reerguendo o caso, diria, (**) em carta datada de S. Thomé, em 15 de Dezembro de io,loe diri- gida ao «Correio da Manhã»: (8 de Janeiro de ig í i):
«Sr. Joaquim Leitão «Acabo de ler no «Correio da Manhã» a nossa entrevista ácêrca da revolução.
(*) Diário dos Vencidos por Joaquim Leitão.=Pagina 221. (**) «Diário dos Vencidos» por Joaquim Leitão. — Documentos a pagi- nas 331.
▼ol. iv — fl. 4
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«O que ali está escripto é como V. diz, a reproducção tex- tual das minhas palavras, mas ha umas supressões que eu de- sejo sejam reparadas pela publicação d'esta carta, afim de evitar suspeitas immerecidas e para que o paiz conheça os nomes de cidadãos com que não pode contar em circumstancia alguma.
aO alferes do 2.0 esquadrão da Guarda Municipal que eu encontrei «homisiado» no Collegio Militar e que pretendeu im- pudicamente explicar-me a sua presença ali com um tremendo e pavoroso carapetão, chama-se João Justino Moraes Teixeira e tem 27 annos.
«Um aspirante de lanceiros 2 que quando lhe cheirou a pólvora, ou até mesmo antes de lhe cheirar, abandonou o seu regimento e n'um bello galope de corrida recolheu prudente- mente ao quartel da sua unidade, chama-se Iilydio Marinho Falcão, tem 26 annos e foi injustamente esquecido por V.
aO seu a seu dono sr. Leitão, não tiremos a gloria a esses dois mancebos, que tudo leva a crer terão longos annos de vi- da, e não me prive V. do prazer de apresental-os aos officíaes da arma a que eu e elles pertencemos, para que lhes liguem a consideração a que teem direito, para que de futuro sejam em- pregados no serviço de communicaçÕes rápidas para longe do perigo (especialidade que não abunda em o nosso exercito) e fi- nalmente para que mais tarde não consigam fazer-se passar por republicanos «de sempre», que na primeira opportunidade se passaram para as aleiras revolucionarias onde praticaram pro- dígios de heroicidade.»
Por seu turno, o alvejado esclareceu (♦) assim o incidente e sem que conhecida refutação tivesse:
«Elvas, 9 de Janeiro de 1 9 1 1. - — Sr. Joaquim Leitão. — Tendo lido no seu jornal d'hontem, sob a designação «Diário dos Vencidos», referencias ao meu nome, rogo a V. Ex.a se di- gne publicar esta minha carta, que é a reproducção dos factos comigo passados, a que as mesmas alludem.
«O meu esquadrão sahiu do quartel, afim de ir guardar a residência do sr. Presidente do conselho de ministros, no Largo
(#) Livro citado.— Documentos a paginas 343.
A. REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 27
de S. Sebastião da Pedreira, onde se conservou até ás 1 2 horas e meia do dia 4 de Outubro.
1 A esta hora mandou o mesmo ex.m0 sr. fornecer ás praças pão e queijo, tendo previamente o commandante do esquadrão mandado apear os officiaes e algumas praças, indo nós para jun- to da porta da residência e ficando os cavallos junto é egreja.
«Toda a noite e manhã soou ali a artilharia, porém a esta hora, houve uma detonação mais próxima, da qual resultou a maioria dos cavallos, já dos montados, já dos outros, dispersa- rem a galope por uma travessa, tomando o meu a direcção do hospital do Rego, indo no seu encalço eu a pé e um soldado a cavallo, tendo sido este soldado quem m'o apanhou. Montei e toram baldados os exforços para me juntar ao esquadrão, pois não consegui descobrir a direcção que tomou, nem o local em que se reformou, sabendo apenas que retirou do local em que estava.
«N'estas circumstancias, ignorando o que se estava passan- do e não achando prudente metter-me á aventura com o solda- do que me acompanhava, em busca do esquadrão, resolvi ir ao Collegio Militar que sabia possuir telephone, para por este meio communicar ao Quartel do Carmo o que se passava e saber on- de me deveria apresentar ou juntar ao esquadrão. Porém, che- gado ali, dirigindo-me ao telephone não consegui o meu propó- sito, por este ter apenas ligação por artilharia n.° i,que respon- dendo não me deu a communicação pedida.
«N'esta occasião voltei para junto d'alguns officiaes, pen- sando qual a resolução a tomar, vendo então por uma janella o snr. capitão Martins de Lima junto ao portão do Collegio. Sahi- mos ao pateo e dirigimo-nos a elle, sendo eu o segundo a tal- larlhe e trocando-se então, diante do ex.mo Sub-Director as se- guintes palavras: «Capitão, dá-me noticias do meu esquadrão, que dispersou?. . . » atalhou o snr. capitão, interrompendo-me : «o seu esquadrão venho-o eu commandando;» retorqui : «o do snr. capitão Segurado? respondeu: «sim, vem ahi.» «Então vou montar a cavallo.» Fui dentro do Collegio buscar a pistola e o capacete, mandaram-me buscar o cavallo, montei, juntei-me ao esquadrão e com elle estive até á proclamação da republica sem
ARMANDO RIBEIRO
mais ter visto o snr. capitão Martins de Lima. Sobre todos os outros factos, dirão os officiaes e praças da minha unidade, pois cumpri escrupulosamente o meu dever e todos os serviços de que íui encarregado. Creia v. ex.a que lhe sou muito grato pela publicação d*esta e sou com toda a consideração de v. ex.* — João Justino de Moraes Teixeira — alferes de cav.V
Todavia, correlações se notam entre os casos citados pelo ca- pitão Martins de Lima e algumas phrases do alferes Moraes Teixeira.
Assim, vemos este official sem capacete e sem pistola de ordenança, em período de patente revolução.
Por seu turno, a força do capitão Júlio César dos Santos Se- gurado, sobresaltada apenas ao estoirar das três granadas perto da casa do conselheiro Teixeira de Sousa, só d'ali retirou quan- do o chefe do governo já se encontrava no quartel general, vin- do para o Rocio.
Nenhuma baixa teee até esse instante, e apenas posteriormente um se assignala, e em contrario mesmo á estatistica do conse- lheiro Teixeira de Sousa. (*) que aponta o 2.0 esquadrão como illeso.
Não é bem assim, pois attingído foi o i.° cabo 32, José Vi- ctorino Leitão, (-•) que recolheu á i,a enfermaria do hospital do Rego, d'onde transitou para o hospital de S. José.
Desculpáveis são todavia essas omissões por absoluta im- possibilidade de se formar um cadastro completo, mercê de circumstancias varias, desde os erros do registo até aos enterra- mentos clandestinos.
E* certo que ainda boatos trágicos auxiliaram a presum- pçao do alteres, vindo ellesá imprensa, (***) no dia seguinte, sob cathegorica fórtna :
«A's 3 e meia da tarde bombardeou-se a casa do presidente do conselho. Um capitão da guarda municipal, que commanda-
(*) Para a Historia da Revolução —Pagina 450
(**) Diário de Noticias de 5 de outubro de 1910.=Celestino Steffanina, a pagioa 241 do seu livro Subsídios para a Hiftoria da Revolução de 5 de outubro de 1910, aponta o como ferido por granada em Sete Rios.
(***) «O Século» de 5 de Outubro de 1910.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 29
va o pelotão de guarda á casa do sr. Teixeira de Sousa, ao fazer o reconhecimento á Rotunda da Avenida, foi morto pelos revol- tosos.»
Ulibados d'essa morte, a do capitão Júlio César dos Santos Segurado, de lacto estão os insurrectos.
Fez elle parte da columna do general Carvalhal que íoi até aos altos da Penitenciaria e assignala-o, o capitão Martins de Lima, a pagina 221 do livro de Joaquim Leitão, Diart o dos Vencidos.
Quanto ás communicaçÕes telephonicas para verídico infor- me dos successos, não eram difficeis de obter, embora se note que se o coronel Alfredo de Albuquerque e o alteres Teixeira as afir- mam impossíveis, embaraços não teve o general Carvalhal, tro- cando impressões com o commando de divisão e este com o seu delegado aos altos da Penitenciaria*
Foi assim pelo telephone do Jardim Zoológico, local donde o commandante de lanceiros não conseguiu fallar para o quar- tel general, que o tenente-coronel Garcia Guerreiro obteve do mesmo quartel a ordem de regresso a Lisboa.
Não impende á Historia a obrigatoriedade de formular opi- nião, quando a própria a extranheza dos factos, se incumbe de lhe estabelecer o definitivo aspecto.
Se o pleonasmo é o escusado na phraseologia, o querer que mais forte luz incida sobre successos que de si luminoso rasto espalham, equivaleria a formar o vácuo onde terreno firme existe para conclusões irrefutáveis.
O alferes João Justino de Moraes Teixeira reoccupou pois o seu posto no 2.0 esquadrão da guarda municipal, recemche- gado ao largo da Luz.
Ali se eôectuára a juncçao da força do general António Carvalhal da Silveira Telles de Carvalho, com as do coronel Alfredo de Albuquerque.
Já este fora entretanto prevenido pelo tenente do seu regi- mento, Estevão Wanzeiler, da informação que recebera, pelo coronel de engenharia António Luiz Theophilo de Araújo Wad- dington, de haver D. Manuel II seguido para a villa de Mafra, com modesto grupo de dignitários :
ARMANDO RIBEIRO
— «Meu coronel ! acabo de me avistar com o António Wad- dington, que me disse para communicar a V. Ex.a que ficasse descançado com respeito a Sua Magestade El Rei por isso que já seguiuu, sem novidade, em automóvel, em direcção a Ma- fra para onde elle e o Vellez Caldeira iam também.»
A columna não o soube.
Julgou-se útil manter o segredo, visto o acto real poder in- duzir a um desfallecimento das praças.
Estas, já a contas estavam com o pão existente no Collegio Militar e em algumas padarias de Bemfica e em tão pequena quantidade que os officiaes mantiveram o forçado jejum.
Mais aptos depois para seguir a marcha fizeram caminho, por Telheiras, até ao Campo Grande.
Deparava-se ali, inerme, uma companhia de infantaria da guarda fiscal.
O então chefe da columna, sem sequer inquirir das causas do seu estacionamento ali e até pesquisar se pela monarchia era ou contra ella, proseguiu a marcha, não cuidando em detenças.
Serviriam comtudo para o encontro do pelotão da guarda municipal do commando do tenente Raul de Menezes, subordi- nado do capitão Prego, que, tendo deixado, por dispensa, o rei D. Manuel na estrada da Pimenteira, resolveu ir a Monsanto receber ordens. *
Alcançando com risco, a serra, era mandado ir á Luz e d*ah por indicação ao Campo Crande para encontro com as outras forças mas não as achando, optava pela retirada sob o quar- tel general, detendose no caminho, no quartel do Cabeço de Bola, para dar agua e ração aos cavallos.
A esse tempo já as tropas deixando apoz si o Campo Grande, tomavam por Arroyos, largo do Leão, Intendente, Rua Nova da Palma, e Travessa de S. Domingos, até ao Rocio, onde ingres- savam ás 6 horas e meia da tarde? emquanto as poucas praças de infantaria 2, sob o commando do coronel António Augusto de Sousa Bessa, dando intrincada volta, iam pela Serra de Monsanto com destino ao quartel de infantaria 1, em Belém, quando o ponto de convergência devia de ser a praça de D. Pe- dro.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 31
O general Carvalhal exporia assim n'uma entrevista as cau- sas para o acto allegadas:
— «E infantaria 2, ia também tazendo parte da columna?
— «Estavam algumas praças dispersas, que o coronel Bes- sa reuniu, seguindo pela Serra de Monsanto, em direcção ao quartel de infantaria I, devido á impossibilidade que havia em nos acompanhar.»
Essa dita impossibilidade, era melhor explicada por Macha- do Santos, dizendo que «parte do regimento, completamente desmoralisada, foi alojar-se no quartel de infantaria 1, em Be- lém.» (*)
Era o que restava do mesmo assim rasoavel numero apre- sentado para entrave á revolta; 3oo praças, segundo o coro- nel Alfredo Albuquerque, e 265 segundo o presidente do con- selho, António Teixeira de Sousa.
Deu se portanto essa divisão de forças.
Em qualquer outra cirrumstancia não teria os foros de banalidade com que foi acatada.
Tido como fiel o resto do dois de infantaria, cumpria-lhe seguir a marcha do núcleo geral; considerado suspeito, devia ser-lhe aggregado, como meio de evitar a sua juncção aos insur- rectos e como necessidade de a vigilância o submetter.
A recusa de acompanhamento da tropa de regresso a Lis- boa, seria incomprehensivel, desde que havia ali um superior, um official general, com poderes ainda do commando da divi- são.
Talvez até necessidade tivesse este das praças de infantaria para qualquer plano e ante isto apenas pelo quartel supremo se obteria a oídem de regresso á sede regimental, de recolha em qualquer outro aquartellamento ou de união os núcleos mais fortes para investida ou simples defesa.
Mas, longe de tudo se apresentar aos dirigentes da colum- na, sem reparar passou esse fraccionamento, a caminhada da infantaria para Belém, quando melhor passagem tinha para o Rocio, e com mais seguro appoio.
(*) Relatório de Machado Santos=Pagina 135.
32
ARMANDO RIBEIRO
Era sempre uma vontade invisível, a orientar acontecimen- tos, evidenciando o inútil de canceiras em prol da causa entre- gue a descuidados causidicos, e de pouco affan, não tanto em desapego do pleito, mas por eivados de sonhos de rosas que nem o tempo de Molherbc duraram.
Desfolharamnas os dedos gélidos da realidade fatídica.
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XXII
O ataque das baterias
No quartel general — Lance de desorientação — A' mercê de boatos — >\ confirmação da retirada — Falsas novas — Do Rocio ao Quartel do Carmo — Nocturnas prevenções.
columna ao commando do general António Carvalhal da Silveira Telles de Carvalho, che- gava, perto da noite, ao largo de S. Domingo», para em relatório summario perturbar ainda mais o scenario desnorteante observado no an- tigo palácio dos condes de Almada.
Nem uma única vez o quartel general dei- xou o aspecto singular de um enervamento cm guerreira ma- téria.
Os incessantes boatos de revolta próxima, as contínuas pre- venções, justificadas algumas com os abortados movimentos, os avisos do extrangeiro, e a semi-descoberta da engrenagem das sociedades secretas desvendando o fim de uma implantação de- mocrática, não haviam íeito com que á base rudimentar de se- cretaria se seguisse a perfeita technia de combate.
Assim, a braços com simples elementos de forma, não se podiam obter concretisaç5es de repressão. Era o cahos a for- mar se a cada esboço de desejo de remediar passados erros. A visão, o todo hypothetico, cederam o logar a um conjuncto
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uniforme, de realidades, em maioria oppostas ao estudado pre- viscionismo.
O plano destruidor da sedição falhara e tarde era para o re- construir sob as bases solidas das circumstancias apresentadas.
Extranho espectáculo esse !
Registando se boatos de revolta quasi todos os dias, re- pletos de planos repressores os archivos militares, n'essa hora suprema e dolorosa, n'essa questão de vida ou de morte para a realeza e seus raros deflensores, os officiaes, deixavam se vencer pelo terror e se as ordens mal cuidadas iam servir os revoltosos, asattitudes desorientadas, desmundavam os próprios que alguma cousa de útil podiam fazer.
O quartel general apresentou o aspecto deficiente de uma caserna de soldados inexperientes onde a maioria dos membros do governo, como se tacitamente manobrassem com os rebelíio- narios, conduziam ao desanimo e auxiliavam o derruir de to das as defesas.
O velho governador de Timor, coronel José Celestino da Silva, já bradara, irado, por um commando.
Mas quem sabia, n'esse período desastroso, reunir elemen- tos de confiança para esse fim ?
Celestino da Silva, foi ali um dedicado quando podia ter sido um descontente irredutível
Achámol-o (*) dois annos antes, em julho de 1908, em aberta hostilidade contra uma determinação ministerial.
O coronel José Celestino da Silva, em julho de 1908, desprestigiado pela exoneração do cargo de governador de Ti- mor, que exerceu durante 15 annos, e substituído pelo heroe do Cuamato, capitão Eduardo Marques, recusára-se, a fazer en- trega do posto.
Determinou-se até a sahida de Moçambique para ali, de uma força de landins, resultando d'isso a entrega do governo, interinamente, ao capitão de artilharia Jayme Augusto Vieira da Rocha. (*)
(*) Citado o assumpto, a paginas 259 da nossa obra O começo de um rei- nado.
(*) Em agosto de 1013, ainda capitão foi nomeado sub-director da fa- brica de pólvora negra em Barcarena.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 35
A questão erguida no parlamento pelo deputado Moreira de Almeida, era desmentida pelo ministro da marinhaj conselheiro Augusto Vidal de Castello Barreto e Noronha, (*) não obstante o que uma syndicancia loí determinada.
Celestino da Silva, não era nem podia ser suspeito de re- publicano.
Bastos ataques d'elles soffrera, com base na lorma ríspida com que mantivera entre terres no degredo de Timor, alguns dos democratas para ali enviados em virtude de haverem cahi* do na alçada da lei de 1 3 de íevereiro de 1 896.
Teve pois a recusa de um commando, e de um notável posto de combate esse vulto de devotado á monarrhia de Portugal, e que poucas mezes na terra se conservou, á sua queda. (**)
Outros, sorrindo, simulavam indecisões, mas para dar alen- tos aos combatentes pela republica? folgando com todo esse alar- me teito, exultando com a gigantesca contorversia de boatos, fazendo alastrar o desasocego para que o terror completasse a obra que as balas haviam iniciado, pelo lançar ao gélido abraço da morte dos dispostos á defesa realenga.
Novos quadros, flagrantes, vividos, íoram surgindo, a que- rer evidenciar o todo, nada banal d'essa tarde de revolta no quartel-arbitro dos embaraços a oppôr á consummação de um ataque ao regimen dynastico.
A' paisana, o heroe das campanhas d'Africa, e dias antes exonerado de commandante da 2a brigada de infantaria, gene- ral José Júlio de Sousa Machado, manteve-se na inactividade, sob invocação de se encontrar em commissao de serviço, cousa alguma tendo com os serviços de guerra :
Na sua relação — analyse dos actos de diversos officiaes, assim o affirma (***) o coronel Alfredo de Albuquerque:
«2.a brigada — commandante, António Júlio de Sousa Ma- chado. Situação : — Esteve no Quartel General á paisana. Sua acção:
(*) Falleceu a 30 de março de 1912.
{** > Falleceu a 10 de março de 1911.
(+**) Os Cem Dias Funestes, por Joaquim Leitão Pagina c'òõ.
36 ARMANDO RIBEIRO
«Se se perguntava o motivo porque o general Sousa Ma- chado não saía da inacção em que se encontrava para tomar um commando, respondia-se que elle estava em uma commis- são de serviço e por isso não devia ser utilizado.»
Era certa a arguição, reproduzida ainda do volume II pagi- na 456 da obra «Para a Historia da Revoluçao> de auctoria do conselheiro Teixeira de Sousa.
Apenas um erro houve: o da attribuição do commando da 2a brigada de infantaria, e que, apontado pelo general Sousa Ma- chado, teve o seguinte remediar de indicações : (*)
«Agradeço muito a v. a fineza de publicar esta copia de uma carta que n*esta data remetto ao meu illustre e antigo ca- marada ex.mo sr. António Júlio de Sousa Machado:
«Paris, 11, rue François Ponsard, 2 de dezembro de I9I2.
«Ex.mo sr. António Júlio de Sousa Machado — Accuso a attenciosa carta de v. ex.a, de 27 do passado novembro, em que v. ex.a notou um erro de facto, a seu respeito, na entrevista que sobre a parte militar de 5 de outubro concedi ao ex.mo sr. Joa- quim Leitão para o seu livro eOs Cem Dias Funestos».
«Tem v. ex.a razão: eu dou v. ex.a como commandante da 2.a brigada e v. ex.a foi exonerado do commando da referida brigada pela Ordem do Exercito n.° 23 de 26 de setembro de 1910, isto é, oito dias antes da revolução.
«Reconheço a inexactidão, mas v. ex.a acreditará que eu bó agora, pela carta de v. ex.a, sei que a 2.a brigada não estava sob o seu commando á data do movimento revolucionário de outubro de 19 IO.
«Embora v. ex.a m'o não peça e haja tido a correcção de o não fazer, eu vou n'esta mesma data rectificar este involuntário erro de facto, pedindo licença a v. ex.a para communicar esta mesma carta á imprensa,
«Dentro d'uma contrariedade d'estas, a única consolação é accusarmos-nos nós mesmo e rectificarmos-nos nós mesmos.
«Incapaz de retirar uma verdade, sou egualmente incapaz de teimar n'um erro, fosse elle affectar um desconhecido ou um an-
(*) O Dia de 10 de Dezembro de 1912.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 37
antigo illustre camarada como v. ex.8. — De v. ex.a, antigo ca- marada, att.° e ven.0^ — Alfredo de Albuquerque.»
Mantida e evidenciada apparece assim essa nova recusa de entrega do commando a um official, sobre quem não podiam pesar suspeitas de adverso ao regimen.
Por seu turno, excluídas estavam egualmente quaesquer duvidas acerca da boa execução do mandato que porventura lhe fosse confiada.
Certo é porém que o general Sousa Machado, não teve lo- gar de ataque no desenrolado drama da outubrina revolução.
Não entrou na attitude o receio.
Os seus sessenta e um annos (*) não haviam chegado sem conhecimento das luctas em Africa,
Fizera parte da expedição a Moçambique e o gentio de Coo- lella, ferindo o no braço esquerdo, deu-lhe o baptismo de san- gue em combate.
Segurando o braço com a mão direita, se manteve no seu posto, dando as vozes de commando á força de caçadores 3.
Depois rasgara ainda caminho até Manjacaze, envolvendo- se também na aureola gloriosa que coroou os «officiaes de Aírica»
Era de familia essa firmeza em guerra, e o pae, Thimotheo de Sousa Machado, notável se tornara egualmente, como cade- te dos chamados Dragões de Chaves nas campanhas da península.
Como fé monarchica, deveria erguer se-lhe no espírito, a re- cordação d'essa scena predecessora da partida para os sertões inhospitos, em que D. Carlos I, brindando o então capitão Sou- sa Machado, com uma rica espingarda, pronunciou a phrase his- tórica:
— «Acceitaa, e estou certo que com ella honrarás o teu nome e o nome do teu paiz!»
E a victoria engrinaldou o distinguido pelo assassinado de fevereiro de 1908, authenticando-lhe a prophecia.
O general Sousa Machado, como o coronel Celestino da Silva, não teve assim ensejo de, n'essas primeiras horas de
(*) Nasceu em Vidago em 1849.
ARMANDO KIBEIKO
sedição, se esquivar á mephitica atmosphera do commando su- perior, traçando em deíeza do filho de D. Carlos I, uma pagina grande da historia dos devotados á realeza.
Consistiria na certeira pontaria feita, em pro! de D. Ma- nuel II, com a arma histórica, que o pae lhe entregara, como se entrevendo n'um esboço telepathico, o desespero do seu des- cendente, a braços apenas com mediocre numero de dedicados, lhe quizesse dadivar uma arma para deíeza do filho, á lem- brança do seu dador. . .
Mas, como agir, como evocar lances gratos, ao ••edemoinho nas revoltas de uma desorientação?!. . .
O serviço de iníormaçÕes canalisava se para o quartel gene* ral pelas linhas revoltadas.
D'ahi as novas lalsas, ou traduzindo optimismos para que os júbilos fizessem suspender ideias repressivas ou exalçando feitos sediciosos para que o temor os fizesse recuar.
O acto do combate das baterias teve repercuçoes varias.
Dada artilharia 1 como tendo tido o castigo do seu arrojo, attribuiu-selhe uma retirada sobre o Campo Grande, onde novo desaire sofírera, graças á intervenção de 400 praças da guarda fiscal.
De facto, a guarda ali se encontrava, mas sem o proclamado etlectivo e ainda n'uma espectativa manifesta, de auxilio aos reivindicadores da republica em Portugal.
N'aquelle ponto a achou o general Carvalhal, que nem de leve se recordou de inquirir das suas tuncçÕes ali.
Quanto á artilharia operando a retirada sobre o Campo, era não a da Rotunda, mas a de Queluz, forçada a uma intran- sigência, quando até aos lances últimos disposta estava.
Recebendo a falsa noticia, o general Manuel Raphael Gor- jao, corria a trasmittil-a ao presidente do ministério, annuncian- do lhe, com parabéns, que o acampamento da Rotunda fora dominado e ainda o avanço das íorças victoriosas pela Avenida.
A KEVOLUÇAO PORTUGUEZA â&
A entrada do dr. Henrique de Mello Archer e Silva, de re- gresso de acompanhar a casa de um tio a esposa do chete do go- verno, tirou essas illusorias esperanças.
Desmentindo-as, ante o pasmo do commandante da divisão, e com o testemunho de que pouco antes perto passara, havendo notado externamente o contentamento de quem vencedor se re- conhecia,— derrubou esse inicio de extemporânea alegria.
Todavia, não deixaram de se collocar de reserva as más noticias, sendo as julgadas boas logo communicadas pelo con- selheiro Teixeira de Sousa ao director geral dos correios e tele- graphos, conselheiro Altredc Pereira e ao governador do Banco de Portugal, conselheiro José Adolpho de Mello e Sousa.
Antes de reconhecido o erro, mas num rebate de alma do dr. Archer e Silva era sollicitado o encargo alto de, para con- gregação de novas forças, as das Necessidades, ir ao paço como delegado do governo.
Ali deveria declinar o voto d'este, para que D. Manuel II abandonasse o palácio trocando o por Queluz ou Mafra, mas sem que ao monarcha se vislumbrassem perigos de momento.
Indicado era ao deputado, para expor no paço, o itenerario da partida real, pelo Arco do Carvalhão, com escolta de caval- laria, e ahi por seguro caminho, para o ponto que melhor se lhe afligurasse.
O dr. Archer e Silva, á dupla citação do locai, quiz saber opiniões no caso que D. Manuel II quizesse ir para o Porto.
O chefe do ministério, n'um lampejo rápido de desorienta- do, teve a recusa terminante, a pretexto de que isso representa- va a guerra civil, como se outra cousa não fosse a lucta travada nas ruas de Lisboa.
Não deixou de ter desmentido essa phase histórica do quar- tel general, repudiada pelo conselheiro Teixeira de Sousa como sem bases.
Certo é porém que ella foi mantida (*) e ainda com o por- menor de haver sido secundada a pergunta do dr. Archer e
(*) Joaquim Leitão— «Diário dcs Veucidoe», paginas l95-198.=Vidé o 3.- volume d'esta nossa obra, pagina 678, onde largamente versado está o
assumpto.
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Silva cem proposta «por um homem de coragem comprovadís- sima :»
— «Se quer que El Rei vá para o Porto, eu comprometto- me a pôl o lá, sem perigo algum, mas ha-de ir sósinho commi- go, n'um automóvel.»
Attribuida fora a intenção, mas não provada devidamente, ao conselheiro José de Azevedo, registando-se todavia que só no íacto de ser apenas necessária a ida ao paço o deputado, o mi- nistro dos negócios estrangeiros desistiu de ir para junto de D. Manuel.
Ao delegado do presidente do ministério deviam porém ser conferidos poderes em forma e meios de livre transito pelas ruas onde formavam as tropas, aliás mais exigentes á passagem de emissários monarchicos do que à de devotados á democracia, percorrendo quasi sempre em paz os arruamentos.
Emquanto se escrevia um cartão com poderes discrecio- narios, e talvez ante os exaggerados receios pelo Porto, dechete do governo e do aspecto pouco tranquillisador do quartel-gene- ral, o conselheiro José de Azevedo Castello Branco, levando até uma das janellas, o enviado de confiança, disse-lhe, apertando- lhe a mão :
— Que vergonha, Archer, que vergonha!
Redigido o pleno-poder, seguia o deputado para as Necessi- dades, onde não encontraria já D. Manuel, mercê d'esse semi- abandono a que votado fora.
Ignorando esse facto, o emissário especial sahiu do edifí- cio do commando superior, não assistindo ao confirmar das contrariedades impostas ao optimismo do general Gorjão. Já então se sabia a tomada da corveta cMindello».
Fira um novo 8vanço da revolta.
A chegada das baterias, de regresso do infausto lance da Penitenciaria, cortou todas as illus5es.
O projecto tivera derrocada.
Reconhecido foi, todavia, que d'isso culpa não possuía a artilharia de Queluz.
Chegando ao Rocio, Paiva Couceiro, era enthusiasticamente recebido pelo chefe de estado maior, coronel José Joaquim de
A REVOLUÇÃO PORTUGUKZA 41
Castro, que lhe apertava a mão, entre louvores justos, e não es- quecendo os officiaes que com elle haviam trabalhado.
Eram merecidas e Machado Santos, lhes dava razão, mais tarde dizendo :
«As baterias de Queluz, foram o inimigo mais serio com que tive de me haver na Rotunda, commandada por Paiva Couceiro» (*)
Quanto ao chete do governo, espelharia a sua opinião (»♦) na phrase histórica:
— «O Paiva Couceiro não gosta de mim. Mas a verdade nada m'a fará occultar. Foi uma figura, uma grande figura, no meio d'isto tudo, o Couceiro!»
Não toi excessivo esse apreciar.
Na derrocada, íoi elle quasi o único a de pé ficar
Ao regresso da columna a que fora commettido o encargo de avassallar a Rotunda, os espíritos perturbaram se mais.
As campainhas telephonicas retinindo, indicavam commu- nicaçoes a receber ou solicitadas.
Era o ultimo caso.
O coronel Fillippe Malaquias de Lemos, insistia em que- rer participação do resultado das tentativas das baterias.
Lograva emfim conhecel-o, apoz largas contradicções que elle assignalou no seu relatório posthumo:
«Entretanto, a manhã ia decorrendo sem que cessasse o fogo de artilharia da Rotunda em direcção sul, até que pelo meio dia ou uma hora da tarde se iniciou no alto da Avenida, o combate entre as dnas artilharias.
«Procurando informar-me do seguimento d'este combate, por varias vezes telephonei para o quartel general, obtendo com dificuldade respostas contradictorias de dífferentes pessoas cujas vozes me eram desconhecidas, até que finalmente, pelo coronel Seabra de Lacerda consegui saber que o ataque á Rotunda não obtivera êxito.»
A esse tempo, na sala dos officiaes, o capitão Martins de
(*) Relatorio=Pag'ma. 141.
(**) A Capital de 17 do outubro de 1910.
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Lima, apreciando exaltado a fuga de infantaria 2, dos serven- tes de artilharia e o distanciar dos lanceircs reproduzia, sem o saber, a phrase do conselheiro José de Azevedo:
— Que vergonha ! E como remate:
— Debandar como uma nuvem de pássaros quando ouvem uma descarga!
Comtudo, ali mesmo, e n'uns previstos lances amargos, onde a vida a seguro se quizesse pôr, não menos singular alti- tude fora assumida pelos graduados.
Expunha-a um official, o coronel ChrLstovão Adoipho Ri- beiro da Fonseca e affirmou-a, elucidando-a melhor, o segundo sargento reformado António Eduardo Fastagio:
«O sr. coronel Fonseca, na narrativa que publicou no «Sé- culo», diz que julgou, por certos factos, que no quartel general na hora cm que lá entrou o desalento, se chegou a encarar a possibilidade de uma sahida precipitada. Não se enganou nas suas disposições, o distincto official. E eu, que fui testemunha presencial do que ali occorreu, posso affirmar que de facto, não só se pensou em retirar, no caso do quartel ser assaltado, come até, para esse fim, se fizeram os necessários preparativos, Abriu«se uma porta que ha muito estava murada e que dava serventia para o pateo do Salema; tentou-se abrir um alçapão e fazer uma bar- ricada, e colheram-se informações para saber quaes as casas próximas em que se poderia recolher o ministério e mais pes- soal. Logo que a tal porta ficou aberta de todo, e assim garan- tida a retirada, a oficialidade foi para junto dos ministros, es- perar os acontecimentos, ficando apenas junto das secretarias al- guns officiaes da administração militar, que de nada tinham sido avisados. Esses officiaes como notaram a ausência de ou- tros seus collegas, censuraram asperamente o abandono em que os deixaram, dizendolhes eu, n'essa cecasião, que estivessem descançados, porque a dar-se o assalto ao quartel, eu bem sabia por onde a fuga estava planeada. Não calcula, sr. redactor a ale- gria que as minhas palavras produziram. Um dos officiaes pe- gando-me n'um braço, pediu-me que lhe ensinasse o caminho que deveriam seguir, o que fiz, conduzindo-o até um corredor,
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guardado, a esse tempo, por dois impedidos, que ali faziam serviço de sentinella. Por tudo isto se vê, sr. redactor, que, na verdade, no Quartel General, esteve preparada a íuga dos que ali estavam e. se ella não se realisou, isso se deve simplesmente ao facto do quartel não ter sido assaltado. . . Confiado em que esta minha carta, confirmando as supposiçoes do sr. coronel Fonseca, ajudará um pouco a fazer a verdadeira historia da re- volução, subscrevorne de v. ex.a — António Eduardo Faatagio, se- gundo sargento reícrmado e continuo do quartel general.» (*)
Não teria sido extranho a esse edificante systhema preventi- vo, o constante aproveitar, pelos elementos democráticos, de to- das as bellas occasioes para propaganda tendente a desconcertar o espirito militar.
Actuando livremente, esses elementos desde logo desenvol- veram os seus manejos ao perturbado regresso das baterias, e, emquanto os summarios relatos da officialidade impunham, sem o saber, uma situação de pouco banal aspecto, externamente, a carbonária, em directo convívio com os núcleos presumidos de- fensores da realeza, prestaram-lhe, a bel prazer, pormenores des- norteantes e perturbantes.
Utiíisada foi para a propaganda a favor da revolta, pelo traçar dos quadros soberbos da posição da Rotunda, a estada de cavallaria 2, no Rocio.
O revolucionário, commerciante da travessa de S. Domingos, José Augusto dos Santos, (**) incumbiuse de, sob o aspecto de amigáveis conselhos espalhar o desanimo nas forças fieis do Rocio.
Passando junto dos officiaes de cavallaria 2, dizia-lhes :
— Eu não sei o que v. ex as estão aqui a fazer, porque eu venho da Rotunda e sei bem como tudo está e sei também que d'aqui a pouco desembarcam os marinheiros com as metralha- doras e decerto que morreremos aqui todos.
Anciosos de alliviar nostalgias, tido o informador como pre- ciosa mina de esclarecimentos, e sem que uma suspeita nascesse
(*) «O Século de 29 de Dezembro de 1910.
(**) Já citamos a sua acção nas primeiras phases da revolta, a paginas 188 do 3.° volume d'esta obra.
U ARMANDO RIBEIRO
sobre as intenções do popular, aliás extranhaveis, n'essa hora pe- rigosa, o coronel de cavallaria o acompanhava ao quartel general, onde o carbonário descrevia rocambolescamente o municiamento dos revoltosos:
Peças assestadas para a Avenida, 3; para o Conde Re- dondo 3, peças para a Avenida Fontes Pereira de Mello, 3; pe- ças para o Rato, 2, peças para as Terras, 3; peças ao longo da Feira de Agosto, 4. Os armões, dizia-os cheios de munições e junto de cada peça, innumeras granadas. Lá dentro, disse actuar I4 a 1 5:ooo civis bem armados.
A* lendária descripção curvaram os officiaes monarchicos, a cabeça, sob o iionico sorriso do general Carvalhal aôecto á re- volução, envolvendo n*um approvar secreto os informes do re- volucionário e n'uma atmosphera de riso o aterrorisado núcleo dos agaloados, que, como commandante de divisão, general Gor- jão, á frente, cahiram n'esse logro, demonstrando não só desconhe- cimento do numero de peças existentes em artilharia 1, sabido único adherente d'essa arma, como a impossibilidade de mano- brar na Rotunda, com um tão phantastico efíectivo de revolto- sos.
A boa disposição do commandante de biigada de cavalla- ria, não passou despercebida ao revolucionário Augusto dos Santos:
«Junto do general que me interrogava, que era o sr. Gor- jão estava um outro general que me pareceu ser o sr. Carva- lhal, no qual percebi bem a satisfação que tinha ao ouvir as minhas declarações.»
Essa attitude seria singular, se não a desnudasse á victo- ria ganha, um jornal republicano redigido por revolucionários, escrevendo assim: (*)
a A' frente da primeira divisão militar e exercendo logo o governo da cidade, está um homem que é preciso arrancar á sua inquebrantável modéstia. Temos de o applaudir pela sua obra, que tem sido d'uma energia rara, d'uma energia magniâ-
(*) A Republica Porluqueza.— Anuo I=Numero 1, de 13 de Outubro de 1910.
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ct} n'um momento em que a sua missão de governador militar de Lisboa era espinhosa e difficil. Essa missão tem na desem- penhado com bom senso e com mai vigorosa. Velho liberal perseguido por vezes pelas suas ideias democráticas, encontrou-se bem dentro da Revolução. Detestava o passado onde a sua rija tempera de combatente, que se não dobra a subserviencias, ti- nha de retrahir-se. Agora, velho pelos annos, mas sempre novo na sua alma ardente e enthusiastica por todos os ideaes da Jus- tiça e da Liberdade, — o general António Carvalhal pode e de- ve ser um dos grandes cooperadores da Republica.»
Era a explicação e a justificação dos aspectos assignalados de pouca surpreza á derrocada nos altos da Penitenciaria e do jubilo á descripção do revolucionário conduzido ao quartel ge- neral.
Só os ministros dos estrangeiros, José de Azevedo Castello Branco e das obras publicas, José Gonçalves Pereira dos San- tos, apparecendo n'aquelle instante, decortinaram o erro, o laço? mas a technica militar abafara lhes o derrubar da lenda, de- mais, sendo profano o primeiro em táctica e conhecimentos miiitares, o que não excluía o conhecimento do destrinçar dos negócios de diplomacia, onde a argúcia vence por vezes o di- reito. . .
Mas, a despeito da suspeita mentira das declarações, a astúcia avigorouse ante a complacência.
O informador, n'esse periodo de agitação e onde nenhum elemento devia ser desprezado e toda a desconfiança pouca, sa- hia do quartel general e sem que seguido fosse, ia á Rotunda d'onde antes viera para a sua missão, e antes de pegar na cara- bina, relatava a situação interna do quartel general.
Não assistiu todavia ao drama de desfallecimento e de inér- cia que se ia dar.
Entretanto o coronel Alfredo Albuquerque, aguardava ordens no Rocio, á frente dos Ianceiros.
Transmittia-as o general Carvalhal, preceituando a recolha ao quartel do Carmo, sede do commando da guarda municipal, para trato das praças e dos cavallos) e indicando que determi- nações telephonicas ihe seriam dadas.
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Lanceiros 2, apoz esse ligeiro estacionamento ali, marchava pois, tendo que atravessar locaes perigosos era plena escuri- dão, até ingresssar no quartel da guarda municipal, não sem que o tenente Estevão Wanzeller e Silveira Ramos se ofere- cessem ao coronel Alfredo Albuquerque, para, acompanhando uma carroça da administração militar, ir buscar armas ao de- posito de material de guerra.
Transmittida a proposta ao chefe de estado maior, não íoi acceite o offerecido acto de arrojo.
Inútil elle seria.
Segundo o commandante de lanceiros, não teve a offerta o esperado accordo, «nem na occasiao nem depois, porque se re- conheceu que não havia mais munições em parte alguma!» (•)
De facto nada existia em Queluz, nem no Arsenal e as de Beiroilas não estavam em condições de servir, e ainda a essa hora se dera já o assalto ao deposito pelos revolucionários da chefia de Joaquim Lopes de Abreu Castella tendo estado ante- riormente bloqueado por elles e com as ccmmunicaçÕes corta- das.
No quartel do Carmo, onde a desorientação reinava, dava pois ingresso ás 8 horas da noite de 4, a força da chefia do co- ronel Alfredo Albuquerque.
Emquanto era conhecido que a guarda já soffrera vários ataques as granadas chovendo sobre o edifício, e sobre os soidados que sahiam d'el!e, eraii attingidos por bombas arremessadas de logares difficeis de descobrir, para descanço recolhiam os lan- ceiros, recostandose alguns oííkiaes, nos leitos, para em inter- regno da lucta, diminuir o cansaço da longa e continua mar- cha da madrugada até a\s oito horas da noite.
• Entretanto Paiva Couceiro, fora informado de umas inten- ções de desembarque dos marinheiros e com o aviso e ordens
(*) «Os Cem Dias Funestos», por Joaquim Leitão=pagina 257.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 47
de se collocar as peças nas embocaduras das ruas Augusta e do Ouro.
A soldadesca, a monte, comia a parca ração de pão meia lata de sardinhas, emquanto se arrumavam quatro metralhado- ras dispostas superiormente indicadas, e sob o aspecto nostál- gico de quem inútil esperaria o espejtaculoso 3pparato.
Ainda se discutia no quartel o quadro doloroso da retirada da columna, como esquecimento e em outro extranho aspecto do quartel general.
Da praxe, os errados ou os mais concretos passos de uns, de paralleio se collocaram para desculpar á própria desorientação.
Era o destino, firme, a desbravar o terreno á sedição, va lendo se dos próprios braços dos que, como contrários a ella se apresentavam.
A realeza podia dar se por bem golpeada, tendo até os me- lhores golpes por aquelles que ella, em certos instantes de es perança, julgou seus assistentes leaes.
Ao collocar algumas léguas entre o capital e a sua pessoa o rei definiu soberbamente, a confiança que tinha nos seus de- fensores: nenhuma.
Não soube os lances do quartel general.
Servir-lhes-hiam para apressar essa jornada significativa e de quem, se pensamentos houvesse, se envergonhariam quantos ajudaram a sedição no simulacro de um receio.
Esse espelho, Sagrante, iria levar ânimos á Rotunda, ex- posto pelos rebeldes que, ad Ubitum o analysaram.
No meio das constantes descobertas, dos permanentes ter- rores de uma approximação da tragedia gigantesca, assombrosa era o acampamento da Avenida, o único onde, embora quebra- da por vezes a energia e evidenciado o desespero, jamais se apa- gou a convicção, a pé ardente, jungindo ao seu posto de duvi- doso fim, o reduzido núcleo dos dispostos a morrer, mas em holocausto á Republica.
Volvamos porém á Rotunda, e a perscrutar-ihe os anceios e resultados d'esse combate, o das baterias, onde Paiva Couceiro quiz dar um exemplo, nem de leve secundado e muitas vezes ainda seguido.
intr
XXIII Õ ataque das baterias
No quartel de artilharia l.-Na Rotunda
corresponderam logo em completo e na Ro tunda, á descoberta dos preparativos feitos nos altos da Penitenciaria, as manobras tendentes a dar-lhes devida resposta.
Tinham tido os revoltosos interno sobresal- to, quando presumiram um ataque dos lados do Monsanto. De tacto, o combate por ali, seria pouco favorável aos rebel-
Demai?, em artilharia, estavam 23 peças.
A tomada, pelas tropas realistas, significava a morte da re- volta
Ao desapparecer da columna, o socego voltou, até que pelas vedetas conhecido foi o local d'onde ella ia preceder.
Assegurou-lhe também o percurso, o i.° cabo reservista, Manuel da Costa, que logo passava aviso ao 2.° sargento Ma- nuel Pereira Machado, de vigia á porta do quartel; ao 1.° sar- gento Gamillo Gonzaga Pinto e ao chefe civil Manuel Lourenço Godinho.
Descrevendo o lance de chegada das baterias, diz este ul- timo :
des.
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«Na manhã de 4 estabeleceuse a detesa completa do quar- tel pondo se uma peça íóra do portão das armas, duas peças no alto do quartel que dá para Entremuros e para as terras Es- tas duas peças foram guarnecidas pelo segundo sargento serra- lheiro e pelos civis de nome Victor Alexandre Ferreira, João Silva Louro, marinheiro artilheiro, soldado numero 62 da 2.* de nome Raphael Miguel, 2.0 sargento Veríssimo, 2o sargento Mascarenhas e outras mais pessoas dedicadas que se con- servaram no seu posto mas de quem não foi possivel obter os nomes. Foram collocadas duas peças também, uma defen- dendo o portão do paiol, e outra á direita das casernas para nos detender-mos de qualquer surpresa que nos podesse vir por uns terrenos que se encontram nas trazeiras das cosi- nhas.
«O serviço de vedetas que eu estabeleci foi de muita utili- dade e estendia-se até ao Arco Grande, Sete Moinhos, Alto do Carvalhão, Amoreiras, R. S. João dos Bemcasados e rua Direita de Campolide.
«Estas vedetas eram acompanhadas de rapazes armados, os quaes logo que se presentia qualquer coisa, corriam a partici- par ás outras vedetas e ao quartel. Vedetas montadas havia 8, e o serviço d'estas era mais largo, sendo por uma d*estas ve- detas que tivemos conhecimento de que as baterias de Queluz vinham sobre nós, e para melhor me certificar, depois d'esta noticia recebida, montei também a cavallo e fui para um pateo que 6ca á esquerda da rua Direita de Campolide. D'este ponto viam se todos os movimentos das baterias de Queluz, tendo visto também que se destacaram 4 peças do corpo principal, duas para a esquerda e duas para a direita, calculando que as duas que partiam para a esquerda iriam para a Penha de Fran- ça, e as duas que partiram para a direita seguiram em cami- nho para Campolide de Baixo. Uma vedeta a cavallo e quatro civis foram se postar de vigia no Alto dos Sete Moinhos, para avisarem e prevenir o quartel acerca do movimentos das duas peças. Seriam sete horas da noite regressaram todas a reuni- rem-se ao corpo principal e já o capitão Couceiro tinha soffrido o primeiro ataque feito pelo segundo sargento Mathias, pelo
VOL. IV
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soldado n.° 62 da 2 a e principalmente pelo i.° marinheiro João da Silva Louro.» (*)
O erro é evidente, e já vimos a disposição da bateria, que se não deslocou para a Penha de França, ficando toda junto aos muros da Penitenciaria.
Convém todavia elucidar que as descripçoes, pelos officiaes que compunham a colurnna, são todas posteriores (**) á publi- cação do relatório de Manuel Lourenço Godinho, nascendo d'ahi as notadas anomalias.
Conhecido que a bateria se postara junto aos muros da Ca- deia Central, o alarme não toi intenso.
Até o humorismo surgiu, aventando um insurrecto que «a victoria lhes sorriria, pois os defíensores da monarchia es- tavam perto da cadeia, emquanto elles acampavam na Avenida da Liberdade »
A investida era esperada.
Pelo chefe civil Jorge de Carvalho, haviam sido mandadas collocar uma peça por detraz do parque, outra, de retorço á ou- tra que já ali se encontrava, com frente á Serra de Monsanto e Penitenciaria; uma á porta do paiol deflendendo a entrada por Campolide; três no largo da Parada em frente do tanque, do lado das Amoreiras; e uma á porta do parque, para varrer a parada.
Ao assignalar da contraria posição, as manobras rize- ram-se rápidas.
Ultimou se o transporte de munições tendo valido, como auxiliar precioso d'esse serviço, o revolucionário José Gomes Froes Júnior, residente perto do quartel de Campolide.
Não estava elle forte em numero, mas julgava se aguerrido em coragem, para se tornar o ponto principal das operações con- tra as baterias.
Ali apenas se encontravam 25 homens decididos, ou fossem quinze populares e 10 militares, sob a cheria dos carbonários Manuel Braz Simões e Armando Porphirio Rodrigues.
(#) Dicrio de Noticias de 21 de Outubro de llí10.
(**) A entrevista com o tenente Estevão Wanzeller, que larga copia de elementos possue, veio no Correio da Manhã de 27 de dezembro de 1910.
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Bem entregue estava a defesa, confiada assim ao audaz che- fe da invasão do edifício de Campolide.
Convindo prevenir múltiplas investidas, foi elle com alguns civis e um soldado, tomar posse da porta das armas, do lado da rua José da Silva Carvalho.
A postos se encontravam, na parada, alem do artifice Ma- nuel Joaquim de Araújo, o i.° sargento ajudante Arthur Celes- tino Sangremann Henriques, tendo como ordenança, o antigo clarim João Mendes, que apparece assim citado na relação com que fecham o seu relatório, os chefes civis, Armando Prophirio Rodrigues e Manuel Braz Simões:
«João Mendes, exclarim 61 da 7.* bateria de artilharia 1, mostrou-se sempre d'uma dedicação extrema na vigilância do quartel, nunca se cansando nem poupando a estercos.»
Guarnecendo a peça existente no vértice norte do angulo íormado pelos muros da parada, ficou o 2.° artilheiro naval n.° 2728, Jo ão da Silva Lour, que chegara ao quartel de Entre- muros, cerca das 6 horas da manha, entrando logo como auxi- liar do chefe civil Jorge de Carvalho na defesa da posição do lado do paiol.
Occupando locaes vários da aprestada linha de combate, onde se iam notabilisar, achavam se ainda, o soldado servente 621706 da 2.a bateria, Raphael Miguel, o soldado 61, Joaquim José Gomes, o cabo reservista, Jayme José Bornes.
Este deixara o serviço de artilharia 1, em 1904.
A despeito de estar na reserva, apresentou-se ao reivindicar da causa democrática, com o soldado 62.
Conhecedor da revolução, debalde a familia intentou irnpe- dil-c de cooperar no movimento.
* Na impossibilidade de os convencer, saltava para a rua, do 1 .° andar da casa da residência na rua das Adellas, 3o, e procurando subtrahir-se ás detenções policiaes, ingressou na Rotunda, onde se apresentava ao i,° sargento Camillo Augusto Gonzaga Pinto,
Abandonandoos ás 10 horas, voltava mais tarde, seguindo para o quartel, onde ajudava a? transporte das peças.
Chegou na altura do ataque das baterias, ficando sob as ordens do sargento Gonzaga Pinto.
02 ARMANDO RIBEIRO
Aguardados toram assim os incidentes d'esse antevisto for- midável duello.
A ideia do combate, se preoccupava muitos, animava ou- tFi s.
Norteados pela esperança de vencer, arrastaram os revoltosos a peça, para a porta do quartel, em frente da antiga casa de saúde de Entre-muros, e também ao prédio 175 1 7 7 proprie- dade do barão de Linho, o escolhido ponto de lucta.
Encarregou-se de a fazer funccionar o soldado 42.
Era no instante em que Paiva Couceiro mandar derruir os tapumes qus occultavam a bateria.
Apresentava o inimigo alvo seguro para os insurreios,
Uma das peças, a dirigida pelo 1.° cabo Jayme Joj-é Bor- nes tez togo, iniciando a pendência, provocante e altiva.
Comtudo, na precipitação metteu na terra, pela baixa pon- taria as duas primeiras granadas.
Secundado pelo artilheiro em serviço no extremo do par- que e melhor graduado o tiro, n'um impulso febril, três outras se empregaram explodindo sobre a força de Queluz, quando ella ia actuar sobre Campolide.
Houve enthusiasmo, ao notar o efleito. A infantaria inten- tara além à dispersão e desorganisara-se o grupo de artilharia.
De momento, comtudo, se desfez o jubilo e se reproduzia o espectáculo que distante haviam assignalado.
A bateria de Paiva Couceiro, respondendo, rasgava logo aos primeiros tiros, o muro do quartel, junto ao portão onde estava a peça e a metralha espalhando-se, levava a terra mui- tos dos atiradores, demais proseguindo a queda das granadas mandadas do alto da Penitenciaria.
O artilheiro collocado á Canet attingida, punha, como lou- co, grande somma de metros entre si e o destinado posto.
Na parada, recusava-se a voltar, terminante, instnsivel a todos os rogos.
Debalde lhe salientaram que na sua mão estava a vida de todos os outros combatentes.
Nada o demoveu.
O 2.* artilheiro João da Silva Louro, incumbia logo o solda-
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do 62, Raphael Miguel que o estava ajudando, de manobrar com a peça abandonada.
A revindicta operouse.
As granadas effectuaram a destruição dos muros e casas que encobriam a columna da Penitenciaria.
A resposta foi trágica.
Outro projéctil, lançava fora o pcrtao da quartel de Entre- muros.
A metralha attingii n'uma perna o i.° cabo José Bornes, e quatro dos seus companheiros, entre os quaes, o civil António Pedro.
Illesos apenas ficaram Jorge de Carvalho, Lourenço Godi- nho, o soldado 62, e o sargento Gonzaga.
Este, determinava ao cabo Bornes, a baixa ao hospital de sangue.
Não foi acceite a ordem.
Olhando em volta, raros viu dispostos a seguir a acção.
Da soldadesca, o numero descera ao minimo.
Os paisanos já haviam eflectuado o distanciamento procu- rando asylo n'uma taberna a 5o metros do edifício alvejado.
O abandono foi quasi geral, ao ponto de serem deixado li- vres os officiaes que haviam sido detidos ê invasão do quartel e mais algemados pela dada palavra de se não envolverem em represálias, do que pela vigilância dos insurrectos.
Nos foragidos, contava se o chefe civil, Armando Porphirio Rodrigues, ferido egualmente.
Machado Santos, a paginas 1 5g do seu relatório, equi- para o todavia aos dois mais enérgicos adversários das baterias:
c Abracei o chefe civil Armando Porphirio Rodrigues pela sua enérgica defeza, bem como o soldado servente Raphael Mi- guel e o segundo artilheiro de marinha João da Silva Louro.»
Diria ainda, (*) mais tarde, traçando-lhe a figura de revolu- cionário e reproduzindolhe as impressões:
«... é o typo clássico, romanesco do conspirador civil, com a sua barba grisalha, a sua gravata Lavaliére, o seu chapéu
(*) O «Iutransigente» de 5 de outubro de 1911.
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molle. . . Mas, se o habito externo é completo, a fibra, o nervo, a alma revolucionaria, são perfeitas. Poucos teem a sua list ) de serviços nos tempos da propaganda e da iniciação. Dirigiu a defeza do quartel de artilharia i, auxiliado pelo marinheiro ar- tilheiro João da Silva Louro e pelo soldado servente Raphael Miguel — os três únicos e autênticos defensores do quartel de Entremuros.
t Responde rápido e incisvo:
t — Estive em artilharia 1 a cumprir o meu dever. . , Duas ou três vezes estive na Rotunda. Vi pouca gente nos sitios onde estive, mas, julgando que todos cumpriam a sua obriga- ção, imaginei que os que não via estariam no seu posto n'outra parte. Só no dia 5 soube das deserções. . . das vergonhas que por lá houve. . . E essa impericia é que na verdade, foi a pre- dominante d'aquelles dias de lueta e de febre, porque nunca tornarei a sentir indignação que com essa se compare. . . »
Houve, de facto, esse vácuo feito aos tiros firmes da forças de Queluz e constatam-n'o os depoimentos que citam os deôen- sores principaes iio quartel e onde não apparece o nome de Porphirio Rodrigues.
Desnuda, porém o abandono, o 1.° sargento Gamillo Gon- zaga Pinto, a paginas 34 do seu livro Memorias da Revolu- ção:
«Aos primeiros tiros do inimigo, o reduzido pessoal civil que guarnecia as peças fugiu indo com elles o chefe Porphirio Rodrigues que só encontramos pelas 4 horas da tarde, mettido no nosso quarto.»
Assim, de momento a momento, procuravam eximir se aos grandes lances, aquelles que, nas primeiras horas mais temerá- rios se haviam mostrado.
Não foi isento de audácia e de responsabilidades, o acto de trazer para a rua, o regimento de artilharia 1.
Mas, os que tinham dado o impulso á sedição, aquelles que, de facto, assentaram a pedra fundamental do movimento, foram dando, ao continuar da tentativa, a prova evidente da fragilidade humana, na desintegra da marcha dos acontecimen- tos, por extincta a chamma nervosa que até ali os levara, ou
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZX 55
numa previsão de lhe trazer o futuro, em paga de loucas ho- ras, o premio de um mau desfecho.
Teve um e outro
O recato ao fogo das baterias e com base em recebido feri- mento, não íez subir e com razão, o prato da balança onde col- locados tôram os seus serviços á causa sediciosa.
Pela acção em combate teria mais tarde o premio de collo- caçao no Jogar de almoxarife do antigo paço real da Ajuda.
Não obstante, como aliás succedeu a tantos outros comba- tentes pela Republica, depois do ousado passo de outubro, ci- tado (*) foi, embora salvo sarasse, como envolvido na tentativa de golpe de estado fixada para janeiro de 191 2.
Já n'essa altura o salteara o desalento, traduzido em linhas onde cathegorico affirmava a sua opinião: (**)
« — E a sua impressão sobre a Republica ?
« — Escreva com todas as letras, porque com todas as le- tras tenho muito prazer em pôr o meu nome por baixo. . . Es- creva : Se eu soubesse que a Republica que tinha idealisado era a porca que me sabiu, não me tinha arriscado, não me tinha sacrificado, como me sacrifiquei . . .
« — Escrevo porca?
« — Porca? porquissima e eu ponho o meu nome por bai- xo. . . »
Não tardou depois o ingressar (**•) nos cárceres do Limoei- ro, á ordem dos tribunaes marciaes como cúmplice de outra mallograda tentativa revolucionaria com elementos republica- nos, radicaes e syndicalistas. (*«**)
O facto suscitaria os seguintes trechos do órgão jornalísti- co (*****) de Machado Santos:
«O governo pela voz dos seu* tribunaes marciaes, teve a feliz lembrança de mandar recolher prezo ao Limoeiro, como implicado nos acontecimentos de 27 de abril, o bravo defensor
(*) Vide o 3.° volume d'esta obra, pagina 347.
(**) O Intransigente de 25 de outubro de 1911.
(***) 4 de agosto de 1913.
(#•#*) 10 de julho do 1913»
(*****) O Intransigente de 4 de agosto de 1913,
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do quartel de artilharia i quando toi do 5 do outubro- o sr. Ar- mando Porfírio Rodrigues, almoxariíe do paço d'Ajuda. Achamos bem que o sr. Aflonso Costa continue consentindo nas vingan- ças dos antigos oficiaes monárquicos sobre os implantadores da Republica que o Congresso Nacional, num dia de alegria e triunfo, entendeu que devia galardoar com o titulo de Bene mentos da Paína. Achamos bem, porque ainda nos parecem poucos os republicanos que se encontram em custodia. Quanto mais achas se iançarem á togueira, mais certeira e violenta- mente se virá a dar o incêndio. Esperemlhe pela pancada!»
Era d'elle a seguinte carta, expedida do cárcere em torva hora de desillusÕes:
«Cadeia civil de Lisboa, 3-X-913.
«Meu caro Machado Santos: Peçote um cantinho do teu jornal para altaneira e desassombradamente apresentar o meu protesto em publico, contra o lacto de pretenderem dar-me a liberdade á sombra d'um indulto, perdão ou amnistia que não pedi e que não aceito.
«Entrei para a cadeia de cabeça erguida; «quero», exige o a minha dignidade de homem e de velho republicano, saber porque os «morcegos» que se aceitaram no monte purpurino da Liberdade me aceusam, e qual o crime que sobre mim im- pende ha 62 dias, isto não contando o tempo que venho sendo vigiado e perseguido.
« «Exijo», «quero» saber quem são os miseráveis que acoi- tando-se em quaesquer camarilhas politicas hoje se arrogam o direito de serem os «lídimos defensores» da Republica, d'esta Republica pela qual nós tudo sacrificámos. Os tarçantes nem sabem ocultar os seus pensamentos reservados !
«Mas seja como for, o que eu quero hoje é que fique bem patente que não pedi nem peço clemência, que não acceito per- dão ou qualquer acto que me obrigue a sair de cabeça baixa e em agradecimento àqueles que tão mal teem comprehendido os serviços que se lhes presta, e ás instituições, não só eu, co- mo uma plêiade de homens que teem a hombridade suficiente para não rastejar ou ir receber os serviços a um tanto por hora pagos por aquelles que faz hoje 3 annos ninguém conhecia, e
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outros que imitando o «lendário Pedro» negavam não só as crenças mas também os Mestres.
«Acceita, meu caro Machado, um abraço tão forte e leal como o que ha três annos te dei ao separarmo-nos no Quartel de Artilharia i, no momento em que nós juramos cumprir o nosso dever. Teu amigo velho e certo que deseja Liberdade e Justiça. — Armando Porphtrio Rodrigues.»
Veria a luz da liberdade aos annuncios de uma tentativa monarchica (21 de outubro de 1 9 1 3), tendo anteriormente (26 de setembro de 1 9 1 3) comparecido perante os tribunaes de guerra.
Vendo apenas dispostos a sacrifícios seis homens, o cabo Jay- me Bornes, embora ferido ficou no seu posto.
Apenas reconhecido o facto de a peça oflerecer muito alvo sendo de preferencia alvejada, foi ella transportada para detraz de um kiosque existente defronte do quartel.
Trazida foi egualmente para melhor local, a peça até então meio oceulta á entrada da porta das armas, e manobrada pelo soldado 62, Raphael Miguel.
Estes trabalhos, trazendo descanço nos ataques, deu ephe- meros ânimos á bateria de Queluz.
Desvaneceram-se de seguida.
O duello seguiu.
Poucos momentos decorridos sobre a nova disposição das peças, uma granada produzia novos eôeitos sanguinolentos, e desnorteantes.
Fazia-se segunda fuga.
Era outra vez ferido o cabo Jayme Bornes.
Um estilhaço attingia-lhe o braço direito.
A sua retirada impunha-se e teve de a effectuar, pela im- possibilidade de se manter no posto, ante os ferimentos recebi- dos.
Mais tarde, ser-lhe hia assacada uma deserçãodo logar de pe- rigo.
(*) O Intransigente de 4 de Outubro de 1913. vol. iv — fl. 8
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Não a houve, e apenas a ambição de collocar tora das vis- tas dos premiantes quantos se quizeram manter no logar mar- cado pelas suas convicções.
A curto praso d'essa defesa, Bornes, tornarse-hia de novo heroe, mas de lance mais grave, de que elle próprio tez a des- cripção : (*)
«Cidadão redactor. — No n.° 3 5y9, de 16 de outubro de igio, na 5.a pagina, i.a columna, sob a epigraphe Em plena Republica — justiça a todos — sou classificado entre outros briosos e patriotas camaradas meus, de artilharia n.° i, de cujo regimento tazia parte, na categoria de i.° cabo n.° 61, como heroe, por fazer lace, arrostando todos os sacrifícios, até o da própria vida, contra a acção da bateria de Queluz, que duran- te o periodo áà revolução redentora foi implacável inimiga, contra os que denodadamente combateram e com fé no bom cxuo da sua nobre causa; viram poucas horas depois tremular triunthante ao som dos himnos marciaes revolucionários, ova- cionados pela multidão entusiasmada, o pavilhão verde rubro, simbolo actual da da nossa querida Pátria e do nosso adorado regimen — Republica. — O que fiz não foi mais que o meu dever de patriota, coadjuvando com o meu pequeno concurso os defensores da Pátria oprimida e vilipendiada, por quem tí- nhamos e temos obrigação de velar e não da realeza, que nos encaminhava para um abismo, de ha muito bem tacil de pre- ver pelos seus desmandos e concussões. Da acção de todos nós revolucionários, todo o f atriotico governo provisório está ao fa- cto, porque lá tem os seus relatórios. Após o meu acto patrió- tico, propagandiei sempre o meu ideal, sem outro interesse que não fosse a consolidação da Republica amada. Assim, no dia 2 5 de julho do corrente anno, achando-me eu em Mirandella, da minha pro/incia transmontana, em casa do sr. José Maria Cascão, apareceu ali um individuo de nome Júlio, começando a increpar asperamente a Republica e os actos do governo pro- visório, fazendo propaganda em favor de Paiva Couceiro, di- zendo que «este mais generoso que a Republica pagava aos no-
(*) O Mundo de 28 de outubro de 1910.
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mens — «traidores» — que o serviam á razão de i$5oo réis diários e lhes abonava 3 mezes adiantados para a obra da con- tra-revolução e que o governo abandonava os seus soldados depois da victoria dando um pequeno salário a titulo de reforma! «Irxommodaram-me tanto tão nojentas palavras que, julgando o homem ébrio, convidei o a retirar-se, de contrario daria parte ás autoridades, dizendo me que se tal fizesse me mataria e ao mesmo tempo agrediu-me com sôccos e deu-me duas estocadas de bengala num dos lábios, furando mo de lado a lado, como se pode ver. Dahi a luta, de que eu sairia ven- cido, prostrando-me, se não recorro a um canivete que tinha no bolso para me detender, depois de me ter dado uma tone pan- cada na cabeça; então, desesperado, cravei lhe o canivete no ventre, matando-o, sem querer. Eis aqui o epilogo da minha historia, desde os dias da Rotunda até áquelle dia, em que de heroe me tornei assassino, mas assassino forçado em minha de- fesa, sempre em prol da Republica, pela qual verti o meu san- gue, e cujo insulto suez, na minha presença, repugnou ao meu caracter de patriota revolucionário e á minha consciência de soldado da Republica. Da cadeia da Relação do Porto, onde me encontro preso, esperando o dia do meu julgamento em Miran- della, apelo para a solidariedade de todos os meus camaradas combatentes e de todos quantos em mim não virem um assas- sino, mas sim um soldado vilipendiado na sua farda e no seu brio de patriota. E a v. cidadão redactor peço lhe para fazer os comentários que entender a esta conscienciosa narrativa, para a qual peço publicidade, agradecendo desde já tão elevado fa- vor. Saúde e fraternidade, cadeia da Relação do Perto, 24 de outubro de 1910. — Jayme José Bornes, ex-i.° cabo n.° 61 de artilharia n.° 1.»
Na falta do cabo Jayme Bornes procuraram os deffensores do quartel de artilharia, obviar a que elle cahisse em poder das torças de Paiva Couceiro. No critico instante appareceu um au- xiliar de valor: o grumete da armada 6l 75, Alfredo Gomes Froes, de regresso da cjdade baixa onde tora prescrutar intenções.
O I.° sargento Gonzaga Pinto, conflavalhe logo a peça dei- xada pelo cabo Bornes.
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Froes, e o 2-° artilheiro da armada 2728, João da Silva Louro, íoram desde essa hora, os mais enérgicos atacantes da bateria de Queluz.
Reconhecidos, á Republica proclamada, esses serviços, João Louro, ascendia (Ordem do Exercito publicada a 22 de Novem- bro de 1910) ao posto de i.° sargento e Alfredo Froes, a 2* sargento, ambos para a guarda republicana.
Dizia assim a proposta elaborada a 18 de outubro de i9io, pela commissao de promoções no exercito e armada:
«Armada : por terem dirigido superiormente o fogo em cada uma das peças em que serviam na occasião em que se estabe- leceu o pânico peia deserção dos oflkiaes, portando se heroica- mente: grumete da armada 6175, Afredo Gomes Froes a 2.0 sargento e o 2.° lartilheiro 2728, João da Silva Louro, a i.° sargento.
Coadjuvandolhes os esforços, estavam, além de João Men- des, antigo clarim do regimento e arvorado em ajudante do brigadas Sangremann Henriques, o soldado 62, Raphael Mi- guel, como apontador de peça e o soldado 5l, como municia- dor.
Como recompensi á manutenção no posto e serviço á re- volta, cabia a Raphael Miguel, ao espalhar dos benefícios, o pos- to de i.° sargento, para a guarda republicana.
Preenchidas as vagas dos feridos e dos desertores do movi- mente, o incidente das armas proseguiu.
O quartel era alvejado, especialmente.
Mas não falhava o retrucar.
O soldado 62, astuto, um estratagema empregou: o de só se apresentar fazendo fogo, com certeira pontaria, apoz o effe- ctuado pelos contrários, recuando ao descarregar das peças da Penitenciaria.
Esse arrojo, observado, trouxe uma vontade de revindicta, não conseguida e que Machado dos Santos, assignala a paginas 1 63 do seu Relatório, ao citar a acçãc de Raphael Miguel:
«Soldado servente n.° 621706 da 2.a bateria Raphael Mi- guel. O mais valente dos defensores do quartel de artilharia no
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combate contra as baterias de Queluz. N'um momento de pânico ficou só á porta das armas, fazendo frente ao inimigo com a peça que guarnecia. Um official que estava prisio neiro sob palavra, ordenou ao sargento Arthur Rego que desfe- chasse um tiro contra elle, ordem que o referido sargento não acatou.»
Os revoltosos, embora raros, encobriam a diminutuidade com a coragem, despejando granadas sobre granadas.
Mas nem todas alcançaram o desejado alvo.
Se algumas estouravam nos muros da Penitenciaria, outras seguindo trajectórias caprichosas, faziam sentir seus effeitos em locaes não visados.
Das despedidas pelas forças revoltadas, umas rebentavam perto do hospital do Rego.
Outras, entravam pelas salas das sess5es da Caixa Econó- mica Operaria, derruindo a hombreira da janella, e quebravam uma columna de ferro fundido e um lustre de crystal, e explo- diado inutilisávam a mobilia, dispersando a carga, 443 peque- nas balas de chumbo.
Outra granada cahia na ilha das Cobras, em frente do jar- dim da Graça; emquanto novos tiros fendiam de alto a baixo o prédio da rua Barata Salgueiro com frente para a Avenida; atravessavam as paredes dos prédios das Avenidas José Luciano, Ressano Garcia e António Maria de Avellar, attingiam o 4.0 andar do prédio 2 1 da rua do Carriao, entrando uma lanter- neta pela janella e indo cravar se na parede de um quarto, va- lendo estar a casa deshabitada.
Uma das granadas, produzindo mais trágicos efleitos, enve- redando pela janella do i.° andar do prédio i5 das Escadinhas do Caracol da Graça, ia explodir junto á machina em que es- tava cosendo roupa Marianna da Conceição, de 60 annos, a qual ficava com as pernas mutiladas, sahindo do hospital (5 de fevereiro de 1911) com a esquerda amputada, emquanto o ma- rido, o sapateiro Aftonso de Souza, de 77 annos vinha a íaliecer (18 de janeiro de 1 91 1) dos ferimentos e de sus- to. Essa familia archivou em quadro, o envolucro da granada, circumdado pelas partes lragmentadas pela explosão.
62 ARMANDO RIBEIRO
O explodir de outra arrombava o telhado do prédio B. V. da rua de S. Domingos de Bemfica.
Attingido toi o edifício do Lyceu Camões, e a granada en- trando por uma janella, ia perfurar a parede do próximo apo- sento, passando ao seguinte, onde estourava, a crivar de balas o tecto, paredes, portas e mobília.
A bateria de Queluz, por seu turno, ia fazendo estragos.
O portão de ferro, era partido.
O muro, do lado direito, escancarava duas enormes boccas.
Os prédios em redor, crivados pela metralha, desenhavam fendas e evidenciavam orifícios múltiplos.
Os telhados, com as telhas esphacelladas ou levantadas, re- tinham restos de ferragens dos projecteis explodidos.
Attingiam a parede norte do rez-do-chão do prédio 1 3 7 da rua José da Silva Carvalho, forçando os moradores a recolhida n'uma dependência da casa do visconde de Abran;alha, e ainda a moradia do engenheiro Rebello.
Evidenciado o maior ataque da parte da peça collocada do lado do prédio 1 *]5- 177 da rua de Entremuros, sobre ella actuou em maior grau a violência das granadas da bateria de Queluz.
Iam-se entretanto seguindo as evoluções das forças posta- das no alto da Penitenciaria.
A deslocação da força de infantaria 2, indo postsr-se nas terras do Casal de Monte Almeida toi firmada com segurança.
O alvo era seguro.
A fusilaria coiheuos no campo desassombado e com alegria notaram que, aos tiros feitos corespondera a retirada.
Deu-lhes animo o facto.
Redobraram de coragem embora fazendo tiros cautos.
Não tinham como intenção poupar munições, que não fal- tavam, ao contrario do que succedia com as forças fieis, vendo diminuir o provimente, de si escasso, e sem faculdades de o renovar.
Os revoltosos apenas queriam assegurar, quanto possível, a precisão de tiro.
A força ás ordens de Paiva Couceiro, presumiu lraqueza e
A REVOLUÇÃO POKTUGUEZA 63
eftectuou evoluções, continuando a artilharia a exercer o seu mister perturbante.
Notada íoi no campo insurrecto a visível vontade do assal- to ao quartel.
Não cessaram portanto de assidiar a columna com os pro- jecteis das canets.
As baterias deram o afrouxamento do ataques.
As suas peças callaram-se.
O combate parou de súbito.
Ooi visto o recuar da soldadesca e das peças.
Julgou-se uma mudança de posição.
A attençao concentrou-se e breve foi comprehendido o acto.
Era uma retirada.
Não se assegurou produeto de uma ordem do commando superior incumbido da defesa monarchica.
Sonhouse uma derrota completa, infligida pela revolta.
Houve constantemente largo nos deôensores do quartel, cu- jos principiaes appareceram assim mencionados a pagina 83 do do Relaiorio de Maohado Santos:
«Os heroes da deíeza contra as baterias de Queluz tinham sido: o segundo artilheiro no 2728 do coipo de marinheiros da armada João da Silva Louro c soldado servente n.s 62)706 da 2.a bateria de artilharia n.° 1 Raphael Miguel. Sem a coragem d'estes homens; dificilmente se podia aguentar a posição da Rotunda, além d'isso o quartel possuia uma enorme quantida- de de material. Era o nosso deposito de munições e forragens; os seus fogos cruzavam-se com os da bateria collocada nas ter- ras do parque Eduardo VII. Se cahisse em [ oder do inimigo era necessário reconquistal-o á bayoneta. Nos seus parques ha- via 2 3 peças !»
O lance de defesa do quartel de artilharia onde só junto da peça manobrada pelo soldado 92, cahiram 10 granadas das baterias, se não exprime um lance épico, não foi egualmente uma acção mesquinha.
A par da ignorância das surprezas que o combate poderia trazer, existia ainda o nome de Henrique de Paiva Couceiro a
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perturbar, com o seu prestigio e a sua fama de combatente, o animo dos manobrantes do insurrecto campo.
O retrocesso do ojfiaal de Africa, foi pois para os defiren- sores de artilharia i, um soberbo coroar d'esse episodio da lu- cta com as baterias e que appareceu assim descripto: (*)
«Não sei, em virtude da minha falta de competência, des- crever-lhe o que foi esse tremendo ataque na tarde de 4 do cor- rente, tão renhido elle foi. Devo, comtudo, affirmar-lhe que a uma parte reduzida de populares e a um 2° artilheiro da ar- mada, se deve a victona de artilharia 1 n'aquelle ponto. O que a minha memoria me poude avivar é que, por volta das 9 ho- ras da manha, éramos avisados no quartel, pelo vigia que es- tava na 2.0 andar do edifício, de que a bateria de Queluz esta- va tomando posições na serra do Monsanto, o que fez sobresal- tar todos quantos ali se encontravam, porquanto o ponto indi- cado trazia evidentes dificuldades para podermos resistir com alguma vantagem.
«A breve trecho, porém, esse sobresaltodesapparecia, porque a bateria de Queluz mudara de situação e avançara para o Jo- gar, que, durante muito tempo, foi inteiramente ignorado de nós. Mais tarde, com grande surpreza nossa, as forças inimigas appareciam tostadas na antiga quinta do Seabra, junto da Pe- nitenciaria, isto precisamente na occasião em que grande nu- mero de voluntários tinham ido ao acampamento da Ro- tunda levar grande porção de granadas e outras muni- ções, que d'ali haviam mandado requisitar. Por um mero acaso, só quando esses indivíduos regressaram de novo ao quartel, o fogo rompeu por parte das forças de linha que protegiam a bateria de Queluz, respondendolhe os volun- tários com uma enorme tenacidade e uma presteza dignas de registo. O que depois se passou não é para a minha penna des- crever, nem sei mesmo se alguém saberia fazel-o. De parte a parte as boccas de fogo romperam o tiroteio. A peça col- locada á porta de Entre-Muros, por ter pontaria baixa raet-
(*) O ataque, das baterias de Queluz ao quartel de artilharia 1, por Joa- quim Pedro dos Santos.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 65
teu duas granadas na terra e a bateria de Queluz responde-lhe, furando o muro do quartel, junto do referido portão, indo a granada rebentar, cerca da linha dos atiradores voluntários, os quaes, nem por isso, deixaram de fazer fogo.
«Mas o artilheiro desanima e foge, como louco, para a pa- rada do quartel, não querendo tornar a tomar conta da peça nem a fazer mais fogo, apezar do sub-chefe do grupo revolucio- nário lh'o implorar e lhe fazer ver que aquelle abandono repre- sentava a desgraça de quantos ali se encontravam. Segunda gra- nada vinda do campo inimigo, vem pôr o portão quasi por ter- ra e lançar o desanimo na maior parte dos voluntários, que, julgando-se perdidos, abandonam, aterrorisados, o seu posto, fi- cando ali apenas, de quinze que eram, um individuo de appel- lido Oliveira, estucador; Carlos Silv.% chauffeur\ Manuel Pedro de Abieu, marceneiro; Augusto da Silva, ourives; um rapaz de nome Francisco, serralheiro, e um outro, bem vestido, de cha- péu de palha, que ficou ferido na cabeça, assim como o Abreu n'um dedo. Pois, sr. redactor, foram estes heroes que, durante muito tempo estiveram expostos ao vivo tiroteio, do qual, só por uma suprema felicidade, sairam ilksos. Se a victoria se al- cançou, deve-se, posso affirmal-o, á valentia e coragem do 2.° artilheiro da armada, a que atraz faço menção, e a um 2.0 sargento de artilharia, que tinha ao peito duas medalhas do ultramar, os quaes, assestando duas peças que estavam na parte do quar- tel que confina com a rua da Penitenciaria, fizeram um tão nu- trido e certeiro fogo, que, d'ahi a algumas horas, com o auxilio das peças do acampamento, tinham dizimado as baterias de Queluz. De contrario — ninguém o duvide — o que seria dos pobres voluntários da porta de Entremuros, que, de arma em punho, quasi não queriam cessar togo, tal era o amor pela cau- sa que defendiam E eu, sr. redactor, desarmado, observava tu- do isto, sem poder dar um tiro, porque os voluntários que lu- giam nem sequer cediam as armas para que os pudesse sub- stituir.»
A oppôr uma acção de resistência, tanto mais difficil, quanto o grupo dos dispersados ideia dava de irremediável derrota, fi- cou troço modesto.
m ARMANDO RIBEIRO
Todavia, á hora em que o consummado facto de uma vi- ctoria, já podia trazer o arrastamento e o olvido dos seus lídi- mos impulsionadores, destacou-se o embroglio de contestação de assistência, de forma a produzir tumultuarias dissensões e edificantes controvérsias.
Negada foi a existência de Gonzaga Pinto no posto comba- tivo, pelo chefe civil Armando Porphirio Rodrigues, (*) e pos- ta em balanço pelo tenente picador António Correia. (**)
Authenticaram (***) a sua acção no quartel, durante o ataque das baterias, depoimentos dos chefe civil, Manuel Louren- ço Godinho, 1.° cabo reservista 71, Manuel da Costa, i.° cabo reservista, Jayme José Bornes, soldado reservista 27, Manuel Albino de Lemos, serralheiro de artilharia, Alberto Augusto de Araújo, soldados 62, Raphael Miguel e i3i António do Sa- cramento Nogueira.
Muitos d'elíes, foram os principaes e quasi únicos defensores do quartel e não é licito suppor que quizessem dividir por ou- tros o quinhão de saliente coragem.
Sem analysarmos já em todos os seus pormenores o largr, incidente sobre prioridades e promoções, assignalaaremos aqui, incidentalmente, que Gonzaga Pinto, proposta a sua ascendên- cia ao posto de tenente, para o quadro dos almoxarifes de en- genharia e artilharia, á forte da campanha feita em redor dos prémios aos revolucionários, depunha o galardão, ficando pri- meiro sargento como antes do movimento outubrino.
O seu nome, incluido na ordem do exercito publicada a 25 de outubro de 1 91o, era retirado da ordem que esta substituiu.
No relatório de assignatura, em commum, dos cheíes civis A. Porphirio Rodrigues e Manuel Braz Simões, e datado do Quartel de artilharia 1, em 8 de outubro de 19 10, apparece assim mencionado o sargento Gonzaga :
«i.° sargento Camiílo Augusto Gonzaga Pinto e os 2.0S sargentos, António da Cunhav Arthur do Rego e Aleixo Paulo
(#) Transcripto o depoimento a paginas 724 do 3.- volume d'esta obra. (**) Vide o depoimento da pagina 786 do já mencionado volume. (***) Memoriad da Revolução=$e\o 1.° sargento Gonzaga Pinto=Pagi- nas 56 57 58.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA
Mascarenhas, apresentaram-se ainda do acampamento, tendo prestado excellentes serviços na direcção do material de arti- lharia, por requisição do sargento ajudante Sangremann.»
Foi este outro dos attingidos pelas contestações ao direito de premio.
O debate acirrado e violento, forçou á desistência de San- gremann Henriques, do posto de tenente da guarda republica* na, incidente assim provocado;
A's nascidas questões sobre recompensas, Sangremann, viu coadjuvando-as, o commandante da Rotunda, que formulava um retrocesso na proposta de concessão da cathegoria de tenente ao antigo sargento-ajudante, sob fundamento de a haver feito por engano.
Deu isso origem ao seguinte requerimento feito ao ministro da guerra da Republica, António Xavier Correia Barreto, onde o tenente que já desistira, perante o parlamento, da pensão arbi- trada pelos serviços em combate, pedia ficasse sem valor a pro- moção realisada por decreto de 22 de outubro de 1910, prece- dendo proposta do commissario naval Machado Samos:
«Exm0 sr. ministro da guerra — Arthur Celestino Sangre- mann Henriques, tendo sido promovido a tenente por distin- cção por decreto de 22 de outubro do anno próximo passado, por proposta do cidadão Machado Santos, commandante das lorças revolucionarias da Rotunda da Avenida, sendo ao tempo sargento ajudante do regimento de artilharia n.° 1, tendo visto no jornal de hoje «O Intransigente» uma local em que o sr. Ma- chado Santos declara ter sido a sua a única promoção mal feita por na occasiâo da sua proposta não saber quaes os serviços que tinha prestado no movimento revolucionário, o que prova que só por lapso loi promovido, e affirmando o requerente o seu muito amor e dedicação á Republica Portugueza, mui respei- tosamente pede a v. ex.a se digne mandar ficar sem efíeito a promoção por distineção que ao mesmo foi concedida e deter- minar que o requerente entre na sua altura no quadro auxiliar de engenharia e artilharia, aonde lhe compete o posto de alie* res, — Lisboa, 1 8 de julho da 191 1. — Arthur Celestino San- gremann Henriques^ tenente da guarda republicana».
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Lida fora na véspera em sessão das Camarás Constituintes, uma declaração em que o official regeitava a verba que, a titu- lo de pensão, lhe havia sido arbitrada.
O incidente prolongou-se, e a favor e contra se ergueram alguns revolucionários e entre os de attitude desfavorável a Sangremann, se contavam os quatro sargentos da Rotunda, a esse tempo já tenentes, José Soares da Encarnação, Mathias Jú- lio dos Santos e Firmino da Silva Rego.
«Sr. Redactor. — Atendendo á imparcial orientação por que v. tem feito seguir o seu mui lido jornal, pedimos-lhe a pu- blicação da seguinte missiva. Não é intenção dos sinatarios melindrar ninguém, mas simplesmente fazer publico (já o pró- prio não tem coragem para isso) de qual foi a acção revolucio- naria do tenente Sangremann. Leva-ncs a este extremo, bem contra nossa vontade, um grupo de particulares amigos deste oficial que tem pretendido eleva-lo ao epogeu da gloria e feito crer ao povo da noâsa capital que este official praticou prodí- gios de tanto valor para a implantação da Republca que elle tem o direito á admiração e até á veneração de todos os repu- blicanos portuguezes. Esclarecemos pois o caso para assim que- darmos a audácia dos tais amigos do homem, que á custa do nosso silencio e mercê, talvez, quem sabe! da ignorância dos factos, vêem desde 5 de outubro ludibriando a opinião pu- blica acerca do procedimento revolucionário do sr. tenente San- gremann. Fique pois assente e esclarecido, sr. redactor, que não nos movem malquerenças contra ninguém; é por amor e para restabelecimento da verdade que íazemos esta narração.
«O sargento ajudante Sangremann, de artilharia n.° i, foi no dia 3 de outubro ás 4 horas da tarde apresentado (como republicano) ao r.° sargento Encarnação (membro mais gradua- do do comité que preparou o regimento para a revolução de 4 e 5 de outubro); nessa noite o sargento ajudante entrou no quarto do 1.° sargento referido, ás 10 horas, e disse-lhe entre outras coisas, o seguinte: «Isto é o diabo, estas coisas assim para quem como eu tem mulher e filhos, são obra de gaita: imagina que tudo isto dá em drogas!» Ao que o 1.° sargento
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 69
objectou: «homem, agora não é occasiao de pensar nessas coi- sas, não desanimar e nem mesmo nesta altura podemos recuar, agora temos de seguir o caminho que vimos trilhando». Pela i hora da manhã de 4 apareceu desarmado na parada do quartel para ajudar a sublevar o regimento; conservando se assim até que soube ter fido implantada a Republica. Depois da saida da bateria para a Rotunda, conservou-se no quartel sem intervir em nada que dissesse respeito á defesa revolucionaria; apenas quando começou o combate com a artilharia do grupo a cavallo o sargento ajudante referido, reunindose a alguns ofi- ciais que conseguiram escapulir-se da prisão, organizou um grupo de quarenta militares (aproximadamente) para atacarem os revoltosos e içarem um lençol onde se achava hasteada a ban- deira republicana. Estes indivíduos, porém, foram dissuadidos do pérfido propósito que iam pôr em execução pelo então ma- jor Duque e capelão Thiago Matheus de Campos, que lhes dis- seram que o que iam fazer era uma traição não só aos repu- bliconos mas á pátria e aos próprios monarchicos que ali se encontravam, pois que daquelía maneira o quartel passaria tauibem a ser bombardeado pelos revoltosos. Passando o perío- do agudo do ataque ao quartel os civis conseguiram de novo prender os oficiais que se achavam soltos, e o sargento ajudan- te foi-se escapando para a arrecadação dos géneros da cosinha do rancho geral, onde juntamente com alguns camaradas se conservou até ás 1 1 horas, repousando sobre dois cobertores de papa que previamente mandara buscar ao seu quarto; porém, os artilheiros de uma peça que estava collocada junto da cosi- nha áquella hora fizeram novos tiros de pólvora secca para uns quintaes próximos e por effeito dos quaes algum cascalho dos muros voou para os telhados que abrigavam o sargento San- gremann.
«Em vista disto, os camaradas que lá se acharam houve- ram por bem mudar para poisada mais segura. Depois de obti- da a respectiva licença. dos artilheiros da peça que puzera em risco as suas vidas, passaram-se para o corredor do i.° grupo do quartel, onde discutindo acordaram em que a parte mais segura para se livrarem de perigos era o quarto dos sargentos
70 ! ARMANDO RIBEIRO
da segunda bateria, e de íacto para lá se dirigiu o grupo, mas o sargento ajudante, para se não comprometter, foi indo para junto d )s oficiais presos trocar impressões, e lá dormiu a sua soneca muito honradamente e sem protestar, como qualquer cidadão pacifico. No dia 5 de manhã (8 horas) estando o sar- gento Sangremann á janella da sala da prisão, enxergou por acaso, que alegria! que ditoso momento! um dos companhei- ros da noite anterior, e por meio de mímica (por causa dos comprometimentos) tez-lhe signal para que pedisse para o sol* tarem, mas, como o companheiro objectasse que o chete Rodri- gues o não soltaria, mimicamente lhe tornou a pedir que dis- sesse ao Rodrigues que não podia passar sem elle para o ajudar a tazer o rancho e respectiva escrituração. Sob este pretexto o chete Rodrigues autorisou a soltura do sargento ajudante e assim o nosso homem se foi de novo passando para o esconde- rijo predilecto, afim de ajudar o seu amigo na confecção do rancho. Momentos depois chegou ao seu conhecimento a no- ticia da proclamação da Republica. .
Então nesta altura o homem ensoberbecese, corre a armar- se de pistola e espada, e ordena que todos lhe ooedeçam pois que elle é o militar mais graduado que se encontra solto no quartel e também porque já fez parte do 28 de janeiro e estava comprometido para a revolução de outubro. Em consequência desta alegação, solemnemente se investiu no cargo de coman- dante republicano do seu regimento; daquella hora em diante desenvolveu o sargento ajudante uma actividade extraordinária e pouco vulgar, fazendo no entanto com que algumas ilegali- dades se cometessem, devido á falsidade das suas informa- ções como comandante que só foi depois da Republica im- plantada.
«Desde jà declaramos que nos comprometemos a confir- mar tudo o que asseveramos, não só pela confissão a nós feita pelo individuo a que nos referimos, mas também com testemu- nhas presenciais dignas da maior consideração. — Mais de- claramos que não treplicaremos a quem quer que seja que nos replique, e só por circumstancias muito excepcionais recor- reremos á imprensa. Os sargentos do comité revolucionário de
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 71
artilharia {, e hoje tenentes da guarda republicana. — Lisboa, 7 de agosto de 191 1. — Francisco Alexandre Lobo Pi- mentel, José Soares da Encarnação, oMathias Júlio dos Santos e Firmino da Silva do Rego. (*)
Em opposição, veio ainda o depoimento do revolucionário civil Júlio Rocha Villar, em documento por eile destinado á historia da Revolução: (**)
«Sr. redactor. — Na qualidade de membros da commissao que, no dia 6 do corrente, entregou uma mensagem de con- gratulação ao tenente da guarda republicana Arthur Celestino Sangremann Henriques, vimos pedir a v, a publicação das se- guintes linhas :
«No seu jornal de 10 do corrente vem publicada uma car- ta assignada por quatro officiaes da guarda republicana, na qual existem frases bastante ofensivas para esta comissão. No dia em que se publicou nos jornais uma carta do sr. San- gremann, declarando que renunciaria a qualquer pensão que lhe fosse oferecida, fomos procurados, por um dos membros d'esta comissão, propondonos a entrega de uma mensagem áquelle cidadão, por tal motivo; concordamos todos com o nos- so camarada, mas não pensámos, sequer, em nos informar qual fora a acção revolucionaria do sr. Sangremann, porque com is- so nada tinhamos nem temos. Se qualquer dos signitarios da carta tivesse procedido de egual forma, em primeiro logar, era a esse que dirigíamos a mensagem, não nos importando saber se tinha ou não trabalhado muito na Rotunda ou noutra qual- quer parte. Não somos amigos nem inimigos do sr. Sangre- mann; simplesmente pretendemos demonstrar que quem acei- ta pensões do Estado, quando o povo estuda a melhor forma de poder conservar a barriga vazia, porque não tem dinheiro para comer, é criminoso e anti-patriota. Os oficiais a que nos vimos referindo desejavam naturalmente apresentar a conta dos seus enormes trabalhos, mas como o decoro ou antes, o sr. San- gremann, os obrigou a não aceitarem mais do que já teem,
(•) O Mundo de 10 de agosto de 1911. (**) O Mundo de 13 de agosto de 1911.
n ARMANDO RIBEIRO
vêem, como regateiras, lavar a roupa suja para a imprensa, mas é preciso que tenham cuidado, porque lhes pode cair o casaco e aparecer a camisa pouco limpa. Chamam-nos audaciosos e dizem que vimos desde 5 de outubro ludibriando a opinião pu- blica acerca do procedimento revolucionário do sr. Sangremann! Audaciosos e inconscientes, se é que não existe em tudo isto uma má interpretação, são elles, porque fazem reterencia a fa- ctos com que nós não nos importamos e além disso é falso que nós venhamos desde 5 de outubro tentando impor á opinião pu- blica a pessoa do sr. Sangremann, tanto mais que naquella da- ta elle era ainda, para nós um desconhecido. Entendemos que não se devem lisongear nem homenagear homens, mas sim, la- zer destacar as acções que elles praticam, quando sejam boas e humanitárias. Para finalizar declaramos bem alto, que todos os cidadãos que comnosco assignaram a mensagem, quasi todos commerciantes, o fizeram conscienciosamente, repelindo com a maior energia todas as phrases existentes na carta, pelas quaea possam ser atingidos. Mais declaramos, visto odiarmos o soa- lheiro, que não triplicaremos a quem quer que seja que nos re- plique= — Pela commissão, Juho Rocha Vtllar. — Travessa do Olival, 17, rez-dochão.»
De nada valeram as campanhas contra Sangremann Hen- riques e demais quando até á imprensa (-) vieram reproducçoes photographicas apresentando o sargento junto de uma peça, com o ex-clarim do regimento João Mendes.
Assegurava-Ihe (••) ainda o constante posto no quartel, um dos não desmentidos dcfíensores da posição de artilharia 1, o soldado Raphael Miguel, promovido por distineção a 1.° sar- gento.
A tudo isso attendeu já durante a polemica o ministro da guerra, António Xavier Correia Barreto, e ministerial despacho (julho de 191 1) denegava provimento, com critério, ao reque- rimento de Sangremann Henriques, oppondo ao aliegado facto de a promoção haver sido proposta por engano, a conclusão de
(*) «O Século» de 15 de Outubro de 1910.
(**) Memorias da Revolução, por Gonzaga Piuto.=Pagina 59.
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tindeferido, por não ser, sequer, acceitavel, a possibilidade de ter havido engano em assumptos d'esta natureza.»
Assim, de quantos cm seu logar estiveram durante a lucta com as baterias, apenas não scfíreram quebra nos primitivos elogios, ou nas concedidas recompensas, o marinheiro João da Silva Louro, o grumete Alfredo Gomes Froes, o soldado Raphael Miguel, e o cabo íeservista Jayme Bornes.
Constituiu isso o affirmar completo, da sua intransigência e coragem, não perturbada pelos sonhos de uma suspeita, ou de arrastamento ou de inércia.
A revolução os contou como seus firmes mantenedores.
Para a Rotunda, como posto central se pretendeu reivindi- car um formidável e mais intenso ataque das baterias.
Comtudo, embora visada egualmente, foi menos molestada que os dois outros locais de combate, o edifício de Campolide e o Parque Eduardo VII:
«No ataque de artilharia inimiga, collocada junto á Peniten- ciaria, nunca atacaram a Rotunda, porque as granadas que le- varam essa direcção, iam rebentar no meio da Avenida, mas atacaram a valer as três peças que estavam collocadas no Par- que Eduardo VII e á porta do Quartel.»
Aos diversos avisos da marcha da columna contraria, acce- leraram-se os preparativos de resistência.
O sargento Mathias dos Santos, deixando a Rotunda ia pa- ra o alto do Parque Eduardo VIL
Os sargentos Francisco Garcia Tereno e Firmino da Silva Bego, foram postar-se com as suas peças, a 200 metros da feira de Agosto.
Disposto ficaram de forma a cruzar o fogo com o que fosse effectuado de Campolide.
Pouco antes haviam chegado munições dos paioes do quar- tel de artilharia.
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Mulheres e creanças as accarretavam fornecendo-as, irre- quietos, aos vários postos estabelecidos.
Não íoi desguarnecido, todavia, o ponto principal do ba- luarte, a Rotunda e, n'uma previsão de simultâneo assalto, man- tevese a deteza do lado do Rocio, não abandonando a peça da Rua Central, o i.° cabo reservista José Martins, que, á victoria,. seria promovido a 2.0 sargento, sobre proposta do commandan- te da Rotunda embora mais tarde e como succedeu a muitos ou- tros dos interterentes na revolta, por de novo se revoltar tosse aos cárceres da republica. (*)
Tudo em ordem, esperado foi o combate. Iniciouo o quartel de artilharia 1.
O tacto serviu para sobre elle se concitar a enraivada acção de Paiva Couceiro, deixando em relativo grau de interioridade o acampamento da Rotunda.
Comtudo não deixou elle de softVer o tiroteio das baterias e como n'eile integrado, o Parque Eduardo Vil
As primeiras granadas começaram a produzir ali os seus effeitos, pouco depois do meio dia e meia hora. A tusilaria acompanhava o canhonheio. As pontarias, certeiras, causariam largo numero do victi- mas se, ao espalhar da metralha, e á voz possante e aterrorisa- dora dos canhões, a personagem não dispersasse, em grande parte procurando seguro abrigo.
Abriu-se uma clareira, á comprehensão de que a força de Queluz, não era uma submettida.
Os elementos civis, n'um activo soffrivel, quasi a sós dei- xavam com os seus nove sargentos o commissario naval, Ma- chado Santos, que, mais tarde, espelharia ainda o seu espanto pelo rápido evolar e a ignorância do local por onde se efíectuá- ra o escoamento. . .
Desesperado, mas não abalado em té, Machado Santos, a cavallo, percorreu o acampamento, animando os que na linha de togo se mantinham.
(*) Vide paginas 346 do 3.° volume dJesta obra.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 75
N'ella se achava, á paisana, o alteres Alberto Camacho Brandão.
Regressara, ao ver que a apregoada derrocada se não dera.
N'elle estava, á paisana, o alferes Alberto Camacho Brandão.
Regressara, ao ver que a apregoada derrocada se não dera.
Cuidando dos animaes feridos, via ainda o tenente picador de artilharia 1, António Celestino de Sousa Correia.
Não estava tão abandonado, como de principio presumira.
Subindo ao alto da Feira de Agosto, ali se estacava, num quartel general provisório.
Expunha-se temerariamente.
Os nove sargentos, imperturbáveis, commandavam os seus sectores de defeza e ataque, impondose pela coragem, não des- mentida.
As Cantis da Rotunda manobravam incessantes, auxiliando enérgicas o quartel de Entremuros na resposta ao fogo da bateria, embora estas, de preferencia exercessem mais violenta acção con- tra a sede de artilharia i.
Todavia, n'um dado momento, uma granada, despedida do alto da Penitenciaria ia varando o sargento Vieira, cujo cavallo era atravessado do peito á cauda, cahindo logo morto e arras- tando na queda o cavalleiro que ainda partia a espada.
Algumas praças accorreram a tlral-o de sob a montada.
Indifferente aos resultados molestantes do desastre, retomava o posto d'cnde se não aífastou.
Noyos tiros se fizeram da Rotunda e de Campolide.
As pontarias eram certeiras e o duello da artilharia tornou- se gigantesco, merecendo que Machado Santos, no seu relatório (pagina 79) lhe fizesse justiça:
«Seria meio dia e meia hora quando as primeiras granadas das baterias de Queluz começaram a chover na Rotunda; âs pon- tarias eram magnificas, certeiras, quasi todas tinham o seu ponto de rebentamento na nossa linha de fogo; o acampamento responde ao fogo do inimigo e o quartel de artilharia 1, com duas peças, defendia-se galhardamente; ao mesmo tempo que uma viva fuzi- laria envolvia por completo a Rotunda.
«Malva do Valle que estava presente observava e via a sere-
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nidade com que os artilheiros respondiam ao fogo do inimigo.»
Ao efticaz emprego dos tiros ordenados peio capitão Paiva Couceiro, iam correspondendo audaciosas pontarias, notando-se- lhe o eííeito.
Como succedera em Entremuros, viu se da Rotunda a deban- dada da infantaria e da cavaliaria.
Mas não se deu de mais fulgida a estrella da victoria.
O lance proseguiú, a breve trecho, desmanchando conten- tamentos.
Foi assim que, no apogeo do duello entre as duas artilharias, c previsto um golpe, cerce, nas intenções de reivindicar a repu- blica, se executou, sob aviso, um projecto de antemão combinado.
Um auto de fé, reduzia a cinzas em casa do commissario naval Machado Santos, na rua José Estevão, 14, todos os apon- tamentos revolucionários, desde a disposição de grupos, até á sua organisaçao ; desde o esboço da lucta a realizar até aos actos de necessidade para garantir uma possível partida ganha.
A revolta, considerada perdida cerca das 2 horas da tarder originou a queima dos documentos, se bem que a cifra em que se encontravam escriptos não desse margem a uma descoberta dos segredos.
Não se desmereceu todavia da argúcia policial, accirrada ás probabilidades tristes da derrota democrática e o fogo devorou a papelada, não fosse ella indiscreta base fornecer ás presumidas perseguições das horas más.
Entretanto, regressava d'uma inútil peregrinação tendente a trazer officiaes para o campo da sedição, o alumno da Escola Po- lytechnica, Fernando Luiz da Silva Mendes.
Com outros condiscípulos, sahiu de novo, d'essa vez a pro- curar informes da armada.
Por outros vinham todavia.
Foi no ponto culminante da lucta com a bateria de Queluz, que trtz enviados dos combatentes da marinha chegaram para sollicitar auxilio da Rotunda.
Indecisa ainda a victoria, os delegados do quartel de ma- rinheiros, os revolucionários Jayme Teixeira, Mário Malheiros e Estevam Pimentel, vinham encarregados de pedir o avanço de
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 1T
uma parte da columna sobre Alcântara, afim de rechaçar os- defensorcs das Necessidades.
O primeiro, fazia entrega ao commandânte da Rotunda d'um
bilhete a lápis, assig-nado pelo t.° tenente António Ladislau
Parreira, que succintamente expunha a conveniência da sortida.
Machado Santos, de reiance avaliou a impossibilidade de
satisfazer o pedido. Recusou.
Sem querer, ganhara nova partida, eliminando essa platafor- ma para a derrota, offerecida, sem boa analyse, pelos defensores do quartel de marinheiros.
O abandono da Rotunda, essa posição, que se mostrava invul- nerável ou pela defficiencia das torças fieis ou por uma especial táctica de adherencia, significaria um abdicar da realisaçao do ideal democrático e a demonstração d'um inútil sacrificar de vidas.
Todavia, Machado Santos, para que julgada não fosse a sua intenção como acto de abandono, chamava a conselho, n'uma barraca da feira, o alferes Alberto Camacho Brandão.
Sereno, como se o não molestasse o tiroteio das torças acam- padas nos altos da Penitenciaria, desenrolou ante o outro official um plano da cidade, pelo qual acompanhou o roteiro da Avenida a Alcântara.
Deixar esse posto, significaria o modo pratico de sujeitar a columna volante a um destroço e a Rotunda a um assedio, insus- tentável pela falta de mais oíficiaes e pela diminuição do effectivo, já de si escasso.
Ao alferes Camacho Brandão, participava a opinião, logo acatada e definida, de ser de péssima táctica o abandono do ba- luarte.
Se não era precisamente um ponto intomavel, julgavao o povo de impossível vencida e a crença duplicava lhe a força. Assente ficava a recusa á proposta do tenente Parreira. A' pressa redigiu a resposta, logo entregue a Jayme Tei- xeira, e por elle depois depositada nas mãos do i.° tenente Par- reira, a bordo do Adamastor.
«Impossível avançar Alcântara visto não abundar a infanta- ria, antes pelo contrario,*com que possamos apoiar as peças. Bate-
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remos Rocio quando bombardearem Terreiro do Paço. Estamos em combate desde madrugada».
Machado Santos, dizia-lhes ainda, para appressar a juncção dos revolucionários do quartel de marinheiros com os da Ro- tunda e de novo justificava o íacto de não effectuar o ligamento, sahindo eile do seu posto:
— Digam-lhes lá bem alto, para que todos os oiçam, que me encontro aqui sosinho com um oiíicial de artilharia!
Âllegando a estada única de um oiíicial, ignorava ainda Machado Santos, que outro ali se encontrava, tacto só por clle conhecido ao terminar do combate das baterias;
«Tendo notado a solicitude que um individuo estava mos- trando pelo gado, soube que era o tenente picador de artilharia I, António Celestino de Sousa Ccrrêa, que nada sabendo do mo- vimento, sahira de casa, entrara na Rotunda e lá ficara, volunta- riamente, prestando nos o seu valios oconcurso não só em com- bate, como na protecção aos solipedes. (*)
De ha muito ali se encontrava porém o tenente, percorrendo o acampamento na sua missão, antes mesmo do ataque das bate- rias, e até da retirada dos ofSciaes na manhã de 4.
Para desempenho do seu encargo deixaram os três emissários a Rotunda, indiferentes ao perigo e conscienciosos no serviço de communicações que, á victoria obtida, lhes trouxe o premio de altos cargos. A Estevão Pimentel, ia o logar de governador civil do districto de Évora; a Jayme Teixeira, o de secretário da administração do 3.° bairro e a Mário Teixeira Malheiros, o de conservador do registo civil.
Ao abandonar do campo assediado pelo íogo da artilharia de Queluz, ainda os emissários sentiram echoarlhe aos ouvidos, a seguinte phrase enérgica de um popular, como protesto á phrase quasi desconsoladora do chefe do acampamento:
— E que a gente entrega mais íaciímente a pelle que as armas!
E, como que secundando o brado, de novo desfechou a es- pingarda para os altos da Fenitenciaiia.
(*) Relatório — pag. 82.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 79
Desde essa hora começou a desvanecer-se o aspecto d'um sa- crifício, a transtormar-se no reflexo de uma esperança.
O ataque das baterias foi abrandando. Era ali o momento critico das novas dispersões.
Redobrando de enthusiasmo, os insurrectos proseguiram a lucta.
O tiroteio afírouxou mais e em breve registado era da Ro- tunda, o recuar da força de Queluz, e sua retirada.
O alto da Avenida representava sem duvide, um ponto si- tiado, e de difficil manutenção seria se, de facto, virtualmente assim fosse considerado, e não sob um patente platonismo. Conv tudo, por extranho dictame da sorte, eram os envolventes que se submettiam.
Isto deu justiceiros foros ao jubilo grande.
A força de Queluz, até esse tempo assumira para o campo de rebeldia as porporçÕes de um coílosso.
O nome de Paiva Couceiro, impunha o receio, e instincti- vamente o convencimento de que só d'elle podia partir um ata- que violento, livre de convencionalismo.
O retrocesso, mais que a victoria de momento, constituiu um golpe no animo de quantos dispostos estivessem a auxiliar a monarchia e um soerguer da coragem nos revolucionários.
A promettida proximidade de juncçao com os marinheiros maiores alentos trouxe ainda.
O dr. Malva do Valle, o único membro do Directório do Partido Republicano que até á Rotunda deitou e que dentro d'ella assistiu ao duello com as baterias só conseguiu exprimir n'um forte aperto de mão a Machado Santos, o contentamento d*essa hora de ventura.
Malva do Valle, ao ganho lance, iria a deputado, e a com- missario do governo, junto do Banco Nacional Ultramarino.
Mais tarde, a quasi quatro annos de distancia d'essas fortes commoçoes da lucta, vel o hemos no grupo collossal dos desillu- didos e bradando em plena camará dos deputados (sessão de I S de junho de 1914) durante a discussão de um projecto reorga- nisador das assembléas eleitoraes de Alcobaça:
«Esta corja está a provocar. Esta cambada precisa ser le-
80 ARMANDO RIBEIRO
vada a tiro! Ha entre nós e elles um equivoco que tem de des- fazer se em sangue, e o melhor é começarse já, Eu que não íugi da revolução, respondo por mim, também não fujo!» (*)
Era presidente do governo, o dr. Bernardino Luiz Machado Guimarães.
A alegria, justa áquella hora de êxito, patenteava-se exhube- rante.
Machado Santos, no auge d'essa expansão de enthusiasmo e crente de que os soldados realistas haviam batido em retirada, pois ignorava a ordem do general António Carvalhal da Silveira Telles de Carvalho, escreveu uma carta ao commandante da di- visão, general Manuel Raphael Gorjão, convidando-o a pôr termo ás hostilidades.
Ultimatum delicado era, e um portador seguiu com elle, para que, satisfeito, sem mais victimas se erguesse o estandarte da Republica.
A carta não dava entrada no quartel general :
aFoi uma verdadeira victoria! A muito custo consigo escre- ver uma carta ao general Gorjão, convidando o a cessar a lueta. No dia seguinte soube pelo próprio general, que a carta não lhe tinha sido entregue. A carta íôra confiada a um popular que, ou morreu, ou se desinteressou do assumpto. d (**)
Nas primeiras horas da implantação da republica, duas ver- sões correram: uma, dava o popular como um dos mortos da Rua de Santo Antão, (•**) e outra, como não entregue a carta no quartel general, por suspeita de que ella contivesse intuitos de submissão ás tropas realistas.
Parece, porém, que mais base teve o primeiro boato.
Inutilmente esperou pois Machado Santos a sonhada franca capitulação do quartel general.
A esse tempo, porém já haviam eífectuado uma notável es- capada pelo tunnel da estação do caminho de íerro do Rocio até
(*) Não o cita, como era de prever, o Summario da Sessão n.° 119 da da Gamarados Deputados, em 15 de junho de 1914. Reproduziu-o, porém, em 16 e 17 toda a imprensa de Lisboa, entre ela o Dia e o Intransigente de 16.
(#*) A Bcvolução Portuguesa— Relatório de Machado Santos, pagina 80.
(###) Actual Rua Eugénio dos Santos.
\ REVOLUÇÃO PORTUGUEZA Si
Campolide, algumas praças de caçadores 5 e infantaria, allicia- das estas pelo mestre de corneteiros, Joaquim António Cochicho e aquellas pelo i.° cabo 3<\ da 5.â companhia de caçadores 5, José d'Almeida Diniz.
Pelo ardil e pelo porte em combate, foi elle proposto por Machado Santos para a promoção a 2.° sargento, apparecendo incluido na respectiva lista da ordem do exercito publicada a 22 de novembro de 191 o.
Pelo mestre de corneteiros Joaquim Cochicho se soube na Rotunda, o quebrantamento moral dos regimentos que a asse- diavam e a tareia do tenente José da Ascenção Valdez para con- duzir a força do seu commando a um completo destroço ou a um auxilio unanime ao baluarte da Avenida.
Abandonando o edifício das cortes, de abalada vieram egual- mente até ao reducto com o i.° sargento José Marcellino Santos, 12 praças de infantaria 16.
Marcellino, ao conseguido fim da revolução foi indicado para ascender ao posto de alferes na arma a que pertencia.
A desesperança da falta de resposta do quartel general, e as noticias optimistas trazidas pelas fugitivas praças de infanta- ria 5, fizeram com que o commissario naval ordenasse algumas descargas sobre os vultos dos soldados que fechavam a emboca- dura da Avenida.
O retrucar foi frouxo e sem que intenção se tivesse de per- turbar esse crescente jubilo do Alto da Avenida.
Augmentou-o ainda o revolucionário José Augusto dos San- tos, expondo o aspecto pouco firme do quartel general e o bello effeito ali produzido pela sua phantastica descripção (*) do acam- pamento da Avenida.
Como se isso servisse de evocação, e como que por encanto a Rotunda repovoou-se.
Assignala o refluxo, Machado Santos, no seu órgão jornalís- tico, (**) post Republica:
«Faz hoje dois annos que no alto das terras do parque Eduar-
(#) Mencionado no capitulo precedente.
(##) O Intransigente de 4 de outubro de 1912.
VOL. 1Y — FL. li
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do Vil começaram a brotar os heroes, como as ervas damni- nhas dum vasto campo de cultura!
«A's 1 1 horas da manhã a praça do marquez de Pombal era um mar de cabeças humanas; mas quando a fuzilaria e as granadas de Queluz se fizeram ouvir ... ai pae do céu! — com perdão do sr. Afiíonso Costa — sempre a maré vazou com tal ra- pidez, que ainda hoje não sabemos por onde tanta gente se con- seguiu escoar.
«Ganha a primeira victoria, era vel-os de novo a pejar a praça! A* noitinha, nem meio! Se acaso se não taz a ocupação do Quartel General nem sequer os do dia 6 apareceriam hoje. Sempre haviam de ser um poucochinho mais thalassas do que thalassas nós somos hoje.»
O contrario tegistam depoimentos da occasiao em que não se haviam ainda subdividido em opiniões e malquistado es in< terferentes do maior lance de ataque que a Rotunda teve.
Vejamos as anotas de um revolucionário que seguiu todas as fases do combate» :
«O duelo da artilharia foi renhido e demorado. Entretanto ninguém se afastou um passo dos seus postos e entrou no espi- rito de ninguém o mais leve esmorecimento. O comandante Machado Santos, sempre a cavalo, de espada desembainhada, corria de um lado a outro, vigiando todas as posições e per- manecia, de preferencia, no alto onde a artilharia se batia com a de Queluz, expondo-se temerariamente.»
E* certa todavia a evasão civil e até militar aos momentos de mais intenso tiroteio pela columna disposta junto aos muros da Penitenciaria.
Confirmando a sua retirada, que obedeceu, como já vimos, não a uma derrota, mas a uma ordem de abandono do local combativo, e mal recebida pelo capitão Paiva Couceiro, — che- gou o empregado commercial Fortunato Espada, com alguns po- pulares.
Conduziam dez armões, entregues por praças fugitivas.
Descreveram elias a dispersão da soldadesca de infantaria 2, de serventes da guarnição de Queluz, e até a espectativa de va- ria da officialidade.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 83
Bem acceite foi essa entrada dos foragidos.
O acto, comtudo, teve certa base: a influencia do desanimo, da desorientação e até da fome.
As praças encontradas a meio do caminho por revolucioná- rios civis, e andando quasi desfallecidas, pelo cansaço e pela taita de alimento, ingressavam na Rotunda, para refazer torças!
Algumas, achara-as na Rua Açores, o revolucionário Am- brozio Sengo.
Deixando a>linha de fogo, endireitavam ao quartel general, mal podendo suster se.
O popular tez o alliciamento, duplamente atendível.
Ao regimen tirava esses defensores. quasi inertes, e á repu- blica, trazia, sob o aspecto humanitário de um saciar de fome, um troço de auxiliares, ao retemperamento, preciosos.
Assim, de agrado ingressavam no acampamento, que pre- tendiam antes combater!
Foi essa singular phase que coroou o terminus do primeiro assalto das baterias.
Uma das causas do desastre d'estas, foi o não unitário ata- que da Rotunda, aliás esperado pelo capitão Paiva Couceiro, julgando que, durante a sua manobra, incessante e firme, uma investida séria pelas forças do Rocio, o auxiliariam eficazmente.
Pouco se fez.
Desde a registada paragem da columna mixta por Sete Rios, até á sua retirada dos altos da Penitenciaria, apenas distantes e ligeiras escaramuças se realisaram.
Deu se um ataque por caçadores 5, com permuta de tiro- teio, sem largo alcance.
Por seu turno, a municipal, de momento na Avenida, re- produzia o alarme, fazendo fogo perdido para o alto de S. Pedro de Alcântara, onde o povo se accumullava.
Era uma revindicta e uma prevenção contra elle.
Os insurrectos haviam-nas justificado com ardil, que em improductivo deu.
Um caldeireiro, de 22 annos, morador no pateo do Manuel Padeiro, ao Poço do Bispo, simulando uma traição, insinuava
84 ARMANDO RIBEIRO
á guarda municipal que estava na Penitenciaria um pretenso lado vulnerável da Rotunda.
A tropa cedeu.
A emboscada estava feita e em certo sitio cahiu em pleno centro de actividade revolucionaria, sendo o núcleo da guarda dispersado.
Antes, ao iniciar da lucta, tinha, porém, o caldeireiro o pre- mio do traidor estratagema e um dos soldados esphacellava-lhe a cabeça com dois tiros, dando entrada, já morto, no posto da Misericoidia.
Ainda pela guarda municipal um rasgo de audácia houve.
Aproveitandose da investida das baterias, tentavam (orçar o acampamento, resistindo sempre, com o seu punhado de ho- mens, que pareciam multiplicar-se, impondo a iilusão de que centenares de revolucionários ali sacrificavam a existência, afta- gados pela bandeira verde e vermelha da Republica.
Um pelotão, apoz o abandono da residência do conselheiro Teixeira de Sousa, passou, sob o commando d'um capitão, pelas alturas da Rotunda, querendo efectuar o seu reconhecimento.
Vigiando sempre, os revoltosos punham tudo em debanda- da, sendo levada á Rotunda a noticia falsa, de haver ficado no campo, morto, o commandante da força.
A um desordenamento se reduziu, porém, o feito, (*) e a força apta se julgou para seguir na segunda columna, a que foi ao en» contro do coronel Alfredo Albuquerque.
Todavia, nenhum d'esses lances, por isolados e de diminuta violência, podia constituir um auxilio á lucta pelas baterias.
Só estas pois representavam o pesadello do campo rebelde,
Só ellas symbolisavam, por assim dizer, o gladio que po- deria decepar, de golpe cerce, todas as esperanças em reivindi- cações republicanas.
Temido sempre foi a envolvente.
Esse temor justo e observado por quem mediu consequências, teve reflexo no capitão Sá Cardoso dizendo nas annotaçÕes (n,° li) ao relatório apresentado no ministério da guerra:
«Que se teria passado na manhã de 4, se, precedendo um ataque envolvente á Rotunda, as peças do grupo a cavallo ti-
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 85
vessem occupado algumas das alturas e metralhado d'ahi a co- berto os revolucionários da Rotunda?
«Pode fazer-se uma ideia approxirnada, sabendo-se que, quando na madrugada de 5, uma peça do grupo tomou posi- ção no Thorel, a artilharia dos rovolucianarios, então em posi- ção no alto do Parque Eduardo VII, não podendo descortinar d'onde vinham os projecteis com que estava sendo batida, fez fogo para o Gastello, para o Thorel, para S. Pedro de Alcântara e para o Carmo.» Vide A 'Democracia de 28 de novembro.
Reconheceu-se portanto ganho e com jubilo o antevisto acto de risco, á retirada da columna do Alto da Penitenciaria.
O general António Carvalhal, dera alem, com a ordem de retrocesso, uma dupla feição aos successos.
Tirando um pouco de coragem aos quasi raros soldados dispostos a combater pela monarchia, insuflou animo áquelles que pela republica se batiam.
O epilogo, singular, da lucta com as baterias, exprimia, de facto, para a Rotunda, o prodomo da sua victoria.
(#) Citado a paginas 25 d'este volume.
^
XXIV O ataque das baterias
Procurando convencer — Da Rotunda alveja-se o Rocio
— O eíFeito das granadas — E' derrubada a coroa mu- ral do monumento dos Restauradores — A granada artística — Falso boato de novo ataque das baterias
— Surgem mais auxiliares — Em prol da revolução — A guarda municipal e a policia — Scenas das ruas
— Ainda as granadas do «S. Raphael » — O jornalismo ante esse dia de revolta.
evidente supremacia nascida da retirada das baterias, levou á Rotunda, com um verdadeiro enthusiamo, a anciã de mais largo emprehendi- mento.
Julgando-se os successos do alto da Peni- tenciaria, prenuncio seguro de uma rendição geral — presumpção confirmada pela remessa .do já conhecido ultimatum ao quartel general — tratou se de preparar uma adherencia completa com os eííeitos do iniciado bombardeamento.
Serviria para temor de traços e para auxilio aos que se não quizessem render sem simulada vencida.
Da Rotunda, tez- se pois togo vivo sobre o Rocio.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 87
Procuravase rasgar caminho.
O povo, conhecedor do que se planeava, agrupavase enco- berto com as esquinas, aguardando a hora de manobrar.
Apoz a primeira granada, vinda do Alto da Avenida, a mi- litança, procurava subtrahir-se á metralha que veio espalhar-se ao longo do primeiro e segundo quarteirão da Rua Augusta, indo parte attingir os vidros e portas de janellas do 3.° andar do prédio 5"] da Rua da Assumpção, contornando para aquella rua e víctimou no 4.0 andar, Francisco Ferreira da Silva, estu- dante, que estava á janella, e que os populares, aos gritos da família, humanitariamente foram buscar, e conduziram ao hos- pital, d onde sahiu dias depois.
Querendo aproveitar essa lufada feliz, da Rotunda se pro- seguiu o ataque.
As granadas, iam lazer rombos nas paredes, torcer as gra- des e partir os vidros das janellas do Hotel d'Inglaterra.
Os dois prédios seguintes, os 3l e 43 da Rua do Jardim do Regedor, softriam bastante e se no primeiro, as balas de artilha- ria abriam buracos, na parede, no segundo iam fazer em esti- lhaços as trez janellas do consultório dentário Ferreira Pires, onde entrou uma granada que, explodindo, quebrou moveis, partiu espelhos, derrubou e torceu os apparelhos cirúrgicos.
Outra bala de artilharia ia cahir no beiral de um prédio da Rua das Gallinheiras quebrando os vidros das janellas, e reben- tando no chão onde deixava um rasto amarello com fundos tra- ços do trajecto.
Laborioso trabalho exerciam junto de dois candieiros, dos que rodeavam a base do monumento dos Restauradores na parte occidental.
As columnas, rasgadas á passagem das balas, como que fo- ram reproduzindo, simetricamente o seu diâmetro, em escala regular.
Os candieiros, cuiiosos, pelo aspecto da sua apresentação, ali se mantiveram até ingressarem (12 d'outubro de igio) no museu dedicado ás curiosidades revolucionarias, sendo apenas recolocados, apoz reparações, a quasi quatro annos d'esses sue- xessos (Março de 1914.)
ARMANDO RIBEIRO
Antes, já outro notável incidente se dera.
N'elle se evidenciou uma prophecia desfavorável á realeza.
Pelo meio dia, o cabo José Martins, á descarga feita pelas tropas que cercavam a Avenida, disparou a peça.
Julgou-se simplesmente attingida a parte alta do monu- mento aos heroes de 1640, mas outra symptomatica indicação do futuro operava a bala, como se guiada fosse pela invisivel mão do destino.
Deixando tudo incólume, apenas derrubou a coroa mural do escudo das armas da cidade, collocada no terço superior do monumento.
O projéctil, que se presumiu auctor do feito, rebentara egual- mente sob caprichosas formas, semelhando uma flor de acantho.
Colhido junto ao local onde estoirara, constituiu exemplar celebre assignalado por uma chapa de ouro com a inscripçao : Recordação da revolução que implantou a Republica em Por- tugal — 4- IO- 10.
Cognominada toi ainda de a granada artística.
Mas nem só inanimadas cousas sottreram os resultados d'esse ataque destinado a convencer indecisos ou cautellosos.
Alguns revolucionários eram igualmente victimas e quando um d'elles, pelas 4 horas da tarde, ia a atravessar a linha de togo, derrubavao um tiro na cabeça.
Attingido foi um dos assaltantes do quartel de infantaria 16, Aggripino Thomaz de Oliveira, filho de Rachel Jesus de Oliveira, de 18 annos, pedreiro, natural de Óbidos, morador na Travessa de Cima dos Quartéis, 12.
Uma bala, entrando-lhe no peito, feriao gravemente, não o impedindo de conhecer a coroação dos seus esforços em favor da causa democrática, de que não chegou todavia a ter mer- cês.
Fallecia no hospital de S. José, na manha de 1 1 de outubro de 1910.
Outro íerido, grave, mas encorajado, foi José Pereira de Araújo, de 20 annos, natural de Arcos de Valle de Vez, cai- xeiro, morador na Rua dos Anjos, 172 -i.°, que alcançado por três balas, de rastos se conseguiu collocar atraz de uma arvore,
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 8i*
onde ficou, estorcendose, até ser erguido por outros populares, que o levaram ao hospital. Ali lhe foi amputada uma perna.
Não obstou isso todavia a que o povo, indilferente a esse comprovado perigo, procurasse aproveitar o desanimo na solda- desca, provocado pela perda de alguns dos seus, attingidos pelo fogo da Rotunda, e transitando d'ali para o quartel general e d'este, no carro de saúde com a Cruz Vermelha, para o hos- pital da Estrella.
Aos gritos de viva a republica buscavam disseminal-os ou attrahií-os.
Retrahiam-se elles, porém, embora a poucos passos se en- contrarem d'uma acquiescencia, devida á attitude popular ener- vante, absorvente, intuitiva, conduzindo-os a fraca resistência.
A* imprensa vieram os echos de uma segunda tentativa de marcha sobre o Rocio, efíectuada por uma bateria e com popula- res armados ad libitum, com caçadeiras, revolvers, pistolas e paus.
Confundiramse as intenções do povo, tendentes a promover uma juneção entre o exercito e a revolta, com a organis8ção da columna disposta a exercer directo e próximo ataque ás forças que fechavam a Avenida.
Não o mencionam todavia as obras destinadas a servir de guia aos historiadores, pelos nomes de confiança que as fir- mam.
Não o registou Machado Santos, no seu relatório, e o mes- mo faz Gonzaga Pinto, não citando ainda o caso nenhum dos depoentes que figuram no trabalho do segundo.
O boato ao quartel general chegou e d'ahi um serviço de investigação confiado ao tenente do 3.° esquadrão da guarda muninicipal, Raul de Menezes, ao seu regresso da estrada da Pi- menteira, até onde commandára a escolta a D. Manuel II.
Ratificou elle o desmentido a quantos affirmavam efectuada a "tentativa, por confusão com a retirada de manhã e ainda pelo iance catechisante a que se quiz expor a populaça, obede- cendo ás velhas theorias ensinadas por Machado Santos logo apoz a fuga dos officiaes.
Esclarece pois assim nitidamente o incidente, o tenente
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Raul de Menezes, referindo a sua chegada ao quartel general:
«Ali íui incumbido de ir saber se effectivamente as torças da Rotunda tinham descido até á rua das Pretas, o que averi- guei ser mentira». (*)
Por essa hora, o acampamento revolucionário, contava com o auxilio de vários otficiaes e aspirantes dispostos ao combate pela republica : o tenente do quadro de reserva, Fernando Mauro da Assumpção Carmo, o alferes de artilharia de reserva, Carlos Ludgero Antunes Cabrita, o aspirante de infantaria 1 6, José Fer- nandes Soares, e os cadetes Humberto de Athayde Ramos e Oliveira, Manuel Fernandes Beirão e Viriato Correia de La- cerda.
Cabrita foi o principal organisador dos grupos de estudan- tes revolucionários, não realisados aliás á precisa hora, mercê de dessidencias que Machado Santos patenteia a paginas 121 do seu Relatório:
«Entre os alumnos da Escola do Exercito conseguiu entre- metter-se um estudante paisano sob promessa de sentar praça, que nunca cumpriu. Este personagem ambicioso do mando, não viu com bons olhos a chefia de Cabrita e teve artes de escangalhar a magnifica organisação e de se fazer passar como seu principal elemento perante João Chagas. O diabo não quiz nada com rapazes e os alumnos da escola do exercito, foram de toda a organisação revolucionaria, os que mais me arreliaram,, por muito apreço lhes dar.»
Antunes Cabrita, depois um dos grandes defensores (**) de Machado Santos durante a campanha contra este feita, era á victoria obtida, passado, no mesmo posto de tenente, ao quadro activo do corpo de almoxarifes de engenharia e artilharia, sem prejuízo de antiguidade.
Mais tarde capitão, não se salvou de ser accusado de conni- vencia na tentativa de golpe de estado de Janeiro de 1912. (***)
Dos outros, Humberto de Athayde, íôra um dos destinados
(#) O Século de 15 de Outubro de 1910.
(*#) O Intransigente de 4 de Outubro de 1912. Na sua altura será sa- lientada essa defeza.
(###) Vide documento de paginas 347 do 3.° volume d'esta obra.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 9t
a dirigir o assalto ao castello de S. Jorge, preterição mallo- grada como já vimos.
Manuel Fernandes Beirão e Viriato Correia de Lacerda aju- daram egualmente a propaganda na Escola.
Os três, ante a impossibilidade de evitarem a acção d'esta, promoveram a abalada até a Rotunda, aproveitando a noite es- cura, sendo com jubilo recebidos no campo de rebeldia.
De todos, porém, só um synthetisaria mais tarde, o maior escolho á aureola de gloria em que toi envolvido o nome de Machado Santos.
Era o tenente Mauro do Carmo.
Dado foi como o commandante da Rotunda, a um pretenso affástamento do logar pelo commissario naval e elle próprio não desdenharia orientar, n'esse sentido uma campanha, que a seu tempo será relatada.
Vinha ainda participar das previstas más consequências, outro agaloado. Vendo o constante vacillar de tropas, entrava na Rotunda, um dos otficiaes que tinham o seu nome ligado ás phases iniciaes da conjuração, o tenente de caçadores, António Pires Pereira Júnior, ao qual foi entregue o commando central, o da Praça Marquez de Pombal, com o auxilio do tenente Fer- nando Mauro do Carmo, alferes Camacho Brandão e Carlos Ludgero Antunes Cabrita, tenente picador Correia e os cadetes.
Para premio ao novo combatente, sairia mais tarde, Repu- blica victoriosa, apresentado pelo delegado ás Constituintes, In- nocencio Camacho Rodrigues, um projecto de lei (*) onde se incluía o nome de Pires Pereira, em lista para a concessão do grau de grande ciliciai da Ordem da Torre e Espada, com a pensão de 900^000 réis.
Ao não seguimento, correspondeu, posteriormente, era pre- sente na camará dos deputados, por António Granjo, o seguinte projecto de lei, que para segunda leitura ficou:
«l.° E' concedida ao tenente de infantaria António Pires Pereira Júnior, e igualmente ao tenente de artilharia Alberto
(#) Assembleia Nacional Constituinte — Sessões n.0§ 16 e 18, de 7 e li de Julho de 1911.
92 ARMANDO RIBEIRO
Camacho Brandão, a pensão anual e vitalícia de i:200$oooréis, livre de todos os descontos, pelos serviços relevantes prestados á Republica nos dias 4 e 5 de outubro. Art. 2.0 Fica revogada a. legislação em contrario.» (*)
Machado Santos, com uma parte da infantaria ia estabele- cer-se no alto das Terras, defrontando o quartel de artilharia lr, para seu appoio em caso de assalto.
Reorganisou se o serviço de segurança, pela fixação de postos> avançados e vedetas, desenvolvendose até aos iogares distantes do acampamento, como o Campo dos Martyres da Pátria, onde era dirigido o serviço pelo carbonário, secretario da commissão paroquial republicana da freguezia do Coração de Jesus, António Marinho Marques. (**)
Preparando as precauções para obstar a qualquer inesperada sortida, promoveuse a quietitude de alma na populaça que a dentro do acampamento, se principiava a entibiar com o pro- gressivo descer das nocturnas sombras.
Para animo não só aos internos combatentes, como para assegurar a boa vontade dos que erravam pelas ruas, rez-se sa- lientar o desembarque, próximo, dos marinheiros para atacar asv forças fieis, e emissários d'essa nova, transitando sem embaraço, foram três estudantes militares, armados de espingarda.
Percorrendo as redacções, fallando aos grupos, incitavam, ante a benévola vista dos que atacavam a tiro os devotados da democracia, tolerando-lhe comtudo a desassombrada propa- ganda. . .
Essa attitudt singular, pode-se todavia filiar na intensa vontade de não dar a cada campo a nota llagrante de uma trai- ção absoluta.
Para propaganda ainda, tezse também descer a Calçada de S. Francisco, até perto das tropas, para logo retroceder, uma ranchada de creanças acclamando a republica.
(#) Diário da Camará dos Deputados, 67.* sessão, em 7 de Março de 1912. Pagina 5.
(#*) Falleceu a 15 de Janeiro de 1911.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 93
N'um desespero, quasi só a policia e a municipal se mul- tiplicavam para estorvo a torrente avassaiante da revolta.
A policia procurava ainda, audazmente, entravar a marcha dos rebeldes.
Perto da Avenida, um agente, assaltado, resiste, a tiro.
Os populares, comtudo, caniram-lhe em cima, algemaram- no e levaram-no preso até á Rotunda, d'onde sahiu livre, com a tarda vestida do avesso.
Do acampamento gritavamlhe:
— Vae dizer aos teus que os republicanos não são assassinos !
Pouco antes, haviam dado ingresso no governo civil, entre uma escolta de 28 agentes, 10 populares que tinham feito uma tentativa de ataque a um quartel.
Procurando resistir, fizeram explodir uma bomba que ape- nas attingiu o seu possuidor, ferido gravemente no rosto.
A attitude policial, forçou a medidas radicaes.
Posta em destaque a inconveniência de se manter, embora desguarnecida, a esquadra do Rato, tão próxima da Rotunda, um troço de populares, armados de picaretas, assaltaram-na e arrazaram-na aos gritos de viva a republica.
Foi n'essas alturas, que uma bomba explodindo na Rua Ba- rata Salgueiro, íeria quatro civis, sendo um d'eiles, em peor estado, transportado ao hospital sobre uma porta tirada da es- cada de um dos prédios da Avenida.
Continuava, por sitios vários, o ataque a outras esquadras e entre ellas, á da Rua do Loureiro, onde reduzido a fragmen- tos ficou todo o mobiliário, exemplo baseado no assalto á do Beato, destruida, mas não sem lucta grave.
A municipal detinha por seu turno, pela tarde, no largo de S. Roque, o jornalista revolucionário, redactor da Capital, Fran- cisco Xavier Carregal da Silva Passos, logo encerrado no quartel do Carmo, ante a apprehensao d'uma pistola automática
O chefe do grupo civil A Redempção breve era restituido á liberdade, indo, ás primeiras horas da noite, auxiliar a defesa da Rotunda.
O povo, sempre ousado, procurava não deixar em descanço a soldadesca, tentativas ás vezes a mau terreno conduzidas.
ARMANDO RIBEIRO
Um troço de populares, postando se á esquina da Travessa de S. Nicolau, combinava uma acção sobre a tropa do Rocio, quando esta, percebendo-os, lhes mandou intimação para retirada.
A* desotediencia correspondeu logo uma descarga, ficando feridos alguns civis.
Outro grupo, toi postar-se á embocadura da rua dos Cor- reeiros, para a Rua das Gallinheiras, acenando ás praças para que o seguissem.
Surprehendidos por uma vedeta de infantaria,' esta fez fogo sobre os imprudentes, fugindo, encobertos pelas portas, ao toque de corneta, que determinava uma descarga.
N'outro ponto iam exercer a acção, sempre intemeratos e arrojados, indifíerentes a quanto se conhecia sobre victimas já havidas.
Por essa hora, já os boatos, assignalavam a existência de 80 mortos e mais de 200 feridos, assestando como immolados principaes, soldados da guarda.
Visando a incitamento dava-se como estabelecida no acam- pamento da Avenida, communicaçao pela telegraphia sem 6os, com os navios de guerra, os quais não tardariam a bombardear a cidade.
Novos terrores semeou portanto o cruzador tS. Raphael» surgindo em frente do Terreiro do Paço.
Desde logo se pensou que iria executar o plano envolvente conbinado na Rotunda.
Todavia, o navio, apenas fazia os tiros para desalojamento da municipal postada nas arcadas junto dos correios e minis- tério das obras publicas e enviava duas granadas ao Rocio, ras- gando ellas caminho pela Rua do Ouro,
De cima, da Praça de D. Pedro, veio a inútil resposta.
Se escapava, milagrosamente, uma força de policia armada de carabina, que sob o commando do capitão Craveiro Lopes, regressava do quartel de engenheria onde tora buscar armas e munições, o mesmo não suecedeu ao electricista Arthur da Costa Machado, de 40 annos, morador no Becco das Farinhas, 3, loja, e ao compositor typographico, Hypolito Ferreira Fialho, de 42 annos de edade.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 95
O primeiro, que seguia pelo passeio opposto áquelles por onde iam os agentes, ficou logo morto, com os intestinos de íóra.
O segundo, levado ao hospital da Misericórdia, ali vinha a fallecer, sendo sepultado no dia 9.
Ferido era ainda José de Assumpção, de i5 annos, natural de Lisboa, morador no Becco dos Corvos, ig, i.°, escapando outro menor que com elle ia.
Ao explodir da granada, corresponderam ainda vários tiros indo um esphacellar os miolos de António da Silva Bacellar, de 3o annos de edade, descarregador de carvão, solteiro, natu- ral de Arcos de Val-de-Vez.
Gahiu, para não mais se erguer, junto á Papelaria Palhares^ espalhando-se a massa encephalica pelo passeio.
Os tiros feitos de berdo, julgados toram prenuncio de de- sembarque.
O pensamento tomou foros de realidade e tanto que, no dia seguinte, ainda a Lucta dizia:
aConsta que o «S. Raphael» fez um desembarque de forças, no Terreiro do Paço, batendo as forças municipaes que lhe ten- taram fazer frente.»
Sem que de perto se visse a marinhagem rebelde, e sem que se averiguasse, se de facto, as granadas eram ultimaíum i terra, ou abrir de caminho para avanço do Cães das Columnas sobre a Praça de D. Pedro, a soldadesca n'esta acampada, fez logo crepitar as balas sobre esses imaginários desembarcados, emquanto o navio seguia serena rota, para resguardo com o edifício da Alfandega.
Não o sabendo, imaginado foi um lance terrível.
A resistência julgouse impossivel, mercê mais da propa- ganda do que das circumstancias.
Os soldados da revolução, animados por uma outra fé, por uma outra crença, mais forte, mais exaltante, tomaram maior íuria no seu assalto.
Intentou-se até uma tomadia de metralhadoras de caçado res 5, chegando mesmo a dar-se o acto como consummado.
Não chegou todavia d eflectuar-se esse desejo, embora dis-
96 ARMANDO RIBEIRO
posto estivesse á arrojada tentativa ura grupo de revolucionários civis.
De espera em espera, de terror em terror, de incidente em incidente, a noite se foi apprcximando.
Os jornaes ao serviço da revolta, iam levar a todas as par- tes o incentivo, coadjuvando as proclamações sahidas da Lucla.
Fazendo ver um êxito completo, lançavam, sem rebuços, o seu pregão de animo, de envolta com a descripçao enthusias- tica de desastres realistas.
A Capital dizia pois:
«A's cinco horas da tarde, a situação dos revolucionários é gloriosa. As forças do governo teem sido batidas em toda a linha. A bateria de Queluz tentou alvejar, installando-se na Pe- nitenciaria, as forças revolucionarias acampadas na Rotunda. Foi repeliida com perdas. A cavallaria da municipal também tentou duas investidas sobre a artilharia e infantaria 16. Em ambas foi derrotada, A família real já não está no Paço das Necessidades, e parece que se reíugiou a bordo do cruzador brazileiro *S. Paulo.*
Enérgico e intemerato, o mesmo jornal estabelecia um au- dacioso serviço de informe em favor dos revoltados, publicando não só a posição das forças fieis, e a acção das republicanas, como registando, para seu alento, as intenções da armada, como prompta a atacar as tropas realistas e que havia «communica- ção perfeitamente estabelecida entre as forças revolucionarias de terra e mar».
Como estimulo inseria ainda em 4 de Outubro, o seguinte :
«Lisboa amanheceu hoje ao som do troar da artilharia. Pro- clamada por importantes forças do exercito, por toda a 8rrnada, e auxiliada pelo concurso popular, a Republica tem hoje o seu primeiro dia de historia, e a marcha dos acontecimentos, até á hora em que escrevemos, permitte alimentar toda a esperança dum definitivo triumpho. A batalha está travada, a sorte das armas lançada. Cumpre encarar a situação com serenidade e firmeza. Mas embora os factos falem mais alto do que todos os commeníarios, importa consignar a attitude das forças revolu- cionarias, e do povo que as secunda. As tropas batem-se com or-
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 9?
dem e disciplina, como é próprio dos soldados portuguezes, e na cidade, apesar de inteiramente abandonada pela policia, não se regista o menor excesso da multidão contra individuos ou propriedades particulares. A lenda do saque, da barcelonaday do banditismo infrene está sendo desmentida eloquentemente pelos íactos, que se encarregam de demonstrar a sua absoluta inanidade, tanto tempo explorada como arma de combate poli- tico por parte dos defensores da monarchia. Como os órgãos do governo, ainda ante-hontem afifirmavan», a contenda que se está travando no nosso paiz decorre entre portuguezes, o que o mesmo é dizer livre de manchas que infamem.
ccPor isso mesmo Lisboa, fora dos pontos onde a lucta se jempcnha, apresenta um aspecto de tranquilidade e confiança que não deixaria de surprehender o espectador d'estes duellos trágicos dos povos. Pelas ruas principaes, como nos bairros mais afJastados, os transeuntes circulam sem pressa, sem sobresalto, sem ter- ror. Andam pelas ruas mulheres e creanças, giram carruagens, desenrola se a faina da labuta diária d'uma grande população, como nas condições normaes da sua existência. Lisboa, numa palavra, tem o aspecto dos seus dias habituacs, a que não falta um sol claro e doce de outomno, que a illumina de belleza e encanto. Não ha lição maior do que esta attitude da população da capital. Ella demonstra que não só não receia os episódios da revolução, como traduz em serenidade e confiança o seu sen- timento tantas vezes demonstrado de amor á causa da democra- cia e da liberdade. Está travada a lucta que tudo indica não po- der ser de longa duração. Que todo o paiz a encare, como a encara o povo de Lisboa, — com té e com firmeza.»
Da imprensa monarchica não sahiram o 'Dia, da direcção de José Augusto Moreira de Almeida, as Novidades, do par- tido teixeirista, dirigidas pelo deputado João Carlos de Mello Barreto; e o Notícias de Lisboa, do partido Campos Henri- ques, sob a direcção do irmão d'esse estadista, dr. Alberto Na- varro.
As officinas de impressão, estavam situadas a meio da Cal- çada do Sacramento, no limite da qual, estava o largo do Carmo, sede do quartel da guarda municipal.
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Esta, em formatura e prevenção, não consentiu que as formas dessem entrada na casa onde se encontravam as machinas.
Publicando se, o Correio da Noite, progressista, da direc- ção do deputado dr. Carlos Ferreira, dava, mas sob frouxo as- pecto, o movimento fracassado.
O Liberal, órgão progressista, da direcção do dr. Alexandre de Albuquerque e propriedade do antigo ministro da marinha, conselheiro António Cabral, insinuando attitudes á soldadesca, dizia:
aBastantes soldados revoltosos, arrependidos do passo que deram, teem-se ido apresentar aos respectivos corpos.»
Era justificável a noticia, embora falsa. Pretendia o orgao progressista, apontar um caminho de regresso á defeza monar- chica.
A* local respondeu, altiva, e ao lance ganho, a Lucla, es- quecida de que, n^quella manhã, interrogara cauta e arteira- mente : o que ha?
A 5, apontando o Liberal, diria, em duas linhas já enérgi- cas:
«Ora nós queremos ver quando chega a ocasião de O Libe- ral se arrepender do passo. . . que não deu».
O Imparcial, que reproduzia a orientação do ministro dos negocies estrangeiros, conselheiro José de Azevedo Castello Branco, exprimiuse de forma a merecer do jornal republicano O Mundo, a seguinte apreciação feita á hora da victoria demo- crática (5 de Outubro,):
«O Imparcial, órgão do ministro dos estrangeiros, publi- cou sobre os acontecimentos uma noticia que não se inspira em tacciosismo partidário.»
Era a evidente derrocada, mas recebida sob a Iria attitude com que se esperam os lógicos acontecimentos, quer se inspirem n'uma desgraça quer n'uma alegria.
A' França ia em 4, o summario dos suecessos, ali esperados aliás, e o Matin, com informações seguras, dizia o que em Por- tugal ainda a essa hora se ignorava sobre a attitude do exercito e da marinha:
«Chega-nos de Portugal uma noticia muito grave: declarou-
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«se a revolução em Lisboa e a marinha e o exercito colocaram- *se ao lado dos republicanos Eis o interessantíssimo telegram- ma que recebemos do nosso correspondente, pela radio-tele- graphia :
(íLisboa, 4 — Declarou se a Revolução. A cidade está in- transitável. A's duas da tarde começou o bombardeamento do palácio real pelos navios de guerra. Toda a marinha e uma grande parte do exercito estão ao lado dos republicanos. E' im- possível dar pormenores.
«A revolução em Portugal não surprehenderá os leitores do Matin Ha muito tempo que as nossas informações deviam prever a imminencia d'esse movimento. O assassínio do rei e do príncipe herdeiro, no dia i de Fevereiro de 1908, toi o princi- pio do fim do regimen. Desde essa data os partidos monarchicos não puderam resistir á onda crescente do republicanismo portu- guez. Os partidos monarchicos, sem quererem attender ao perigo que ameaçava o throno, combatiam entre si; os ministérios or- ganisavam se para cahir quasi immediatamente; era o verda- deiro gachis politico em Lisboa. Os enviados especiaes do Ma- tin em Portugal, faziam rtsaltar a gravidade da situação. As in- formações do Matin foram desmentidas pelos meios diplomáticos e officiosos Mas nada explicou melhor a exactidão das nossas in- formações de que as declarações do deputado republicano sr. dr. Afíonso Costa, publicadas no dia 2 de Setembro ultimo.
a Accrescentemos, que ha alguns dias estávamos prevenidos de que os republicanos estavam dispostos a proceder. Ante- hontem, um deputado republicano, o sr. dr. Bombarda, foi as- sassinado em Lisboa por um tenente; foi sem duvida esse acon- tecimento que decidiu o partido republicano a precipitar os acontecimentos».
Por seu turno, o dr. Sebastião de Magalhães Lima, grao- mestre da Maçonaria Portugueza, ao tempo da revolta, em Paris, expandia no Matin, as suas opiniões:
«O acontecimento fatal produziu-se. A revolução está em Lis- boa. Não nos surpreende, a nós, membros do Partido Republi- cano em Portugal. Já o tínhamos previsto e annunciado ha muito tempo. Sempre esperámos que a mudança do regime se efectuasse
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com a maior calma, com ordem, por simples efeito da vontade popular livremente expressa. Mas o feitio desatinado dos homens do poder e a cegueira do trono não o permittiam. Depois da morte de D. Carlos podia-se esperar que os partidos monarchicos compreendessem a lição dos acontecimentos. Não compreende- ram. A acumulação de erros, de faltas e de abusos que provo- cava o gesto desesperado do povo contra a dictadura de Franco agravou-se ainda mais. Toda a obra dictatorial desejada pela realeza ficou de pé. As leis de excepção contra a imprensa foram aplicadas. Os jornalistas viram-se na necessidade de emigrar para fugir ás condemnações dos tribunaes. Inventaram-se associações secretas. A sua descoberta permittiu perseguir os republicanos. Empregaram-se todos os meios de opressão para abafar a voz do povo. Cidadãos pacíficos foram presos como suspeitos de simples denuncias. Diariamente se fazem buscas domiciliarias. Tcdos esses atentados á liberdade e a* dignidade de uma população la- boriosa foram cometidos pelo arbitrio de um juiz de instrucção criminal que tinha os poderes de um inquisidor. E esses factos monstruosos, essa renovação das peores épocas da tirania produ* ziramse na hora em que o advento do novo rei fazia esperar aos homens mais crédulos que ia produzirse uma pacificação. Nós, republicanos, nunca nos deixámos prender por essa fanta- sia. Continuámos no paiz a nossa propaganda, convencidos de que a salvação de Portugal só podia estar na Republica. A pro- paganda dos republicanos, os escândalos dos sucessivos governos comprometidos nos negócios equívocos, as decepções acun uladas de todo um povo forçaram o rei, ha alguns meses, a chamar ao poder os homens que se intitulavam liberais. O arbitrio do pas- sado continuou com a etiqueta hipócrita de um liberalismo men- tiroso. A pretexto de um imaginário complot, o juiz de instruc- ção continuou a sua obra de reacção. A revolta da opinião toi tal que as mais importantes associações comerciais tomaram a iniciativa de um formidável movimento de protesto indo, se tal tosse praciso, até á greve geral. Os partidos monarchicos, for- mando o bloco conservador, tinham procurado impedir a en- trada no parlamento aos republicanos, cujo numero dobrara em três annos. Não compreendiam que er? a vontade do povo que se
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manifestava, apesar da formidável pressão das autoridades e da iniquidade de uma lei eleitoral contra os republicanos. O presi- dente do conselho, Teixeira de Sousa, que já conspirara contra a dictadura com os verdadeiros liberais, fez nomear par do reino um dos colaboradores mais notados do dictador. Era á formal convicção de que o governo de liberal só tinha o nome, e que se vendera aos reaccionários. Acima desse gâchis politico, a fraca vontade do rei, prisioneiro dos clericaes, era impotente. Desde então a situação era inexplicável. Por governar contra o paiz, faltou ao governo o apoio do exercito e da marinha. Esse exer- cito e essa marinha aderiram á Republica como a única forma capaz de salvar o paiz.
Só faltava um incidente para suscitar a revolução. O assas- sinato do deputado Bombarda foi esse incidente. O povo quiz ver na morte do chefe da Liga Liberal uma vingança clerical. Não faltava mais nada para desencadear a indignação popular. A marinha que esteve sempre na vanguarda do liberalismo, tomou a frente do movimento e o exercito seguiu-a. Que acon- tecimentos se desenrolam actualmente em Lisboa? Não se sabe, exactamente. Deve se, prever, pore'm, que a Republica, cuja es- perança está em todos os corações, sairá triunfante. Esperemos somente que o advento da Republica possa fazerse sem que as vidas humanas se sacrifiquem em vão, porque a força brutal, jamais poderá prevalecer contra a esperança e a victoria de um povo decidido a defender a sua independência e a sua liber- dade.»
N'essa hora, a realeza de Portugal, representada por D. Manuel II e pela rainha D. Amélia, via decorrer na villa de Mafra, a tormentosa e derradeira noite de estada em lusas terras.
A politica cavaralhe aos pés o abysmo. Foram elles as victi- mas principaes, atiradas para o sorvedouro.
Mas o destino ao traçar-lhes esses passos, fixou para vida em mortal peccado quantos lhe serviram de auxiliares para o cum- primento do desígnio e, veremos depois, emquanto uns, em igno- rado recanto curtiam pesares de velhas eras, outros, arrastavam no exilio, o remorso de haverem rasgado caminho á causa da
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democracia para que ella afíogar pudesse a causa da mo- narchia.
Mas a altos dictames curvada tem sempre de estar a mísera humanidade.
Quando elia, em terras portuguezas, pensou e murmurou o torniámo á lantico, de Verdi, o dedo da Providencia marcou a pausa, para que não tivesse tão rápido sancionado o arrepen- dimento do d'outr'ora phrenetico desejo. . .
A NOITE DE 4 DE OUTUBRO
A MADRUGADA DE 5
\L^>_
X
1111
&
I
As formaturas.— O duplo equivoco. — A propaganda junto dos regimentos. — Campo de desorganisação.— Ten- tativa de assassínio do alferes Empis. — Ideias de juncção ás forças da Rotunda. — O proseguir dos boa- tos.—Os incêndios da Avenida.— Perseguição á poli- cia.—O assalto á esquadra de Arroyos. — A guarda municipal. — Reapparecem alguns dos dirigentes da sedição.
S^ noite de 4 de Outubro, como um veu negro, pesado e trágico, desceu sobre a cidade de Lis- boa.
Voltando ás suas ruas, vemos accentuar-se pois o espectáculo de terra.
As luzes não se accendendo, coroavam com as trevas o lúgubre d'essa noite de mysterio. A revolta fizera recuar os accendedores, mas, n'uma descon- fiança, para lhes quebrar vontades, destruídos foram os candiei- ros.
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106 ARMANDO RIBEIRO
Aos globos dos postes eléctricos, as pedras os estilhaçaram.
A escuridão, se encobriam os soldados perscrutando as traves- sas em tenebroso aspecto, disfarçavam os revolucionários, que como serpentes colleantes, procuravam envolver na sua teia de attrac- çao ou de destruição essa cohorte de indifferentes, observando uma attitude de espectativa singular.
Mal definidos no seu pensar, não se atreviam a abrir, fran- camente, os braços á revolta e, embora, contra-vontade, detinham á bocca da espingarda os propagandistas do ideal anti realista.
Não serviam a causa da realeza, pelo amor á democracia, mas não auxiliavam esta, pelo receio do resurgir matutino do poder aunrlante da monarchia.
Contrariamente, pois, ás previsões dos revoltosos, as tropas continuavam nos seus postos.
O alteres Ernesto Empis, com duas metralhadoras, tomava a praça dos Restauradores.
O capitão Henrique Maria Gancio Penha Coutinho, com a companhia de caçadores 5, a rua do Arco de Bandeira; o capi» tão Carlos Alberto Viçoso May, outra, fechando a Rua do Ouro e Rua Nova do Carmo; o alteres Gomes da Silva, com um pe- lotão de caçadores, cerrava a Rua Augusta: o Capitão José Men- des dos Reis, com a guarda fiscal, lenhava a Rua da Betesga.
A bateria de Queluz, guarnecia com peças as ruas do Ouro e Augusta.
Tomando as embocaduras das ruas, por vezes envolvidas na esteira luminosa dos projectores eléctricos dos navios revoltosos, as sentinellas bradavam:
— Quem vem lá?
Se respondia era forçado a retroceder.
— Não pode passar!. . . Aflaste-se! Se não dava resposta, era fuzilado.
O silencio era apenas quebrado pelas descargas, ou pelas vozes das vedetas.
Um popular atreveuse a cruzar a rua do Ouro, junto ás escadinhas de Santa Justa.
Não retrucou á pergunta das sentinellas. Fuzilaram- no.
Outro popular, Francisco António Reis, residente na Rua
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 107
da Bella Vista, humanitário, correu para elle, amparava-o e in- terrogava o sobre a residência.
Apenas disse:
— Rua.. m
Estava morto e uma descarga victimaria o seu companheiro se não tugisse, ficando o desventurado ao abandono, até que a Cruz Vermelha, intormada, a despeito de riscos, corajosa, ia bus- car o corpo, cerca das 10 horas e meia da noite, removendo-o para a morgue.
Não se ganha uma revolta rlrmandoa no intuito discipli- nador, mas derruindo juradas fés.
Todavia isso representa sempre o cavar de convicções, o in- suflar do erro e essa mole enorme, a indisciplina, de todo se não remove.
A base disciplinar deixa de ser a esphera em redor da qual se formou a obediência e condensou o respeito, para assumir a feição tetraedica, desegual, tendo como escala a percorrer, um máximo de desillusão e urn quantum de revindicta á preconi- sada destravante da submissão.
A propagada semente da indisciplina, quando se reproduz em factos, radicase em efleitos: é arvore que se arranca, á ma- chadada, colhidos os fructos, mas de quem a terra mater espiri- tual, guarda avara e absorvente as raízes reinvindicadoras ou perturbadoras.
Fazn-se pois, entre a soldadesca, a semeadura do erro.
A planta germinava, mas, por anomalia, emquantoo cérebro voava para a derrocada do juramento á bandeira azul como tran- sição para a verderubra, as espingardas despediam as balas para abrigo no peito dos trabalhadores civis das ideias novas.
N'uma nevrose, n'um transe de singular percepção, faziam- se victimas, faziam baquear rebeldes á torça de tiros, quando era evidente desígnio aa soldadesca e dos ofíkiaes fazer causa commum com os grupos civis em revolta.
Havia o mutuo combate entre militares e paisanos, quando ambas as classes visavam a idêntico fim.
Com a connivencia andava o equivoco.
Aproveitando a escuridão, es populares foram lançar algu-
108 ARMANDO RIBEIRO
mas bombas perto de caçadores e infantaria 5, occupando para isso janellas.
Não houve maus effeitos, porque ao acto presidiu não uma ideia de morticínio, mas de desorganisação.
Não o comprehenderam muitos, e, emquanto uns fugiam faziam outros tiroteio forte.
A populaça de novo se esquivou. Julgou terreno contrario, o que era apenas campo de más comprehensÕes.
Assim, emquanto os civis procuravam convencer, pela ap- proximação ou pela ameaça, a militança, que seguia o mesmo ideal, oppunha, n'um retrahimento, a fuzilaria.
Procuravam valer a essa expectativa observada vários dos otficiaes, fazendo propaganda para o terminar da situação.
Um general, Ernesto da Encarnação Ribeiro, vigilava mesmo sob esse indisciplinamento, pondo as suas estrellas em conniven- cia com os galões dos que queriam arremessar os regimentos á quebra do seu juramento de fidelidade.
Relatou o em entrevista, (*) o dr. José Barbosa:
«Durante a noite de 4 para 5, alguns d'elles, como Valdez e Carvalhal Correia Henriques, apesar de expostos no Rocio a um ataque vivíssimo dos populares, conservaram sempre uma atti- tude de obstinada obediência á Republica e impediram por to- dos os meios ao seu alcance que infantaria e caçadores massa- crassem os elementos revolucionários da classe civil. O general Encarnação Ribeiro, n'essa noite de tragedia, tomando contacto com diversos d'esses officiaes que elle conhecera das reuniões de conspiradores, assegurárase plenamente d'essa attitude.»
O general Encarnação Ribeiro iria, ao lance ganho, ao cargo de comandante geral da guarda municipal, depois guarda nacio- nal republicana.
Embora não cooperando em plena luz, no movimento, pro- duzia-se assim uma attitude que indirectamente auxiliava a de- nominada causa da pátria*
Ao soldado, sem base intellectual, se lhe apresentava come dogma, que o abandono da causa real correspondia a defeza da
(#) A Capital de 18 de Outubro de 1910.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 109
pátria em perigo e a instrucção rudimentar, aventando horison- tes novos, de esphinge, para cerebraçoes mal cuidadas, não re- cuava, seguindo abertamente para a eterna indisciplina, que, mais tarde, victoria ganha, resurgiria com o seu certo desfecho criminologico, dando erro grave na vida da caserna. . .
O alferes Gomes da Silva e o tenente José da Ascençao Val- dez, mantiveram, por seu turno, em actividade, a propaganda democrática, bem recebida pelas praças.
Valdez, tinha soliicitado ordens ao major João Pedroso de Lima, para, com uma companhia, seguir em explorações.
O fim era apenas alcançar a Rotunda, mas o superior, por intuição ou por julgar útil não contrariar a ordem do com- inando supremo, recusou.
O tenente, com os sargentos José Flores e Herculano Ma- -theus, teria eflectuado um assalto ás metralhadoras, se d'isso o não dissuadisse o alferes Mendes Bragança, por uma desconfiança sobre os soldados.
De infructifera intenção em nascente esperança, se foi pre- parando a soldadesca para se insubordinar durante a noite, devendo, como inicio, fugir a qualquer signal de ataque.
Assignala essa attitude o tenente José Valdez:
«O alferes Bragança, esse prevenia-os para, no caso de se- rem atacados, fugirem para a Arcada, onde nos reuniríamos para passarmos para os revoltosos. Todos os soldados, ou quasi todos, estiveram commigo n'essa arcada e ahi acon^elhavaos a não fazerem togo, lembrando lhes que era sobre irmãos que ati- ravam, e conheci que a desmoralisação era já grande entre el!es, pois na linha não faziam fogo, fugindo d'elíe ao menor pretexto; bastava um tiro, um estrondo, para que elles se dirigissem para a Arcada. Essa desmoralisação foi notada por Martins de Lima, que reparando n 'essas fugas loucas, os obrigava a ir para a linha, chegando mesmo a fallar-lhes para lhes incutir coragem, imagi- nando ser cobardia o que os minava. Pelas cinco horas da tarde recebia eu uma carta do meu irmão Vasco, em que me preve- nia «de um ataque de manha, junto com as torças da Rotunda, dizendo também que a canalisação do gaz seria cortada». Exul- tei de alegria e, tendo lido a carta ao Bragança, resolvemos,
110 ARMANDO RIBEIRO
desde logo favorecer esse ataque, ficando de pé a nossa resolução de aproveitamento da arcada para reunirmcs 03 homens. Como o Bragança, tivesse ido ao quartel general, quando regressou declarou me que tendo palpado os otficiaes do regimento, os achava abalados, notando que só dois ou três se mantinham fieis á monarchia.» (*)
O tenente, tazendo parte de infantaria 5, avançou mais ainda na propaganda, dirigindo-se á oficialidade.
Depressa trouxe ás ideias de inactividade em combate, os tenentes Américo Alfredo Gomes da Cruz, que chegou a dar o próprio commandante do regimento, como abalado; Manuel Luiz de Brito Vasques e Viriato Fonseca Rodrigues, os alferes Xerez e João Carlos Telles de Azevedo Franco e os aspirantes Espirito Santo e Oliveira.
Resolvido foi, ante a afirmativa do tenente Américo Cruz, impor ao commandante de infantaria a decisão suprema de con- trariedade á fé monarchica.
Foi pois em plena rua, que se celebraram conselhos de gra- duados, não para a manutenção da disciplina e do posto, mas para que, n'um exforço unido se intluisse no animo do com- mandante, apontandolhe como necessidade, o adherir á causa da rebeldia.
Esses conciliábulos e o facto patente de se esquivar á ordem de fogo, kz convergir sobre o batalhão as attençÕes de officiaes não envolvidos no trama.
De um aviso ao quartel general nasceram incidentes gra- ves, onde não 50 se dava por um aífrouxar das praxes milita- res uma tacita adhesão aos rebeldes, como pela calada da noite se forjaram assassínios.
Esteve assim para se dar um crime.
Houve conhecimento pelos republicanos, de que desconfian- ças haviam surgido sobre as suas intenções.
Receavase que a torça de caçadores 5, do commando do alferes Ernesto Augusto Empis, fusilasse, á passagem, qualquer troço disposto a seguir para a Rotunda.
(#) O Século de 23 de Novembro de 1910.
A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 111
O alteres Joaquim Mendes Bragança, chegou a indicar ao tenente José de Ascensão Valdez, o official de caçadores 5, Em- pis, como vigilante dos seus passos.
O tacto, succedido logo de manha, deu aso a que visto fosse Empis como entrave a manejos.
Não haviam estes passado despercebidos e assim do quartel general, baixou ordem para que o alteres Bragança, em vez de se distanciar do seu posto, se collocassse & meio de fila, de pé, irente ao togo.
Novamente as attenções se fixaram sobre Empis, logo incul- pado de ter suggerido a determinação, pela sua té no adverso ideal e inaceitabilidade de convencionalismos, attitude confirmada por se oppôr terminantemente o official ao dispersar dos seus soldados, não desdenhando mesmo accionar com as metralha- doras, á tuga dos manobrantes.
N'uma d'essas occasiões, em risco esteve de cahir ás balas de um cabo, successo que o capitão Martins de Lima intentou desvanecer, sob aspecto de pensamento pessoal: (*)
«Contaram-nos, interrompemos nós, que o alferes Empis, abandonado pela guarnição, cavalgara uma peça continuando o fogo e que alguém impediu, que um subalterno que levava a arma á cara, desfechasse sobre o alferes Empis, acrescentando esse outro official ; não o matem que está cumprindo o seu dever !»
— «Não acredito, respondeu o capitão Martins de Lima, que os soldados quizessem matar o alferes Empis, quando não me mataram a mim que os aguentei á cutilada.»
Todavia assim toi.
Baldadamente se diz que na guerra todos os processos são lícitos. Nem todos; e o crime, na própria lucta de armas eguaes, e pela traição, são manchas que se fixam.
Esteve elle para se dar e para reiterar a affirmativa annotemos o depoimento do cabo de infantaria 5, Zepherino José Franco : (**)
«Gomo os da Rotunda nos atirassem granadas, suppondo-
(#) Diário dos Vencidos, por Joaquim Leitão — pagina 120. (*#) O Século de 10 de Outubro de 1910
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nos traidores, o cabo 55, Francisco Benevides, dirigiu se ao quartel general, onde conseguiu reunir duzentas e vinte praças, dispostas a marchar para ali. Mas isso era perfeitamente impôs- sivel. Além das metralhadoras de caçadores 5, havia, na estação do Rocio, uma companhia da guarda fiscal e um esquadrão da guarda municipal, que não as deixavsm avançar. Então o cabo Benevides quiz collocar se por detraz do alteres Empis, de caça- dores 5, que commandava as metralhadoras, para o matar, sendo dissuadido d'este propósito pelo tenente Valdez e alferes Bra- gança. Foi este alferes que nos denunciou a um official supe- rior, que, depois de insultar o nosso alferes Bragança collocouo, de pé, á frente da linha de togo, a fim de o expor ás balas das forças revolucionarias do alto da Avenida.»
O cabo 55, da i.a companhia do 3 o batalhão de infantaria 5, Francisco do Carmo Benevides, appareceu citado no relató- rio de Machado Santos, como um dos primeiros elementos ar- ranjados no regimento e eflectuando tal propaganda que os solda- dos passaram a fazer regularmente a continência ao dr. Antó- nio José de Almeida quando o viam passar em frente do quar- tel.»
Assim, evitado foi esse mau passo pelo tenente Valdez e alfe- res Bragança, que, sem desmentir a ameaça do cabo Benevi- des, veio á imprensa alterar pontos do seu depoimento :
tA propósito do que aqui contámos sobre o procedimento de infantaria 5, por occasiao da revolta, fomos procurados pelo alferes sr. Joaquim Mendes Bragança, do mesmo regimento, para nos dizer que não foi insultado pelo major sr. Lino, o único official superior do corpo que se achava presente na occasiao em que os soldados que elle commandava se estendiam ao longo do Avenida Palace. O referido aliei es, que não pertencia a ne- nhum grupo politico, pois tinha chegado de Beja ha pouco, era republicano de alma e coração, mas só ali se manifestou, ao entenderse com o tenente sr. Valdez, que commandava o flanco opposto da linha de fogo onde elle se encontrava. O caso a que alludimos passou-se com um official do quartel general, que or- denou ao sr. Bragança que se collocasse a meio da fila, obede- cendo immediatamente o alferes e pondo-se de pé atraz dos sol-
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dados, sem que, comtudo, possa alfirmar que tivesse sido o sr. Empis, commandante das metralhadoras, quem o denunciou como tendo tenções, com o tenente Valdez, de se passar para o lado dos revoltosos.»
Empis, á victoria republicana, passava á reserva e requeria licença para se ausentar de Portuga), o que fez, seguindo para Marselha e, regressando annos depois, (*) por desistência da resto da concedida permissão.
Entretanto produziam seus efieitos, pela repetição, as infor- mações sobre a attitude de parte do 5 de infantaria.
O tenente Valdez, procurara por vezes cumprir as instru- cçÕes da manha determinadas pelo capitão Sá Cardoso.
Fez tentativas varias para occupar e impellir a sua compa- nhia até á Rotunda, aproveitando a escuridão da noite e a ordem, qut, transferindo-o do Rocio, o mandou acampar nas trazeirás da estação do Rocio.
Procurada a marcha pelo tunnel, viu-se perigosa a ideia, pela chegada próxima d'um comboio, e ao risco de esmaga- mento, alliava se o do ataque, á bomba, pelos revolucionários que o compunham e desconhecedores das intenções do troço de infantaria 5.
Já então havia deserções, que o tenente encobria.
Sabido tudo, porém, no quartel general, uma ordem, inti- mava-lhe o abandono da posição, substituída pela Travessa de S. Domingos.
Eram cerca de 1 1 horas da noite.
Mas, não só infantaria em taes disposições se encontrava, achando-se em idêntico insubordinado aspecto, caçadores 5.
Aqui, todavia, se o commandante firme se manteve, orde- nando até enérgicas represálias á fentativa popular para attra- hir a soldadesca, esta era reprimida na obediência ás ordens do commandante pelos capitães Aguiar e Penha Coutinho.
A este ultimo, á victoria conseguida, ser-lhe-hia conferido
(#) 30 de Junho de 1914.
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pela republica, o posto de confiança de oíficia! da policia civica de Lisboa.
Debalde porém a monarchia se tentaria livrar da teia onde cahira.
Era de múltiplos fios e de solida contextura.
Mas, por singular coincidência, a ambos os campos ia o re- gisto de uma mentirosa situação.
No quartel general avolumava se o mysterio do que exterior- mente se passava.
Apenas a illusão e o falso boato iam dar animações.
Manteve-se o sonho sobre a chegada próxima de reforços da provincia.
Gollocadas foram as vistas sobre artilharia 3.
Affirmouse-lhe a permanência no Beato, erro que até tard* se manteve e só abalado ante a inútil espera.
Julgado receio de abalada até ao Rocio sem força que lhe garantisse a marcha, determinado foi ao 3° esquadrão da guar- da municipal que, seguindo para a Portella, ali a aguardasse acompanhando-a depois na jornada sobre a Praça de D. Pedro.
Inutilmente se aguardava esse presumido importante auxilio.
Horas depois se desvaneceram esses sonhos, embora sem ve- rídicos informes.
Artilharia 3, com 6 peças, e o comando do capitão Sar- mento, disse-se impossibilitada de seguir, pelo corte da ponte em Sacavém, tendo ficado ali com 18o praças de caçadores, sob o commando do capitão Viegas.
Os regimentos, todavia distante estavam como veremos ao renovar das vistas sobre esses nucieos, por egual eivados da propaganda democrática.
Entre os optimismos vieram pessimismos.
Fallou-se na marcha sobre Lisboa de uma forte columna civil formada em Algés.
Como objectivo principal tinha a invasão do palácio d onde se presumiam sahidas ordens anti-revolucionarias.
Entresonhado o caso lance supremo, trouxe apprehen- sões.
Todavia e as horas de paz o foram dizendo, nada houve, a
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nlo ser a intenção, impossibilitada pela escassez de dirigentes e de executores.
Se as novas, falsas, iam aos occasionaes detentores das ré- deas governativas, idênticas seguiam até aos meios da rebeldia, e por ella própria levadas,
Como alarme, injustificado, por se não ter de tal cuidado, conduzido foi até aos grupos combatentes o echo de uma pre- tensa marcha, para o castello de S. Jorge e para as culminancias da Graça, de artilharia e munições destinadas a acção sobre a Rotunda,
Foram apresentadas as baterias de Queluz como em secretos preparativos para mais firme envolvente das forças republicanas, e assim como ao quartel general ia o boato de se encontrar arti- lharia 3 em Sacavém, aos núcleos populares foi o informe de se encontrar já em Lisboa.
Desânimos surgiram, mas ao retrocesso de muitos, corres- pondeu, de continuo, a temeridade e a audácia de outros, accir- rada ainda por propagadas noticias de boa fortuna.
Aos grupos chegava a proclamação da junta revolucionaria, citando, falsamente, os convencimentos de que D. Manuel estava occulto na legação de Inglaterra, e que, de si, o facto significava, com uma abdicação, a vacatura do throno portuguez.
Esta noticia, dada como chegada á Junta, ás g horas d'essa noite, era errada, estando ainda D. Manuel II em Mafra, mas os núcleos revoltados veriam n'ella veridicos dados assignaladores d'um começo de victoria.
O povo, procedendo sempre, não deixou de atear a chamma revolucionaria, e se uns distantes, por suspeitas de encerrar, em conciliábulo secreto, contrários á sua causa, assaltavam a phar- macia Pina, do Poço do Bispo e destruíam quanto lá existia; outros, manobrando nos pontos centraes, não deixavam de asse- diar os regimentos, querendo desvial-os de indecisões, favore- cendo a ideia desorganisadora dos officiaes, que faziam aliás, recuar a populaça á bocca das espingardas, quando seu desejo era d'ella ter o eficaz auxilio.
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Esses manejos, eflectuados atravez da escuridão apavorante, foram de súbito tragicamente illuminados, como se o seu ma- chiavelismo merecesse a apotheose vermelha das labaredas de um incêndio ou o destino, intencional, rasgasse as trevas com o rubro das chammas, para que protegidos não fossem os singu- lares conluios e a unitária obra de desordenamento.
Eram 1 1 horas da noite. (*)
A Rotunda, disparou uma peça.
A granada, fugindo do alvo, vae cair sobre o prédio que no lado oriental da Avenida, quasi em frente do coreto, lormava o angulo sul da Rua Alexandre Herculano.
Os estilhaços ardentes, communicaram fogo ao telhado.
O guarda-portão do prédio 200, Francisco Maria de Oli- veira, de 43 annos, casado, natural de Vizeu, correu a avisar os moradores.
Uma bala que entrandolhe pelo peito se lhe alojava no es- tômago o detinha na missão.
Os revolucionários lhe valeram. Deixando as esquinas d'onde vigiavam os passos dos municipaes, lestos o collocavam sobre uma taboa conduzindoo ao hospital de S. José.
Levaram ali apenas um cadáver.
O incêndio a esse tempo, lavrava intenso.
Os bombeiros municipaes intentaram prestar soccorros, fa- zendo caminho por Santa Martha.
Afusilaria os impediu, porém, não sem que alguns ficassem feridos, e mais gravemente o 212, Joaquim de Jesus, attingido com um tiro n'um pé.
Os chefes dos bombeiros, Carvalho e Silveira, ante o extra nho impedimento á sua acção humanitária, decidiam a retirada
(*■) O livro H^a Monarchia á Republica, a paginas 64, regista o facto como succedido á 1 hora da madrugada, baseado talvez no Diário de Noti- cias de 5* de Outubro de 1910. Machado Santos, mais perto do local do in- cêndio, assignala-o todavia, a paginas 87 do seu Relatório, como succedido às 11 horas da noite.
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Entretanto, incendiava-se também parte do prédio 222, e sofíria ainda o 214.
Para valer a tudo e tentando um estorço heróico, os volun- tários da Ajuda, romperam a marcha, arrastando as viaturas, emquanto as balas crepitavam, attingindo ainda o conductor do carro Magyrus. A meio da Avenida> os soldados, de espingarda engatilhada, obrigam-nos a retroceder.
São avisados de que os moradores do prédio mais em perigo, sem auxilio que ninguém se atreveria a prestar, haviam fugido pelas trazeiras do prédio que deitava para a rua de Santa Mar- tha.
Recuaram os voluntários. Não valia a pena o sacrifício de vidas, se vidas não havia a salvar.
Deixaram arder.
Assim foi.
O brazeiro avolumavase, accentuando mais a nota terrorista d'essa segunda madrugada de revolução.
A dificuldade de attingir o local do incêndio, deu causa a divergências varias e até a boatos collossaes.
Deuse assim (*) como incendiado o prédio 12b, à esquina da Rua Alexandre Herculano, e que se noticiou destruído por completo, não tendo havido victimas, em virtude, de, á primeira granada, os inquilinos o haverem abandonado.
Chegou até a dar-se como incendiado totalmente o quartei- rão começado na rua Alexandre Herculano.
Reproduzia o assim a Lucta em 5 :
«Na rua Alexandre Herculano ardem alguns prédios, e o incêndio ameaça estender se a todo o quarteirão; ignoramos o que lhe deu origem. Um guarda-portão da Avenida, que se pro- poz avisar os moradores d'aquella rua para que se acauteliassem contra as chammas, recebeu um tiro em pleno peito, sendo le- vado para o hospital em estado grave.»
Comtudo, apenas destruido foi por completo o prédio da es- quina, olhando da Rotunda.
(#) O Século de 6 de Outubro de 1910. O Mundo menciona só o prédio 322.
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Os incêndios origem deram a questões judiciaes sobre o se guro, eflectuado nas Companhias Bonança, Fidelidade e Previ- dência.
Requereram estas ao governo provisório (16 de Fevereiro de igi i) uma indemnisaçao para os prejudicados pelo incêndio